A deciso de Juliet.
Candace Camp.
Captulo 1.
      O rudo procedente do exterior ia aumentando. Lily separou um pouco  a
pesada cortina e olhou pela fresta.
      - Comeam a incomodar-se. Desocupados de  palets!  Alm  disso,  quem
quer tocar em Steadman, Nebraska? Por que nos trouxe aqui James?
      - Refere-se  pera de Steadman? - respondeu Juliet,  ironicamente.  -
No sabia que era a Meca cultural do Ocidente?
      Lily fez uma careta.
      -Sim, e eu sou Sarah  Bernhardt.  -  Voltou  a  observar  ao  pblico,
deixando a seguir cair a cortina e olhando a  seu  redor  com  irritao.  -
Maldita seja! E onde est James?
       - Certamente celebrando outra farra - comentou com secura  a  senhora
Fairfax. Era uma veterana do teatro e  tinha  sobrevivido  a  tantas  crises
como aquela que j no lhe preocupava o desaparecimento do gal.  -  Estarei
naquele armrio que essas pessoas chamam camarim, se por acaso James  decide
aparecer.
      Deu meia volta e com seu dramatismo de sempre se afastou.
       Lily se dirigiu ao Juliet, uma expresso  de  pnico  em  seus  olhos
azuis.
      - E se tiver razo! - gemeu. - O que faremos ento? - Dirigiu um olhar
nervoso para a cortina do teatro, depois da qual murmrios e inquietao  se
convertiam rapidamente em fortes queixas.
      - Adiante com o espetculo! - gritou algum do pblico, e se ouviu  um
coro de assobios e palmas.
      - Deus Santo! - Juliet pareceu aturdida. - Por que me  pergunta  isso?
Eu nada sei.
      - Mas voc tem anos no teatro! Estou certa que sabe o  que  temos  que
fazer!
      Juliet passou o olhar  do  rosto  cheio  de  dvidas  de  Lily  ao  de
Hamilton,  o  homem  que  tocava  o  piano  acompanhando  suas   canes   e
interpretava  pequenos  papis   nas   obras   que   a   Westfield   Company
representava. Juliet suspirou.
      - Por que foi embora a senhora Fairfax? Ela sabe mais  que  eu.  Nunca
participei de uma produo em que Hamlet no aparece no ltimo ato.
      Aproximou-se da cortina do teatro e  olhou  para  o  exterior.  Vrios
homens se levantaram dos assentos, e olhavam  ao  seu  redor  com  expresso
beligerante; quase todo o pblico falava, e as vozes foram subindo de tom  
medida que os segundos transcorriam. Pareciam estar muito descontentes.
      Juliet desejou estar a mil quilmetros dali. No, a  dois  mil.  Oxal
estivesse de volta a Nova Iorque, ou possivelmente  na  Filadlfia  com  sua
irm Clia. Nunca mais, jurou a si mesma. Nunca mais aceitaria  um  trabalho
com um  teatro  ambulante  de  gira  pelos  estados  do  oeste.  Era  buscar
problemas; viajando sem cessar percorrendo infinitos quilmetros  de  terras
ridas, atuando diante de pblicos rurais, a quem tanto fazia se  recitassem
canes de bero como de Shakespeare, suportando calor, vento e p. E  agora
isto: um Hamlet que  sem  dvida  se  embebedou  e  que  tinha  desaparecido
durante o ltimo intervalo; e  um  pblico  que  no  parecia  ter  inteno
alguma de aceitar com educao uma obra sem final.
       Nesses  momentos  desejava  ardentemente  no  ter  aceitado   aquele
trabalho. No o teria feito, sabendo o pouco  que  gostava  de  viajar  pelo
Oeste, se no estivesse necessitada do dinheiro  e  James  Westfield  era  o
nico agente que estava disposto a lhe dar um papel sem a obrigao  de  ter
tambm que compartilhar sua cama. Desde a  morte  de  seu  pai,  fazia  dois
anos, tinha dificuldades em encontrar trabalho sem entregar seu corpo, e  se
deu conta do muito que seus pais a tinham protegido  durante  aqueles  anos.
Mas com eles mortos e sua irm casada com um diretor teatral na  Filadlfia,
precisava ganhar a vida, aceitando muitos  trabalhos  que  com  antecedncia
no teria considerado  altura de seu talento  como  cantora.  Este  parecia
ser o pior.
      - Onde est a briga? - rugiu algum. Sim, pensei que tinham apunhalado
a algum.
      - Cus! - Juliet mordeu nervosa o lbio inferior. Parecia que na  sala
estava a ponto de se amotinar.
      Deixou cair a  cortina  do  palco  e  se  voltou  para  olhar  a  seus
companheiros. Todos a observavam na espera,  inclusive  Joseph,  mais  velho
que ela e intrprete de papis muito mais importantes que os seus.  Por  que
pensavam todos que ela resolveria o assunto? Entretanto,  sabia  a  resposta
quela pergunta: porque procedia de uma famlia  de  atores;  seu  pai,  sua
me, sua irm e ela mesma se criaram entre  bastidores.  No  importava  que
ela no tivesse grandes habilidades e ainda  menos  autoridade,  e  que  sua
nica  contribuio  fossem  as  canes  que  interpretava  nos  intervalos
enquanto se mudava a decorao do cenrio. De fato,   para  os  outros,  ela
conhecia o teatro a fundo. Juliet respirou profundamente.
      - De acordo. Vamos ver... Joseph cr que  poderia  fazer  o  papel  do
James?
      Este arqueou uma sobrancelha.
      - Quer dizer, me bater contra mim mesmo?
      - No. Claro, no pode fazer o papel de  Hamlet  e  Laertes  ao  mesmo
tempo. No que estaria eu pensando? Ento, vejamos... Suponho que  no  resta
mais remdio seno lhes contar a verdade.
      - A verdade? Que certamente Hamlet est a dois passos  daqui  num  dos
bares?
      - Bom, no. - Juliet sorriu, uma  covinha  apareceu  em  uma  de  suas
bochechas. - No serei to verdadeira.
      Dirigiu-se ao centro do cenrio, separou as  cortinas  e  saiu  at  o
palco. Ao v-la, o pblico comeou a aclamar e a aplaudir. Juliet  sorriu  e
fez uma elegante reverncia. Suas canes tinham agradado  e  aquilo  ficava
claro;  ela  to  somente  esperava  que  a  boa  vontade  durasse  o  tempo
necessrio para fazer seu discurso.
      Com as mos pediu silncio, e por fim o pblico se tranqilizou.
      - Sinto muito - comeou com grande seriedade.
      Apesar de no considerar-se atriz, tinha uma  bonita  e  bem  treinada
voz que conseguia utilizar com tom majestoso  quando  queria,  dando  a  seu
pequeno corpo dignidade e presena. O bonito vestido de veludo carmesim  que
usava fazia com que parecesse mais velha do que seus vinte e quatro anos,  e
os suaves ombros alvos que revelava junto ao vermelho dourado de seu  cabelo
eram suficiente  para  chamar  a  ateno  de  qualquer  homem.  Os  ltimos
murmrios da multido se foram apagando, e todos a olharam com expectativa.
      - Eu temo ter ms notcias para vocs - disse. Deu a sua  voz  um  tom
de sinceridade e tristeza, e ao morder com  fora  a  bochecha,  provocou  a
apario de lgrimas  em  seus  resplandecentes  olhos  azuis.  -  O  senhor
Westfall sentiu-se indisposto de repente.  Est  muito  doente.  No  poder
continuar a representao apesar de seus desejos de faz-lo.
      Sua voz tremeu ao pronunciar as palavras, mas aquilo se devia menos  a
suas habilidades como atriz que aos terrveis  olhares  que  o  pblico  lhe
dirigia e aos imediatos murmrios de desagrado. Certamente, a compaixo  no
faria com que as pessoas de Steadman renunciassem ao divertimento.
      Rapidamente Juliet levantou as mos.
      - Um momento! No  uma grande oferta, sei, mas, se forem to  amveis
de me escutar, interpretarei umas canes para vocs como  uma  compensao,
ao menos em parte, pela ausncia do senhor Westfield.
      Os murmrios se transformaram rapidamente num rugido de aprovao.  Um
homem aclamou, e num rinco da sala, outro gritou:
      - Ao diabo com Hamlet! Prefiro ver voc, bombonzinho!
      Meu deus!, pensou Juliet. Sentia-se como uma cantora de cabar.  Sua
me se revolveria na  tumba  se  visse  Juliet  cantando  canes  populares
diante de uma ruidosa multido de granjeiros e vaqueiros  de  Nebraska.  Mas
no  tinha  mais  remdio  que  cantar  com  a  esperana  de   que   aquilo
tranqilizasse as pessoas.
      - Senhor Blaine - disse, indicando com uma mo e um gesto  elegante  o
lado do cenrio, - seria amvel em me acompanhar?
      Hamilton se apressou para o piano, com gestos  de  nervosismo.  Juliet
se aproximou dele e sussurrou o ttulo de algumas canes. A  seguir  juntou
as mos com recato e  comeou  a  cantar,  "  Verdes  crescem  as  violetas,
cobertas de orvalho... "
      Tal como eram as coisas, Juliet precisou  cantar  muito  mais  canes
alm das trs ou quatro  que  tinha  ensaiado  antes  de  deixar  o  pblico
satisfeito, que repetidas vezes assobiou  e  gritou  para  que  continuasse.
Quando finalmente abandonou o  cenrio,  estava  esgotada.  O  restante  dos
atores, uns covardes!  tinham  abandonado  o  teatro  durante  sua  atuao,
aproveitando aquela oportunidade para escapulir-se.
      Com gestos apressados tirou quase toda a maquiagem, mas o  teatro  lhe
pareceu fantasmagrico com apenas sua presena e a de  Hamilton,  e  decidiu
partir sem trocar o vestido de veludo vermelho.
      Cobrindo o decotado vestido com uma  capa,  percorreu  a  p  os  trs
quarteires que a separavam do seu quarto de hotel.  Hamilton  a  acompanhou
parte do caminho, mas ao chegar ao  bar,  deixou-a  sozinha  e  entrou  para
tomar uma taa.
      Juliet  percorreu o resto do caminho, amaldioando  mentalmente  James
Westfield a cada passo.
      Ao aproximar-se do hotel, viu um homem sentado no primeiro degrau, com
os braos cruzados sobre os joelhos e sustentando um cachimbo  na  mo.  Seu
casaco estava pendurado com  descuido  no  corrimo  do  alpendre,  a  manga
arregaada, e olhava  frente totalmente desconfiado. Ao ouvir  seus  passos
se voltou para ela, e um lampejo de surpresa passou por seu  rosto,  seguido
de um sorriso.
      - Senhorita Drake! - ficou de p de um salto.
      Juliet se deteve o  p  das  escadas  e  o  olhou  com  dvida.  Tinha
conhecido hoje a este homem e se esqueceu? Aquilo lhe parecia  difcil.  Era
um homem muito grande  para  que  passasse  despercebido:  alto,  de  ombros
largos e braos de uma pessoa que trabalha duramente, e  muito  bonito  para
que uma mulher se esquecesse dele. Tinha o cabelo negro e os  escuros  olhos
de olhar misterioso  plida luz; as  rugas  de  seu  rosto  eram  fortes  e
irresistveis.
      - Sinto muito. - Juliet esboou um tmido sorriso. - Conheo-o?
      O desconhecido pareceu envergonhar-se.
       -  Oh,  no.  Sinto  muito.  -  As  palavras  lhe  saram  com  certa
dificuldade, como se  estivesse  incmodo.  -  No  deveria  haver...  Quero
dizer, acabo de v-la atuar, e suponho que tinha a sensao  de  conhec-la.
- encolheu os ombros e, para sua surpresa,  Juliet  acreditou  que  o  tinha
visto ruborizar-se.
      - Sinto muito - disse de novo.
      - No, no precisa desculpar-se. - Juliet sorriu de novo. - Entendo-o.
      - Esteve muito belssima - deixou escapar  ele.  -  Quero  dizer,  seu
recital foi belssimo.
      - Muito obrigada.
      - Com franqueza, o outro eu no gostava muito. Foi um alvio que  esse
homem no voltasse.
      Sua sinceridade fez sorrir outra vez a Juliet.
      - Suponho que havia outros que no pensavam o mesmo.
      Ele sorriu, e seu rosto se transformou de tal forma que Juliet  sentiu
uma comicho no estmago, - suponho que nisso tem razo.
      Durante um instante, Juliet pensou melanclica em como devia  ser  bom
viver uma vida normal, conhecer um homem como aquele e saber que voltaria  a
v-lo semana aps semana, esperar que fosse procur-la...
      Afastou com firmeza a idia da cabea; aquela no era sua vida e nunca
o seria. Estendeu-lhe a mo.
      - Boa noite - disse. - Foi um prazer conhec-lo.
      - Boa noite, senhorita Drake. - Agarrou-lhe a mo entre a sua grande e
spera. Sua pele era dura e calosa, e o roar  com  a  suave  pele  resultou
estranhamente intrigante.
      - Deus, que bela s! - exclamou ele olhando-a fixamente.
      Juliet lhe devolveu o olhar. Sentiu  certa  tenso  no  peito,  e  lhe
resultou difcil afastar a vista de seus olhos.
      - Sinto muito - disse ele, soltando bruscamente a mo e  retrocedendo.
- No deveria dizer isso. No era minha inteno... -  Deixou  interrompidas
as palavras com um rudo de irritao. - Deve pensar que sou um idiota.
      - No, claro que no - disse Juliet recatada.
      Resultava, de fato, adulador pensar que podia impressionar a um  homem
bonito e maduro.  Seu  franco  e  espontneo  galanteio  produziu  nela  uma
comicho no estmago que nunca sentia diante das  abundantes  adulaes  dos
homens que se apresentavam no camarim, seguros de que  seu  encanto  ou  seu
dinheiro atrairiam uma atriz para sua cama.
      Irritava-lhe precisar lutar sempre contra a  difundida  idia  de  que
uma atriz era pouco melhor que  uma  prostituta,  e  resultava  gratificante
conhecer um homem que  se  desculpava  por  ser  muito  atrevido.  Sentiu  a
tentao de ficar um momento no terrao e falar com ele. Surpreendeu-a  que,
esgotada como estava ao retornar  caminhando,  no  sentisse  cansao  algum
nesse momento. Mas,  obvio, no podia permanecer ali,  conversando  com  um
desconhecido, ou estaria se  comportando  com  tanto  descaramento  como  as
pessoas supunham que faziam as atrizes.
      - Boa noite. - Voltou-se.
      - Boa noite.
      Com um suspiro interior, Juliet abriu  a  porta  do  hotel  e  entrou.
Subiu as escadas, roando  na  polida  balaustrada  de  madeira  sem  dar-se
conta, enquanto pensava no homem que tinha abandonado l  fora.  At  chegar
ao patamar do segundo piso no se deu conta do baixo e excitado murmrio  de
vozes. Deu um olhar at l. Havia um  pequeno  grupo  de  gente  reunida  no
final  do  corredor,  conversando  em  agitados  sussurros.  Juliet  no  se
surpreendeu ao descobrir que eram  vrias  pessoas  de  sua  companhia;  sem
dvida discutiam a propenso para beber de James Whitfield.
      - Juliet! - Lily a viu e se voltou para ela.
      Estava muito mais agitada do que merecia um desmaio alcolico  de  seu
chefe,  pensou  Juliet.  Ento  se  aproximou  apressadamente,  enquanto  um
calafrio de temor se apoderava dela.
      - Que aconteceu?
      - No vai acreditar nisso - exclamou Lily. - Ele fugiu!
      - O que? Quem?
       - James Westfield! - respondeu Joseph com impacincia. -  Seu  quarto
est vazio; levou todas as  suas  malas  e  suas  coisas.  E  Amanda  tambm
partiu.
      Amanda era uma loira espalhafatosa que interpretava pequenos papis.
      - Como? - disse surpreendida Juliet. - Mas...
      - Esse no  o problema - salientou a  senhora  Fairfax,  fazendo  uma
careta. - O problema est em que se levou todo o nosso dinheiro.
      - Nosso dinheiro! No! Tudo?
      - Tudo. A caixa desapareceu, e o recepcionista diz que viu o Westfield
sair do hotel com ela pelo brao na primeira hora da tarde. Fugiu com  nosso
pagamento, incluindo os lucros desta noite.
      O rosto do Juliet ficou branco.
      - Mas isso significa...
      - Exatamente. - A senhora Fairfax movia a cabea com deciso. -  Pegou
o dinheiro com o qual iria nos pagar. Estamos presos neste horrvel  povoado
de Nebraska, e no temos um centavo.
      No era a primeira vez que Juliet  no  recebia  seu  salrio  ou  que
ficava em dificuldade quando alguma companhia quebrava de repente.  Mas  era
a primeira nessas circunstncias em  que  seu  pai  no  a  acompanhava.  De
alguma forma, Alexander Drake, com sua maneira otimista  de  ver  a  vida  e
seus anos de experincia no mundo do teatro, conseguia cair  de  p.  Sempre
tinha algum objeto para  vender  ou  empenhar.  Ou  utilizava  sua  elegante
seduo e convencia  proprietria da penso ou do hotel para que  no  lhes
cobrasse, ou convencia a algum de que era merecedor de  um  emprstimo.  Se
as coisas ficavam muito feias, fazia inclusive trabalhos fsicos  e  ganhava
o dinheiro que necessitavam.
      Mas a situao era diferente agora que Juliet  estava  sozinha.  Tinha
utilizado as propriedades mais valiosas durante a larga enfermidade  de  seu
pai antes que morresse, fazia dois anos; to somente  ficava  o  relgio  de
bolso, e no queria vend-lo. Era a nica lembrana  de  seu  pai.  Tampouco
tinha podido economizar desde sua morte. Tinha sido uma  surpresa  descobrir
o pouco dinheiro  que  restava  para  viver  quando  ela  era  a  nica  que
trabalhava. O pagamento que  recebia  pelas  canes  que  interpretava  era
muito inferior ao que seu pai tinha ganhado. Assim, nada tinha  para  vender
e dispunha de muito pouco dinheiro. Nem sequer chegava para pagar um dia  ou
dois a mais da conta do hotel, e muito menos para   comprar  um  bilhete  de
trem a Omaha e ao Este.
      Na primeira hora do dia seguinte foi  nica chapelaria da  cidade  em
busca de trabalho. Uma mulher magra e alta levantou o  olhar  para  ouvir  a
porta, e, quando a viu, seu sorriso se congelou imediatamente.
      - Sim? - perguntou com o tom de voz to glido como um vento rtico.
      Juliet forou um sorriso.
      - Ol. Sou Juliet Drake.
      - Sim, eu sei. Faz parte da companhia de  teatro.  -  As  palavras  da
mulher estavam cheias de desprezo.
      - Sim. Poderia falar com o dono, por favor?
      - Eu sou a proprietria. Senhorita Aurica Johnson. - Olhou para Juliet
com desaprovao.
      Juliet ficou apreensiva. Sabia que no tinha possibilidade alguma  com
aquela mulher; mas, de qualquer maneira, devia tentar.
      - Estou procurando trabalho.  Tenho  um  pouco  de  experincia  nesse
ofcio. Eu mesma decorei meu chapu.
      Fez um gesto assinalando o que levava colocado, um  chapu  de  feltro
plano decorado com plumas de avestruz e alto no  lado  em  que  brilhava  um
broche. Juliet sabia que ficava bastante bom nela. Mas  os  metlicos  olhos
de Aurica Johnson estudaram o chapu em questo com grande desinteresse.
      - Agora no h contratos..., para  ningum  -  disse  sinceramente,  e
continuou:  -  e  se  houvesse,  no  danificaria   a   reputao   de   meu
estabelecimento contratando a uma artista. - Pronunciou  aquela  palavra  da
mesma forma que diria ladro ou prostituta.  Evidentemente,  era  o  que
mais ou menos pensava da profisso de Juliet.
      A jovem se ruborizou.
      - Sinto t-la incomodado. - voltou-se e saiu da loja quase correndo.
      Quando estava na calada se deteve uns instantes,  o  necessrio  para
recuperar a compostura, e continuou em busca de trabalho.
      Ao chegar ao hotel quela tarde, estava cansada, esgotada, faminta,  e
a ponto de comear a chorar. A ltima coisa que  desejava  era  encontrar-se
na  recepo  com   a   senhora   Morgan,   a   ardilosa   proprietria   do
estabelecimento, mas ao abrir a porta foi exatamente quem encontrou.
      - Senhorita Drake? - chamou a mulher com sua penetrante voz,  enquanto
saa  de  atrs  do  balco.  Era  uma  mulher  imponente  apesar   de   sua
relativamente baixa estatura. Com o espartilho no mximo,  ia  embutida  num
singelo vestido marrom; o peito lhe sobressaa por cima do  espartilho  como
a proa de um navio. De forma  similar  sobressaa  sua  mandbula,  e  havia
determinao e frrea vontade em cada um de seus fortes  traos.  Mas  tinha
uma boca ampla e generosa contrastando a severidade  de  seu  rosto,  e  seu
firme tom de voz no carecia de amabilidade.
      - Boa noite, senhora Morgan. - Juliet tentou sorrir, mas foi  difcil.
Sentia que as lgrimas tentavam brotar de seus olhos,  e  fazia  verdadeiros
esforos para reprimi-las. A ltima coisa que  queria  era  enfrentar  nesse
momento s perguntas da senhora Morgan a respeito da conta.
      - Poderia falar um momento com voc?  -  Henrietta  Morgan  agarrou  a
Juliet pelo brao e a conduziu atrs do mostrador.
      - Claro.  -  Resignada,  Juliet  acompanhou    mulher  a  um  pequeno
escritrio abarrotado no outro lado da recepo. A senhora Morgan  fechou  a
porta atrs dela e apontou a nica cadeira do quarto.
      - Sente-se. Sente-se. Acredito que lhe faria bem um pequeno  descanso.
Eu estive sentada todo o dia fazendo contas.
      - Obrigada. - um pouco surpreendida, Juliet se afundou na cadeira. Era
maravilhoso no estar de p.
      - A senhora Fairfax e sua companheira abandonaram o hotel esta  tarde.
Pegaram o trem para So Francisco, acredito.
      - De verdade? - No a surpreendeu que a primeira dama e sua  garonete
tivessem economizado suficiente dinheiro para comprar um  bilhete  e  partir
da cidade.
      - Contaram-me a terrvel ao do senhor Westfield. -  Franziu o cenho.
- Esse homem fugiu sem pagar nem sequer seu prprio quarto.
      Juliet assentiu.
      - Sinto muito.
      - No tem por que desculpar-se. No foi culpa sua.
      - Eu sei. Mas suponho que a senhora  Fairfax  tambm  lhe  contou  que
levou a caixa do dinheiro.
      - Sim. Disse que imaginava que o resto de vocs ficaria preso aqui.
      Juliet assentiu.
      - Temo que sim. Lily e Hamilton foram ao bar em busca de trabalho.
      - Hummm. - Henrietta fez um gesto pouco comprometedor. -  Meu  marido,
Samuel, enviou o homem mais velho aos estbulos, porque ali necessitavam  de
algum que lhes desse uma mo.
       - Mick? - sorriu Juliet. - Parece-me muito bom. -  Mick,  que  mudava
os cenrios, levava os  bas  e  fazia  outros  pequenos  trabalhos  para  a
companhia,  era  um  homem  simptico,  e  alegrou-se  em  saber  que  tinha
encontrado  alguma  coisa.  Certamente,  sem  dvida   alguma   ele   estava
qualificado para fazer todo tipo de trabalhos; diferente dela.
      - Esse Joseph Campbell parece  que  tambm  partiu  ontem    noite  -
seguiu Henrietta com certo desprezo.
      - Tampouco a pagou? - Juliet ficou constrangida. Entre Westfield,  sua
amante, e agora Joseph, eram trs as pessoas que tinham fraudado os  Morgan.
Juliet estava segura  de  que  a  senhora  Morgan  no  estaria  disposta  a
conceder nenhum adiamento a ela.
      - No. - encolheu os ombros. - Bom, so os riscos que se  correm.  No
se pode ser mais preparado que todos os descarados deste mundo.
      - No, suponho que no. - Juliet olhou as mos. - Estou segura de  que
lhe custar acreditar isto, mas eu prometo pagar tudo o que lhe devo.  Neste
momento s tenho dinheiro para pagar uma noite, mas assim  que  encontre  um
trabalho, darei o resto. Eu prometo.
      - Estou segura de que  o  far  querida.  -  Henrietta  lhe  deu  umas
batidinhas carinhosas no ombro. - Tem aspecto de ser  boa  e  honrada.  E  a
senhora Fairfax disse que voc  uma pessoa justa e responsvel; que  sentia
no poder ajud-la, j que tinha conhecido e respeitado a seu  pai,  mas  s
tinha dinheiro suficiente para elas duas.
      - Foi muito amvel ao pensar em mim. -  Juliet  olhou    mulher  mais
velha com crescentes esperanas. - Quer dizer que  deixar  que  fique,  at
que encontre trabalho e um lugar para viver?
      Henrietta assentiu.
      - Mas essa no  a razo de minha chamada. Acredito que posso ajud-la
em ambos os problemas.
      Juliet ficou boquiaberta.
      - Como?
      - Encontrou trabalho j?
      Juliet negou com a cabea.
      - No. Temo que no. Eu..., bom, no h muitos trabalhos para mulheres
nesta cidade. Fui   loja  de  secos  e  molhados  para  olhar  os  anncios
expostos ali, mas nada havia para uma mulher.  Duas  costureiras  procuravam
trabalho para costurar em casa,  de  modo  que  suponho  que  no  h  tanta
necessidade  de  outra.  Isso    algo  que  fao  bastante  bem.  Eu  mesma
confecciono minha roupa.
      - De verdade? - Henrietta ficou  atnita,  e  estudou  o  conjunto  do
Juliet com olho crtico. - Pois voc  muito boa, querida.  Est  vestida  
ltima moda.
      - Obrigada. Por desgraa no impressionei a senhorita Johnson.
      - A chapeleira?
      Juliet assentiu.
      - Pedi-lhe trabalho e me recusou na entrada.
      A senhora Morgan fez um gesto de desinteresse com a mo
      - Ela   uma beata. No acredito que tivesse chegado muito  longe  com
ela.
      - Tambm olhei no peridico, e nada.
      - Estou segura de que contratariam a uma cantora no Goleen Cage.
      - O saloon? - Juliet arqueou as sobrancelhas, e durante  uns  segundos
pareceu to arrogante como uma grande dama de Boston. -  Jamais  trabalharia
num lugar como esse. Esperam algo mais que uma simples cano.
      - Uma atitude elogivel... - murmurou Henrietta.
      - Mas inesperada vindo de uma atriz? - meio que acrescentou Juliet com
ironia. Estava esgotada e desiludida, e a ltima coisa que queria ouvir  era
outro comentrio depreciativo sobre a moral das atrizes. - Sei  o  que  todo
mundo pensa das mulheres do teatro, mas algumas  de  ns  sim  temos  moral,
sabe. Minha me e meu pai viviam do teatro, e me educaram  nele,  mas  foram
rgidos no referente  moral. Minha me era filha de um pastor rural de  New
Hampshire, e nunca esqueceu suas origens. Educou-nos, a Clia e a mim,  como
a senhoras, e jamais ocorreria me  comprometer  trabalhando  num  bar,  como
tampouco o fariam o resto das damas desta cidade.
      - Cus! - exclamou Henrietta que logo ps-se a rir  e  aplaudiu.  -  
voc melhor do que imaginava. Que sorte!
      Os olhos de Juliet se abriram como pratos. A que se referia?
      - Pois, ao trabalho, claro est..., na granja de meu cunhado.
      Juliet ficou olhando.
      - Quer dizer que me est oferecendo  um  emprego?  -  Aquilo  era  to
diferente do que ela imaginou quando a senhora Morgan a tinha  conduzido  ao
escritrio que quase no entendia.
      - Sim... Bom, estou lhe dizendo que h um emprego disponvel.  Suponho
que ser Amos quem decidir afinal, certamente. No obstante, o certo   que
me pediu que lhe buscasse uma governanta.
      - Uma governanta?  isso o que ele necessita?
      - Sim. Devo supor que sabe cozinhar e limpar a casa, claro.
      - Oh, sim, como no? - Juliet mentiu. A verdade  era  que,  apesar  de
manejar bem a agulha, tinha pouca experincia na hora de cozinhar  e  cuidar
de uma casa. Depois da morte de sua me,  quando  Juliet  tinha  doze  anos,
ela, seu pai e sua irm se hospedaram em penses onde  as  comidas  entravam
no preo total. Nunca tinha feito muito mais que preparar caf e limpar  seu
quarto e o de seu pai.  Inclusive  a  roupa  eles  levavam  quase  sempre  
lavanderia, j que no havia forma de lavar e secar roupa num hotel ou  numa
penso.
      Mas que dificuldades encontraria ao ocupar-se de uma casa?  perguntou-
se racionalmente. Afinal, a maioria das mulheres era capaz  de  faz-lo,  de
modo que, com toda segurana,  ela  aprenderia  em  seguida.  E  necessitava
desse emprego desesperadamente. No povoado no havia mais  trabalho  que  no
saloon; disso estava convencida. Assim,  esperava  que  lhe  perdoasse  esta
pequena mentira.
      - Bem. Amos, o irmo mais novo de meu  marido  Daniel,  necessita  com
urgncia de  uma  governanta.  Frances  est  muito  doente  para  continuar
trabalhando.  uma pena. - Fez um gesto de tristeza. - Sim,  uma  verdadeira
pena, - baixou o tom de voz. - Temo que no tenha muito tempo de vida.
      - Frances?
      - Sim, a irm de meu marido. Ela sempre esteve na granja  com  Amos  e
cuidou dele e de seu filho.
      - E agora ela est... Est...
      Henrietta assentiu.
      - Morrendo? Temo que sim. Perdeu tanto peso que  quase  no  parece  a
mesma. Sempre foi uma mulher grande, como todos os Morgan,  no  gorda,  mas
alta e de ossos grandes. Entretanto, agora   uma  figura  frgil.    muito
triste.
      - Sinto muito.
      - Bom isso no  o que nos interessa nesse momento, nada podemos fazer
a respeito. O fato  que Amos necessita uma mulher que faa os trabalhos  da
casa e o ajude com Frances. Levo semanas procurando uma  pessoa,  e  ningum
est disposta a faz-lo. -  Ao  ver  a  expresso  surpreendida  de  Juliet,
acrescentou rapidamente: - no  que seja  um  ogro,  me  entenda.  ,  bom,
embora algo spero e silencioso. Tem umas normas muito restritas.
      Juliet sentiu um calafrio. Possivelmente fosse uma tolice  ficar  para
trabalhar para um homem que tinha tal reputao, no estando  ela  preparada
a respeito das normas bsicas do cuidado de uma  casa,  e  muito  menos  dos
pontos mais sofisticados.
      Mas Henrietta no lhe deu oportunidade de duvidar.
      - Estou segura de que o far bem. Por que no sobe  ala particular do
hotel e conhece Frances e Amos? Vieram passar o dia na cidade.  Frances  tem
que ir ao mdico, e amanh retornaro   granja.  Dessa  forma,  se  Amos  a
aceitar, pode ir com eles.
      - De acordo.
      Juliet se levantou e seguiu    outra  mulher  at  o  terceiro  piso.
Henrietta se dirigiu para a ala do hotel que dava  parte traseira  e  abriu
uma porta sem nmero. Entrou num salo profusamente mobiliado,  e  Juliet  o
fez atrs dela.
      - Amos! - chamou Henrietta, ao tempo que cruzava o salo e  olhava  no
outro. - Venha aqui um momento. Consegui uma governanta. Venha conhec-la.
       Juliet ouviu o murmrio de uma voz masculina. Uns  instantes  depois,
uns passos ressoaram no cho de madeira,  e  um  homem  grande  passou  pela
frente  de  Henrietta  e  entrou  no  salozinho.  Viu  a  Juliet,  e  ficou
boquiaberto.  Ela  devolveu-lhe  o  olhar,  atnita  tambm.  O  cunhado  de
Henrietta Morgan, o homem que necessitava uma governanta, era  o  homem  que
tinha conhecido a noite anterior no terrao do hotel.
Captulo 2.
      Amos Morgan ficou olhando para Juliet durante uns instantes sem  dizer
uma palavra.  luz do dia, parecia muito  mais  alto  e  corpulento:  ombros
largos e braos fortes, com umas mos de largos e sinuosos dedos.  Tinha  os
olhos e o cabelo de uma cor negra azeviche,  e  o  rosto,  embora  atrativo,
estragado pela idade. Juliet pensou que seu aspecto era muito  mais  duro  e
feroz; em especial agora que o olhar de  surpresa  era  substitudo  por  um
cenho franzido.
      Voltou a cabea para Henrietta.
      - Trata-se de uma brincadeira ou o que?
      Henrietta abriu os olhos com expresso inocente.
      -  obvio que no, Amos. Do que est falando?
      - Do que estou falando? - A exasperao fez que elevasse o tom de voz.
- Est me dizendo que a contratou... - apontou com  o  brao  em  direo  a
Juliet, apontando-a com o dedo e recordando a  Juliet  a  forma  que  Calvin
Knox acusava  mulher vestida de escarlate - para que seja minha  governanta
?
      - Sim, Amos. - Henrietta falava com pacincia. - Isso   exatamente  o
que estou dizendo.
      - Mas ela... Ela... - parou, olhando-a de novo, -  uma atriz.
      Juliet colocou as mos na cintura e devolveu o olhar.
      - No sou uma atriz; sou cantora.
      - Ontem  noite a vi no teatro.
      - Interpreto pequenos papis, algo  muito  necessrio  numa  companhia
ambulante pouco prspera. Mas posso lhe  assegurar  como  filha  e  irm  de
atores, que no estou  altura de merecer o nome de atriz.
      Amos a olhou de forma estranha.
      - Bom, no importa que nome lhe d. A realidade  que atua num teatro.
      - O que tem isso que ver com o assunto, se me permite perguntar-lhe?
      - Voc no  uma governanta.
      - As atrizes tm que viver em algum lugar, como o resto das pessoas  -
retrucou Juliet com palavras cheias de sarcasmo. - Precisamos comer,  limpar
nossos lares e cuidar de nossa roupa, como todo mundo.
      - Claro que sim - intercedeu Henrietta. - Amos, no  entendo  por  que
est se comportando dessa forma. S porque uma mulher  atriz no  significa
que no seja tambm capaz de cuidar de um lar. Note que  a senhorita  Drake
mesma quem fez o vestido que usa.  ou no preparada?
      - Estou seguro de que o . - Seu tom de voz era irado enquanto dirigia
um olhar assassino a sua cunhada. - Mas no sei como isso  a  transforma  em
governanta. Alm disso, essa no  a questo.
      Henrietta olhou com estranheza.
      - No se trata disso? Ento, do que se trata?
      - Henrietta! - rugiu. - Maldita seja,  mulher,  seja  sensata.    uma
atriz! Pensa no que diro! Pensa no Ethan!
      - Ethan! O que tem ele a ver com isso?
      - To somente tem dezesseis anos; est numa idade muito delicada.  Uma
atriz em casa!
      Henrietta se ps a rir.
      - Oh, Amos!
      - No permitirei que uma atriz corrompa o meu filho.
      - Corromper o seu filho! - disse irada Juliet. -  Como  se  atreve...!
No sabe nada de mim! No tem a menor idia...
      - Sei o suficiente - respondeu ele.
      -  voc um pomposo de viso estreita...
      Henrietta interveio rapidamente:
      - Amos, isto  ridculo. O que pode ocorrer? Voc  est  em  casa  com
eles, e se houver algum capaz de acabar  com  um  romance,  essa  pessoa  
voc.
      - Estou seguro que tudo isso parece a voc muito divertido,  Henrieta,
mas o bem-estar de meu filho no  algo  que  produza  risada.    jovem;  e
poderia apaixonar-se  por  uma  mulher  bela  muito  mais  depressa  do  que
imagina. Quando quiser dar-se conta do que acontece seria muito tarde.
      - Que interesse poderia ter eu  em  seduzir  seu  filho?  -  perguntou
Juliet com mordacidade.
      Amos lhe dirigiu um olhar de desprezo.
      - Pode ser que pense que eu seja um  homem  do  povo,  senhorita;  mas
asseguro que no sou um imbecil. A verdadeira razo    saber  que  possvel
interesse pode ter uma mulher como voc em ir a uma  granja  para  trabalhar
como governanta a no ser que queira apanhar a um homem para lhe  tirar  seu
dinheiro. No posso imaginar que tenha vontade de  cozinhar  e  de  esfregar
cho e panelas. Uma mulher  com  seu  aspecto  tm  outras  mercadorias  que
vender, e muito melhores.
      Juliet emitiu um grito de ira e se dirigiu para ele, com a mo fechada
com a inteno de lhe dar um bom soco. Henrieta,  algo  atnita,  interveio,
colocando-se entre os dois, mas olhando para Amos, os braos cruzados  sobre
o peito em severa postura.
      - Por todos os Santos, Amos! Surpreende-me! Nem sequer voc  sabe  ser
to mal educado. No h necessidade  de  insultar  a  senhorita  Drake.  No
tolero que ponha em dvida a moral de uma de minhas hspedes, em especial  a
de uma pessoa da qual absolutamente nada sabe. Vamos, pea desculpa.
      Amos fez um gesto de teima, e Henrietta insistiu:
      - Agora mesmo.
      - Bom! - Continuando, olhando fixamente a Henrietta e a um ponto  logo
abaixo e  esquerda da orelha direita de Juliet, murmurou:  -  Sinto  muito.
No deveria haver dito uma coisa assim.
      Juliet respirou fundo. Ocorreu-lhe responder quele  caipira  que  no
aceitava suas desculpas. Como podia ter parecido a ela  interessante  aquele
homem na noite anterior? Era a pessoa mais mal educada,  a  mais  insofrvel
que jamais tinha conhecido... Bom, para ser sincera  consigo  mesma,  outros
se tinham comportado de pior forma que ele. Homens que tinham  tentado  us-
la e tinham sugerido coisas indecentes. Mas esse homem... De  alguma  forma,
este homem a tinha ofendido e ferido mais que qualquer  um  deles.  Gostaria
de dizer que esquecesse do emprego, informar contundentemente  que  esperava
no v-lo  nunca mais, e muito menos que iria compartilhar a mesma casa  com
ele.
      Mas Juliet era consciente de sua situao. No podia permitir  o  luxo
de deixar que seus sentimentos a  dominassem,  s  o  que  podia  fazer  era
aceitar o emprego... Melhor dizendo, convencer a ele que a contratasse.
      Juliet suspirou.
      - Aceito suas desculpas - disse com hipocrisia. -  Por  desgraa  devo
admitir que existam razes que levam s pessoas a pensar assim das  atrizes.
Algumas delas se importam pouco com a arte e esto mais  interessadas  em...
Em chamar a ateno de um homem rico, como voc diz. Entretanto,  posso  lhe
assegurar que eu no tenho interesse em seu filho..., nem em qualquer  outra
pessoa. S o  que desejo  trabalhar.  Preciso  ganhar  dinheiro  suficiente
para comprar o bilhete de volta  Nova Iorque, ou ao menos a  Chicago,  onde
acredito que encontraria um emprego decente como cantora.  Sua  oferta    a
nica que recebi aqui; estou disposta a  trabalhar  duro,  e  sou  capaz  de
cuidar de uma casa, para reunir o dinheiro que me permita partir.
      Amos cruzou os braos e  retrocedeu  uns  passos.  Henrietta  saiu  de
entre os dois, e Juliet voltou para o lugar que tinha ocupado ao entrar.
      - E bem - disse Henrietta. - Crem que  podemos  nos  sentar  e  falar
como seres racionais, Amos?
      - Sigo sem querer contrat-la - disse Amos  beligerante,  dirigindo-se
para o sof, mas sem tomar assento nele.
      - Senhor Morgan - comeou dizendo Juliet, esforando-se para  que  sua
voz soasse tranqila, embora tremesse em seu interior. - Creio  que  no  me
deu uma oportunidade justa.
      - Est equivocada - respondeu Morgan irritado. - Voc   muito  jovem,
muito pequena. Frgil. Necessito uma mulher forte. O trabalho de uma  granja
 muito duro.
      - Senhor Morgan, no se pode dizer que eu seja frgil. Sou uma  mulher
forte e sadia, e estou acostumada  a  trabalhar.  Levo  fazendo-o  desde  os
quinze  anos.  Sobrevivi  a  coisas  piores  que  o  trabalho  numa  granja,
acredite. No estou doente. Possivelmente seja mais jovem do que voc  tenha
pensado para uma governanta, mas no sou  uma  menina...  Minha  me  morreu
quando eu era pequena, e cuidei de meu  pai  e  de  minha  irm,  muito  bem
apesar disso. Por que no me deixa demonstrar-lhe, me  deixe  trabalhar  uma
ou duas semanas, e ento,  se  no  estiver  satisfeito  com  meu  trabalho,
despea-me. No tem nada a perder.
      - Me parece bom, sabe - interveio  Henrietta.  -  O  que  pode  perder
deixando que a senhorita Drake cuide de sua casa um par  de  semanas?  Ento
saberia se  capaz de  fazer o trabalho ou no.  Alm  disso,  acredito  que
no tem a quem escolher. Ningum mais quis esse emprego.
      - Bom, de qualquer forma no necessitamos uma  governanta  -  comentou
Amos irritado. - Frances o faz muito bem.
       -  Senhor  Morgan  -  protestou  Juliet  -  sei  que  necessita   uma
governanta. A senhora Morgan comentou que sua irm est bastante doente.
      - Frances ficar bem - disse Amos, fazendo caso omisso da afirmao de
Juliet. - O que ocorre  que nesse inverno teve problemas para superar  essa
ditosa enfermidade.
       -  Por  todos  os  Santos,  Amos,  trata-se  de  algo  mais  que  uma
enfermidade neste inverno. O mdico disse hoje que restam uns  poucos  meses
de vida e nada mais.
      - Tolices! O que saber ele? - Amos se voltou para Henrietta, os olhos
estavam cheios de ira. -  da cidade. No  entende  de  mulheres  do  campo.
Frances  mais dura que o couro, sempre o foi. Estar bem antes  que  chegue
o vero.
      Henrietta o olhou fixamente.
      - Amos!  cncer. O mdico disse que se estendeu por todo o abdmen.
      Amos seguiu agentando o olhar de sua cunhada, e suas mos se fecharam
ao mesmo tempo, mas no falou.
      - Senhor Morgan, se ela se recuperar - interveio Juliet,  num  intento
de suavizar a situao, - necessitar por algum tempo. Imagino que no  ter
energia suficiente para limpar chaleiras e frigideiras.
      Ele fez uma careta.
      - No tem nem idia do que fala.
      - E voc sim? -  respondeu  Juliet,  voltando  a  levar  as  mos  aos
quadris. Era  muito difcil  mostrar-se  razovel  e  tranqila  com  aquele
homem. O que lhe ocorria? Era evidente, pelas  palavras  de  Henrietta,  que
sua irm estava morrendo.
      - Frances se encontra melhor! - rugiu ele. - Logo estar bem. Voc no
a conhece. No necessitamos de uma governanta.
      - Oh, sim, Amos - disse uma  voz  pausada  detrs  deles.  -  Sim  que
necessita.
      Os trs voltaram-se, surpreendidos, e olharam para a  porta  por  onde
uma mulher tinha entrado sem que eles percebessem. Era alta e magra,  ossuda
sob a escassa carne. O cabelo, grisalho nas tmporas,  tinha  sido  penteado
para trs numa trana que se convertia em coque sobre a nuca. Seus fortes  e
angulares traos resultavam atrativos,  sem  chegar  a  ser  belos,  e  seus
grandes olhos escuros, inteligentes e quentes. Mas em seu rosto se  refletia
o cansao e se viam pequenas rugas ao redor dos olhos e a boca.
      - Frances! -  exclamaram  Amos  e  Henrietta,  quase  em  unssono,  e
Henrietta se aproximou de segur-la pelo brao. - Vamos, vem sentar no  sof
comigo, querida. Estvamos falando de contratar a senhorita Drake  para  que
cuidasse de sua casa.
      - Foi o que ouvi - admitiu Frances com um tmido sorriso  olhando  aos
outros.
      Amos pareceu envergonhado.
      - Sinto muito. Despertei-a?
      - No, absolutamente. De qualquer maneira no podia dormir. Ao ouvir o
que dizia, no tive mais remdio que entrar - Olhou a Amos com claros  olhos
carinhosos. - Meu querido irmo... Amo-te muito por sua inteno  de  fingir
que vou ficar bem, embora ns dois saibamos que cada dia estou  mais  dbil.
Tentei, mas j no posso cuidar bem da casa. Alguns dias sou  quase  incapaz
de abandonar a cama.
      Amos abriu a boca, mas no emitiu som algum, e a fechou de novo.
      - Logo ficar bem - replicou ao fim com grande teimosia.
      - No  certo. - A voz de Frances era tranqila embora com um  ligeiro
tremor, mas no se percebiam dvidas em seu tom.
      - Frances, no... - Amos afastou o olhar.
      - Faz algum tempo que oculto a verdade, e voc tambm.  Henrietta  tem
razo. Estou morrendo.
      - O doutor Hempstead  um bbado; todo mundo sabe. No pode  acreditar
no que diz como se fosse a Bblia.
      - No se trata do que diz o mdico... Ao menos,  no s  disso.  Sinto
que as foras me abandonam,  Amos.  Sinto  essa  coisa  dentro  de  mim,  me
consumindo. O que ocorre  que  muito teimoso para aceitar.
      Amos afundou as mos nos bolsos  e  se  voltou  de  costas  para  ela.
Comeou a falar, limpou a  garganta e recomeou.
      - De acordo. Se quiser uma governanta, ter. Olhou para  Juliet.  -  
hora de iniciar a semeadura, e no posso perder  tempo  procurando  a  outra
pessoa, de modo que ficarei com voc. Mas isto  s uma prova,  entenda.  Se
no puder com o trabalho, tr-la-ei aqui de volta. Fica claro?
       Juliet assentiu.
      - Sim. Obrigado por  me  conceder  esta  oportunidade.  Farei  todo  o
possvel para que no se arrependa disso.
      Sem dizer uma palavra mais, Amos deu meia  volta  e  saiu  do  quarto.
Juliet suspirou  aliviada,  e  seus  tensos  msculos  se  relaxaram.  Tinha
conseguido o emprego. Agora s o que faltava era faz-lo to bem que  no  a
mandasse de volta em menos de uma semana. E isso porque no sabia  nada  dos
trabalhos de casa!
      Juliet afastou a vista da montona paisagem que  se  estendia  ao  seu
redor em todas as direes e olhou seu companheiro. Amos, sentado  no  outro
extremo do longo banco do carro, no havia dito nenhuma palavra  em  toda  a
viagem. Nem sequer Ol quando saram do hotel aquela manh.  Limitou-se  a
assentir com a cabea ao estender a mo para  ajud-la  a  subir  no  carro.
Juliet reprimiu um suspiro e olhou para a parte traseira do carro.
      Amos tinha colocado um colcho  de  plumas  sobre  o  longo  leito  do
carro, e sua irm descansava sobre ele, coberta com um ligeiro  edredom,  os
olhos fechados, o rosto tenso, as  rugas  da  boca  lhe  sulcando  o  rosto.
Juliet suspeitava que apesar  de  estar  sobre  um  colcho,  os  constantes
buracos deviam estar causando muita dor. No obstante nenhuma s vez ela  se
queixou. Possivelmente as mulheres do campo como Frances pertenciam a  outra
raa mais dura que  a  sua,  pensou,  e  um  pequeno  calafrio  a  percorreu
inteira. E se Amos tinha razo e ela no fosse capaz de suportar os  rigores
da vida no campo?
      Amos animou s  mulas,  balanou  uma  das  rdeas  e  os  animais  se
afastaram da estrada para entrar por  um  estreito  atalho.  Poucos  minutos
depois, apareceu uma singela casa de campo de dois andares. Uma  fileira  de
abetos ladeava o atalho de entrada, uniformemente inclinados  por  causa  do
vento. Uma solitria nogueira americana se erguia ao lado da  casa;  mas,  
exceo destas rvores, nenhuma outra vegetao suavizava os  duros  ngulos
do edifcio. A  certa  distncia  havia  uma  garagem,  um  celeiro  e  dois
pequenos abrigos, mas todo o lugar era desprovido de rvores.
      Parecia, pensou Juliet, um lugar desolado,  e  as  lgrimas  inundaram
seus olhos.  Como viveria a sozinha, com  uma  mulher  moribunda  e  aquele
homem silencioso e desagradvel?
      Imediatamente conteve as lgrimas. No queria  pr  em  evidncia  sua
debilidade dando assim gosto a Amos Morgan.
      As mulas iam com maior rapidez  conforme  se  aproximavam  da  granja,
dirigindo-se para a quadra, e Amos teve que puxar com fora das rdeas  para
que se detivessem diante da casa.
      Um jovem saiu do celeiro ao ouvir sua chegada e de um  par  de  saltos
cruzou o ptio para eles, sorrindo.  - Pai!
      Um sorriso se desenhou no impassvel rosto de  Amos,  e  seus  escuros
olhos se animaram ao ver seu filho.
      - Ethan.
      Ethan era alto, com o aspecto desajeitado de todo jovem que no acabou
de crescer. Tinha o cabelo castanho claro e os olhos cor avel, e  um  rosto
magro, mas atrativo embora  no  de  todo  formado.  Ao  ver  Juliet,  ficou
boquiaberto detendo-se em seco.
      O sorriso de Amos se converteu em uma careta ao dar-se conta  de  como
olhava seu filho para Juliet.
      - Ethan, apresento-lhe  Juliet Drake. Vai ser nossa governanta...,  ao
menos durante um tempo.
      - Nossa governanta? - repetiu  Ethan  atnito.  A  seguir  um  sorriso
iluminou  seu  rosto  e  se  aproximou,  tirando  o  chapu  e  fazendo  uma
inclinao de cabea -  Me alegro  em  conhec-la,  senhorita  Drake.  Nunca
tinha esperado ver uma governanta como voc.
      Aquela inocente admirao foi como  um  blsamo  para  ela  depois  da
brusca desaprovao do pai,  e  Juliet  devolveu  o  sorriso,  surpreendendo
ainda mais.
      - Ol, Ethan. Alegro-me em conhec-lo.  Surpreende-me  que  no  tenha
ido  cidade com seu pai.
      - Algum tinha que ficar e cuidar dos animais  -  respondeu  Amos  por
ele, e desceu de um salto do carro.
      - Por desgraa, fui sorteado - continuou Ethan, que estendeu um  brao
para ajudar Juliet a descer.
      A jovem desceu do carro um pouco ruborizada e  seguiu  Frances  at  a
casa. Amos deixou o ba e a bolsa no alpendre,  voltou  a  montar  no  carro
para lev-lo a garagem, e deixou a Ethan e a Frances com  a  tarefa  de  que
aquele mostrasse a casa a Juliet. Frances, alegando cansao,  subiu  ao  seu
dormitrio, mas Ethan se sentiu lisonjeado de lhe mostrar o lugar.
      - Este  o salo e esse a sala de jantar - disse,  indicando  as  duas
portas fechadas a cada lado do escuro vestbulo. Passando as  escadas  havia
outra sala, esta com a porta aberta e, obviamente, mais  utilizada,  a  qual
chamou de salo traseiro. Um corredor curto se  cruzava  com  o  outro  mais
largo, como o trao de um t, e Ethan  indicou  que  seguissem  por  ele  
esquerda. - A cozinha est aqui, e pelo outro lado se vai ao  dormitrio  de
convidados. Suponho que  nele onde dormir.
      Juliet se dirigiu para a cozinha para dar  uma  olhada  ao  cmodo  no
qual  passaria a maior parte de seu tempo. Sentiu um  grande  alvio  quando
viu que era grande, bastante ensolarada, com dois janeles No  centro  havia
uma mesa de madeira com suas correspondentes cadeiras, em duas das  paredes,
vrios armrios e uma pia com a manilha de uma bomba de gua;  e,  dominando
toda a cozinha, um fogo a lenha que ocupava a  parede  oposta,  quadrada  e
feia, com uma gaveta cheia de lenha ao lado.
      Olhando o  cmodo  e  o  equipamento,  Juliet  pensou  que,  com  toda
segurana, tinha sido uma cozinha resplandecente e bem  abastecida.  Todo  o
contedo era de boa qualidade  e  indicava  orgulho  e  dinheiro.  Era,  sem
sombra de  dvidas, o cmodo em que os Morgan passavam a maior parte de  seu
tempo. Normalmente deveria estar  bem  cuidada.  Mas  a  cozinha,  limpa  na
aparncia, no estava como deveria. Os pratos  seguiam  sobre  a  mesa,  que
estava sem limpar. Chaleiras e panelas se  empilhavam  na  pia,  sujos.  Era
necessrio varrer o cho e, ainda mais necessrio, esfreg-lo  e  encer-lo.
Os vidros das janelas pareciam quase opacos, e havia teias  de  aranhas  nos
rinces do teto. As frigideiras penduradas dos ganchos junto  cozinha,  no
resplandeciam, mas sim se viam foscas. Juliet estava convencida de  que  no
era assim que Frances  tinha  cuidado  da  cozinha  no  passado.  Apesar  de
conhec-la pouco, Juliet  estava  segura  de  que  Frances  Morgan  era  uma
excelente dona-de-casa. Mas estava claro que nos  ltimos  tempos  s  tinha
podido ocupar-se do imprescindvel.
      Bom, ao menos  na  cozinha  sabia  por  onde  comear  pensou  Juliet,
enquanto tirava sua  capa  e  a  pendurava  de  um  gancho  perto  da  porta
traseira. Sorriu para Ethan.
      - Suponho que ser melhor que eu ponha mos  obra, verdade?
      Ele devolveu o sorriso.
      - Me alegro de que tenha vindo - deixou escapar; ento se ruborizou  e
voltou o rosto com acanhamento. - Suponho que eu tambm  deveria  retomar  o
trabalho. - Disse-lhe adeus com a cabea e saiu.
      Juliet o observou enquanto cruzava o ptio para o celeiro
      Perguntou-se como aquele  severo  e  desagradvel  Amos  Morgan  tinha
conseguido educar a um filho to simptico, aberto e carinhoso  como  Ethan.
Tambm se perguntou onde estava a me de Ethan. Certamente, ali no;  Juliet
sups que tinha morrido. Certamente viver com Amos Morgan seria a  morte  de
qualquer um.
      Enquanto olhava, Amos saiu  da  quadra  e  se  dirigiu  para  a  casa,
encontrando-se com seu filho no meio do caminho. Conversaram uns  instantes,
ou melhor, Ethan falava e Amos escutava,  observando  a  seu  filho  com  um
sorriso indulgente. Juliet  observou  que  seu  rosto  mudava  por  completo
quando olhava para Ethan; era bvio que amava muito a  seu  filho.  Jogou  a
cabea para trs e comeou a rir, e  Juliet  pensou  no  bonito  que  ficava
quando o amor e a risada apareciam em  seu  rosto.  Passou  um  brao  pelos
ombros de Ethan, lhe dando um abrao meio de lado, e se dirigiram juntos  ao
celeiro.
      Juliet voltou a concentrar-se na cozinha e comeou a trabalhar. Varreu
o cho subiu a uma cadeira para  tirar  as  teias  de  aranhas  dos  cantos.
Retirou os pratos da mesa. Bombeou gua,  encheu  a  frigideira  metlica  e
lavou e clareou os pratos. Continuando, viu que  tinha  chegado  a  hora  de
fazer o jantar. Henrietta tinha preparado para eles  um  almoo  a  base  de
sanduches que tinham comido na beira da estrada, mas tinha sido algo  leve,
e Juliet sabia que no tinha mais remdio que fazer  um  bom  jantar  aquela
noite. O que mais a horrorizava. A cozinha era seu ponto dbil.  Nem  sequer
sabia o que devia preparar, e muito menos como. Enquanto limpava, achou  uma
chaleira grande que certamente Ethan tinha tirado com  antecedncia.  Estava
cheio de feijes de molho. Encontrou a caixa do po e a  abriu.  Bem.  Havia
um po. Tinha um princpio de jantar. Mas que mais  tinha  que  preparar?  E
como devia cozinhar os feijes?
      Sabia  que,  em  geral,  os  feijes  deviam  ferver-se  muito  tempo.
Possivelmente deveria pr no fogo j. Juliet se  voltou  e  olhou  a  enorme
cozinha negra. Era, pensou, algo  sinistro.  Com  cuidado  se  aproximou  do
fogo, quase como se fosse uma criatura  animada.  Aproximou  uma  mo.  No
sentia calor algum. Tocou as pranchas metlicas: frias.
       Juliet  suspirou.  Ela  tinha  temido.  s  poucas  vezes  que  tinha
necessitado esquentar algo nas penses, o fogo j estava aceso, e  se  tinha
limitado a colocar a chaleira sobre ele e remover.
      Abriu as distintas portinhas  do  fogo;  dentro  da  maior  encontrou
cinzas, de modo que com toda segurana era essa onde devia acender  o  fogo.
Pensou em subir e pedir conselho a Frances. Mas no  gostava  da   idia  de
despert-la como no gostava  de mostrar sua ignorncia. Juliet decidiu  que
se arrumaria sozinha.
      Tirou uns pedaos de lenha da gaveta junto  cozinha e os empilhou  no
compartimento maior. No tinha nem idia de como devia pr a  lenha  nem  se
tinha colocado o suficiente... Ou muita. Juliet balanou os ombros,  colocou
umas lascas em cima, pegou um fsforo e acendeu o  fogo.  Quando  comeou  a
arder bem, fechou a portinha e esperou. Aps um momento viu  que  a  cozinha
estava se enchendo de fumaa.
      Juliet comeou  a  tossir.  Cada  vez  havia  mais  fumaa.  O  pnico
instalou-se nela e seu corao comeou  a  pulsar  com  fora.  Algo  estava
errado.
      Apressou-se at a porta e a abriu de par em  par  para  que  a  fumaa
sasse do local. Voltou-se preocupada e olhou o fogo a  lenha,  mordendo  o
lbio inferior. O que tinha feito  de  errado?  Pensou  nas  chamins  e  no
regulador de calor que, se no se abria, fazia com que o quarto se  enchesse
de fumaa. Possivelmente tambm a  cozinha  tinha  um  regulador  de  calor.
Correu at o fogo a lenha e  procurou  alguma  alavanca  que  acionasse  um
regulador. Tossiu vrias vezes, e os olhos lhe encheram de  lgrimas  devido
 fumaa. Por fim,  esquerda, perto da chamin do  fogo  que  expulsava  a
fumaa para fora, encontrou uma manilha. Puxou-a, e se ouviu um rudo.
      - Eureca! - exclamou e sucumbiu a um ataque de tosse.  Correu  para  a
porta e respirou profundamente  o  ar  fresco,  quando  o  ataque  de  tosse
diminuiu e  limpava as lgrimas dos  olhos,  voltou  a  olhar  ao  redor.  A
fumaa tinha deixado de sair da cozinha, e lhe pareceu que  o  ambiente  no
estava to carregado como antes.  Juliet  se  sentou  na  soleira  da  porta
suspirando e deixando que seus ps descansassem sobre  o  degrau.  At  esse
momento, seus esforos culinrios no estavam dando muito bom resultado.
      - Senhorita Drake? - Juliet se voltou e viu Frances de p  na  soleira
da porta. - O que ocorre? Pareceu-me cheirar a fumaa.
      Juliet se levantou de um salto e voltou a entrar na cozinha,  forando
um sorriso.
      - Temo que assim fosse. Fiz uma tolice; acendi o fogo  e  me  esqueci
abrir o regulador de calor.
      - Oh - assentiu Frances, lhe dirigindo um dbil sorriso.  -  Aconteceu
comigo  em algumas ocasies. - Dirigiu-se    mesa  e  se  sentou  numa  das
cadeiras.
      Juliet comeou a sentir-se  melhor  agora.  Possivelmente  conseguisse
tirar dela alguns conselhos culinrios.
      - Encontrei uma chaleira com feijes de molho, de modo  que  estava  a
ponto de pr no fogo.
      Frances assentiu.
      - Bem. Disse a Ethan que os preparasse; alegro-me de que se  recordou.
-Sorriu. - s vezes os meninos de sua idade so to desligados.
      - Sim... No estava segura de que horas devia ter o jantar preparado.
      - Em geral Amos e Ethan chegam do campo mais ou menos ao pr  do  sol.
Quando tm que plantar, s vezes ficam at um pouco mais tarde. Imagino  que
hoje chegaro pontuais. Certamente a  comida  leve  da  Henrietta  no  ter
enchido muito a Amos.
      - Voc tinha inteno de preparar alguma outra coisa?
      - Oh. Sim. H um pouco de presunto no frigorfico. Ia cortar em  cubos
para jog-lo nos feijes. E h batatas-doces no poro; poderia prepar-las.
      Juliet sorriu de orelha a orelha: um dos problemas resolvidos.  Ps  a
caarola com os feijes sobre a placa do fogo e  foi  ao  frigorfico  para
tirar o presunto. Cortou-o  em  cubos  e  o  adicionou  aos  feijes.  Estes
ferviam com fora e se perguntou se era bom que o fogo estivesse  to  alto.
Vagamente acreditou recordar que os  feijes  deviam  cozer  a  fogo  lento.
Olhou de esguelha para Frances e decidiu no perguntar.  Preparar  um  prato
de feijes era uma das coisas  mais  elementares  para  uma  cozinheira;  se
tinha que fazer perguntas, Frances se  daria  conta  imediatamente  que  no
estava qualificada para aquele trabalho.
      Juliet se alegrou de  que  Frances  tivesse  sugerido  fazer  batatas-
doces, pois at ela sabia que s teria que coloc-las um momento  ao  forno.
Tinha comido com freqncia preparadas daquela maneira.  Frances  lhe  disse
que descesse ao poro, um cubculo  pequeno  e  escuro,  escavado  na  terra
debaixo da casa, onde guardavam as  frutas  e  as  verduras  durante  longos
perodos de tempo,  cobertas  de  palha.  Juliet  encontrou  os  alaranjados
tubrculos e levou alguns  cozinha. Ali os lavou e os meteu no forno.
      Frances a olhou de forma um tanto estranha.
      - Vai ass-los j?
      Juliet se deu conta de que tinha metido os ps pelas mos.
      - Que tonta sou! - exclamou com ligeireza, enquanto agarrava  um  pano
de cozinha e se aproximava do forno para tir-las. -  muito cedo,  verdade?
No sei no que estaria eu pensando. Devo estar um pouco nervosa.
      Como saber quando devia coloc-los no forno?  Buscou  em  sua  memria
tentando recordar se alguma vez tinham mencionado  o  tempo  de  coco  das
batatas-doces. No era um tema de conversao muito habitual entre atores.
      - No h problema que fique nervosa - tranqilizou-a Frances.  -  Far
tudo  muito bem. No se preocupe com Amos;   um  co  ladrador,  mas  pouco
mordedor.
      A incredulidade deve ter refletido no rosto de Juliet, j que  Frances
ps-se a rir.
      - Falo a srio -  continuou.  -    um  homem  maravilhoso  embora  se
comporte de forma protetora comigo e com Ethan. No quer aceitar o  fato  de
que estou morrendo e  que ele nada  pode  fazer  para  impedi-lo.  E  bom...
Custa-lhe muito acostumar-se aos desconhecidos.
      - Estou segura de que  um bom homem. - De maneira nenhuma  ia  Juliet
discutir a respeito das virtudes de Amos com a irm. Sentou-se    mesa,  ao
lado de Frances.
      - Mas a senhora Morgan me disse que  muito exigente, e  eu  temo  que
no seja perfeita. A cozinha no  meu forte.
      Esta  a maior indireta do sculo, pensou.  No  gostava  de  mentir
para Frances; parecia uma mulher to agradvel, e  Juliet j  gostava  dela,
mas no podia admitir diante dela que tinha conseguido o emprego sob  falsas
pretenses.
      - No se preocupe - respondeu Frances tranqila. - Ningum espera  que
seja uma grande cozinheira. Afinal, voc   atriz  no  acredito  que  tenha
passado muito tempo cuidando de uma casa.
      Juliet sorriu. No sabia o que dizer; no se  atrevia  a  confessar  o
pouco que sabia de tais misteres.
      - O mais provvel ser  que  no  fique  muito  tempo  se  fazendo  de
governanta.
      -Oh, no - assentiu Juliet. - S preciso ganhar o dinheiro  suficiente
para retornar para casa.
      - E onde se encontra seu lar?
       Juliet duvidou uns instantes.
      - No estou muito segura. Suponho que em Nova  Iorque.  Ali  passei  a
maior parte de minha vida. Mas papai e  eu  viajvamos  muito;  no  tivemos
nunca um lar permanente, e, agora que ele morreu,  no  restam  parentes  em
Nova Iorque. Minha irm se mudou para a Filadlfia.
      - Tambm  atriz sua irm?
      - Ah, sim. Muito melhor que eu. Sempre desiludi a meus pais, que  eram
atores os dois, e depois os seguiu Clia; embora  eu...,  bom,  me  defendo,
ningum diria que sou uma grande atriz.
      - Imagino que deve ser uma profisso muito divertida - disse  Frances,
descansando o cotovelo sobre a mesa e apoiando o queixo  na  mo.  Tinha  um
olhar sonhador enquanto recordava alguma imagem pessoal. -  Cantar  to  bem
como voc, e ter um pblico  que  aplaude.  Viajar,  ir  a  toda  classe  de
lugares, fazer tantas  coisas  diferentes.  Eu  nunca  passei  de  Omaha,  e
certamente aquilo foi o mais divertido que fiz em minha vida.
      - Eu gosto de cantar - admitiu Juliet. - E  estupendo quando se  ouve
que todo mundo aplaude e aclama como na outra  noite  no  povoado.  Tenho  a
sensao de ter estado fazendo o mesmo durante sculos; no imagino  nenhuma
outra profisso. Mas o  de  viajar...  No  sei.  Viajei  toda  minha  vida,
sobretudo de cidade  em  cidade  nessa  costa,  e,  com  sinceridade,  estou
cansada. Sabe o que desejei ter sempre? Uma casa prpria.  Uma  bonita  casa
para cuidar e na qual pudesse ficar para sempre. Um lugar que nunca  tivesse
que abandonar depois de uma semana ou um ms. Um lugar onde pudesse fazer  o
que me desse vontade. - Dirigiu a Frances um sorriso  de  auto-desaprovao.
- Suponho que lhe parecero tolices.
      -  Absolutamente.  Parece-me  muito  bonito,  algo  que   todo   mundo
desejaria. - Frances lhe devolveu o sorriso. - Em  qualquer  caso,  no  lhe
parece que  gracioso o fato de que eu deseje ter  viajado  e  ter  visitado
outros lugares, enquanto voc o tem feito e o que  gostaria  era  ficar  num
lugar fixo?
      - Suponho que tem razo; todo mundo quer o que no possui.
      - Acredito que sim. - Frances emitiu um pequeno e lento suspiro. -  Se
no se importar, irei um momento ao salo. Estas  cadeiras  da  cozinha  so
to incmodas;  difcil encontrar uma boa postura.
      -  obvio que no me importa. Pode ir. -Juliet imaginou  que  qualquer
lugar em que Frances se sentasse nesses dias seria incmodo.  A  mulher  lhe
dava pena,
Frances ficou de p, e Juliet teve que  reprimir  seu  desejo  de  segur-la
pelo brao e acompanh-la. Intuiu que para Frances seria  como  uma  derrota
aceitar sua ajuda. Havia algo nessa famlia que denotava um enorme  orgulho,
o que resultava bvio ao ver as bocas severas e as costas erguidas; para  os
Morgan, o mundo era duro e eles tinham que s-lo ainda mais.
      - Se houver algo que eu possa fazer por voc... - ofereceu-se Juliet
      - No. Mas eu agradeo. Estarei bem. Voc segue com o jantar.
      Aps Frances partir, Juliet ps a mesa e depois provou os  feijes.  A
gua se reduziu o bastante, de modo que adicionou mais  e  se  perguntou  se
devia colocar algum condimento para que fossem mais saborosos.  Verificou  a
despensa em busca de alguma sobremesa e ficou encantada quando encontrou  um
pote com pur de ma.
      Ps o contedo numa caarola e acrescentou acar moreno e canela e  o
esquentou. O pegou ao fundo, mas tirou com cuidado as  partes  queimadas  ao
pass-lo a uma vasilha de servir.
      Adicionou um pouco de manteiga e o salpicou com canela.
      Os feijes realmente comeavam  a  ter  aspecto  de  estarem  cozidos,
pensou Juliet ao adicionar mais gua. Ao menos, a intensidade do fogo  tinha
baixado e j no ferviam com tanta fora. De repente recordou que no  tinha
colocado as batatas-doces no forno, de modo que as ps a toda pressa, com  a
esperana de no ter demorado em excesso.
       Quando comeou a escurecer l  fora,  Juliet  encontrou  uma  pequena
lamparina de querosene sobre uma mesa  estreita  na  entrada  e  a  acendeu.
Pouco depois os homens entravam pela  porta  de  atrs.  Mentalmente  Juliet
ficou firme. Tinha chegado a hora de sua primeira prova, a  prova  de  fogo.
Perguntou-se se depois do jantar  daquela  noite  seguiria  ainda  com  esse
emprego.
Captulo 3..
      Abriu-se a porta traseira e Ethan entrou, seguido de seu  pai,  Juliet
se voltou  e  lhes  sorriu  com  o  que  esperava  fosse  uma  expresso  de
segurana.
      - Ol
      O rosto do Ethan se iluminou ao v-la e ele tirou o chapu.
      - Ol. - Continuou olhando-a, com  um  sorriso  de  orelha  a  orelha,
enquanto retorcia a asa de seu chapu entre os  dedos.  -  Posso  ajudar  em
algo? - Olhou a seu redor, e viu a gaveta meio vazia de lenha.  -  Necessita
mais lenha? Quer que v procurar mais?
      - Sim,  muito amvel, obrigada.
      Atrs de Ethan, Amos pendurou o chapu no gancho junto    porta.  No
disse nada, mas seu olhar viajava de Ethan para Juliet, e  torceu  o  nariz.
Juliet observou sua expresso, estava segura de que  no  gostava  da  forma
com que Ethan a olhava.
      Juliet suspirou em seu interior. Sem  dvida  Ethan  se  apaixonou  um
pouco por ela. No era surpreendente. Os  homens  jovens  se  apaixonavam  e
desapaixonavam com facilidade, e certamente ela era uma das poucas  mulheres
que conhecia. Vivendo afastado, com um pai to  brusco  e  uma  tia  doente,
estava sem dvida necessitado  de  companhia.  Alm  disso,  tampouco  sabia
grande  coisa  sobre  a  arte  de  comportar-se  em  sociedade.   Com   toda
probabilidade se sentiria atrado por qualquer mulher  que  no  tivesse  um
aspecto horrvel e que fosse de uma idade prxima  sua.
      Ethan no era o primeiro jovem que ficou cativado por ela. Era um  dos
perigos do teatro.  Tinha  aprendido  bem  a  desanim-los  sem  ferir  seus
sentimentos. Poderia fazer o mesmo com Ethan sempre e quando seu pai no  se
metesse no meio.
      Ethan desapareceu para procurar a lenha, e Amos  foi  lavar  as  mos.
Pegou  a jarra e a levou  para  a  cozinha,  onde  introduziu  uma  chaleira
grande que colocava num pequeno depsito que  havia  na  parte  traseira  do
fogo. Deteve-se e se inclinou para olhar o interior do depsito.
      - Por que no est cheio de gua? - grunhiu.
      De modo que era para isso! Juliet tinha se  perguntado  anteriormente.
A gua esquentava com o calor da cozinha, e assim no tinha que  ficar  numa
panela a esquentar cada vez  que  algum  quisesse  lavar-se.  Juliet  tinha
vivido tempo suficiente em penses para saber quo desagradvel  era  lavar-
se com gua fria.
      - Sinto muito - disse imediatamente. -  Deveria  ter  colocado  quando
comecei a fazer o jantar.
      O olhar de Amos deixou claro que isso era o que deveria ter feito, mas
nada disse. Simplesmente voltou para o lavabo com a jarra e comeou a  lavar
o rosto  e as mos. Juliet afastou o olhar, incmoda ao ver um  desconhecido
fazendo algo to pessoal como aquilo. No teatro,  os  homens  sempre  tinham
camarins separados, e nas penses, ela e  seu  pai  dispunham  de  banho  no
quarto ou ela compartilhava  um  com  as  outras  mulheres.  Embora  tivesse
passado muito tempo em espaos fechados com outros  membros  do  grupo,  com
homens e mulheres dormindo com freqncia sentados em trens  e  diligncias,
viu que esta situao parecia mais ntima.
      Viveria na mesma casa com Amos Morgan durante  semanas,  possivelmente
por meses, preparando suas refeies,  limpando  sua  casa,  e  lavando  sua
roupa. Era uma situao preocupante, similar a de estar casada, e a idia  a
ps nervosa e fez com que  se  ruborizasse.  Menos  mal  que  tambm  estava
Frances.
      No    que  temesse  que  Amos  Morgan  fosse  seduzi-la.  Pelo   seu
comportamento estava segura de que era a  ltima  coisa  que  passaria  pela
sua cabea. Mas no seria correto que  vivessem  na  mesma  casa  sem  outra
mulher presente. E Juliet sempre havia tomado  cuidado  de  no  quebrar  as
normas sociais. Quando acabou  de  lavar-se,  Morgan  se  dirigiu  a  passos
largos para a porta traseira e jogou fora a gua suja.  Juliet  o  olhou.  O
cabelo que cobria os  lados  de  seu  rosto  estava  molhado  e  se  frisava
ligeiramente. Tinha a boca suave e bronzeada, e a pele firme se  afinava  ao
redor dos olhos onde apareciam ligeiras rugas. Juliet passou a  observar  as
mos dele. Estava com as mangas arregaadas e uma ampla zona de pele  ficava
descoberta, o negro plo colando-se midos a sua pele. Sentiu  uma  estranha
sensao no abdmen.
      Com celeridade Juliet ficou de  novo  a  tatear  com  as  panelas  que
estavam sobre o fogo. Viu que os feijes haviam voltado a  secar-se  e  que
estavam se desfazendo. Ao remover com uma colher longa de madeira,  observou
que uma substncia espessa ia separando do fundo  do  recipiente  ao  mexer.
Quando tirou a colher, viu uns feijes queimados pegados a ela.
      Rapidamente agarrou um pano  e  afastou  a  panela  do  fogo  aberto,
deixando-o depois num espao sobre o forno, onde o metal estava quente,  mas
no queimava. Continuando, abriu o forno com o pano para comprovar o  estado
das batatas-doces. Como  tinha  demorado  tanto  em  p-las,  no  tinha  se
preocupado de que se passassem. Mas viu horrorizada que estavam  muito  mais
assados de um lado que do outro. Na realidade,  um  lado  j  tinha  a  pele
negra.
      O fogo ficava depois da parede esquerda do forno, de modo que o  calor
era muito mais forte por aquele lado.  As  duas  batatas-doces  da  esquerda
estavam  quase  negras,  enquanto  que  os  da  direita  tinham   escurecido
ligeiramente. Com um suspiro tirou os tubrculos e os ps, tambm,  sobre  o
forno. Dado seu aspecto no restou dvida de que parecia assado.
      Ethan retornou  cozinha com um monto de lenha e  a  deixou  cair  na
gaveta situada junto ao fogo. Frances tambm desceu e ajudou Juliet  a  pr
a comida na mesa enquanto Ethan se lavava.  medida  que  Juliet  servia  os
feijes nos pratos, apareciam grumos queimados  que  ela  ia  extraindo  com
cuidado. Deu a volta s batatas-doce para que o lado enegrecido no  ficasse
exposto  vista e ps os mais feios no fundo da bandeja, com a  inteno  de
comer um daqueles. Ao menos a comida tinha bom aspecto. S o  que  precisava
na mesa era um vaso de flores ou algum enfeite que a alegrasse.  Estavam  no
comeo da primavera, de modo que logo seria poca de florao.
      Os quatro se sentaram  mesa. Um pouco surpreendida viu  que  os  trs
inclinavam a cabea, de modo que Juliet imitou com rapidez.  Frances  benzeu
a mesa e, continuando, levantaram a cabea e comearam a servir-se.  Comeram
em silncio, e s falaram para pedir entre eles algum objeto.  Para  Juliet,
acostumada  camaradagem dos atores, o silncio  parecia  quase  barulhento.
Os feijes estavam piores do que Juliet  tinha  imaginado  quando  provou  a
primeira colherada. Tinha deixado ferver durante tanto tempo  que  tinham  a
consistncia  de  grude.  Preocupada  levantou  a  vista  para  comprovar  a
expresso de  Amos.  Um  olhar  de  estranheza  passou  por  seus  olhos  ao
mastigar, e Juliet viu que tinha que faz-lo vrias  vezes  antes  de  poder
engolir. Soube que tinha topado com algum dos grumos que tinham  escapado  a
sua inspeo. Amos lhe  dirigiu  um  olhar  de  perplexidade,  e  Juliet  se
ruborizou.
      Imediatamente dirigiu sua  ateno  ao  prprio  prato  e  cortou  uma
batata-doce pela metade. Um lado estava duro como uma  pedra,  mas  o  outro
no estava mau. Percebeu que Amos e Frances tambm deixavam parte da batata-
doce, embora Ethan conseguisse  comer  a  sua  por  inteiro.  No  sabia  se
pretendia ser educado ou que, como a muitos meninos de sua idade, era  capaz
de comer qualquer coisa que lhe pusessem no prato. Por sorte, Amos  no  fez
comentrios a respeito do jantar. Conversou  um  pouco  com  Ethan  sobre  a
granja e o que tinha ocorrido em sua ausncia de dois  dias  e  perguntou  a
Frances como se encontrava depois da viagem.
      Juliet sentiu que a olhava uma ou duas vezes, mas no  lhe  dirigiu  a
palavra. Frances subiu para seu quarto to logo acabou de comer,  mas  Ethan
demorou um pouco, agradecendo a Juliet pelo jantar (embora no  pensasse  em
mentir o suficiente para dizer que estava bom)  e  para  fazer  perguntas  a
respeito dos lugares que ela tinha visitado e as  coisas  que  tinha  feito.
Tambm Amos ficou, embora no  participasse  absolutamente  da  conversao.
Limitou-se a fumar seu cachimbo enquanto observava a Ethan e Juliet.
      - Ethan, ainda restam algumas tarefas por fazer - disse depois  de  um
momento, ficando em p.
      - Oh. - O rosto de Ethan se entristeceu, mas tambm se levantou. -  De
acordo. Boa noite, senhorita Drake.
      - Boa noite, Ethan.
      Desanimada, Juliet arranhou e esfregou os pratos. Quando acabou estava
esgotada e tinha a sensao de que as costas se quebrariam pela metade.  No
recordava ter estado alguma vez to cansada fisicamente. E nem sequer  tinha
trabalhado o dia inteiro! No queria pensar no que  seria  o  dia  seguinte,
com duas refeies para preparar.
      Arrastou-se ao quarto que Ethan havia dito seria  a  seu.  Amos  tinha
deixado o ba e a bolsa nele. Ficou uns instantes  de  p,  olhando  ao  seu
redor. Era um  quarto pequeno, triste e vazio,    exceo  de  uma  pequena
cama de carvalho, um lavabo e uma cmoda. No havia chamin nem estufa, e  o
ambiente, com aroma de umidade por causa dos meses que estava  fechado,  era
frio mesmo naquela noite de primavera.
      Disse a si mesma que ficaria muito mais agradvel assim que desfizesse
as malas, mas estava difcil reprimir as  lgrimas.  Naquele  momento,  tudo
lhe parecia horrvel. Estava to cansada que at pensou em jogar-se sobre  o
colcho diretamente e dormir  sem  incomodar-se  em  pr  os  lenis  e  as
mantas.
      Mas no podia permitir-se  por  mais  cansada  que  estivesse;  assim,
animou-se e foi ao armrio da roupas que se encontrava  no  corredor.  Pegou
um jogo de lenis e um edredom e retornou a seu dormitrio; mas  quando  ia
entrar, ouviu umas fortes pisadas no corredor, a suas costas.
      - Senhorita Drake - disse Amos.
      O que ocorre agora? voltou-se, preparada para o pior. Ele  a  seguiu
dentro do quarto e ali se deteve ameaador.
      Juliet estava segura de que tentava intimid-la, e a ira que sentiu ao
pensar nisso lhe deu novas foras. No se  intimidou  e  se  limitou  a  lhe
devolver o olhar.
      - Senhor Morgan? - respondeu ela com frieza.
      - Quero deixar uma coisa clara. Deixei-a vir porque Frances me  pediu.
Mas no permitirei que seduza a esse menino. Se o fizer, se lhe  fizer  mal,
juro-lhe que...
      - No seja ridculo! - replicou Juliet, os nervos  flor da pele.
      - No estou sendo ridculo. J o tem meio encantado. Vi a forma como a
olhava durante o jantar, e vi como passou a tarde olhando os animaizinhos.
      - Isso no  minha culpa porque nada fiz. Todos os meninos jovens  so
namoradeiros. Creia-me, logo passar.
      - Oh - seu tom de voz estava impregnado de ironia,  -  sabe  tanto  de
meninos de dezesseis anos?
      - Conheo bem suas teimosias com mulheres mais velhas. Vi  a  mais  de
um como Ethan brincando de correr pelas portas do teatro.
      - Estou seguro de que sim.
      - O que quer dizer com isso? - perguntou Juliet irada.
      - Que tem experincia, o que outra coisa quereria dizer? - To somente
o tom em que pronunciava as palavras era um insulto.
      - Como se atreve a me julgar? - A voz de Juliet tremia de ira.  -  No
sabe nada a respeito de mim nem da vida que levei. Pois bem, vou  dizer  uma
coisa: sou to honrada como qualquer mulher que voc  possa  conhecer.  Tive
uma me e um pai que me ensinaram a distinguir entre o  bem  o  mal.  E  no
preciso me desculpar nem me justificar diante de voc! Voc no tem  direito
de entrar em meu quarto e me acusar da inteno de seduzir a seu filho!
      Amos a olhou fixamente.
      - No sei se o tentar ou no; tem razo. Mas vejo  como  se  comporta
Ethan quando est perto de voc. Sei o fcil que seria  apaixonar-se  por...
o fcil que seria para voc apanh-lo. No   um  segredo  para  uma  mulher
bela enganar a um menino do povo.
      Ela estendeu as mos para ele em um gesto de sinceridade.
      -  Senhor  Morgan,  asseguro-lhe  que  no  faria  nada  que   pudesse
prejudicar a Ethan. Espero que acredite.
      Amos duvidou, olhando-a nos olhos.
      - Eu...  muito fcil acreditar em voc - disse com voz rouca.  -  Por
isso voc  to perigosa.
      - Eu? Perigosa? - Juliet se ps a rir.
      - Sim voc. Poderia arrancar o corao de um homem se ele cometesse  a
insensatez de apaixonar-se. - Suas palavras eram duras  e  amargas,  mas  se
percebia certo desejo em seu tom de voz. Respirou fundo e se  voltou.  -  Se
me comportei mal com voc, sinto muito. Mas no posso  permitir  que  ocorra
nada a Ethan.
      -    certo  que  pareo  agradar  a  Ethan  -  respondeu  Juliet  com
tranqilidade. - Mas passar. Farei todo o possvel  para  que  assim  seja.
Mas tenho que faz-lo pouco a pouco, no quero feri-lo.
      Voltou-se para ela e a olhou de forma inquisitiva.
      - Assegure-se disso.
      Com essas palavras saiu do dormitrio.
       Juliet  relaxou  com  um  suspiro.  A  energia   proporcionada   pela
indignao desapareceu de repente, e ela se sentiu dbil e  esgotada.  Cheia
de cansao, fez a cama, colocou uma camisola e se deitou, sem nem sequer  se
incomodar em escovar o cabelo como estava acostumada a fazer. Afundou-se  no
colcho de plumas e adormeceu quase imediatamente.
      Um rudo despertou Juliet de repente. Piscou meio adormecida e confusa
ainda, quase sem saber onde estava ouviu umas fortes  pisadas  que  passavam
diante de sua porta e o grunhido de uma voz masculina. Levantou-se  enquanto
tentava ordenar seus pensamentos recordando em que lugar estava e  por  que.
Mas isso no esclareceu por que Amos e Ethan estavam acordados e falando  de
madrugada. Pensou se teria ocorrido algo a Frances.
      Levantou-se da cama, tremendo ao sentir o frio  cho  de  madeira  sob
seus ps, e se dirigiu para a janela. Estava muito escuro, e  s  se  via  o
resplendor das longnquas estrelas. Olhou para o  celeiro,  ao  norte.  Dois
homens, escuras sombras na noite, foram para ali  com  uns  baldes.  Amos  e
Ethan no se levantaram  por  uma  urgncia.  Parecia  que  se  dispunham  a
iniciar a jornada de trabalho.
      Juliet grunhiu incrdula e se deixou cair sobre a cama, fechando  logo
os olhos. Estava acostumada ao  horrio  dos  atores,  que  trabalhavam  at
tarde e se levantavam tarde tambm no dia seguinte; assim tinha vivido  toda
sua vida.
      Mas se Amos e Ethan  estavam  trabalhando  j,  sem  dvida  quereriam
comer algo e Juliet teria que ir preparar-lhes o caf  da  manh.  Apertando
os dentes, obrigou-se a deixar a cama e  desabotoou  a  camisola.  Vestiu-se
com gestos lentos, bocejando com tanta fora que em algum momento  acreditou
que se desencaixaria a sua mandbula, uma vez que fazia desonestos  esforos
por manter os olhos abertos. Por fim estava vestida,  embora  no  se  desse
conta de que mal abotoou a multido de pequenos botes da  camisa,  de  modo
que tudo ficou fora de lugar, com um lado do pescoo mais alto que o outro.
      Sentou-se na beira da cama para colocar as meias e amarrar os sapatos.
Quando estava pondo a primeira meia, comeou a inclinar-se para um lado  at
que, de repente, o rudo da porta traseira ao fechar a despertou.  Oh,  no!
Havia cado adormecida! Juliet se levantou de um salto, colocou  rapidamente
a outra meia e  logo  os  botas  de  cano  longo,  que  amarrou  s  at  os
tornozelos.
      - Senhorita Drake? - Ouviu a voz bonita de Ethan na cozinha. Agradeceu
que fosse ele e no seu pai quem havia encontrado tudo s escuras e o  fogo
frio.
      Como um raio cruzou o corredor at a cozinha, tentando freneticamente,
pr em ordem seu cabelo. Na noite anterior no tirou os  grampos,  e  estava
segura de que lhe caam mechas por todos os lados, mas no  tinha  tempo  de
se arrumar e fazer o coque outra vez.
      Juliet entrou  apressadamente  na  cozinha.  Ethan  tinha  acendido  a
lamparina de petrleo e a tinha colocado sobre o suporte.  Agora  permanecia
duvidoso ao lado da porta.  Pareceu sentir-se aliviado ao v-la.
      - Aqui est!  -  sorriu.  -  J  recolhi  os  ovos.  -  Fez  um  gesto
assinalando um cesto que estava sobre o mrmore.
      - Obrigada. Sinto muito. No estou acostumada a me levantar to  cedo.
-Distrada alisou o cabelo em um gesto instintivo.
      - Ns seguimos o  horrio  dos  granjeiros  -  explicou-lhe  Ethan,  -
Sobretudo durante a poca de semear, necessitamos todas as  horas  possveis
de luz solar.
      - Claro.
      - Quer que acenda o fogo? - ofereceu-se Ethan.
      - Por favor. - Juliet se sentiu muito  aliviada.  Teria  uma  coisa  a
menos que fazer antes que Amos retornasse, esperando  encontrar  o  caf  da
manh feito;  e  possivelmente  Ethan  acenderia  o  fogo  corretamente,  ao
contrrio do que ela tinha feito na noite anterior.
      Ethan se dirigiu para a cozinha e tirou as cinzas, preparou a lenha  e
acendeu o fogo. Juliet, ainda meio atordoada de sono,  movia-se  muito  mais
lenta pela cozinha e a despensa: tirou a cafeteira e a  frigideira,  bombeou
gua, procurou o caf  e a aveia na despensa... Decidiu  preparar  algo  que
j tinha feito alguma que outra vez: papa de aveia.
      Dessa maneira no cometeria enganos. Ethan ficou de  p,  limpando  as
mos.
      - O fogo est preparado. - Olhou para Juliet, depois ao seu  redor,  e
continuou a contra gosto. - Bom, ser melhor que volte para  celeiro.  Papai
se zangar se no acabar o resto de minhas obrigaes.
      Juliet lhe sorriu, pensando em como ele era agradvel,  to  diferente
de seu pai.
      - Obrigada.
      - De nada.
      Juliet ps a cafeteira sobre o fogo, e  gua  numa  chaleira  para  a
papa de aveia. Fazia tempo que no a fazia, e ps muita gua, de  forma  que
quando Ethan e Amos chegaram vinte minutos mais tarde, dispostos a  tomar  o
caf da manh, a papa estava muito lquida.
      Ethan tirou a jaqueta, pendurou-a num dos ganchos  junto    porta,  e
farejou elogiosamente.
      - Hummm. O caf cheira bem.
      Amos tambm comeou a tirar a  jaqueta;  mas,  de  repente  se  deteve
olhando o peito. No se tinha posto camisa; sob o  macaco  de  trabalho  s
levava  uma  camiseta  de  manga   larga   de   um   vermelho   descolorido.
Evidentemente no estava acostumado  a  vestir-se  por  completo  quando  se
levantava para fazer as primeiras tarefas. Limitava-se a ficar   o  macaco,
e a jaqueta em cima.
      Clareou a garganta e deixou que a curta jaqueta voltasse a cobri-lo.
      - Subirei para me lavar. - dirigiu-se para o corredor. - Vamos, Ethan.
      Ele se voltou, embelezado.
      - Por que...?
      Seu pai lhe dirigiu um rpido olhar, e Ethan  no  terminou  a  frase.
Limitou-se a encolher os ombros e seguiu a seu pai.
      Juliet voltou junto ao fogo para remover a papa, desejando  com  toda
sua  alma  que  engrossassem.  Dispunha  pelo  menos  uns  minutos  mais  de
cozimento enquanto os homens se lavavam e se vestiam.  Enquanto  revolvia  a
aveia pensou na vergonha que Amos tinha passado  ao  ver-se  sem  camisa,  e
sorriu. Mas ento recordou o aspecto que ela devia ter. Apalpou o cabelo  e,
ao  faz-lo,  olhou  sua   blusa.  Viu  que  todos  os  botes  estavam  mal
abotoados, fazendo com que a blusa ficasse torcida, e se ruborizou.
      Rapidamente, Juliet voltou a fechar os botes e, diante de um  pequeno
espelho colocado sobre o lavabo,  tentou  alisar  o  cabelo  e  prend-lo  o
melhor possvel.
       Afastou a vista do espelho, franzindo o cenho, ao perceber  um  aroma
estranho. Sobressaltada, deu-se conta que o aroma de  queimado  procedia  da
chaleira de papa de aveia, e correu para  o  fogo.  Bom,  a  aveia  j  no
estava muito lquida, pensou friamente. Pegou-se ao fundo,  e  o  resto  era
uma massa espessa. Afastou rapidamente a chaleira do fogo e serviu a  papa.
Estava pondo os pratos sobre a mesa quando Ethan e Amos entraram, agora  com
camisa sob o macaco.
      Os homens se sentaram  mesa. Amos observou com olhar crtico o  prato
de papa de aveia, mas nada disse; limitou-se a agarrar a colher e comear  a
comer. Juliet serviu o caf e tambm se sentou   mesa.  Quando  o  fez,  os
dois homens tinham terminado j.
      Amos levantou a vista do prato e olhou a mesa.
      - Que mais h?
      - Que mais? - repetiu Juliet, sentindo uma grande consternao.
      - Para tomar o caf  da  manh.  Comida  -  explicou  ele  impaciente,
olhando-a como se fosse uma retardada mental.
      - Eu... bom, isto  tudo o  que  preparei.  No  sabia  que  quereriam
mais... -Sua voz se foi apagando enquanto  pensava,  freneticamente,  o  que
outra coisa podia lhes dar de comer.
      - Eu estou cheio  -  assegurou-lhe  Ethan  com  um  sorriso,  tentando
ajudar. - No se preocupe.
      Amos o olhou de forma suspeita.
      -  a primeira vez que fica cheio com um prato de papa.
      O rosto de Ethan avermelhou, mas encolheu os  ombros,  evitando  olhar
diretamente a seu pai.
      - No tenho muita fome esta manh.
      Amos emitiu um grunhido de incredulidade e se dirigiu a Juliet.
      -  Frances  est  acostumada  a  preparar  ovos  e  toucinho  ou  umas
salsichas. E bolachas.
      O rosto do Juliet se iluminou.
      - Gosta de um pouco de po? Posso cortar umas fatias.
      Levantou-se de  um  salto,  tirou  um  po  e  o  ps  sobre  a  mesa,
acrescentando um pote de gelia de ameixas que encontrou na  despensa  e  um
pouco de manteiga do frigorfico. Amos cortou uma fatia de po, o untou  com
manteiga, e a comeu. Juliet observou que  Ethan,  apesar  de  sua  falta  de
apetite, conseguiu comer trs fatias.
      Amos bebeu de seu caf e pareceu surpreender-se.
      - Est bom!
      - Obrigada. - Juliet pensou que  no  era  mal  que  se  surpreendesse
tanto. Afinal, no era culpa dela que as pessoas  do  campo  pareciam  comer
igual a cavalos, alm de levantar-se a meia  noite  para  ir  trabalhar.  Ao
menos poderiam t-la avisado.
      Amos se serviu de uma segunda xcara de caf, a bebeu  depressa  e  se
levantou.
      -  hora de ir, Ethan. Os campos no se plantam sozinhos enquanto  ns
estamos aqui.
      Ethan ficou de p.
      - J vou, papai. - Com a cabea  fez  um  gesto  a  Juliet.  -  Adeus,
senhorita Drake.
      - Adeus, Ethan.
      Amos tambm fez um gesto com a cabea. Mas ficou ali olhando pra  ela.
Juliet lhe devolveu o olhar.
      Amos arqueou as sobrancelhas. Olhou o mrmore da cozinha, a mesa e  de
novo a ela.
      - Nosso almoo?
      - O almoo?
      - Estamos acostumados a levar um cesto com a comida  para  almoar  no
campo. Assim economizamos tempo.
      - Oh. Sinto muito.  Eu...,  no  estou  acostumada  a  trabalhar  numa
granja. O que gostam?
      - Frances nos prepara bolachas e embutido ou  sanduches  do  toucinho
frito que sobra do caf da manh - respondeu Amos.
      - Oh. - Juliet comeou a sentir-se invadida pelo pnico.
      - Ficou um pouco de presunto de  ontem    noite?  -  perguntou  Ethan
amvel. - Possivelmente poderamos pegar um pouco e  acompanh-lo  com  umas
fatias de po. Isso estaria bem, verdade, papai?
      Agradecida, Juliet correu  geladeira e tirou os restos  de  presunto.
Havia ficado o suficiente para uma refeio.  Amos  o  cortou  enquanto  ela
tirava mais po e procurava desesperada na despensa algo que  acrescentar  
comida. Encontrou um pote pequeno de pepinos japoneses e outro  que  parecia
mas em calda de acar, de modo que os juntou com  o  po  e  o  presunto,
colocou tudo em um cesto e cobriu com um  guardanapo.  Ethan  ps  gua  num
recipiente de barro e o tampou com uma cortia. Amos pegou  o  cesto,  e  os
dois homens saram da cozinha.
      Juliet se afundou numa das poltronas com um suspiro de alvio.  Graas
a Deus partiram!
      Depois da partida de Amos  e  Ethan,  Juliet  considerou  a  idia  de
voltar para a cama. O que mais desejava era cobrir-se com as mantas  e  cair
na inconscincia do sono. Entretanto havia pratos por limpar,  e  tinha  que
esfregar o cho da cozinha. Depois do fracasso da manh,  seria  melhor  que
fizesse algo para convencer a Amos Morgan de que sabia fazer as  tarefas  da
casa.
      De modo que Juliet se levantou com dificuldade da cadeira e  mudou  os
pratos sujos da mesa para a pia, onde os lavou  e  os  secou.  Ao  terminar,
pegou um balde, e o encheu tanto de gua que quase no o podia  levantar  do
tanto que pesava. Ficou uns instantes olhando o balde. Certa de que  no  se
fazia assim, pensou  Juliet.  Deveria  utilizar  algo  mais  que  gua  para
esfregar o cho.
      Agarrou o grosso pedao de sabo desinfetante da pia da  cozinha  e  a
meteu na gua, esfregando-a com as mos para que fizesse  espuma.  Quando  o
balde estava cheio de sabo, introduziu a escova  e  comeou  a  esfregar  o
cho de joelhos. Comprovou que usar a escova resultava um trabalho  lento  e
cansado, de modo que esfregou s as partes mais  sujas.  A  seguir  utilizou
uma vassoura, que encontrou na  despensa,  para  limpar  o  resto  do  cho.
Quando acabou, o cho estava empapado - na prxima vez escorreria  melhor  a
vassoura - e coberto de espuma de sabo.
      Juliet jogou a gua suja e encheu o balde com gua limpa.  Afundou  de
novo a vassoura na gua e comeou a  clarear  o  cho.  Mas,  estranhamente,
pareceu que as borbulhas foram aumentando  medida que jogava gua no  cho,
e depois de umas poucas esfregadas, a gua do  balde  estava  to  cheia  de
sabo como a do cho. Viu-se obrigada a trocar de novo a gua.
      Frances desceu pelas escadas e se deteve na porta  da  cozinha.  Olhou
embelezada o cho, ainda coberto de borbulhas de sabo.  Juliet  sentiu  que
se ruborizava.
      - Quer tomar o caf da manh? - perguntou-lhe, fazendo caso omisso  da
situao do cho.
      - No. No importa. Tenho o estmago um  pouco  alterado  esta  manh.
Eu... bom... pensei que poderamos comear hoje uma  limpeza  a  fundo.  Tem
razo; ter que esfregar primeiro o cho da cozinha. Quando  tiver  acabado,
possivelmente possamos seguir com o cho dos outros cmodos.
      Juliet concordou, forando um sorriso. Mais cmodos? Deus  Santo,  no
acabaria nunca!
      - De acordo. Espere que eu limpe isso.
      - Estarei no salo da frente.
      Ao partir Frances, Juliet atacou o  cho  com  fria,  jogando  vrios
baldes de gua limpa  diretamente  ao  cho  e  tirando-a  com  a  ajuda  da
vassoura pela porta de atrs. A que no saiu pela  porta  se  filtrou  pelas
gretas do cho de madeira. A seguir agarrou uma toalha e, agachada, secou  o
que faltava de gua e sabo. Os braos lhe doam tanto que tinha a  sensao
de que cairiam. Quase desejava que aquilo ocorresse.
      Esgotada, foi em busca  de  Frances.  A  mulher  estava  no  salo  da
frente, um dos cmodos que permanecia fechado  e  que  ficava  num  lado  do
corredor. Frances tinha subido em um tamborete e desprendia uma das  pesadas
cortinas de veludo verde; a luz do sol alagava a sala.
      Era uma bela sala, cheia de elegantes mveis de mogno. O  sof  estava
estofado com um rico veludo verde escuro, igual a  uma  das  poltronas.  Nas
outras duas cadeiras  de  respaldo  alto  luziam  umas  almofadas  bordadas.
Tambm havia um tamborete bordado para os ps.  Tanto  as  cadeiras  como  o
sof tinham finos adornos de croch, e pequenas toalhas de croch  adornavam
as mesinhas. Algum tinha se preocupado muito pela decorao  daquela  sala;
e tambm gasto muito  dinheiro.  Juliet  se  perguntou  quem  teria  sido  o
responsvel. A esposa de Amos, possivelmente? O  que  tinha  acontecido  com
ela? E por que tinham agora o salo fechado e no o usavam?
      - J tirei o p dos mveis - disse Frances. - O p se acumula  de  uma
forma  terrvel  aqui.  Tento  limpar  ao  menos  uma  vez   ao   ms,   mas
ultimamente... -encolheu os ombros, a voz desvanecendo-se.
      -  uma sala preciosa. - Juliet foi ajudar a ela com  as  cortinas.  -
Por que est fechada agora?
      - No a usamos - respondeu Frances seca. - Para que  vamos  incomodar-
nos de pr calefao aqui?
      Era uma resposta prtica, certamente, mas Juliet no entendia por  que
quereriam ter mveis to belos se no desfrutavam  deles  nem  utilizavam  a
sala.
      Depois de descer as pesadas  cortinas,  penduraram-nas  l  fora  para
sacudi-las e tirar o p; em seguida voltaram a  coloc-las.  Depois,  Juliet
tirou fora os dois enormes tapetes e os sacudiu  tambm  para  tirar  o  p.
Depois de deix-los pendurados fora, varreu e esfregou o  cho  da  sala  de
jantar e do salo.
      Era um trabalho duro, e Frances se cansou logo,  de  modo  que  Juliet
insistiu em que repousasse um pouco enquanto ela continuava  com  a  tarefa.
Mais tarde, uma vez Frances  tendo  dormido  a  sesta,  Juliet  a  ouviu  na
cozinha preparando o jantar. Juliet se sentiu aliviada.  Limpar  os  cmodos
da casa podia ser fisicamente exaustivo, mas  ao  menos  era  algo  que  ela
sabia fazer.
      Quando terminou o cho, ps os  tapetes  de  novo  e  se  dedicou  aos
mveis da sala de jantar, encerando a mesa de mogno e os  armrios  at  que
resplandeceram, era uma formosa sala,  pensou,  do  elegante  candelabro  de
cristal at os pratos de porcelana e os  copos  que  decoravam  o  aparador.
Parecia uma idiotice manter fechada aquela  sala.  Obviamente,  Amos  Morgan
no apreciava em absoluto a beleza,  j  que,  se  fosse  assim,  utilizaria
aquela sala.
      Ao abrir  uma  das  portas  do  armrio  de  mogno,  encontrou  grande
quantidade de objetos que a  fizeram  conter  a  respirao.  Naquele  mvel
havia um verdadeiro tesouro!
      Ao fundo viu uma bandeja de prata e um servio  de  ch,  sem  brilho,
mas de evidente qualidade. Diante dela havia dois elegantes  candelabros  de
cristal muito trabalhados,  cujas  respectivas  bases  eram  uns  detalhados
golfinhos.  Encontrou  tambm  um  pequeno  relgio  dourado,  um  delicioso
retrato em miniatura, uma cestinha feita com conchas marinhas, e um peso  de
papel de cristal millefiori com um resplandecente buqu  de  flores  rosa  e
azuis no fundo.
      Cuidadosamente tirou as peas  uma  por  uma  e  as  colocou  sobre  a
cmoda. Com os dedos acariciou os candelabros e o peso de  papel,  sua  alma
reconfortada por aquela beleza.
      Estava to abstrada que nem sequer ouviu as  fortes  pisadas  que  se
aproximavam pelo corredor at que uma voz forte  e  irada  a  tirou  de  seu
sonho.
      - Maldita seja, mulher, que demnios faz aqui?
Captulo 4.
      Sobressaltada, Juliet deu um pulo afastando a mo  do  peso  de  papel
como se queimasse, e se voltou para  aquela  voz.  Amos  Morgan  se  achava,
ameaador, na porta, olhando-a com expresso feroz, os negros  olhos  cheios
de ira. Tinha um aspecto to temvel que inconscientemente Juliet levou  uma
mo  garganta e retrocedeu uns passos.
      - Senhor Morgan - disse tremendo. - Assustou-me.
      - Que demnios faz aqui? - repetiu ele, ignorando suas palavras. - No
toque nessas coisas. Guarde-as.
      - O que?
      - Disse para guardar essas coisas. E deixe tudo como estava.
      - Mas, senhor  Morgan...  -  Juliet  abriu  os  braos  num  gesto  de
estranheza. - So uns objetos preciosos.  uma pena os  ter  sob  chave  num
armrio. Deveriam estar expostos, para que todo mundo os visse.
      - Voc no  quem vai me dizer o que devo  fazer  com  minhas  posses.
Quero que tudo isto permanea no armrio.
      Juliet piscou.
      - Por qu?  preciso dar brilho a este jogo de ch;  ficaria  perfeito
sobre o aparador. E o peso de papel tambm  muito belo.
      - E voc, imagino,  uma perita no tema dos peso de papis -  replicou
ele com ironia.
      - De fato, sei um pouco de arte. Meu pai  era  um  grande  amante  dos
objetos belos. Ele me ensinou...
      -  No  me  importa  que  seja  uma  grande  entendida  na  matria  -
interrompeu-a. - Estes objetos no so seus, e nenhum direito tem  de  fuar
por aqui...
      - No estava fuando - respondeu Juliet acalorada. - Estava  limpando,
e quando vi estes objetos, tirei-os porque so  muito  belos,  pensando  que
no deveriam estar trancados.
      - Fuando - repetiu ele, seco. - Estava simplesmente  fuando.  No  o
permitirei. Estes objetos permanecero  a  dentro,  e  no  quero  discutir
mais.
      Juliet ficou boquiaberta.
      - Que razes o levam a manter sob  chave  uns  objetos  to  belos?  A
finalidade da arte no  permanecer oculta.
      - No  assunto seu. Agora limite-se a fazer o  que  mandei  e  guarde
tudo isso.
      O dono era quem mandava, e Juliet sabia que deveria obedecer.  Afinal,
os objetos eram dele, e tinha todo o direito do mundo  a  mant-los  ocultos
se assim quisesse. Mas aquela reao tinha enfurecido a Juliet, e  no  pde
reprimir o desejo de seguir a discusso.
      - No entendo por  que...  -  Mas  nesse  momento  o  entendeu,  e  se
interrompeu na metade da frase. - Claro. Deviam pertencer  me de Ethan.
      - A me de Ethan! - rugiu ele, arqueando as  sobrancelhas.  -  De  que
demnios est falando?
      - Trata-se disso, verdade? - Juliet se sentia bastante satisfeita  por
ter  adivinhado. Eram compreensveis as estranhas reaes de  Amos.  -  Di-
lhe muito ver suas coisas pela casa.  por isso?
      - No! - pronunciou a negao em voz to alta, de forma to explosiva,
que Juliet pensou que era um milagre que a casa inteira no casse. - O  que
lhe ocorre? O que a faz pensar que tem direito a  imaginar  toda  classe  de
fantasias loucas referentes a mim ou a meu filho? A me de  Ethan  nada  tem
que ver com tudo isso. Nem com nada! No  que  se  refere  a  ele,  ela  est
morta.
      Morta. Que forma to estranha de diz-lo! Juliet se  perguntou  o  que
significaria aquela afirmao. Ento se preparou  para  enfrentar-se  a  sua
ira.
      - Essa no  razo para que no exiba suas  coisas.  Opino  que  Ethan
merece desfrutar dos objetos que sua me amava tanto.
      - No so seus - espetou ele. - Ela no  teria  o  gosto  de  am-los.
Pertenciam a minha me, j que insiste em saber tudo.
      - Sua me? Ento estou  segura  de  que  voc  gostaria  de  desfrutar
deles. Imagino que deve produzir-lhe certa felicidade ver  suas  coisas,  em
especial quando se trata de objetos to belos.
      - No me importa o que voc imagine, senhorita Drake. - Parecia  estar
a ponto de estalar. - A realidade    que  nada  tm  a  ver  com  voc  nem
tampouco com minha me, nem qualquer outro membro  de  minha  famlia.  Voc
no tinha o direito de entrar aqui e tirar esses objetos  do  aparador.  No
tinha direito a abrir essa sala.
      - Acreditava que tinha vindo a  este  lugar  para  cuidar  da  casa  -
respondeu Juliet. - Estava limpando  os  sales.  Mas,  com  franqueza,  no
entendo por que no mantm abertas as salas. O que ocorre?  Entra  a  luz  e
so alegres, alm de muito belas, as salas mais bonitas de toda a casa.
      -  muito difcil esquentar toda a casa -  grunhiu  ele.  -  E  o  sol
danifica os mveis se deixarem abertas as cortinas.
      Juliet o olhou com a boca aberta.
      - De modo que, para proteger os mveis, deixa as cortinas e  mantm  a
sala fechada. Que sentido tem conservar os mveis, ento, se ningum os  vir
nem desfrutar deles? Quanto  calefao,  bom,  possivelmente  seja  um  bom
argumento em pleno inverno, mas agora  primavera.
      - Maldita seja! - explodiu Amos. - No  pode  obedecer  a  uma  ordem?
Disse-lhe que fechasse estas salas. Isso   o  que  quero.  E  guarde  todos
esses objetos. Ficou claro?
      Juliet bufava de clera. Mas  sabia  que  nada  podia  fazer.  Afinal,
trabalhava para ele, que, como o dono que era, tinha direito a decidir  como
se utilizavam s habitaes da  casa  e  em  que  lugar  se  guardavam  suas
coisas.
      - Como queira - disse ela  com  frieza  enquanto  se  dirigia  para  o
aparador. Abriu a porta e colocou de novo dentro todos os objetos que  tinha
tirado.
      - Eu farei isso - disse Morgan com tom seco, e cruzou a sala.  -  Ser
melhor que voc v ocupar-se do jantar. Frances est cozinhando, e  tenho  a
impresso de que voc se encontra nesta casa para lhe economizar trabalho.
      Juliet retrocedeu uns passos, ferida pela injustia de suas  palavras.
Tinha trabalhado como uma escrava todo o dia, e Amos se comportava  como  se
ela no cumprisse com suas obrigaes. Estava muito zangada para  falar,  de
modo que deu meia volta e saiu da sala.
      Entrou irada  na  cozinha,  onde  Frances,  sentada    mesa,  cortava
batatas para o jantar.
      - Cus! - exclamou Juliet. - No h quem entenda esse homem. - sentou-
se ao outro lado da mesa, em frente de Frances. - J sei que    seu  irmo,
mas... como consegue manter a calma? Alguma vez a deixa zangada?
      - Amos? - sorriu Frances. - Deus Santo,  obvio que sim.  Sempre  teve
a habilidade de consegui-lo. Amos e eu discutimos tanto que no vale a  pena
contar as vezes. Mas estes dias me trata  com  mais  carinho.  E  agora  no
encontro razes para estar zangada com meu  irmo.  Alm  disso,  voc  est
aqui para me aliviar destas coisas.
      - Pois, muito obrigada. - Juliet agarrou  a  terrina  de  batatas  que
Frances tinha descascado  e  as  levou  para  a  pia,  deixando-as  cair  de
repente. - Me alegro de ter essa honra.
      Frances voltou a rir.
      - Em qualquer caso, faz muito melhor que eu. Amos  e  eu  somos  muito
parecidos. Teimosos. Todos os Morgan o so.
      - No o entendo. - Juliet moveu a cabea de  jeito  surpresa  enquanto
comeava a lavar as batatas. - Encontrei os objetos mais belos no  aparador,
mas me obrigou a  guard-los  outra  vez.  Por  que  no  quer  que  estejam
expostos? Desagrada-lhe a beleza?
      - No. Acredito  que  gosta  muito  da  beleza  -  respondeu  Frances,
trocando de posio na cadeira enquanto franzia o cenho.
      - Ento, por que me obrigou a guardar o jogo de ch e todas as  outras
coisas?
      Frances suspirou e trocou outra vez de posio, com uma  expresso  de
dor escurecendo seu rosto.
      - Acredito que... de alguma forma, para vingar-se de nosso  pai.  Amos
tinha to somente doze anos quando mame morreu.  Ele  a  adorava;  todos  a
adorvamos. Era uma mulher carinhosa e doce. Muito frgil  para  esta  vida,
acredito eu. No deveria ter tentado ter outro filho. J tinha sofrido  dois
abortos.
      - Assim morreu? Dando a luz?
      Frances assentiu.
      - Sim. Amos culpou a  papai  do  acontecido.  Papai  queria  ter  mais
filhos; sempre  bom mais mos na granja, mas mame tambm queria o  menino.
Tivemos uma irmzinha que morreu ao completar quatro  anos,  entende,  mame
ficou muito triste depois daquilo.
      - Que pena!
      - A vida aqui  dura. - Frances apertou os lbios  numa  expresso  de
dureza. - No h lugar para os fracos. Isso  o que papai estava  acostumado
a dizer. Era um homem duro. Ele e Amos estavam acostumados a brigar  de  uma
forma terrvel. Amos chorou depois da morte de mame, e  papai  ordenou  que
calasse, que isso o faziam s os fracos.  Papai  lhe  disse  que  devia  ser
forte, ser um homem. E Amos lhe respondeu que o odiava.  De  qualquer  modo,
depois daquilo, guardou as coisas de mame no  aparador.  Era  como  se  no
quisesse que papai desfrutasse das coisas que mame tinha amado  quando  ela
j no podia faz-lo. - Frances encolheu de ombros. - Claro que a papai  no
importou. Nunca tinha olhado para eles. Sempre pensou  que  os  tesouros  de
mame eram uma tolice.
      - Mas por que continua ocultando-os?
      - No estou segura. Acredito que por  causa  das  lembranas  que  lhe
trazem. No gosta de pensar no passado. Ele... bom,    mais  fcil  se  no
pensar nessas coisas. Ter que seguir com a vida e no se  regozijar  com  o
ocorrido no passado. Do contrrio  render-se.
      As mos de Frances estavam imveis sobre a mesa, os dedos soltando com
gestos lentos as batatas que tinha descascado; seu olhar vazio rondava  pelo
quarto, como se no visse o que tinha diante, seno  outra  coisa,  algo  do
passado. Saiu de seu sonho e levantou a vista para Juliet, lhe dirigindo  um
meio sorriso.
      - Est vendo. Deu-se conta? Comeo a pensar no passado, e  me  esqueo
do que estou fazendo.
      Juliet franziu o sobrecenho.
      - Pergunto-me... h algo que faa sorrir a seu irmo? Alguma coisa que
o faa feliz?
      - Feliz? - Frances a olhou surpreendida, como se aquilo fosse algo que
nunca tivesse pensado. - Eu...  eu  no  sei...  -  interrompeu-se,  e  logo
continuou lentamente: - esta terra, suponho. Sempre a amou. E Ethan.
      - No. No me refiro a pessoas ou coisas que ame; mas sim algo  que  o
faa sorrir. Ou rir. Algo divertido. Ou carinhoso. Algo... no sei...,  algo
especial que produza prazer.
      Frances observou a Juliet.
      - No estou segura. Ns, bom,  suponho  que  no  nos  educaram  dessa
forma.
      Que triste! Apesar da ira que sentia por Amos, Juliet no pde  evitar
sentir certa compaixo inclusa. No havia alegria alguma em  sua  vida.  Ela
no  podia  imaginar-se  vivendo  daquela  maneira.  No  era  estranho  que
estivesse amargurado. Disse a si mesma que tentaria ser  mais  sensvel  com
ele.
      Naquela noite, quando Amos entrou na  cozinha  para  jantar,  ela  lhe
sorriu e lhe serviu como se no  tivessem  discutido  naquela  mesma  tarde.
Juliet percebeu  que Amos a olhou s escondidas uma ou duas vezes,  mas  no
fez caso. Certamente,  no  era  difcil  mostrar-se  alegre.  Estava  muito
esgotada para sentir ressentimento. S o que desejava era acabar de  jantar,
esfregar os pratos e meter-se na cama. Tinha sido o  dia  mais  exaustivo  e
estranho de toda sua vida, e adoraria no ter que passar outro como  aquele.
Duas horas depois, a uma hora em que no passado no  tivesse  sonhado  nunca
em meter-se na cama, Juliet deslizava  sob  as  mantas  com  um  suspiro  de
felicidade. Nunca tinha percebido de quo maravilhoso  era  estirar  todo  o
corpo, fechar os olhos e perder-se na aveludada inconscincia  do  sonho.  O
ltimo pensamento que teve antes de dormir  foi  perguntar-se  quanto  tempo
demoraria a reunir  o  dinheiro  suficiente  para  abandonar  aquele  lugar.
Desejava que fosse o quanto antes.
      Na manh seguinte, Juliet despertou uma hora muito mais  cedo  da  que
seu corpo e sua mente desejavam. Desta  vez,  entretanto,  o  fez  antes  de
ouvir as pisadas no quarto de cima, e,  quando  os  homens  desceram,  tinha
conseguido escovar o cabelo e fazer um coque, alm de abotoar bem a  saia  e
a blusa.
      Correu para a cozinha e comeou a preparar o tipo  de  caf  da  manh
que Amos tinha pedido: cortou fatias de po e as torrou alm de fritar  umas
salsichas e fazer  uns  ovos  mexidos.  Descuidou  das  salsichas,  at  que
chegaram a parecer partes de carvo. Por outra parte,  os  ovos  lhe  saram
pouco fritos. As torradas eram o melhor,  com  apenas  as  bordas  queimadas
(embora fosse a segunda rodada de torradas que fazia, j que a  primeira  se
queimou por completo).
      Juliet olhou preocupada para Amos quando viu que cortava  com  a  faca
uma das partes da salsicha. Estava quase segura de que esse no era  o  tipo
de caf da manh que ele tinha pensado. Juliet  nunca  tinha  imaginado  que
cozinhar fosse algo to difcil; conseguir a temperatura correta, fazer  com
que tudo estivesse preparado ao mesmo tempo, sem que umas coisas  estivessem
queimadas e as outras, cruas. E ter que fazer tudo isso a primeira  hora  da
manh, quando ainda era de noite, era muito.
      Amos deixou de um lado a faca e o garfo  e  deu  um  ltimo  sorvo  ao
caf. Dobrou o guardanapo, deixou-o sobre a  mesa,  e  ficou  de  p.  Ento
olhou para Juliet.
      - Acredito que melhor ser que se limite a fazer papa de aveia.
      Enquanto Juliet recolhia os pratos do caf da manh,  Frances  desceu.
Usava um vestido verde escuro de corte severo  e  sem  ornamentao  alguma,
mas de boa qualidade. Nas  mos  sustentava  um  chapeuzinho  negro  e  umas
luvas. Juliet a olhou sem compreender.
      - Hoje  domingo -  disse  Frances  para  justificar  sua  mudana  de
vestimenta.
      - Cus. Tinha me esquecido por completo de que dia era.
      - Assistir  missa conosco?
      - Eu gostaria  muito, se houver tempo para que eu troque de roupa.
      O pai de Juliet tinha sido um livre pensador, pouco dado a  cerimnias
nem tradies, e entre estas inclua ir  igreja; de modo que  Juliet  tinha
assistido poucas vezes quando  pequena.  Mas    medida  que  ia  crescendo,
aprendeu a encontrar certa paz e tranqilidade nos templos, e tinha ido  com
freqncia s cerimnias religiosas, estivesse  onde  estivesse,  embora  se
parecesse o suficiente a seu pai para no preocupar-se muito a que  religio
pertenciam os fiis.
      Correu a seu quarto e rapidamente tirou um de seus melhores trajes  de
dia; uma elegante saia azul com trs tiras de barrados na parte  inferior  e
uma blusa combinando que tinha as mangas de  renda.  Decorou  o  pescoo  da
blusa com um pequeno camafeu e agarrou  a  toda  velocidade  as  luvas  e  o
chapu.
      Quando estava de volta  na  cozinha  encontrou  aos  trs  esperando-a
sentados ao redor da mesa.  Amos  levantou  a  cabea  e,  ao  v-la,  ficou
lentamente de p, atrado quase  contra  sua  vontade.  Ethan  sorriu  e  se
levantou de um salto sem duvid-lo.
      - Nossa! Est muito bonita.
      Tambm Frances se voltou e lhe sorriu.
      - Certamente. Que vestido to bonito.
      - Obrigada.
      Juliet notou que Amos no dizia nenhuma palavra,  mas  soube  que  era
difcil esperar outra coisa dele.
      - Certamente nossa igreja  muito mais singela que qualquer outra  que
tenha visto - disse, rodeando a mesa e aproximando-se dela.
      - Oh, visitei algumas que no eram catedrais precisamente -  respondeu
alegre Juliet.
      De repente, um sorriso distendeu os  lbios  de  Amos,  e  seus  olhos
escuros refletiram um momentneo calor.
      - Estou seguro de que adquiriam maior grandeza com sua presena.
      Juliet abriu  uns  olhos  como  pratos,  um  pouco  surpreendida  pelo
elogio. De repente, ele pareceu dar-se  conta  do  que  havia  dito,  e  seu
sorriso desapareceu, sendo substitudo por um sobrecenho franzido.
      -  Quero  dizer,    muito  mais  elegante  que  algo  a  que  estamos
acostumados por aqui.
      Juliet arqueou as sobrancelhas. Dava a  sensao  de  que  evitava  os
elogios a todo custo.
      - De verdade?
      Passou diante dele, ajeitando o chapu ao  caminhar.  Os  outros  trs
saram atrs dela e todos subiram na carruagem.
      A igreja dos Morgan estava s a uns quilmetros de  distncia  situada
num cruzamento de estradas. Era  pequena,  estava  revestida  com  tabuletas
brancas e tinha um campanrio encorpado. Pouco  pretensiosa,  estava  limpa,
tanto no interior como no exterior, aparecendo quase nua. Mas Juliet  gostou
do singelo edifcio. Havia algo  em  sua  solidez  espartana  que  resultava
tranqilizador.
      Estarei aqui para sempre, era a mensagem que parecia transmitir.
      Antes de iniciar a cerimnia, Juliet observou  que  uma  garota  jovem
sentada umas filas diante deles e  esquerda  olhava  para  trs.  Fez  isso
vrias vezes mais durante a cerimnia religiosa. Juliet se deu conta de  que
a ateno da garota ia dirigida a Ethan. Juliet olhou com  curiosidade  para
Ethan, sentado ao seu lado no banco. Tinha a vista posta fixamente no  livro
de hinos, mas o surpreendeu olhando de esguelha  garota. Juliet  sorriu  em
seu  interior.  Esteve  se  perguntando  qual  seria  a  melhor  maneira  de
conseguir que Ethan esquecesse o afeto que sentia por ela,  e  agora  sabia.
Uma garota de sua idade, pequena, loira, e  bonita,  estava  interessada  em
Ethan, e estava claro que ele  era  consciente  de  sua  existncia.  Juliet
suspeitou que no fosse difcil o convencer de que dirigisse seu afeto  para
a garota.
        - Quem  a famlia que estava sentada na terceira fila? -  perguntou
Juliet com expresso de inocncia quando comearam a  caminhar  pela  igreja
para finalizar a cerimnia. -  Um homem e uma moa com um par de meninos?
      Ethan a olhou, e um ligeiro rubor cobriu suas bochechas.
      - Refere-se a Ellie Sanderson? Quero dizer..., essa   a  filha.  John
Sanderson  seu pai. E tem dois irmos pequenos. No me lembro  de  como  se
chamam.
      Juliet reprimiu um sorriso. Evidentemente  os  meninos  no  eram  to
importantes como a filha. Amos olhou para Juliet, depois aos  Sanderson  que
percorriam o corredor diante deles, e de novo para Juliet, ento  franziu  o
cenho. Mas nada disse e se limitou a  seguir  caminhando  com  sua  habitual
forma brusca. Juliet afogou um suspiro. Incomodava-lhe  acaso  que  trocasse
umas palavras com Ethan? Parecia absurdo, mas, entendia pouco  a  Amos.  Era
um homem to silencioso e irado.
      Afastou Amos de sua mente. Fosse o que fosse que lhe ocorria, no  era
importante. O assunto que estava em suas mos era juntar Ethan  com  a  bela
Ellie.
      - Conhece a senhorita Sanderson? - perguntou Juliet, sem tirar o  olho
da  famlia  em  questo.  Detiveram-se  no  vestbulo,  perto  da   entrada
principal, onde o pai ficou a falar com algum. Isso era bom;  possivelmente
permanecessem ali at que os Morgan chegassem.
      - Oh, sim, amos juntos ao colgio. Quer dizer, at esse ano; ela  no
voltou o outono passado. Claro, eu deixei de ir quando comeamos  a  semear.
No sei; certamente tampouco voltarei o ano que vem. Estamos  ficando  muito
mais velhos.
      Muito mais velhos? Juliet pensou que nenhum dos  dois  teria  mais  de
dezesseis anos. Mas sups que nesta comunidade agrcola,  quando  um  estava
crescido fisicamente e com idia de seguir os  passos  de  seus  pais,  quer
dizer,  cuidar  das  terras  ou  da  casa,  uma  educao  formal  no   era
necessria. Em qualquer caso, no podia  dizer  grande  coisa,  j  que  ela
mesma tinha freqentado  escola s umas poucas semanas.
      Seu pai se ocupou de  que  recebesse  uma  excelente  educao,  claro
est, lhe dando  aula  ele  mesmo.  Ensinou-lhe  muito  mais  do  que  teria
aprendido na escola de histria, filosofia, governo, e arte, e  tinham  lido
e discutido diariamente os clssicos da literatura. Mas  tinha  apertado  os
dentes na hora de afundar-se nos livros de aritmtica (embora  percebesse  o
alvio em seus olhos quando, aos doze anos, informou-lhe que  no  tinha  j
interesse em estudar lgebra). A sua tinha sido  uma  educao  liberal,  e,
como resultado  disso,  tinha  um  profundo  respeito  pela  sabedoria  e  a
aprendizagem, mas dificilmente  podia  afirmar  que  fosse  conseqncia  de
freqentar  escola.
      Aproximavam-se de Ellie e sua famlia,  e  Ellie  sorriu  para  Ethan,
baixando a seguir o olhar recatadamente. Ethan  lhe  devolveu  o  sorriso  e
assentiu com gesto tmido.
      - Por que no me apresenta  senhorita Sanderson? - sussurrou  Juliet.
No havia razo alguma para que o  fizesse,  claro  est,  e  certamente  se
consideraria uma rabugice que uma governanta sugerisse que  a  apresentassem
a um conhecido de seu amo, mas ela estava segura de que Ethan  no  pensaria
nisso.
      - De verdade? - O rosto de Ethan se iluminou. - Gostaria  de  conhec-
la?
      - Claro. Parece uma jovem muito simptica.
      - De acordo. - Ethan percorreu a distncia que  o  separava  de  Ellie
que estava junto a  seu  pai,  falando  com  outro  membro  da  congregao.
Frances e Amos continuavam fora.
      - Bom dia, Ellie - disse Ethan, e a garota sorriu.
      - Bom dia, Ethan. Me alegro de v-lo.
      - Senti sua falta - continuou dizendo Ethan. - Quero dizer... que  no
v  escola.
      As covinhas de suas bochechas se fizeram mais profundos.
      - Obrigada. Eu tambm senti falta de... da escola.
      Ethan pareceu ficar to mudo atrs daquelas palavras que Juliet pensou
que seria incapaz de dizer uma palavra mais. Durante  um  momento  ficou  em
silncio, sorrindo e ruborizando-se, mas continuou dizendo:
      - Essa... eu... eu queria apresentar voc  a  uma  pessoa.  Essa    a
senhorita Drake. Juliet Drake.
      Ellie a olhou com curiosidade.
      - Alegro-me de conhec-la.
      - Obrigada. Para mim tambm  um prazer.
      - Oh... - Ethan se deu conta  tarde  de  que  no  tinha  terminado  a
apresentao. - Juliet, esta  Ellie  Sanderson.  Vivem  perto  de  casa.  -
voltou-se para Ellie. - A senhorita Drake  agora nossa governanta.
      - Eu entendo. Que bom.
      Ali acabou  a  conversao,  e  todos  ficaram  olhando-se  incmodos.
Juliet tentou dizer alguma  coisa  para  que  os  dois  jovens  continuassem
falando, mas no lhe ocorreu nada mais original que um  comentrio  sobre  o
tempo, ao que os dois assentiram,  mas  sem  nada  que  acrescentar.  Juliet
suspirou em seu interior; no a estavam ajudando absolutamente.  Se  pudesse
conseguir que se falassem, ento ela poderia  retirar-se  da  conversao  e
deix-los, lhes dando a oportunidade de estar  sozinhos...  ou  ao  menos  o
pouco ss que podiam estar entre a congregao que passeava  pelo  vestbulo
e o ptio.
      - Bom, Ellie - disse uma voz profunda  detrs  de  Juliet,  e  ela  se
voltou. O senhor Sanderson tinha deixado de conversar  e  prestava  de  novo
ateno a sua filha. Falava com Ellie, mas sorria para Juliet.  -  Vejo  que
tem uma nova amiga. Apresente-nos, por favor?
      - Claro, papai. J conhece ao Ethan Morgan, e esta   sua  governanta,
Juliet Drake.
      - Como vai, senhorita Drake? Eu sou John Sanderson.
      -   um  prazer  o  conhecer.  -  Juliet  estendeu  a  mo  e  sorriu,
agradecida,  pela  interrupo.  Se  conseguisse  que  o  senhor   Sanderson
continuasse falando, aquilo proporcionaria a separao natural  aos  jovens,
e com toda segurana sem a interveno de  um  adulto,  ocorreria  algo  que
dizer-se.
      John Sanderson devolveu o sorriso. Era um  homem  alto  e  magro,  com
olhos claros e cabelo loiro,  pintado  de  branco  nas  tmporas:  um  homem
elegante e de trato agradvel.
      - De modo que  voc o governanta dos Morgan? Pensei que por  ser  uma
mulher to bonita, Amos havia trazido uma esposa da cidade.
      Juliet se ruborizou. Imaginar que era a esposa de Amos! Se esse  homem
soubesse o que Amos pensava dela.
      - No. Sou da cidade. Mas a senhorita Morgan necessitava um  pouco  de
ajuda com as tarefas da casa.
      - Claro. - Seu rosto se escureceu, e moveu a cabea. - Um assunto  to
triste... a senhorita Morgan  uma boa mulher. Aquela casa  muito para  ela
sozinha. Para minha  esposa  foi  uma  sorte  ter    pequena  Ellie  que  a
ajudasse. -Suspirou e agitou a cabea. - Mas agora que Anna  desapareceu,  
muito trabalho para Ellie. Os meninos a ajudam  um  pouco,  mas  uma  garota
jovem no deveria ter tanto trabalho. E j no pode ir  escola.
      Sua mulher deve ter falecido, pensou Juliet.
      - Sinto muito - disse Juliet. Negou com a cabea.
      - Faz j mais de um ano; com o tempo as coisas se fazem  mais  fceis.
Mas... - encolheu os ombros - no  bom para um homem viver sozinho.
      - Estou segura de que no - murmurou Juliet. De repente  os  olhos  do
John resplandeceram.
      - Possivelmente tambm eu deveria buscar uma  governanta.  O  que  lhe
parece?
      Juliet se deu conta, com certa surpresa, que o  pai  de  Ellie  estava
paquerando um pouco com ela. No queria que aquele fosse o resultado de  seu
desejo de que Ethan e Ellie  falassem.  Claro  que  era  bastante  elegante,
pensou, e sorriu, o que supunha uma mudana  bastante  agradvel  depois  de
estar em companhia de Amos Morgan. No seria difcil seguir  seu  jogo.  Sem
dvida o amargurado  senhor  Morgan  no  gostaria  de  ver  sua  governanta
flertando com ningum; era uma atividade muito frvola.
      Juliet olhou de esguelha o vestbulo, vazio agora de  quase  todos  os
que assistiam com exceo  de  um  pequeno  grupo  de  pessoas  conversando.
Parecia que Amos tinha  acompanhado  a  sua  irm  a  carruagem,  retornando
depois, e estava de p rgido ao lado da porta, as costas pegadas  contra  a
parede, os braos cruzados sobre o peito, observando, a ela e a  Ethan,  com
gesto srio. Juliet teve a infantil tentao de  mostrar  a  lngua.  O  que
importava o que pensasse? Dificilmente podia ter pior opinio  dela  da  que
j tinha. Em qualquer caso, no  era  seu  assunto  com  quem  falava  e  se
paquerava um pouco. No tinha nada que ver com as tarefas da casa;  ele  no
mandava em sua vida pelo simples fato de viverem sob o mesmo teto.
      Voltou-se novamente para Sanderson, levantando o queixo  desafiante  e
lhe dedicando um sorriso particularmente brilhante. Negava-se  a  se  sentir
intimidada pelos maus humores daquele homem. Seu pai havia dito  sempre  que
ningum tem poder sobre voc a no ser que voc o conceda, e  Juliet  estava
de acordo com aquilo. No ia deixar que Amos mandasse nela.
      - Possivelmente devesse contratar a uma - assentiu.  -  Embora  espere
que voc se comporte de forma agradvel com a sua.
      Seu companheiro ps-se a rir.
      - Amos pode ser um homem duro.
      - J vi - murmurou Juliet.
      Continuaram conversando durante  uns  minutos.  Juliet  observou  pela
extremidade do olho que Ethan e Ellie estavam muito juntos, falavam  em  voz
baixa e  sorriam.  Bom.  Tinham  quebrado  o  gelo  por  fim.  Juliet  tinha
conseguido  seu  objetivo.  Assegurar-se-ia  de  que  no  domingo   seguinte
voltassem a ter a oportunidade  de  falar.  Certa  que  haveria  logo  algum
acontecimento, um baile ou um ato social, em que os dois jovens  tivessem  a
ocasio de chegar a conhecer-se melhor. Confiava por completo de que  dentro
de pouco Ethan teria esquecido dela por  completo  e  s  teria  olhos  para
Ellie Sanderson.
      Juliet estava to abstrada em seus  prprios  pensamentos,  escutando
pela metade a John Sanderson, que nem sequer se deu conta  de  que  Amos  se
aproximou deles at que ele falou.
      - De acordo -  disse  com  brutalidade,  sem  prembulo  nem  saudao
alguma. - Temos que ir. Frances  estar cansada, sentada no carro.
      Todos se voltaram para olh-lo. Parecia  furioso,  embora  Juliet  no
pudesse imaginar por que. Mantinha-se rgido, as mos afundadas  nos  bolsos
das calas. Tinha um aspecto passado  de  moda,  como  se  estivesse  mal  e
zangado com todo mundo. Juliet conteve um sorriso ao v-lo; seu aspecto  era
to  desagradvel  que,  estranhamente,  resultava   quase   atrativo.   No
conseguiu compreender o sentimento, mas dessa vez  resultou  mais  divertido
que irritante.
      - Ol, Amos - saudou-lhe John. A cintilao de seus olhos  fez  ver  a
Juliet que tambm o divertia o mau humor de Amos. - Como est?
      - Bem - respondeu secamente Amos. Seu olhar  posou  uns  instantes  em
Juliet. - Temos que partir.
      - Oh, papai -  disse  Ethan  fazendo  uma  careta.  A  inapetncia  se
percebia em todos seus traos. - To cedo?
      - Sim. - Com parcimnia, Amos extraiu seu relgio do bolso  do  colete
e o abriu. - Levo vinte minutos esperando.  hora  de  retornar  para  casa.
Alguns de ns no podemos perder tempo conversando. Ethan. Senhorita Drake.
      Deu meia volta e se afastou a  grandes  pernadas,  saindo  pela  porta
principal ao exterior. Nem  sequer  se  voltou  para  ver  se  os  outros  o
seguiam.
      Bem, pensou Juliet, ao menos se comportava com outros com idntica  m
educao que com ela. Voltou-se e dirigiu um sorriso de desculpa  ao  senhor
Sanderson.
      - Sinto muito. Parece que temos que partir.
      - Compreendo. - Quando  comeava  a  afastar-se,  o  senhor  Sanderson
estendeu uma mo e lhe roou o brao.  -  Espere.  Deixe  que  lhe  pergunte
algo: poderia passar a v-la algum domingo pela tarde?
      Juliet o olhou atnita durante uns instantes,  surpreendida  por  suas
palavras. Esteve mais atenta em proporcionar uma oportunidade de  falar  com
Ethan e Ellie que em sua conversao com o senhor  Sanderson.  Mas  ele,  ao
que parecia, interessou-se mais na segunda. Ou, ao menos, nela.
      Duvidou. Era um homem bastante agradvel, sups, mas  ela  no  estava
interessada nele. Entretanto, possivelmente se a visitasse, levasse  consigo
a sua famlia, ento Ethan e Ellie se veriam de novo. E se no fosse  assim,
o que tinha de errado num pouco de  vida  social?  Cus,  no  tinha  muitas
oportunidades de manter uma conversao decente  na  casa  dos  Morgan.  Que
fosse v-la no significava ter que casar-se com ele.
       -  Claro  que  se  no  for  possvel,  compreenderei  -  acrescentou
rapidamente. - Conheo bem a Amos.
      - O senhor Morgan no tem nada a dizer  a  respeito  das  visitas  que
recebo ou no - respondeu Juliet. Tinha  encontrado  seu  ponto  fraco:  sua
independncia. - Eu tomo essas decises. E eu gostaria muito de voltar a v-
lo. Pode passar a me visitar quando quiser.
      - Obrigado - sorriu.
      Juliet assentiu e seguiu apressadamente Ethan. Seria  tpico  de  Amos
partir sem ela.
      Os outros a esperavam na carruagem, e ela se acomodou  em  seguida  ao
lado de Frances. Ethan estava sentado ao lado de seu pai, e  ambos  pareciam
mal-humorados. Amos sacudiu as rdeas para que os cavalos marchassem.
      - No sei por que tivemos que partir to depressa - queixou-se  Ethan.
- Nunca fazemos nada especial nos domingos.
      - Frances est cansada - disse Amos tenso, mantendo o  olhar  fixo  na
estrada. - Alm disso, no sei por que de repente  to divertido falar  com
os Sanderson.
      Ethan encolheu os ombros.
      - Ellie  uma garota simptica. Gosto dela.
      - Sim, parece muito carinhosa - acrescentou Juliet. Amos emitiu um som
de incredulidade.
      - Parece-me que voc falava com o John, no com a Ellie.
      Juliet o olhou, arqueando surpreendida a  sobrancelha.  Que  diferena
havia em falar com o pai ou com a filha? A seu lado,  Frances,  olhando  pra
frente, murmurou:
      - Como o co do hortelo, que nem come nem deixa comer.
      - O que? - Amos se voltou para ela, zangado. Frances ps uma exagerada
expresso de inocncia e seguiu olhando  frente.
      - O que quer dizer com isso? -  insistiu  Amos.  Frances  encolheu  os
ombros.
      - J sabe.
   Amos  torceu  o  nariz  e  sua  nica  resposta  foi  um  grunhido  pouco
comprometedor. Voltou  a  sacudir  as  rdeas  e  os  cavalos  aumentaram  a
velocidade. Todos permaneceram em silencio durante o  resto  do  trajeto  de
volta.
Captulo 5.
      Com o dedo polegar, Amos alisou a superfcie da madeira, em  busca  de
qualquer aspereza que ficasse por lixar. Assim  que  retornaram  da  igreja,
retirou-se ao abrigo  para  trabalhar,  como  fazia  sempre  que  se  sentia
preocupado. De algum jeito,  medida que as figuras foram  adquirindo  forma
sob seus dedos,  os  pensamentos  ou  a  angstia  ou  o  que  fosse  que  o
atormentava foi desaparecendo de forma gradual.
      Suas preocupaes demoravam  muito  mais  em  dissipar-se  nesse  dia.
Havia se sentido mal do momento em que, ao  sair  da  igreja,  Juliet  tinha
comeado a paquerar com John  Sanderson.  E,  alm  disso,  para  piorar  as
coisas, sabia que estava comportando se  como  um  imbecil,  mas  no  podia
evit-lo. Juliet Drake tinha uns efeitos perigosos sobre ele.
      Assim que a viu sobre o palco,  foi  como  se  recebesse  um  soco  no
estmago. Pensou que era a mulher  mais  bela  que  jamais  tinha  visto:  o
cabelo  dourado,  uma  glria  de  feminilidade;  aqueles  olhos  azuis  que
brilhavam como safiras, suas formas arredondadas atraindo como um m a  mo
de um homem. E a profunda e doce voz  lhe  provocava  um  estremecimento  em
todo o corpo.
      Quando ao dia seguinte Henrietta apareceu com Juliet para  contrat-la
como a nova governanta, a princpio ficou atnito,  e  depois,  consternado.
Temia que Ethan se apaixonasse por ela;  no  acreditava  que  nenhum  homem
pudesse  evit-lo.  Mas,  na  realidade,  aquela  no  tinha  sido  a  razo
principal para recus-la como governanta. O que temia era que  a  beleza  da
jovem chegasse a alterar sua prpria paz interior. E tinha razo; desde  sua
chegada se sentia transtornado de todo.
      - Papai? - ouviu a voz de Ethan e se voltou.
      - Estou aqui, filho.
      Ethan se dirigiu  pequena zona de trabalho onde  Amos  guardava  suas
ferramentas.
      - O que est fazendo?
      Estirou o pescoo para ver  a  pea  de  madeira  nas  mos  de  Amos.
Esculpida na  madeira  se  via  a  cabea  de  uma  mulher.  Tinha  o  rosto
ligeiramente inclinado e sorria; parecia quase um ser animado.
      - Muito bonito - comentou Ethan. - Sabe que  se  parece  muito  com  a
senhorita Drake?       Amos torceu o nariz.
      - Voc v a senhorita Drake por toda parte.
      Ethan ps-se a rir e se sentou no cho, apoiando as  costas  contra  a
parede.  Sentou-se  assim  muitas  vezes,  observando  a  seu  pai  enquanto
trabalhava e falando com ele. Era sempre mais fcil falar  com  Amos  quando
se dedicava a seu hobby; parecia mais livre e solto.
      - Papai... - comeou lentamente Ethan. - Como se sabe quando se  gosta
de uma garota? Quero dizer, que gosta de verdade.
      Amos olhou pra ele, com o cenho franzido.
      - Refere-te  senhorita Drake?
      Ethan pareceu surpreender-se.
      -  senhorita Drake! Deus Santo, no.
      - Dava a sensao de estar um pouco apaixonado por ela.
      Ethan ps-se a rir de novo.
      - Sim,  muito bonita. Acho incrvel pensar que est aqui, trabalhando
em nossa cozinha. Entende?
      - Entendo-o - respondeu Amos srio.
      - Parece como se no fosse de verdade. Bom,  evidentemente  que    de
verdade; mas no  uma pessoa que eu jamais pudesse... bom, j  sabe  o  que
quero dizer.  muito bela, muito perfeita; caramba,  muito  mais  velha  que
eu. Nunca esperaria que se interessasse por mim.  uma personagem de sonho.
      Aquilo era bastante certo, pensou Amos.
      - Ento a quem se refere se no  a Ju...  senhorita Drake? - limitou-
se a perguntar.
      - A Ellie Sanderson. - Ethan olhou seu pai como se  este  houvesse  se
tornado louco. - No a viu hoje na igreja?
      - Claro, claro. - Amos ocultou um sorriso. Evidentemente, Ellie era  a
nica pessoa  que Ethan tinha visto. -  uma garota bonita.
      - Verdade que ? - O rosto do Ethan se iluminou.
      - Sim. - Amos lhe sorriu de forma carinhosa. - E quer saber se ela  se
interessa por voc.
      Ethan assentiu com a cabea.
      - Falou comigo e parecia estar muito contente  por  ver-me  e  tudo  o
mais. Mas, por outra parte,  sempre  se  mostra  muito  simptica  com  todo
mundo. Como posso saber se tem mais interesse por mim que pelos outros?
      Amos negou com a cabea.
      - No est perguntando   pessoa  mais  indicada.  O  que  eu  sei  de
mulheres poderia contar-se com os dedos de uma mo,  e  sobrariam  dedos.  A
maior parte das vezes me parecem... incompreensveis.
      - Oh, papai... alguma  coisa  deve  saber  a  respeito  delas.  Afinal
esteve casado com minha me.
      - Sua me - disse Amos  lentamente,  voltando  a  olhar  o  objeto  de
madeira que tinha entre as mos. - De fato, acredito  que  a  entendi  menos
que a todas.
      Ethan suspirou.
      - Suponho que no estiveram junto muito tempo antes de sua morte.
      - No. - Amos duvidou uns segundos, e  continuou  falando:  -  Suponho
que saber se estiver realmente interessada pela forma com que olhe ou  fale
com voc.  difcil dar-se conta. Mas, vejamos, no caso de Ellie, falou  com
voc da mesma forma que com a senhorita Drake?
      - No. Mostrou-se simptica com a senhorita Drake, mas falou pouco com
ela; Ellie e eu estivemos conversando a maior parte do tempo. -  Levantou  a
vista esperanado. - Acredita que isso significa algo?
      - No me surpreenderia.
      - Acredita que posso ir visitar a ela algum dia?
      - No sei por que no. - Olhou muito srio para Ethan. -    um  jovem
bom, trabalhador e elegante. Acredito que qualquer mulher estaria  orgulhosa
de que a visse.
      Ethan se ruborizou um pouco.
      - Em geral, no sabe me dizer coisas assim.
      Amos encolheu os ombros.
      - Isso no significa que no pense. Visite a Ellie, se isso for o  que
quer. S... s que no v muito a  srio  to  jovem.  Tem  muita  vida  por
diante. Haver outras garotas em sua vida.
      Ethan sorriu e ficou de p de um salto.
      - Obrigado, papai. Posso pegar o carro para ir a sua casa  no  domingo
que vem? Amos riu.
      - Suponho que sim. - Deixou de lado a talha de madeira e  o  papel  de
lixa e passou um brao por cima dos ombros de seu filho. - Ser  melhor  que
voltemos para a casa. Frances se zangar conosco se estragarmos o almoo  do
domingo chegando tarde.
      Juliet agradeceu o dia de descanso que lhe proporcionou o domingo. No
estava  segura  de  que  seus  doloridos  msculos  pudessem  realizar  mais
tarefas. Inclusive o almoo no foi  de  todo  mal  porque  Frances  parecia
sentir-se melhor naquele dia e a ajudou.
      Mas a partir  da  segunda-feira  a  rotina  comeou  de  novo.  Embora
Frances descesse um momento pela manh, voltava em seguida para  seu  quarto
para descansar aps fazer umas pequenas tarefas.
      Juliet continuou com a limpeza pesada,  teimosa,  apesar  da  dor  nos
msculos, que protestavam a cada passo.  Quando  Juliet  olhava  suas  mos,
sentia vontade de chorar. Suas belas mos comeavam a ficar  avermelhadas  e
cortadas por causa do  tempo  que  passavam  na  gua  e  pelo  forte  sabo
desinfetante. E o que era pior, tinha pequenas bolhas nas palmas.
      Antes de voltar para a cama, Frances  tinha  comeado  a  preparar  um
guisado de frango que deixou no fogo, e sugeriu  a  Juliet  que  servisse  o
frango com pudim. Juliet sabia que para fazer o  pudim  tinha  que  preparar
uma massa de po e introduzir as bolas no  caldo  de  frango  quente.  Claro
est, desconhecia as  propores,  mas  por  sorte  encontrou  um  livro  de
receitas na despensa, e embora no visse a  receita  para  pudim,  encontrou
uma para preparar bolachas, e pensou que devia ser a mesma coisa.
      Como guarnio  se  limitou  a  utilizar  o  que  havia  na  despensa.
Escolheu umas enrugadas batatas, e, certamente,  o  inevitvel  alimento  de
inverno composto por feijes ou ervilhas secas. Tambm havia algumas  mas,
e decidiu preparar uma torta de ma.  Uma  boa  sobremesa  serviria  tambm
para adoar a Amos Morgan, e como tambm encontrou uma  receita  para  fazer
torta de ma, pensou que a preparao no seria to difcil.
      Colocou mos   obra  com  determinao.  Preparou  a  massa  para  as
bolachas e a deixou de lado enquanto tirava o frango cozido e  o  esmiuava.
 medida que trabalhava se sentia cada vez mais confiante. Dispondo  de  uma
receita no foi difcil preparar as bolachas, e pensou  que  j  dominava  e
compreendia bastante bem o funcionamento do fogo. No deixaria  os  feijes
tanto tempo ao fogo, e, depois de ferv-los, retir-los-ia um  momento  para
lhes dar uma ltima fervura no final. E se lembraria de virar a  torta  para
que no se queimasse de um lado como tinha ocorrido  com  as  batatas-doces.
Juliet sorriu ao pr  os  feijes  no  fogo,  pensando  que  estariam  todos
surpresos e agradecidos com o almoo. Seria uma forma de  compens-los  pelo
horrvel caf da manh do dia anterior.
      Voltou a colocar o frango desossado no caldo e o  levou  para  ferver.
No estava segura de que temperos devia  pr,  de  modo  que  se  limitou  a
adicionar um pouco de sal e pimenta. A seguir preparou a massa para a  torta
de  ma,  amassando-a  at  conseguir  a  consistncia   desejada.   Estava
terminado o recheio e a torta estava preparada,  o  frango  levava  bastante
tempo fervendo, rapidamente jogou dentro as bolas de pudim. Colocou a  torta
no forno, moveu outra vez o frango, e comeou a pr a mesa.
      Quando Ethan e Amos chegaram do  campo,  a  comida  se  encontrava  j
posta sobre a mesa. Juliet estava particularmente satisfeita  com  a  torta,
que tinha uma deliciosa casca dourada, embora  parecesse  algo  mais  grossa
que quando a tinha colocado no forno e um  pouco  do  suco  havia  cado  de
dentro, provocando negros pingos de queimado e um espantoso aroma.
       No primeiro bocado de frango se  deu  conta  que  se  equivocou  por
completo: o caldo, aguado; o frango, muito cozido, de modo que se  desfazia,
e, o pior de tudo, era que estava inspido, sem gosto.
      E as bolas de pudim no estavam nada  leves,  mas  sim  tinham  ficado
condensadas e empapadas. As batatas,  que  tinham  se  convertido  em  pur,
muito secas, resultavam difceis de tragar. Os feijes estavam bons;  ou  ao
menos to bom como podem estar uns feijes. Mas a torta foi o pior de  tudo.
A casca estava dura; o recheio azedo, e um excesso de mas  fazia  com  que
cada dentada fosse como se comesse uma pedra.
      Juliet agarrou um bocado e deixou o  garfo  de  lado,  obrigando-se  a
engolir o que colocou na boca. Que tinha ocorrido? Com o cuidado  que  tinha
feito! E naquele momento entendeu... sem dvida, a receita  devia  preparar-
se com mas frescas, e ela tinha utilizado as mas secas que se  guardavam
para o inverno. O peso era o indicado, mas no caso de  mas  frescas  teria
usado muito menos. Todo o lquido tinha sido absorvido  fazendo  com  que  a
torta dobrasse  seu  tamanho,  ficando  esponjosa;  alm  disso,  no  tinha
colocado suficiente quantidade de  acar.
      Os olhos de Juliet comearam a encher-se de lgrimas,  e  gostaria  de
apoiar a cabea sobre  a  mesa  e  por-se  a  chorar.  Tudo  tinha  sido  um
fracasso.
      No extremo da mesa, tambm Amos soltou  o  garfo  depois  de  dar  uma
dentada na torta. To somente Ethan continuou tranqilamente.
      - Senhorita Drake... - O tom de voz de Amos era aterrador.
      Juliet no queria, mas teve que levantar o olhar.
      - Sim?
      - Esta  uma torta de ma muito estranha.
      - Sim. Bom, eu...
      - No sabe cozinhar - disse Amos acabando a frase.
      - No est to mal, pap - protestou Ethan. - S est um pouco cida.
      - Me... me esqueci de que as  mas  eram  secas  e  pus  muitas  e  a
quantidade de acar  insuficiente e...
      - As razes no so realmente importantes. A realidade do caso    que
nunca em minha vida comi umas  misturas  to  horrveis  como  as  que  voc
preparou nesses ltimos dias.
      Juliet baixou a vista,  ruborizando-se.  Resultava  humilhante  que  a
descobrissem desta forma. Sentia-se como uma menina rf obrigada a  escutar
o discurso cortante de Amos Morgan.
      - No sei o que sabe, mas  bvio que no sabe cozinhar..., e  suponho
que tampouco sabe grande coisa das tarefas da casa.
      Juliet respirou tremendo e se obrigou a olhar  a  Amos.  Tinha  atuado
mal, sabia, entretanto se negava a deixar que aquele  homem  a  intimidasse.
Talvez no tivesse sido de todo honesta com ele e com os  restantes  membros
da famlia, mas no tinha cometido um crime.
      - S tento ganhar a vida - respondeu, conseguindo,  no  sem  esforo,
manter a voz serena. - Tem razo. No  lhe  disse...  no  fui  sincera  com
voc. Estava  desesperada,  necessitava  um  emprego.  De  modo  que...  que
exagerei um pouco a verdade.
      - Exagerou a verdade! - repetiu, arqueando as sobrancelhas ao  mximo.
- Eu diria que faltou a ela.
      Juliet apertou os dentes.
      - Asseguro-lhe que no tinha inteno alguma  de  enganar  a  ningum.
No esperava que o trabalho aqui  fosse...  to  duro  como  .  Pensei  que
aprenderia logo. Tampouco  que  no  sei  fazer  nada;  sou  uma  excelente
costureira. No deixei de cumprir com meus  deveres;  fiz  todo  o  possvel
para ganhar o salrio dignamente.
      -Isso  certo - acrescentou Frances. - Trabalhou duro.
      -  Obrigada.  -  Juliet  sorriu     outra   mulher.   -   Sinto   ter
supervalorizado minhas habilidades na hora de trabalhar na cozinha.
      - Cozinhar  mais difcil do que a gente cr.
      - Estou aprendendo - acrescentou Juliet esperanada.
      - No estou disposto a lhe pagar um  salrio  de  governanta  enquanto
aprende a cozinhar. Ponho fim a seu contrato nesse mesmo instante.
      O estmago de Juliet se retorceu de temor. Necessitava desse  emprego,
por duro que fosse.
      - Como se arrumar quando eu for? Necessita uma governanta, e sabe.  A
senhorita Morgan no tem as foras  necessrias  para  cuidar  da  casa  ela
sozinha.
      - Encontraremos outra governanta - respondeu sinceramente Amos.
      - Est seguro disso? - respondeu Juliet. - Tenho a sensao de que  eu
era a nica candidata para este trabalho. Sou a nica  mulher  que  sabia  o
bastante pouco de voc para estar disposta a trabalhar aqui.
      Amos ficou boquiaberto, atnito pela temeridade desdobrada.
      - De verdade?
      - Sim. E agora que levo um tempo nesta casa,  entendo  a  razo.  Quem
estaria disposto a trabalhar como um escravo e agentar suas  ms  maneiras?
Com sinceridade, no acredito que encontre a ningum, exceto  a  uma  pessoa
que no tenha alternativa, como eu.
      - No  muito pior no ter a ningum que ter  que  comer  o  que  voc
prepara.
      - Sem dvida pode dizer isso porque  no    a  pessoa  que  ter  que
cozinhar quando eu v - assinalou duramente Juliet. Sua irm ter que  fazer
esse trabalho. Ser ela quem acabar sofrendo.
      O olhar culpado de Amos se  posou  em  Frances,  de  modo  que  Juliet
continuou.
      - No se trata to somente de preparar a comida. Todo  o  trabalho  da
casa cair sobre suas costas. Lavar e engomar.  Possivelmente  eu  no  seja
uma boa cozinheira, mas sou o bastante inteligente para aprender  a  faz-lo
melhor. E posso lavar, varrer e limpar.
      - Eu posso ensin-la a cozinhar - a interrompeu Frances. - E  qualquer
outra coisa que  precise  aprender.  Tenho  foras  suficientes  para  estar
sentada e explicar como se faz tudo.
      - Teria feito isso hoje, mas no sabia...
      Amos torceu o nariz. Baixou a  vista,  voltou  a  olhar  para  Juliet,
depois  para  sua  irm.  Resultava  claro  que  seus  pensamentos   estavam
divididos. Suspirou.
      - De acordo! Maldita seja! Eu no gosto! Mas agora no tenho tempo  de
acompanh-la ao povoado.  Necessito  cada  minuto  do  dia  para  plantar  a
colheita. Deveria despej-la e  deixar  que  voltasse  sozinha.  Entretanto,
isso equivaleria a um assassinato. Uma simplria como voc nunca chegaria  a
Steadman. Assim, por pouco que eu goste, deixarei que fique.
      Um sorriso se desenhou no rosto de Juliet.
      - Obrigada, senhor Morgan. Prometo-lhe que no o lamentar. Eu...
      - J o lamento - informou-a Amos com pouco tato. - E recorde isto:  s
at que acabe  de  semear.  Ento  a  acompanharei  de  retorno    casa  de
Henrietta. Ficou claro?
      - Por completo.
      Amos voltou a mostrar sua expresso de descontente e saiu da  cozinha.
Juliet se recostou na cadeira de repente. Agora  que  a  confrontao  tinha
finalizado, sentiu de repente  as  pernas  trmulas.  Frances  a  olhou  com
carinho.
      -Deveria ter me dito que no  sabia  cozinhar  -  reprovou  suavemente
Frances. - Eu poderia t-la ajudado.
      Juliet sorriu.
      -  Eu sei. Obrigada. Mas eu... eu no sabia como reagiria. Tinha  medo
de que me enviasse de retorno  cidade e ali no saberia o que fazer.
      - Compreendo-o, e muito melhor que Amos.  difcil para  ele  imaginar
quo difcil  para uma mulher abrir seu caminho na vida. - O tom de voz  de
Frances foi carinhoso, e  durante  uns  instantes,  a  tristeza  cobriu  seu
rosto. Mas encolheu os ombros e sorriu. - O que  temos  que  fazer  agora  
convert-la numa boa cozinheira.
      Na manh seguinte, Frances j estava na cozinha quando Juliet  entrou,
bocejando. Juliet sabia que a enfermidade  de  Frances  a  tinha  debilitado
tanto que quase nunca conseguia sair da cama antes  das  oito,  e  agradeceu
que Frances  tivesse  feito  esse  esforo  especial  s  por  ela.  Frances
conduziu Juliet ao galinheiro.
      - A primeira tarefa  da  manh    recolher  os  ovos  -  explicou-lhe
enquanto cruzavam o ptio at o pequeno galinheiro de madeira.
      Um par de galinhas passeava sem rumo pelo ptio, suas cabeas  subindo
e descendo. Um galo estava empoleirado num pau, cacarejou e voltou a  cabea
para fixar o olho nelas enquanto se aproximavam. Ao  chegar,  desceu  de  um
salto e se plantou em meio de seu caminho.
      - Esse galo! - exclamou Frances, espantando-o com o brao.  -    mau.
Nunca gostei dele. Se no tomar cuidado, tentar saltar sobre suas costas  e
bic-la.
      Juliet a olhou atnita. Nunca lhe tinha ocorrido que um  galo  pudesse
ser mau ou perigoso.
      Frances percebeu seu olhar de surpresa.
      - Esteve alguma vez numa granja?
      - Jamais - confessou-lhe Juliet.  -  Sempre  vivi  na  cidade,  exceto
quando viajvamos.
      - Eu no sa deste lugar em toda minha vida. Nasci  no  dormitrio  da
parte dianteira da casa. Meu pai e meus avs se assentaram aqui  quando  ele
tinha a idade de Ethan.
      - Ali est a primeira cabana de terra. - Frances assinalou um  pequeno
edifcio de terra entre o celeiro e os campos, - Amos o utiliza  agora  como
defumador.
      Frances se agachou para  entrar  no  pequeno  galinheiro  e  Juliet  a
seguiu.  O  aroma  acre  que  tinha  notado  no  exterior,  resultava  quase
insuportvel  naquele  pequeno  e  escuro  lugar.   Juliet   tentou   tampar
discretamente o  nariz  enquanto  olhava  a  sua  companheira.  Frances  no
pareceu dar-se conta do aroma.
      - Esse  o barraco onde as galinhas pem os  ovos  -  Frances  fez  um
gesto para assinalar as gavetas de madeira repletas de palha que cobriam  as
paredes. Em vrias delas havia galinhas. Algumas dormiam; outras  observavam
s mulheres com espasmdicos movimentos da  cabea,  -  Colocamos  a  mo  e
tiramos os ovos - demonstrou-lhe Frances, extraindo um pequeno  ovo  marrom.
Ela ensinou a Juliet e,  continuando,  colocou-o  no  cesto.  -  Tente  voc
agora.
      Juliet duvidou, olhando as galinhas a seu redor.
      - No importa a elas?
      - Esto acostumadas, imagino.
      Timidamente Juliet estendeu  a  mo  e  a  afundou  numa  das  caixas,
pinando sob a galinha at que seus dedos toparam com  algo  duro  e  suave.
Agarrou-o e o extraiu com cuidado. A galinha no lhe fez caso algum.  Juliet
relaxou, inspirando.
      - V. No  muito difcil, verdade?
      Juliet lhe dedicou um pequeno sorriso,  envergonhada  por  seu  temor.
Parecia uma tolice ter medo a algo do tamanho de uma galinha.
      - No. Suponho que no. S que no estou acostumada.
      - Logo se acostumar.
      Juliet no estava to segura. No obstante, ao retornar para casa  sob
o fresco ar matinal se sentiu bastante  satisfeita  de  si  mesma  pelo  que
tinha feito. Recolher ovos era uma experincia nova para ela,  mas  o  tinha
feito. Possivelmente  tambm  conseguiria  aprender  as  outras  coisas  que
precisava saber. Ocorreu-lhe que o mundo era agradvel a essa hora  do  dia;
uma vez se acostumava um a madrugar daquela forma. O  ar  era  relaxante,  e
tudo tinha um aspecto novo e limpo  plida luz solar.  Deu  uma  olhada  ao
cu oriental, listrado de rosa e ouro. As  escuras  sombras  formadas  pelos
campos de algodo junto ao  riacho  ressaltavam  contra  o  horizonte.  Pela
primeira vez, aquela terra plaina e nua pareceu atrativa para  Juliet.  Pde
perceber a beleza da aridez,  essa  classe  de  beleza  que  produz  dor  de
corao.
      J no interior da  cozinha,  Frances  explicou  a  Juliet  como  devia
colocar a lenha e a quantidade de salsichas que devia pr  para  cozinhar  a
fogo lento. Juliet cortou as salsichas, colocou-as numa frigideira e as  ps
sobre o fogo para que fossem assando enquanto  ela  preparava  o  caf.  Ao
menos essa era uma das coisas que sim sabia fazer.
      Continuando, Frances a ensinou a fazer  bolachas:  preparou  a  massa,
estendeu-a com um pau de macarro e a seguir  recortou  as  bolachas  com  a
borda de um copo pequeno. Pediu a Juliet que engordurasse e  enfarinhasse  a
bandeja de forno sobre a qual colocou  as  bolachas.  Depois  de  colocar  a
bandeja cheia de bolachas no forno, quebrou os ovos, bateu-os e  acrescentou
um pouco de leite, sal e  pimenta.  Quando  Juliet  tirou  as  salsichas  da
frigideira, extraiu da gordura os pedacinhos de carne  que  ficaram  soltos,
e, seguindo as instrues de Frances, colocou um pouco da gordura  num  pote
que era utilizado para esse fim.  A  seguir  preparou  os  ovos  mexidos  no
azeite restante.
      A comida j estava preparada quando os homens  chegaram  do  campo,  e
Juliet  serviu  orgulhosa.  Amos  olhou  ao  seu  redor.  Juliet  sups  que
procurava algo de que queixar-se, e teve que reprimir um sorriso quando  viu
que ele no encontrava nada desarranjado. Sentou-se grunhindo, e comeou   a
comer.
      Juliet se fixou em que Amos comia grandes bocados de comida que  tinha
preparado e que se serviu outro prato de  salsichas  e  bolachas.  Por  fim,
quando afastou a cadeira da mesa para partir, disse, sem olh-la:
      - Um bom caf da manh. - Logo a olhou de esguelha. - Obrigado.
      - De nada. - Juliet sorriu. Pareceu-lhe que no deveria sentir-se  to
bem s porque ele tinha feito um pequeno cumprimento, mas  no  pde  evit-
lo.
       Voltou  a  olh-la,  e  durante  um  instante  pareceu  a  ponto   de
acrescentar algo, mas deu bruscamente meia volta e se dirigiu para a porta.
      - Vamos, Ethan. Estamos perdendo tempo.
      Ethan ficou em p de um salto  para  ouvir  as  palavras  de  seu  pai
dirigindo um sorriso a Juliet.
      - J vou, papai. Obrigado, senhorita Drake. Tia Frances.
      Frances e Juliet recolheram e esfregaram os pratos. A  seguir  Frances
comeou a ensinar a Juliet a fazer as tarefas da casa. Mostrou-lhe  como  se
desnatava o leite e como se  fazia  a  manteiga,  lhe  dando  depois  forma.
Seguiu com a tcnica de fazer po; desde preparar a massa  e  amass-la  bem
antes de deixar que repousasse at o momento em que  se  devia  amassar  com
energia de novo para voltar a deixar que descansasse antes de  coloc-lo  no
forno.
      Juliet estava esgotada ao final do dia.  Perguntou-se  se  chegaria  o
dia em que saberia o que  fazer...  sem  sentir-se  exausta  ao  concluir  a
jornada, com todos os msculos dos braos doloridos.
      Enquanto punha a mesa para o jantar, abriu-se a porta traseira e  Amos
entrou.  Levava  barro  pego  s  solas  das  botas,  e  Juliet   o   olhou,
horrorizada, enquanto cobria de lama o cho que com tanto  sofrimento  tinha
limpado no dia anterior.
      - Viu o que est fazendo? - falou zangada.
      Amos se deteve em seco, olhando-a  como  se  de  repente  se  tornasse
louca.
      - O que?
      - Suas botas! - Juliet lhe mostrou os ps com a mo.  -  Est  sujando
de barro meu cho limpo. Saia e tire essas botas antes de entrar!
      Ele piscou surpreso pela audcia com que ela  tinha  dado  uma  ordem,
mas se limitou a assentir e retrocedeu at a porta.
      - E a partir de agora, agradeceria muito a voc se deixasse  as  botas
fora quando entrar em casa. Passei uma manh inteira limpando esse  cho,  e
preferiria que no se sujasse por negligncia sua.
      Amos lhe dirigiu um olhar sardnico ao se sentar no degrau para  tirar
as botas, as deixando com zombador cuidado no pequeno prtico.
      - No se pode dizer que tenha papas na lngua, verdade?
      Juliet sentiu uma pontada de intranqilidade. O que  tinha  feito  no
era a maneira mais correta de dirigir-se a um patro; irritou-se  ao  ver  o
barro sujando o  cho  limpo.  Mas  tampouco  estava  disposta  a  seguir  a
corrente de um pequeno tirano s porque estivesse acostumada a isso.
      - No h nada de errado em dizer o que uma pessoa  pensa  -  respondeu
tensa. - Imagino que no est acostumado a que algum o contrarie.
      - Me contrariar?  assim  como  chama?  -  De  novo  o  estranho  meio
sorriso nos lbios. Juliet comprovou  como  aumentava  seu  atrativo  quando
sorria. - Eu diria que estava me dando uma ordem.
      Juliet vacilou uns instantes. No sabia o que dizer. Era evidente  que
no estava acostumada a servir. Educou-se como uma  igual  entre  iguais,  e
seu pai, alm disso, tinha  ensinado  e  animado  a  suas  filhas  para  que
pensassem e falassem com inteira liberdade. Tal atitude, deu-se  conta,  no
era o que se esperava de uma cozinheira ou faxineira.
      - No... No  deveria  ter  falado  com  tanta  brutalidade  -  disse,
afastando o olhar dele.
      - No. - Estendeu a mo. - No  se  preocupe.  Tinha  razo.  Eu...  
agradvel. Que no tenha medo de  mim,  quero  dizer.  Algumas  pessoas  tm
medo.
      Juliet sorriu, aliviada.
      - No deveria ter feito brincadeiras com voc - continuou Amos.
      Juliet o olhou, surpreendida, ao ouvir  que  tinha  estado  brincando.
Parecia algo muito frvolo para  uma  pessoa  como  Amos  Morgan.  Tambm  a
expresso de Amos era de assombro, como  se  ele  se  surpreendesse  daquele
comportamento to pouco caracterstico nele. Imediatamente, e antes  de  dar
meia volta, a expresso de  seu  rosto  voltou  a  ser  a  habitual.  Juliet
permaneceu uns instantes vacilante,  perguntando-se  o  que  tinha  quebrado
aquela dbil conexo que os tinha unido to brevemente. Balanou  os  ombros
e voltou a  concentrar-se  no  trabalho.  Era  tempo  perdido  que  tentasse
entender a Amos.
      Depois daquela primeira manh, Juliet se ocupava ela mesma  dos  cafs
da  manh.  Comeou  a  ser  muito  mais  fcil  recolher  os  ovos,  embora
desconfiasse ainda do galo, que  tinha  por  costume  aparecer  de  qualquer
lugar e assust-la, entre cantos e cacarejos. Tal  como  Frances  lhe  tinha
sugerido levava consigo um trapo de cozinha, que utilizava  para  assust-lo
quando os ataques resultavam muito ameaadores. Logo chegou a  distinguir  a
uma galinha de  outra,  e  freqentemente  falava  com  elas,  inclusive  as
batizando, enquanto pulverizava o gro pela noite ou recolhia os  ovos  pela
manh.
      Grande parte  do  tempo  que  Frances  passava  ensinando  Juliet  era
dedicado  cozinha e aos vrios aspectos dessa arte. Pelas  tardes,  Frances
se sentava  mesa e escrevia as receitas que sabia de cor e que por sua  vez
tinha aprendido de sua me. Enquanto  trabalhavam,  conversavam.  A  Frances
interessava saber coisas da vida de Juliet no teatro e dos  lugares  em  que
tinha vivido, e embora pensasse que, em  comparao com  sua  prpria  vida,
esta tinha sido aborrecida,  Juliet  desfrutava  com  as  anedotas  que  lhe
contava da  granja.  Encontrava  aos  Morgan,  com  seu  silncio  e   fora
estica, misteriosos, e seu modo de vida era para ela um mundo novo.  A  sua
maneira tranqila e estranha, Frances era divertida, e cada dia que  passava
Juliet a apreciava mais e mais.
      Freqentemente, Juliet  cantava  enquanto  trabalhava  para  facilitar
assim a tarefa. Uma manh que estava cantando enquanto esfregava  os  pratos
depois do caf da manh, deu uma olhada  mesa onde Frances trabalhava  e  a
viu recostada no respaldo da cadeira, os olhos fechados e uma  expresso  de
beatitude no rosto.
      Ao perceber o olhar de Juliet, Frances abriu os  olhos  e  sorriu,  um
pouco envergonhada de ter sido descoberta.
      - Tem uma voz preciosa. Poderia escut-la  durante  horas.  Nossa  me
tambm cantava algumas vezes. No o fazia como voc; sua  voz  era  bastante
normal. Mas a msica a encantava. Tinha uma caixinha de msica que  seu  pai
a tinha presenteado, e  quando  levantava  a  tampa  se  ouvia  uma  melodia
preciosa, to elegante e delicada. Eu estava acostumada a pensar  que  soava
como  pequenas gotas de prata. -  Suspirou.  -  Est  acima,  na  gaveta  de
abaixo de meu armrio. Guardei-a porque era para mim muito doloroso  escut-
la.
      Igual a seu irmo, pensou Juliet.
      - Mame adorava as coisas belas - continuou  dizendo  Frances  em  tom
nostlgico. - Sua famlia era gente da cidade, sabe, e de  classe  alta.  Os
mveis do salo e da sala de jantar pertenciam a  sua  famlia.  Ela  trouxe
consigo essas jias da famlia, os candelabros e  todo  o  resto  quando  se
casou com papai. Lembro-me que  em  algumas  ocasies  estava  acostumada  a
sentar-se e os olhava  ou  os  tocava;  quando  eu  lhe  perguntava  no  que
pensava, dizia-me: Estou recordando, isso  tudo.  No sei muito  bem  por
que se casou com papai; no se pareciam em nada. Salvo que era  um  jovem  e
elegante demnio. H uma foto do dia  de  suas  bodas,  e  ele  era  bonito.
Parecido a Amos, mas mais frio.
      Mais frio que Amos? Para Juliet parecia que ele era como uma parte  de
gelo cada vez que a olhava. Bom, no, pensando-o melhor, Juliet decidiu  que
Amos era mais duro que frio. Seus olhos soltar jogar fascas  quando  estava
zangado.
      - Continue cantando - pediu Frances. - No se  preocupe  por  mim.  Eu
adoro  ouvir. Em especial quando estou l em cima, em minha cama.  De  algum
jeito suas canes fazem com que tudo seja mais suportvel.
      Os olhos de Juliet se encheram de lgrimas; era difcil aceitar o fato
de que Frances estivesse morrendo. Juliet tragou saliva  com  dificuldade  e
comeou a cantar.
      A lio seguinte de Frances foi de lavar. Mandou  Juliet  ao  piso  de
cima para tirar os lenis das camas. Juliet se sentiu  um  pouco  estranha,
quase culpada, entrando nos quartos alheios, como se estivesse  invadindo  o
lugar e sentiu-se especialmente incmoda quando entrou no grande  dormitrio
que pertencia a Amos.
      Tinha muito poucos mveis; uma cama, uma cadeira e  uma  cmoda,  tudo
isso de slido carvalho e de desenho singelo. A colcha tambm  era  singela,
e o edredom dobrado aos  ps  da  cama  estava  descolorido  por  causa  das
mltiplas lavadas. Viam-se poucos rastros do ocupante do quarto,    exceo
possivelmente da  simplicidade  e  do  lugar.  Em  uma  das  paredes  estava
pendurado  um  daguerretipo(*01)  num  suporte  metlico;   era   a   nica
decorao. Com curiosidade,  Juliet  se  aproximou,  pensando  se  seria  um
retrato da me de Ethan. Ningum falava dela nunca, e Juliet  se  perguntava
freqentemente qual seria seu paradeiro. Sups que a esposa  de  Amos  tinha
morrido, j que era evidente que no estava ali, mas era um mistrio como  e
quando tinha ocorrido seu falecimento.
      Mas o daguerretipo(*01)   era  o  retrato  de  uma  famlia:  o  pai,
sentado, as mos sobre os joelhos, sustentando um chapu  numa  mo;  a  me
detrs dele, a mo repousando sobre seu ombro; dois meninos a cada  lado  do
banco em que o pai estava sentado; uma menina pequena de p,  diante  de  um
menino mais alto, e um beb, sem sexo, com  um  gorro  e  umas  largas  abas
brancas, sobre o regao do pai. Todos eles olhavam rgidos para frente.
      Juliet estava intrigada. Pensou  que  devia  ser  a  famlia  de  Amos
Morgan. O homem de aspecto severo com bigode e  grosas  costeletas  seria  o
pai, a mulher magra e  plida,  a  me.  Ela  parecia  um  pouco  assustada,
possivelmente pelo fato de que a estivessem  fazendo  uma  foto  com  aquele
novo aparelho. Henrietta lhe havia dito que Amos  era  mais  jovem  que  seu
marido, de modo que Amos devia ser o menino pequeno ou o beb.  Era  difcil
imagin-lo assim. A garota, claro est, devia ser Frances.
      Juliet se afastou da foto e se dirigiu  cama. Deixou o edredom  sobre
o ba que havia ao p da cama, retirou a colcha e a dobrou, pondo-a sobre  o
edredom, e comeou a tirar os lenis. Dava-lhe um pouco de  vergonha  fazer
aquilo na cama de  Amos,  como  se  estivesse  atuando  de  forma  indevida.
Parecia um ato excessivamente ntimo. Deveria ser tarefa  de  algum  que  o
conhecesse melhor, uma mulher que compartilhasse sua cama e sua vida.
      Apressadamente Juliet terminou e saiu do quarto.  Com  rapidez  passou
pelos dormitrios de Ethan e Frances, fazendo o mesmo.  Aqueles  dormitrios
no a punham to nervosa. Estavam to nus e eram to funcionais  como  o  de
Amos, com escassos objetos e sem decorao que  os  convertessem  num  lugar
mais agradvel e pessoal.
      Tinha pensado que seu quarto  era  singelo  por  ser  o  de  hspedes;
ningum vivia nele. Mas se observava pouca diferena entre seu dormitrio  e
o do resto da famlia. De fato, agora que Juliet tinha colocado suas  coisas
nele, estava mais acolhedor que os deles.
      Os Morgan no pareciam fazer esforo algum por melhorar o mundo em que
viviam, nem acrescentavam  elementos  de  cor  nem  de  beleza.  Juliet  no
entendia. Era uma vida to diferente da que ela tinha levado at agora.
      Em algumas ocasies, Juliet tinha desejado  que  seu  pai  fosse  mais
prtico e que se deixasse levar menos por  sua  natureza  artstica.  Quando
gastava  o  dinheiro  da  comida  para  comprar  um  leno  de  renda,   to
delicadamente tecido que pareciam finas teias de aranha, quisera  chorar  de
raiva, e depois gritar com ele. Mas at ento no tinha entendido  o  gesto,
e adorava o leno. No concebia a idia de no querer ter  coisas  belas  ao
redor.
      Juliet arrastou a roupa suja at abaixo e a tirou o ptio
      Ali ela e Frances lavaram e esfregaram os lenis numa tbua de  lavar
colocada em uma terrina grande com gua e as branqueavam  em  outra  terrina
enorme. Continuando, ela estendeu os lenis e a  roupa  para  que  secassem
durante a tarde, os recolhendo e os dobrando  antes  do  anoitecer  Era  uma
tarefa rdua, e quando tinha acabado ainda faltava engomar e guardar.
      Havia muitssimo trabalho; a limpeza pesada alm das  tarefas  dirias
de varrer, tirar o p e encerar os mveis. Para  Juliet  parecia  uma  lista
interminvel de coisas, e assim que terminava uma, tinha que comear  com  a
seguinte.
      Comeava a pensar que as  coisas  nunca  melhorariam.  Cada  noite  se
deitava esgotada na cama. Msculos cuja  existncia  desconhecia  lhe  doam
agora. Em tudo parecia demorar mais que o devido, e se sentia frustrada  por
sua estupidez. Alm disso, seguia cometendo enganos. Com o ferro queimou  um
dos lenis de Amos, deixando uma boa mancha marrom  no  tecido.  Ps  muita
goma  toalha e aos guardanapos, e ficaram rgidas e  duras.  Umas  fornadas
de po saram pequenas,  condensadas  e  inspidas  porque  se  esqueceu  de
colocar o bicarbonato  massa. Todos o comeram;  no  havia  mais  po  para
acompanhar a comida, mas enquanto Juliet  os  olhava  mastigar  solenemente,
teve vontades de que a terra a tragasse. No conseguiria  alguma  vez  fazer
direito?
      Uma manh, depois de  recolher  os  ovos  e  enquanto  se  dirigia  do
galinheiro para a casa, viu uma de suas forquilhas no cho. Agachou-se  para
agarr-la, e algo pesado  caiu  de  repente  sobre  suas  costas.  Ouviu  um
cacarejo e o rudo de asas. Sobressaltada, Juliet soltou a cesta e ficou  em
p de um salto, gritando. O galo a estava atacando!
      Com as mos golpeou para trs, mas o  galo  afundou  o  pico  chegando
mesmo a  transpassar  a  roupa.  Voltou  a  gritar,  aterrorizada,  enquanto
tentava atrapalhadamente se desembaraar do animal...
      Amos saiu correndo do celeiro. Agarrou Juliet pelo brao com uma mo e
com a outra golpeou ao galo lanando-o quase at o outro extremo do ptio.
      - Maldito seja! Velho galo louco!
       Juliet se ps a chorar, tremendo. De repente,  tudo  era  muito  para
ela. O susto e a dor das feridas das costas junto  com  o  esgotamento  e  a
frustrao que sentia desde alguns dias fizeram  com  que  suas  emoes  se
transbordassem e ps-se a chorar convertida em muitas lgrimas.
      - Est bem? - perguntou Amos, agarrando-a pelo brao e virando-a  para
poder ver as costas. - Maldito seja! Aranhou sua pele. Menos mal que  estava
usando a capa, ou as feridas teriam sido mais profundas.
      Juliet continuou chorando, incapaz de parar. Cobriu  o  rosto  com  as
mos, tentando ocultar as lgrimas.
      - Senhorita Drake? - Seu tom de voz era de preocupao. - Est bem?  O
que ocorre?
      - O que ocorre! - repetiu Juliet ofegando  enquanto  chorava.  Zangada
limpou as lgrimas do rosto. - Como pode me perguntar  o  que  ocorre?  Esse
galo me atacou!
      - Pois, sim, eu sei. -  Franziu  o  cenho.  -  Mas  parece  estar  to
afetada...
      -Sem dvida uma verdadeira camponesa no choraria por algo to tolo  e
estpido como o ataque de um galo! - Juliet se  afastou  com  um  puxo,  e,
para maior vergonha, suas lgrimas fluram com mais fora que nunca. -  Pois
eu no sou uma mulher do campo. Isso  bvio! To  somente  sou  uma  garota
assustada da cidade, e desejaria no ter vindo nunca a  esse  lugar  perdido
do mundo!
      Voltou-se e comeou a ir para a casa, em busca de  um  lugar  no  qual
chorar em particular. Amos correu atrs dela  e  a  agarrou  por  um  brao,
obrigando-a a deter-se.
      - No, espere, no queria dizer... demnios! No  estava  dizendo  que
fosse frgil nem nada disso; s tinha pensado  que  possivelmente  estivesse
machucada em algum lugar que eu no tenha visto.
      -  obvio que estou machucada! - espetou  Juliet.  -  Estou  machucada
por toda parte. Da cabea at os dedos dos ps. Cada  noite,  quando  vou  
cama, sinto-me machucada por toda parte. - As  palavras  saam  a  tropeos,
interrompidas pela corrente de lgrimas.
       Tinha a sensao de que se afogava; no podia impedir que as palavras
sassem de sua boca, como um vulco em erupo. - Voc tinha razo! No  sou
feita para viver numa granja. No posso. Cometo engano atrs de engano.  At
essa estpida ave sabe! - Fez um gesto amalucado para o  galo.  -  Sabe  que
no perteno a esse lugar. Intui que estou numa situao de  desvantagem.  -
Juliet respirou profundamente, tremendo, na  tentativa  de  controlar-se  de
alguma forma.
      - No. Est exagerando um pouco. Esse galo odeia a todo mundo.
      - Mas me atacou! -  assinalou  Juliet.  Os  soluos  foram  diminuindo
pouco a pouco, e ento respirou profundamente e foi limpando as  lgrimas  
medida que uma deprimente calma se apoderava dela.  -  Depois  de  todos  os
esforos que Frances tem feito para  me  ensinar;  sei  que  deve  sentir-se
terrivelmente desiludida comigo. Pensei que  poderia  aprender,  pensei  que
seria mais fcil. Mas no  assim.
      - Essa no  forma de falar - disse Amos, brusco. - Frances no  pensa
o mesmo.
      - Como pode ser de outra maneira?
      - No pensa o mesmo. Ela me disse.
      - De verdade? - Juliet levantou a vista surpreendida. Tinha  os  olhos
ainda molhados de lgrimas, as  pestanas  coladas  como  as  pontas  de  uma
estrela ao redor de seus olhos. As lgrimas tinham intensificado a cor  azul
de seus olhos lhes dando  expresso  de  vulnerabilidade.  Tambm  sua  boca
parecia estar mais suave e cheia, muito apetitosa.
      Amos limpou a garganta e afastou o olhar, fixando-o na casa.
      - Sim. Claro. Por que ia mentir a voc?
      - No sei. Pensei que possivelmente tentava me consolar. - Seu tom  se
endureceu. - Devia saber.
      Amos apertou os lbios, e cruzou os braos diante do peito.
      - Faz um par de dias me disse que pensava que chegaria a faz-lo muito
bem. Que no queria que partisse. Opinava que  aprendia  muito  depressa,  e
que tinha grande interesse.
      - De verdade?
      - Sim, de verdade. - Dirigiu-lhe um olhar de irritao. - No o disse?
      Juliet procurou em seu bolso e encontrou o leno. Secou as lgrimas  e
se assoou, tentando controlar-se.
      - Pensei... Tenho a sensao de que sempre fao tudo errado.
      - Todo mundo comete enganos. A primavera  dura. H muito  trabalho...
a limpeza e tudo. Frances no quer que se v.
      Juliet ficou com  a  respirao  suspensa.  Uns  minutos  antes  tinha
jurado que nada a teria agradado mais  que  afastar-se    carreira  daquele
lugar. Mas a idia de que agradava a Frances, e que esta queria que  ficasse
a consolava. Possivelmente j tivesse passado o pior. Talvez se ficasse,  as
coisas seriam mais fceis.
      - E o que me diz de voc? - perguntou  com  suavidade.  -  Deseja  que
continue aqui?
      Amos se moveu nervoso, evitando seus olhos. Encolheu os ombros.
      - Suponho que ser mais fcil que tentar  procurar  outra  governanta.
Est fazendo isso muito bem. Eu... eu  me  equivoquei  ao  brigar  com  voc
daquela forma. Todo mundo merece uma oportunidade.
      Um sorriso se desenhou nos lbios de Juliet.
      -  Ento  isso  significa  que  eu  tambm  deveria  lhe   dar   outra
oportunidade.
      Ele a olhou atnito, e ento, para surpresa  de  Juliet,  sorriu.  Ela
ficou desconcertada pela forma como o sorriso  iluminou  seus  olhos  e  lhe
suavizou os traos, fazendo que fosse quase bonito.
      - Vamos - disse ele de  repente,  -  vamos  para  casa  e  curemos  as
feridas.
      - De acordo.
      Entraram na cozinha, e ele tirou uma pequena garrafa marrom de um  dos
armrios. Juliet tirou a leve capa. Amos se voltou para ela  com  a  garrafa
na mo e uma parte de algodo na outra e a olhou.
      - Temos que limpar esses arranhes.
      O vestido de Juliet se abria pela frente.  Deu-se  conta  de  que,  se
queria que Amos lhe desinfetasse os cortes das costas,  precisaria  tir-lo.
Suas bochechas se ruborizaram. No podia fazer uma coisa assim diante de  um
homem. Mas era impossvel chegar at os arranhes, e  no  gostava  nada  de
ter que despertar a Frances para fazer uma coisa to simples.
      - Bom... Possivelmente devesse esperar at que Frances desperte.
      Amos franziu o cenho.
      - No sei. Uns cortes como estes podem  infectar-se  muito  em  breve.
-aproximou-se dela e posou as mos sobre seus ombros, virando-a  para  poder
ver as costas. - O vestido est bem rasgado. Acredito que  posso  limpar  os
arranhes pelos rasgos do vestido. Depois Frances poder pr uma atadura.
      - De acordo. - Sua voz tinha  um  ligeiro  tremor.  O  roar  daqueles
dedos sobre seus ombros resultava desconcertante; mas tambm agradvel.  No
estava acostumada que os homens a tocassem. Como era to difcil no  perder
a virgindade no mundo do teatro, Juliet havia resolvido o problema  evitando
todo contato com os homens que tentavam seduzi-la. De modo que no  roar  de
Amos havia algo de proibido que o tornava excitante. Suas mos eram  firmes,
clidas, reconfortantes, e tornavam fcil relaxar e confiar nele.
      Amos molhou o algodo e a seguir separou  os  dois  lados  do  vestido
numa das feridas. Esfregou o longo arranho vermelho da pele, e  Juliet  fez
uma careta de dor.
      - Sinto muito.
      - No, no di muito.  mais a gua fria.
      - Oh. - Limpou a ferida, as mos to suaves e ligeiras que  quase  no
as sentia, s a umidade do algodo. Juliet pensou nos  embotados  e  speros
dedos de Amos, seu enorme corpo, e se perguntou como  um  homem  to  grande
como ele podia ter um toque to leve.
      - No  profunda - disse. - No ficar cicatriz. - Passou  para  outro
rasgo do vestido e a outro arranho. Nenhum dos dois  disse  nada  enquanto
continuava limpando os finos arranhes.
      Juliet percebeu certo  tremor  em  sua  mo  ao  passar  por  uma  das
feridas, logo ele se deteve de repente e retrocedeu uns passos.
      - J est bom. - Tinha a voz rouca, e limpou a garganta.
      - Obrigada. - Juliet comeou a sair.
      - Espere. Tenho que pr o desinfetante.
      Juliet se deteve, esperando  paciente,  a  cabea  inclinada.  A  suas
costas ouviu Amos agitar a garrafa, destamp-la, e amaldioar  entre  dentes
quando comprovou que a tampa no saa  com  facilidade.  Por  fim  conseguiu
tir-la, e voltou a curar os arranhes. Juliet no deixava  de  pensar  nele
lhe esfregando as costas atravs do tecido rasgado,  olhando  as  partes  de
pele nua. Aquilo a deixava sem respirao.  Perguntou-se  se  Amos  sentiria
algo ou se estava indiferente. Havia  dito  que  era  bela,  recordava-o,  e
teria gostado de saber se ele sentia a mesma  excitao  quando  tocava  sua
pele.
      - Voc no  a primeira pessoa que sofreu os ataques do galo  -  disse
Amos de repente. - Perseguiu o co de Ethan uma vez quanto  este  comeou  a
farejar pelo galinheiro. Depois daquilo, o  co  se  manteve  afastado;  no
tivemos que nos preocupar nunca de que roubasse ovos.
      Juliet esboou um dbil sorriso.
      - Eu acredito.
      - Normalmente ataca coisas menores que as pessoas.
      - Bom, de fato eu estava inclinada  recolhendo  uma  coisa  -  admitiu
Juliet.
      - Essa  certamente a razo. Pensou que era  menor.  Ou  possivelmente
viu o lao que leva no cabelo;  essas  coisas  s  vezes  surpreendem  a  um
animal.
      - Oh. - Juliet o  segurou  o  cabelo  com  a  mo.  Naquela  manh  se
atrasou, e tinha recolhido o cabelo rapidamente em um rabo atando-o  com  um
lao. - No tinha ocorrido nunca.
      - No  que no seja  bonito.  -  Juliet  acreditou  sentir  que  algo
tocava o longo cabelo que lhe caa pelas costas, mas foi to breve  e  suave
que no estava segura. - Os galos no so as criaturas  mais  brilhantes.  -
Fez uma pausa, e disse - Nunca a tinha visto com esse penteado.
      - Normalmente no o prendo assim. -  Juliet  se  sentiu  envergonhada.
No era correto levar o cabelo solto na  presena  de  um  homem,  mesmo  se
estivesse amarrado num rabo-de-cavalo. - No tive tempo de  fazer  um  coque
esta manh.
      Sentiu que sua mo se afastava das costas;  tinha  acabado  de  pr  a
medicao. Ficou de p atrs dela um momento mais, depois  se  voltou  e  se
dirigiu para o armrio, onde ps a garrafa numa das prateleiras.
      Juliet deu meia volta.
      - Obrigada - disse com suavidade.
      Ele assentiu, sem nem deter-se ou  olh-la,  e  saiu  da  cozinha  com
passos rpidos.
Captulo 6.
      No domingo seguinte, e depois de assistir  cerimnia na igreja,  Jonh
Sanderson foi visit-la. Sentindo-se pouco cansados,  reuniram-se  todos  no
salo de trs. Frances aparentava estar evidentemente muito cansada, e  Amos
no disse quase nada, se limitou  a  permanecer  ali  sentado  olhando  para
Juliet  e  Sanderson  impassvel.  At  Ethan   ficou   um   pouco   calado,
impressionado pela presena do pai de  Ellie  em  sua  casa.  Juliet  tentou
compensar o silncio dos outros conversando.
      Ao fim de um momento, tambm ela se  cansou  e,  finalmente,  John  se
levantou para despedir-se. Juliet o acompanhou  porta.
      Ele abriu, voltou-se para ela, agarrou-a pela mo e a olhou nos  olhos
de forma significativa.
      - Espero poder voltar a visit-la.
      - Sim, claro. - Juliet  respondeu  da  forma  o  menos  comprometedora
possvel. Pessoalmente, preferiria no  ter  que  passar  outra  tarde  como
aquela. John, embora bastante simptico, no era seu tipo.
      Sanderson lhe dirigiu um  sorriso,  deu-lhe  um  aperto  de  mos,  e
partiu. Juliet fechou a porta e se apoiou nela com um suspiro de  alvio.  A
seguir retornou ao salo de costura com inteno  de  seguir  costurando  em
seu quarto.  O  cesto  estava  sempre  cheio,  e  nunca  parecia  ter  tempo
suficiente para acabar de costurar tudo as  peas  rasgadas;  dedicava-se  a
isso sempre que estava sentada e descansando.
      Frances e Ethan tinham fugido do salo, e s estava Amos, afundado  em
sua poltrona, as longas pernas estendidas  pra  frente.  Juliet  entrou  nas
pontas dos ps, mas Amos levantou a cabea para olh-la.
      - Sinto muito. Tentava no incomodar. - Juliet lhe dirigiu um  sorriso
de desculpa e se voltou de novo para a porta.
      - Estava esperando-a  - disse ele, e Juliet se  deteve  para  o  olhar
fixamente.
      - Estava o que?
      - Esperando. Preciso falar com voc.
      - Por qu? - Seu tom de voz incomodou a  Juliet.  Suspeitou  que  Amos
fosse lhe dar outro discurso de moralidade.
      - Trata-se de voc. E Sanderson.
      Juliet arqueou as sobrancelhas.
      - Sim?
      - A nica forma que sei dizer isto    indo  diretamente  ao  assunto.
Possivelmente no goste. - Fez de novo uma pausa.
      Juliet cruzou os braos na defensiva e esperou que ele continuasse.
      - Eu pensaria duas  vezes  antes  de  ver  John  Sanderson  com  tanta
assiduidade.
      - O que? - Aquelas palavras no eram o que tinha  esperado,  e  Juliet
se sentiu algo confusa. - No entendo. O que quer me dizer?
      Amos se retorceu na cadeira, depois  ficou  de  p  e  se  dirigiu  s
prateleiras da parede oposta. Ali havia uma coleo de cachimbos e  um  pote
de tabaco; Amos escolheu um cachimbo e comeou a preench-lo.
      - Estou dizendo - continuou sem olh-la - que possivelmente  no  seja
uma boa idia que veja muito ao Sanderson, isso  tudo.
      Juliet ps as mos em jarras.
      - Do que me est falando? Nunca o vi andar com rodeios.  Por  que  no
iria ver o senhor Sanderson? Tambm acredita que estou tentando seduzi-lo?
      Ele se voltou, olhando-a atnito.
      - No! Que espcie de tolice  essa? Falo isso para o seu bem, no  de
Sanderson. No deveria v-lo, isso  tudo.
      - Mas por que no?
      - No pode aceitar minha palavra?
      - No sei por que ia faz-lo. No sei do que me fala,  e  no  me  deu
nenhuma razo para no o ver. No acostumo cumprir  ordens  s  cegas.  -  A
boca de Juliet se retorceu de irritao.
      - Nisso tem razo - assentiu amargamente Amos. - Voc   mais  teimosa
que uma mula.
       -  Muito  obrigada.  Agora,  se  tiver  terminado  de  avaliar  minha
personalidade, posso ir?
      - No, no pode! - voltou-se. - No at que eu acabe de  dizer  o  que
me propus.
      - Acredito que  j  me  disse  isso.  Aconselhou-me  que  me  mantenha
afastada do senhor Sanderson, mas se nega a me explicar a  razo.  No  vejo
que sentido tem continuar com esta...
      - Porque no  respeita  s  mulheres,  por  isso.  -  Soltou  Amos  de
supeto.
      Juliet ficou boquiaberta.
      - No respeita s mulheres? - Aquilo  estava  to  longe  do  que  ela
esperava que ele dissesse que no podia acreditar.
      - Fica agora claro? Deixe que o diga de outra maneira,  um don Juan.
      Juliet ficou atnita.
      - O que? No. Tem que estar equivocado.
      - Equivocado? - Arqueou as  sobrancelhas.  -  Deveria  ter  imaginado;
acredita que minto.
      - No disse isso.
      Ouviu-se um grunhido de incredulidade como resposta.
      - No  preciso que o diga. Pois bem, possivelmente no agrade a  voc
nem queira acreditar o que lhe digo, mas  a pura verdade. Faz anos que  tem
fama disso, mesmo antes da morte de sua esposa.
      - As famas no se apiam necessariamente na  verdade.  Como  sabe  que
no  infundada?
      Amos fez uma careta e se voltou para continuar enchendo o cachimbo.
       -  Pense  o  que  queira.  No  posso  fazer  nada  para   imped-la.
Entretanto, direi algo: talvez acredite que esse homem est  interessado  em
casar-se com voc, mas no est. Eu garanto.
      - No imagino que queira casar-se comigo!
      - De acordo. Ento no se sentir desiludida quando s  o  que  tentar
ser  lev-la  horta.
      Juliet ficou com a respirao suspensa.  Aquelas  palavras  eram  como
uma bofetada. Isso era  o  que  Amos  pensava  dela,  deu-se  conta;  no  a
considerava uma mulher por  quem  um  homem  pudesse  apaixonar-se  ou  cuja
conversa fosse divertida ou  que  tivesse  uma  personalidade  agradvel.  E
tambm no podia imaginar  nenhum outro homem pensando de forma diferente.
      - Senhor Morgan - disse incapaz de ocultar o tremor de ira e  dor  que
impregnava sua voz. - Parece que isso  s no que pensa. Em  primeiro  lugar
voc temeu que eu seduzisse o seu filho e levasse a ele para  minha  malvada
cama. Agora  o senhor Sanderson quem deseja  me  seduzir.  V  seduo  nas
palavras e nos gestos mais singelos. Mas nem todo  mundo  pensa  como  voc,
graas a Deus. Desfrutei conversando com o senhor Sanderson  esta  tarde,  e
acredito que  ele  desfrutou  me  visitando.  Possivelmente  nos  interessem
coisas diferentes  das  que  interessam  a  voc.  Nego-me  a  permitir  que
estrague uma tarde agradvel e normal com  suas  insinuaes.  Se  o  senhor
Sanderson desejar ver-me de novo, eu o verei e o que voc pense ou deixe  de
pensar no me importa.
      - Isso  bvio. - A boca de Amos permanecia fechada e  estava  plido.
Tinha o olhar fixo. - Pode acreditar o que quiser.  No  penso  me  interpor
entre vocs dois. Fui um imbecil ao abrir a boca. As  mulheres  querem  algo
completamente distinto num homem, no desejam fidelidade nem devoo.
      Passou pela frente dela e saiu do quarto. Uns segundos  depois  Juliet
ouviu que a porta da cozinha se fechava de uma  pancada.  Sem  dvida  tinha
ido ao abrigo. Parecia passar ali a maior parte de seu tempo  livre;  Juliet
no tinha nem idia de que fazia ali.
      Juliet se dirigiu para seu quarto e se sentou na cama com  um  suspiro
de mau humor. No tinha interesse em ver John Sanderson. E, entretanto,  ali
estava planejando deixar que a visitasse de novo s porque  Amos  falou  que
no deveria permit-lo. Juliet moveu a cabea em um gesto  de  negao.  No
sabia se ria ou chorava. No importava  o  que  fizesse,  parecia  que  Amos
Morgan no deixava de intervir em sua vida.
      Transcorreram as semanas, e as tarefas de Juliet deixaram de  ser  to
rduas; ou melhor dizendo, cada vez estava mais capacitada. Cuidar  da  casa
era um trabalho duro, mas j no era frustrante, e o fazia  com  muito  mais
rapidez. As tarefas habituais as tinha perfeitamente  sob  controle.  Juliet
sabia j a quantidade de goma que devia utilizar  para  que  as  camisas  de
vestir de Amos e Ethan no ficassem  rgidas.  Sabia  quanta  lenha  pr  no
fogo e quando devia avivar  o  fogo  ou  deixar  que  se  fizessem  brasas.
Inclusive tinha chegado quase at a ponto de saber a  temperatura  do  forno
aproximando simplesmente a mo, como Frances fazia. Embora no se  atrevesse
a dizer que era uma governanta perita, para Juliet bastava saber que j  no
era uma novata.
      Embora parecesse surpreendente, o trabalho  a  enchia  de  satisfao.
Sentia-se orgulhosa quando passava o olhar pela cozinha ao final  do  dia  e
via as resplandecentes superfcies. Desfrutava  quando  Ethan  elogiava  sua
comida ou Amos repetia de um prato. Tambm sentia satisfao ao ver a  roupa
bem engomada e dobrada nas gavetas dos armrios e ao  estend-la  depois  de
lav-la. Era prazenteiro segurar uma pea rasgada do cesto e recomp-la.
      Mas Juliet no estava  feliz  s  cumprindo  suas  tarefas  habituais.
Queria embelezar a casa tambm. Recolhia  ramalhetes  de  flores  silvestres
que comeavam a florescer nas bordas da estrada  e  no  campo  ao  norte  da
granja e as colocava em vasos e terrinas que  repartia  entre  a  cozinha  e
toda a casa. Sempre havia flores no quarto de Frances  com  a  esperana  de
que alegrassem um pouco seus  dias.  Confeccionou  cortinas  novas  para  as
janelas da cozinha, utilizando um alegre tecido de algodo que encontrou  no
sto. A casa estava mais alegre, mais  agradvel.  Teria  ficado  preciosa,
pensou, se Amos estivesse de acordo em utilizar os  dois  sales  formais  e
expor os elegantes objetos de sua me. Mas no  se  atrevia  a  mencionar  o
tema outra vez.
      Surpreendendo a si mesma, descobriu que comeava a gostar  da  granja.
Acostumou-se a total tranqilidade do  lugar.  Agradava-lhe  em  especial  a
quietude silenciosa da noite, depois  de  pr-do-sol  e  antes  que  toda  a
paisagem ficasse envolta na escurido. Freqentemente saa ao ptio  a  essa
hora, depois de ter esfregado os pratos do jantar,  e  passeava,  olhando  a
lua e as estrelas, cansada mas feliz.
      Umas quantas flores e rvores ficariam bem, pensou, mas tinha  chegado
a apreciar a grandeza do campo aberto, a indomada imensido.  s  vezes,  ao
entardecer, quando o sol envolvia a paisagem  em  chamas  vermelhas,  Juliet
ficava olhando, perdida na maravilha da selvagem beleza.
      O melhor de tudo eram os pequenos animais. Uma noite, Amos  entrou  na
cozinha.
      - Venha um momento - disse, colocando a cabea pra dentro  e  sorrindo
para que ela se unisse a ele.
      - Para que? - perguntou Juliet, mas desatou  o  avental  e  deixou  os
pratos. Estava intrigada pela expresso de seu rosto, tranqilo e feliz.
      - J o ver.
      Parecia quase um menino pequeno, pensou, enquanto cruzava a  seu  lado
o ptio at os currais. Aproximaram-se de uma pocilga  fedorenta,  e  Juliet
enrugou o nariz.
      Ele se ps-se a rir ao ver sua expresso.
      - Vale a pena o aroma. - dirigiu-se  cerca de  madeira  e  olhou  por
cima. - Venha. Vai adorar, eu prometo.
       Para  Juliet  custava  pensar  em  algo   encantado   numa   pocilga.
Sustentando cuidadosamente um pouco levantada a saia  de  seu  vestido  para
evitar sujar-se com o esterco, subiu  cerca junto dele e olhou.
      Uma porca cansada estava recostada de lado na pocilga, e um monto  de
pequenos porquinhos se empurrava e se afastava tentando mamar.
      Juliet ps-se a rir.
      - So lindos!
      Amos sorriu, observando o prazer dela.
      - Eu disse que gostaria. Nasceram hoje mesmo.
      - Nunca imaginei que os porquinhos pudessem ser to bonitos! -  Juliet
se apoiou na cerca, olhando as comilonas criaturas, esquecendo do  aroma  da
pocilga e do fato de que as costas lhe doam de estar toda a  tarde  lavando
roupa.
      - Quase todo animal  bonito como um cachorrinho. Inclusive um  porco.
Mas teria que ver os bezerros. So os melhores.
      Poucos dias depois, uma das vacas pariu. Quando Juliet ouviu  Ethan  e
Amos falar disso, insistiu em ir ao  estbulo  para  v-la.  Tal  como  Amos
disse, era precioso, grande, com olhos tristes, patas  frgeis  e  uma  cara
doce e encantadora. Juliet se apaixonou imediatamente por ele.
      - Quero dar-lhe um nome! Posso?
      Amos se ps-se a rir e moveu a cabea.
      - Adiante. Mas no se pe nome nos bezerros.
      - E por que no? Tm personalidade. Deveriam ter nome.
      Depois chegaram os pintinhos e os  gansos  e  mais  bezerros.  Frances
disse que a gua pariria dentro de muito pouco tempo. De repente,  a  granja
parecia transbordante de vida. Juliet adorava; sua alma se reanimava  quando
via alguns dos pequenos animais.  Seus  preferidos  eram  os  pintinhos.  As
bolinhas de plumas amarelas nunca deixavam  de  diverti-la.  Adorava  v-los
percorrer o ptio com patinhas  to  pequenas  que  quase  eram  invisveis,
dispersando-se  quando  ela  ou  alguma  outra  pessoa  se  aproximava,   ou
simplesmente caminhando em fila atrs  da  me.  s  vezes  seu  corao  se
sentia to transbordante de alegria que parecia  a  ponto  de  explodir.  Em
ocasies como aquelas  tinha  vontades  de  cantar.  E  s  vezes  o  fazia,
sobretudo se estava trabalhando. Tinha a sensao de fazer  o  trabalho  com
mais rapidez.
      S o que entristecia a felicidade de sua atual situao era o fato  de
que a sade de Frances piorava a cada dia. Cada dia passava  mais  tempo  na
cama, at que, aps algumas semanas, abandonava a cama durante uma  hora  ou
duas nada  mais.  Perdia  peso  sem  parar  e  no  conseguia  reter  grande
quantidade de alimento. Sofria grandes dores freqentemente.
      Juliet se  entristecia  terrivelmente  ao  v-la  dessa  forma.  Tinha
chegado a afeioar-se muito a Frances desde sua chegada, at o ponto de  que
parecia algum de sua prpria famlia. Juliet  to  somente  podia  imaginar
quo mal deviam sentir-se Amos e Ethan ao v-la sofrer dessa maneira.
      Amos e Ethan terminaram de semear, inclusive a horta junto a casa.  No
sbado seguinte, Amos foi com o carro  cidade  para  comprar  provises,  e
Juliet o acompanhou, deixando Ethan em casa para cuidar de  Frances.  O  dia
de primavera era ensolarado e quente, e Juliet olhou  feliz  ao  seu  redor.
Estava contente e alegre, e teve que voltar a  rir  ao  pensar  que  o  mero
feito de ir a Steadman, Nebraska, bastava para p-la naquele estado.
       Quando  chegaram    cidade,  Juliet  passeou,  olhando  as  vitrines
enquanto Amos comprava algumas coisas na carpintaria. Ela se  deteve  diante
da chapelaria, estudando os chapus expostos na  vitrine.  Adoraria  comprar
um chapu novo, e tinha um pouco de dinheiro que tinha  economizado  de  seu
salrio semanal. No importaria que no economizasse  tudo,  pensou;  aquilo
significaria que s deveria esperar um pouco mais para partir para  o  Este,
mas essa idia j no a aterrorizava.
      Estava a ponto de entrar  no  estabelecimento  quando  se  lembrou  da
proprietria do lugar, e da forma odiosa que teve de trat-la quando  Juliet
foi em busca de trabalho. No queria enfrentar de novo a senhorita Johnson.
      Juliet se dirigiu ao armazm geral onde devia encontrar-se  com  Amos,
e entregou a lista de compras ao proprietrio. Poucos  minutos  depois  Amos
chegou, pagou a conta e  comprou  algumas  outras  coisas  de  sua  escolha.
Enquanto esperavam para que o proprietrio levasse as provises ao carro,  a
porta principal se abriu para dar lugar a Aurica Johnson. Juliet  sentiu  um
n no estmago. Aurica olhou a seu redor, tentando  parecer  desinteressada,
mas Juliet teve a sensao de que procurava algo. Quando seu olhar se  posou
em Amos, seu rosto se iluminou, e Juliet se deu conta de que Amos era o  que
ela procurava.
      Aurica foi para ele, sorrindo. Ao  chegar  junto  de  Juliet,  afastou
ostentosamente a saia para que no se roasse com a dela,  e  se  dirigiu  a
Amos, sem nem sequer olhar a jovem.
      - Ol, Amos Morgan - disse com voz afetada. - Que alegria v-lo.
      Juliet se dirigiu  a  um  expositor  em  que  se  mostravam  luvas  de
trabalho, os  olhos  fixos  na  mercadoria,  mas  sem  v-la,  as  bochechas
avermelhadas por causa da vergonha que o insulto da outra mulher  lhe  tinha
causado.
      De lado, Aurica  repassou  por  Juliet,  de  p  a  poucos  metros  de
distncia, e baixou a voz.
      - Est aqui com... ela?
      Amos olhou em direo a Juliet, e de novo a Aurica.
      - Pois claro. A senhorita Drake  nossa governanta . - disse-lhe.
      Aurica abriu uns olhos como pratos.
      - De verdade! Surpreende-me... Bom...  difcil dizer uma coisa  assim
com delicadeza...
      Amos entrecerrou os olhos, e cruzou os braos.
      - Ento, por que no tenta diz-lo sem rodeios? Eu sempre falei claro.
      Em qualquer outra situao, Juliet acharia divertidas as palavras e  o
tom de Amos com essa mulher to fofoqueira, mas, nesse  momento,  seu  senso
de humor ficava em um segundo plano por causa da vergonha que sentia em  seu
interior. Era bvio que Aurica Johnson estava a  ponto  de  denegrir  Juliet
frente a Amos, e mesmo que Juliet tenha suportado desprezos  semelhantes  em
ocasies anteriores, de algum modo, um insulto nesse momento, ali, e  diante
de Amos, seria muito  mais  doloroso  que  qualquer  outro.  Desejava  poder
esticar o brao e afastar Aurica, agarrando um desses  compridos  e  rgidos
cachos de cabelo que descansavam sobre seus ombros arrastando-a at a rua.
       Aurica  parecia  estar  a  ponto  de  no  continuar  falando;   mas,
continuou, pensou melhor e se inclinou confidencialmente para Amos ao  mesmo
tempo que punha uma mo sobre seu brao.
      - No lhe disseram a que se dedicava antes? Era muito escandaloso. Era
atriz.
      Fez uma pausa, esperando a reao de Amos, o olhar fixo  nele.  Juliet
teve uma vontade louca de separar de  um  golpe  aqueles  brancos  dedos  da
manga de Amos.
      Ele se limitou a olh-la.
      - Sim?
      - Bom, uma atriz..., j sabe como so.
      - No, como so? Eu conheci a poucas atrizes em minha vida - respondeu
Amos tranqilamente. - Suponho que voc deve conhecer muitas.
      Juliet se cobriu a boca para ocultar o  sorriso  que  lhe  produziu  a
expresso de surpresa de Aurica Johnson e se voltou de frente para  observar
sem dissimulaes. Era bvio que Amos no estava reagindo  da  forma  que  a
senhorita Johnson tinha imaginado.
      - Claro  que  no  conheo  atrizes!  -  exclamou  Aurica.  -  Nenhuma
absolutamente.
      - Oh. - Amos pareceu estranhar. - Supus que devia conhecer  alguma  j
que falou delas com tanto conhecimento.
      - Vamos senhor Morgan,    um  insulto  insinuar  que  eu  pudesse  me
relacionar com atrizes.
      - ? Quer dizer que voc estava insultando a minha governanta  faz  um
momento  quando  me  disse  que  era  atriz?  Parece-me  algo  muito   pouco
apropriado em uma dama como voc, senhorita Johnson.
      Juliet deixou escapar uma risada ao ouvir  as  palavras,  supostamente
inocentes, de Amos.
      Manchas vermelhas de ira cobriram as plidas bochechas de  Aurica  que
retrocedeu uns passos, o corpo rgido.
      - Senhor Morgan! Na verdade digo que no entendo seu senso  de  humor.
Acolheu a uma atriz em sua casa, e todo mundo sabe que so  mulheres  de  m
vida. Como pode viver e estar tranqilo sabendo que seu filho  est  exposto
a este tipo de mulher? Eu se fosse voc me preocuparia com o que as  pessoas
dizem de voc e dessa mulher. H rumores por toda a cidade!
      - E estou seguro de que voc  tem  feito  todo  o  possvel  para  no
desmenti-los.
      - Cus! No estou disposta a agentar esta classe de... de...
      - Insulto? - sugeriu Amos. Franziu o cenho ferozmente, e sua voz subiu
de tom. - Entretanto,  parece  bom  achar-se  a  menos  de  dois  metros  da
senhorita Drake e insult-la; e nem sequer o faz diretamente,  mas  sim  por
meio de outra pessoa.
      Aurica elevou um pouco a saia e tentou rodear a Amos para passar,  mas
ele se interps em seu caminho.
      - Senhor Morgan! - O que pretende? - murmurou  Aurica.  -  As  pessoas
nos olham!
      - Quer dizer que lhe  d  vergonha  ouvir  o  que  voc  mesma  esteve
dizendo? Pois bem, deveria dar-lhe. Mas voc comeou a conversao, e  minha
inteno  que fique aqui e a acabe.
      Aurica olhou ao seu redor e,  de  passagem,  aos  outros  clientes  do
estabelecimento, todos boquiabertos e atentos do que  eles  falavam;  ento,
seu rosto se decomps, e suas bochechas avermelharam mais  do  que  estavam.
Juliet sentiu um pouco de compaixo por  ela,  apesar  dos  comentrios  que
tinha feito. No era agradvel ser o receptor da ira de Amos,  mesmo  quando
no havia gente olhando.
      - Diferente de voc, eu no sou um fofoqueiro - disse  Amos  como  uma
chicotada, em voz alta e clara. - Portanto, desconheo  que  rumores  correm
por esta cidade a respeito de mim e da senhorita Drake ou do meu filho.  Mas
vou explicar, para que a curiosidade de todos fique satisfeita. No  h  nem
houve nada o mais minimamente escandaloso na estadia da senhorita  Drake  em
minha  casa.  Ela    minha  governanta,  uma  excelente  governanta,  posso
acrescentar,  e  isso    tudo.  Para  qualquer  pessoa  com  um  pouco   de
sensibilidade e compreenso deveria ser bvio que a senhorita Drake  no  se
parece em nada a uma mulher de m vida.  uma mulher honrada,  trabalhadora,
virtuosa e uma boa amiga de minha irm. Em nenhum momento queria pr  a  mim
mesmo como exemplo de virtude, mas acredito  que  todo  mundo  nesta  cidade
sabe que Frances  toda uma  dama.  To  somente  insinuar  que  minha  irm
Frances permitiria uma relao imoral sob seu  prprio  teto    insultar  a
Frances em pessoa!
      - Bom claro... todo mundo sabe... Frances  uma mulher  maravilhosa...
Uma dama perfeita  -  disse  frentica  Aurica  entre  dentes,  enquanto  ia
retrocedendo. - S que... bom, ela est doente, e...
      Amos ficou lvido e a ira modificou seu rosto.
      - E isso significa o que? - disse gritando. -  Que  voc  insinua  que
sou capaz de manter uma relao amorosa na mesma  casa  em  que  minha  irm
est morrendo, sabendo que ela  se  encontra  muito  fraca  ou  doente  para
impedi-lo! Se fosse voc um homem, o desafiaria a brigar na rua por atrever-
se a pensar sequer uma coisa semelhante!
      - Senhor Morgan! -  Juliet  se  apressou  a  situar-se  entre  Amos  e
Aurica, que estava muito plida e com os olhos to abertos que Juliet  temeu
fora a desmaiar ali mesmo. - Por favor! Estou  segura  de  que  a  senhorita
Johnson  no  quis  insinuar  nada  parecido.  No  tenho  razo,  senhorita
Johnson? - voltou-se interrogante para Aurica.
      Em silencio Aurica assentiu com a cabea, abrindo e  fechando  a  boca
como um peixe, mas sem emitir som algum.
      - V como no? - Juliet se dirigiu de novo a Amos, sorrindo  de  forma
encantadora. - Ningum poria em dvida a honradez de Frances ou sua  devoo
por ela.
      - No - disse Amos com muita ironia, - s a honradez de uma pessoa  da
qual no sabe nada. Isso, estou seguro,  muito mais correto. - Dirigiu  uma
breve e zombadora reverncia a Aurica. -  Sinto  muito,  senhorita  Johnson.
Temo que fique maluco quando se duvida da honradez de minha famlia  e  meus
amigos. Por favor, aceite minhas desculpas.
      Voltou-se para Juliet, colocando o brao para que se apoiasse nele.
      - Senhorita Drake? Parece-me que  hora de partir.
      - Sim, acredito que tem  razo.  -  Juliet  lhe  devolveu  o  sorriso,
agarrou seu brao e saram do estabelecimento.
      Subiram no carro. Amos estalou a lngua para que as mulas se  pusessem
em movimento,  e  se  afastaram.  Juliet  imaginou  que  deveria  se  sentir
envergonhada e incmoda pelo que Aurica  Johnson  havia  dito  dela,  mas  a
verdade era que  tinha  vontade  de  sorrir.  Aqueles  pequenos  sentimentos
ficavam afogados em muito carinho e orgulho. Amos a tinha defendido.  Juliet
queria pr-se a rir; queria abraar. Amos a tinha defendido.
Captulo 7.
      Juliet levantou o olhar da mesa em que estava amassando o po.  Sentiu
que a cozinha parecia mais escura que momentos antes. Olhou pela  janela.  O
sol se ocultou atrs de uma massa de nuvens negras. Enquanto observava,  uma
rajada de vento fez com que o p e partes de plantas revoassem  pelo  ptio.
Uma tormenta se aproximava. Juliet deu  uns  golpes    massa  e,  para  que
subisse, cobriu-a com um tecido de algodo. Lavou as mos  e  se  dirigiu  
porta principal para ver que aspecto tinha o cu pelo oeste.
      Ao abrir a porta, um forte  golpe  de  vento  empurrou-a  fazendo  que
batesse contra a parede. O cu estava quase negro pelo  oeste,  e  os  raios
iluminaram  as  nuvens.  Um  terror  primitivo  invadiu  seu  corao.   No
recordava ter visto nunca um cu to negro e sinistro. Ainda era  de  tarde;
mas ningum o diria. Retumbavam os troves,  e  de  novo  os  relmpagos  se
desenharam no cu.
      Juliet se agarrou a porta e, depois de  um  forte  empurro,  fechou-a
com chave como se com  isso  conseguisse  impedir  a  entrada  da  tormenta.
Retornou  cozinha e olhou preocupada pelas duas janelas. Onde estavam  Amos
e Ethan?
      Tinha todo o aspecto de estar a ponto de cair um verdadeiro tor.  Viu
o gato branco e negro entrando no celeiro, e Jpiter, o co  de  Ethan,  que
estava no ptio quieto e rgido, dedicava-se alternativamente  a  farejar  o
ambiente e a ladrar com ferocidade. Quando ouviu  de  novo  o  retumbar  dos
troves, o co deu meia volta e se dirigiu  a  toda  velocidade  ao  celeiro
onde se deteve para ladrar de novo. Juliet sorriu ao ver aquela exibio  de
valentia.
      - Juliet! - As palavras eram dbeis, e Juliet  se  voltou,  escutando.
Frances a chamava?
      Saiu da cozinha e subiu pelas escadas. De  novo  Frances  repetiu  seu
nome, e Juliet se apressou a entrar no quarto.  Frances  estava  erguida  na
cama, o cenho franzido pela preocupao. Tinha um aspecto frgil  e  frgil;
de repente, Juliet se deu conta do muito peso que Frances tinha  perdido  no
pouco espao de tempo transcorrido desde sua chegada.
      - Ol. - Juliet ocultou sua ansiedade com um  sorriso.  -  Aproxima-se
uma tormenta.
      - J sei. Por isso  a  chamei.  Parece-me  mais  um  ciclone  que  uma
tormenta. Ser melhor descermos ao poro. O sorriso de Juliet desapareceu.
      - Um ciclone? - Nunca lhe teria ocorrido uma coisa assim.
      - Sim. Um tornado. Produzem-se na primavera. Viu um alguma vez?
      - No. Tinha... ouvido falar deles. Mas nunca vi um.
      - So terrveis. Podem fazer em pedaos uma casa.  -  Frances  afastou
as mantas e se levantou da cama, logo calou umas  sapatilhas  e  agarrou  a
bata. - Por isso temos que nos refugiar no poro.
      - De acordo. - Com destreza, Juliet ajudou a colocar a bata,  uma  vez
que olhava nervosa atravs da janela. As enormes nuvens se  aproximavam  com
rapidez, e o cu estava cada vez mais negro.
      Colocou uma mo sob o brao de Frances,  saiu  com  ela  do  quarto  e
percorreu o corredor at as escadas  de  trs.  Frances  se  movia  com  uma
lentido agonizante, e a cada passo se apoiava mais e mais em  Juliet.  Logo
Juliet rodeou a cintura de Frances com o brao e ela ps os  seus  sobre  os
ombros da jovem. Frances era alta, como  todos  os  Morgan,  e,  apesar  dos
quilogramas perdidos, seguia pesando tanto ou mais que Juliet.
      Ao chegar s escadas, as pernas de Frances se dobraram ao  olhar  para
baixo.
       -  Deixa  que  eu  descanse  um  minuto  -  pediu,   respirando   com
dificuldade, e se agarrou ao corrimo sentando-se no degrau com a  ajuda  de
Juliet. Apoiou a cabea contra o corrimo, os olhos fechados. - Melhor  ser
que abramos as janelas - disse aps um momento. - Isso  o que sempre  fazia
mame. Dessa forma no h tanta presso.
      - De acordo. Eu as abrirei enquanto descansa. - Juliet se alegrou  por
ter algo a fazer.
      Correu para o final  do  corredor  e  passou  por  todos  os  quartos,
abrindo as janelas. O vento entrou na casa, to frio e forte  que  a  deixou
arrepiada. Parecia j de noite, e a chuva tinha comeado a cair  em  grandes
gotas. Ao retornar correndo para junto  de  Frances  nas  escadas,  ouviu  o
retumbar de um trovo, to forte que deu um salto.
      Juliet ajudou Frances a ficar em p de novo, e  continuaram  descendo.
Frances se agarrava ao corrimo com uma mo,  enquanto  a  outra  descansava
pesadamente sobre os ombros de Juliet. Teve que deter-se  para  recuperar  a
respirao no patamar,  e  quando  chegaram  ao  p  da  escada,  voltava  a
respirar com dificuldade.
      - Abrirei as janelas aqui embaixo enquanto voc descansa  um  pouco  -
sugeriu Juliet.
      - No. Ser melhor que voc se adiante. Eu a seguirei se puder.
      - No seja tola. Tem que abrir as janelas; voc mesma o disse.
      Juliet se afastou  antes  que  Frances  pudesse  seguir  discutindo  e
percorreu todo o andar de baixo, abrindo de  par  em  par  as  portas  e  as
janelas. A chuva caa torrencial e o vento era cada vez mais forte. A  certa
distncia, contornando  o  caminho  que  levava  a  estrada,  os  abetos  se
deitavam sob a fora do vento, e pequenos ramos revoavam junto  ao  p  e  a
palha. O corao  de  Juliet  pulsava  com  fora.  Nem  sequer  nos  piores
momentos de cantar num palco tinha tido tanto  medo  como  agora;  nunca  na
vida tinha tido que enfrentar a uma fora natural de  semelhante  potencial.
Na realidade, nunca tinha tido medo de morrer.
      - Frances, se levante! - disse ao voltar correndo junto    mulher.  -
Tem que se levantar. Temos que sair daqui.
      Frances respirou profundamente e ficou em p com a ajuda do corrimo.
      - Sinto muito.
      - No te canse falando. Temos que nos apressar.
      Juliet passou o brao de Frances por cima de seus ombros e  a  segurou
com fora pela cintura. Apoiando o  corpo  da  mulher  contra  seu  quadril,
carregou todo o peso possvel sobre si enquanto percorriam o salo  traseiro
e a cozinha at chegar  porta. Pareceu-lhe que demoravam uma eternidade.  A
fora do vento golpeava portas e janelas. E o som das rajadas  lhes  chegava
de todos os rinces, um rudo que s ficava afogado pelo freqente  retumbar
dos troves.
      Quando por fim Juliet chegou  porta e girou a  maaneta,  o  vento  a
abriu de repente; e  nas  asas  do  fortssimo  vento,  a  chuva  entrou  em
correntes, e umas gotas geladas salpicaram s duas mulheres. Lutando  contra
o vento, Juliet conseguiu sair ao prtico. Suas saias  formaram  redemoinhos
como loucas, e mechas de seus bem penteados coques lhes aoitavam  o  rosto.
Juliet, meio sustentando a Frances,  desceu  aos  tropees  pelos  degraus,
lutando contra o vento a cada passo.
      No havia muita distncia entre a cozinha e o poro,  mas  com  aquela
luta que mantinha contra o vento e com o impedimento  da  chuva  torrencial,
pareceram quilmetros. O peso de Frances ia  aumentando  a  cada  passo  at
que, a meio caminho, caiu: os joelhos lhe dobraram e caiu  ao  cho.  Juliet
se inclinou e tentou levant-la.
      - Vamos! Temos que seguir! - gritou por cima do rudo da tormenta.
       Frances negou com um dbil movimento da cabea,  e  Juliet  teve  que
aproximar o ouvido em seus lbios para escutar a resposta.
      - No  posso.  J  no  posso  caminhar.  Segue  voc.  Deixe  que  eu
descanse.
      - No pode descansar agora - disse  Juliet  com  firmeza.  -  E  muito
menos sob a chuva. Tem que vir comigo. Por favor,  Frances,  por  favor,  se
levante.
      Ela negou com a cabea.
      -  intil. Siga voc.
      - No posso deixa voc aqui sozinha! - falou Juliet. -  Tem  que  vir!
No posso te deixar!
      Frances nada mais disse, limitou-se a  apoiar-se  esgotada  contra  um
lado da casa, os olhos fechados, e uma respirao entrecortada  que  agitava
seu dbil corpo. Juliet olhou desesperada a seu redor. A chuva e o vento  se
tornaram cegadores, mas era bvio que no encontraria ajuda.  Ethan  e  Amos
no tinham retornado, e as nicas pessoas que ali havia eram ela e Frances.
      O  cu  estava  quase  negro,  iluminado  de  vez  em  quando  por  um
relmpago. O vento inclinava  os  abetos  at  que  quase  tocavam  o  cho.
Enquanto permanecia ali de p, na distncia viu uma nuvem negra que  parecia
afundar-se e alargar-se. Horrorizada se deu conta do que era aquela  espcie
de funil escuro que baixava ao cho e voltava a subir. Um tornado!
      O terror se apoderou dela, e lhe deu  foras  que  jamais  acreditaria
ter. Juliet se agachou e agarrou a Frances pela  cintura  e  a  ps  de  p.
Frances cambaleou, apoiando-se na  casa,  e  Juliet  se  situou  diante,  de
costas para ela, agarrou os braos de Frances, os ps  sobre  seus  prprios
ombros e os cruzou diante do peito. Continuando, agarrou com fora  as  mos
de Frances, inclinou-se, agentando a maior parte do peso de  Frances  sobre
suas costas, e a arrastou a distncia que as separava da porta do poro.
      O vento a freava a cada passo, e ia quase cega por  causa  da  fina  e
penetrante chuva. O corao pulsava como se estivesse a  ponto  de  explodir
no peito; mas Juliet estava decidida, cheia de energia. Negava-se  a  morrer
ali, num lugar perdido. Salvaria a si mesma..., e salvaria a Frances.
      Chegou por fim diante da porta e a abriu. Uma rajada de vento  golpeou
a madeira, fazendo que se separasse de suas dobradias. Um rudo como  o  de
um trem enorme precipitando-se sobre ela encheu os ouvidos de  Juliet.  Caiu
de joelhos, dando um forte golpe contra o marco da porta; ento, o  peso  de
Frances a empurrou para frente. Aos tropees penetraram na escura  cavidade
do poro.
      O poro era pouco profundo, e a queda no foi grande; mas  o  peso  de
Frances sobre ela lhe  cortou  a  respirao.  Durante  um  momento  s  foi
consciente da dor  em  seu  interior,  de  sua  terrvel  incapacidade  para
respirar, enquanto no exterior retumbava o tornado. P e folhas e partes  de
abetos caram sobre ela e Frances, e igual continuava fazendo a chuva.
      Por fim Juliet pde respirar de novo, e, enquanto jazia no  cho,  com
a respirao entrecortada, ainda com o peso do corpo de Frances em  cima,  a
tormenta seguia rugindo. Finalmente ficou de  lado,  liberando  do  peso  de
Frances, e se levantou com dificuldade. O poro era to baixo que no  podia
erguer-se totalmente no lugar onde se soltou a porta. Olhou o exterior  e  o
ptio da granja, a chuva caa com fora sobre  elas,  mas  o  tornado  tinha
passado. As nuvens mais negras estavam agora ao  nordeste.  O  vento  seguia
soprando com fora, fazendo que o cabelo lhe aoitasse o  rosto,  embora  j
no com a incontrolvel fria que tinha sentido ao chegar  porta do poro.
      Desmoronou-se no cho do poro e apoiou as  costas  contra  a  parede,
tentando tranqilizar-se. Tinham sobrevivido  tormenta. Inclinou a  cabea.
De repente se sentiu dbil e quase doente.  Fez  todo  o  possvel  por  no
chorar. Juliet olhou a Frances. Jazia no cho  sob  a  dbil  luz  da  porta
aberta. Estava plida, os olhos fechados, empapada  at  os  ossos  igual  a
ela. Juliet no pde mais conter as lgrimas, que comearam  a  alagar  suas
bochechas.
      Pensou em Amos e Ethan, em algum lugar na roa durante a  tormenta,  e
as lgrimas caram com mais rapidez.
      - Juliet? - A voz de Frances foi dbil, quase um sussurro.
      - Sim? - Juliet levantou a cabea de repente. Frances tinha  os  olhos
abertos e estava olhando para ela. Imediatamente Juliet secou  as  bochechas
e os olhos com o brao e tragou os soluos.
      - O que ocorreu?
      - No... no estou segura.  De  alguma  forma  chegamos  at  aqui.  -
Juliet tragou saliva e afastou o cabelo  dos  olhos,  tentando  controlar-se
mental e fisicamente. No era  o  momento  de  ficar  histrica.  Tinha  que
seguir cuidando de Frances; era inclusive imperativo que tivesse o  controle
da situao se por acaso ocorresse algo a Amos e Ethan.
      Engatinhando percorreu a distncia que a separava de Frances.
      - Est bem?
      Um dbil sorriso iluminou os brancos lbios de Frances.
      - To bem quanto posso estar.
      Juliet sentiu que se ruborizava. Que pergunta to tola!
      - Sinto muito. Quero dizer que temia que tivesse quebrado um  osso  ao
cair.
      - No. Posso mover tudo. - Suspirou. - Embora  no  tenha  vontade  de
faz-lo. Sinto muito, mas estou to cansada.
      - Claro que est.  milagrosa a forma como chegou at aqui.
      - Estive inconsciente durante os ltimos minutos do  trajeto  -  disse
lentamente Frances. - Voc conseguiu me trazer, voc sozinha.
      Juliet encolheu os ombros.
      - Mais ou menos. No estou muito segura de  como  foi.  -  Com  a  mo
tocou o brao de Frances. - Mas est congelada com esta roupa molhada.
      - A embaixo h mantas.  -  A  voz  de  Frances  foi  to  somente  um
sussurro, e seus olhos comearam a fechar-se.
      Juliet olhou a seu redor. Era tambm o  poro  onde  se  guardavam  as
verduras, e havia  pequenos  montes  de  batatas  e  cebolas  encostadas  
parede, alm de um barril e vrias prateleiras  cheias  de  potes,  a  maior
parte deles vazios. Viu um pequeno ba metlico num  canto  e  se  aproximou
para abri-lo. Dentro havia mantas, uma lanterna, velas, e fsforos.
      - Aleluia! - exclamou com alegria,  enquanto  tirava  os  tesouros  do
ba. - Temos tudo o que necessitamos.
      Acendeu a lanterna para afugentar as sombras e a  deixou  no  cho.  A
seguir voltou junto a Frances e a ajudou a incorporar-se. Juliet  lhe  tirou
a camisola e a bata molhadas e jogou uma manta sobre os ombros  fazendo  que
uma parte da  mesma  lhe  cobrisse  tambm  a  cabea  molhada.  Frances  se
esticou, e Juliet, discretamente,  cobriu-lhe  as  pernas  com  outra  manta
antes de retirar por completo as peas molhadas, que deixou de um  lado  num
monte. Agasalhou bem a Frances com a manta.
      Satisfeita de que Frances estivesse o mais cmoda possvel,  recostou-
se com um suspiro e considerou a situao.  Fora,  a  tormenta  quase  tinha
passado. O vento era menos forte e a chuva tinha  cessado.  O  poro  estava
cada vez mais iluminado. Ficou de novo em p  e  olhou  para  a  granja.  As
nuvens foram afastando-se e o cu reaparecia ensolarado.
      A granja, que tinha sobrevivido    tormenta,  estava  quase  intacta.
Havia ramos pulverizados por toda parte, e  duas  das  persianas  penduravam
soltas. O cata-vento havia quebrado em dois e  cado,  e  vrias  telhas  se
desprenderam. Mas o celeiro e a casa seguiam em p, igual  maior parte  das
cercas que rodeavam os currais. Inclusive o galinheiro s  estava  rudo  em
parte. As galinhas  andavam  soltas  cacarejando  pelo  ptio,  alisando  as
plumas e bicando os vermes frescos que tinham aparecido depois da chuva.
      Juliet olhou para Frances de  novo  e  mordiscou  preocupada  o  lbio
inferior. Frances devia voltar para o calor e  a  comodidade  da  cama.  Mas
Juliet sabia que nunca conseguiria subir com Frances pela pequena  escadinha
e chegar at a casa. Teria que esperar  volta de Amos e seu filho.
      Supondo que chegassem.
      Supondo que no estivessem mortos.
      Um tremor percorreu seu corpo. Juliet esfregou os  braos  com  fora.
Tinha que tirar aquela roupa molhada. Estava  molhada  at  os  ossos,  e  a
molhada massa de saias e anguas geladas pesavam sobre ela.
      Dando um ltimo olhar para Frances para  assegurar-se  de  que  dormia
comodamente, Juliet subiu os degraus da pequena escada e  saiu  engatinhando
na terra molhada. Ficou de p desajeitadamente,  segurando  a  pesada  saia,
enquanto seguia para a lateral da casa e se dirigia para a porta.
       Em seu caminhar olhou para o celeiro e  os  campos.  Ento  viu  dois
homens que se dirigiam apressados para a casa. Seu  corao  deu  um  tombo.
Amos! Amos e Ethan estavam a salvo!
      - Amos! - gritou, agitando o brao como louca. - Amos!
      Recolheu a saia e comeou a correr para eles.
      - Juliet! - Amos deixou cair o enxado que levava e  tambm  ps-se  a
correr, com Ethan lhe pisando os tales.
      - Graas a Deus que esto bem! - exclamou Juliet.
      Amos a segurou e seus  braos  a  envolveram,  levantando-a  do  cho.
Apertou-a com tanta fora que Juliet no pde quase respirar, e  durante  um
instante ela sentiu  o  roar  de  sua  cabea.  Sentia-se  maravilhosamente
agasalhada e segura em seus braos, como se sua  fora  e  tamanho  pudessem
proteg-la de todo mal; ento se agarrou a ele e  afundou  o  rosto  em  seu
peito.
      - Est bem? - perguntou ele com  voz  rouca,  e  Juliet  assentiu  sem
dizer nada.
      Ethan se aproximou deles.
      - Juliet! Est bem? Papai, ocorre-lhe algo?
      - No. - Amos a soltou com brutalidade e retrocedeu um passo.  Afastou
o olhar. - Onde est Frances? Encontra-se bem? Chegaram ao poro a tempo?
      - Sim. Deixei-a no poro.
      Amos franziu o sobrecenho.
      - Quer dizer que a deixou ali embaixo, sozinha?
      Por que sempre pensava o  pior  dela?  Depois  de  tudo  o  que  tinha
ocorrido e  das  fortes  emoes  tinha  experimentado  nas  ltimas  horas,
aquelas suspeitas eram excessivas. Uma terrvel ira se apoderou dela.
      - Eu sozinha no podia ergu-la! - espetou. - Dirigia-me a  casa  para
vestir  roupa  seca.  Suponho  que  acredita  que  sou  uma  egosta.   Mas,
francamente, chegado a este ponto, no me importa nada o que pense. No  sei
nem por que me preocupei por  voc.  Nenhum  desastre    comparvel  a  sua
mesquinharia.
      Sabia que estava a ponto de chorar e no estava disposta a  que  visse
que era por sua causa, de modo que se voltou e correu para a casa.
      - Papai, por que tive que dizer isso? - perguntou Ethan,  olhando  com
reprovao. - Sabe perfeitamente que Juliet no teria deixado  tia  Frances
se no estivesse bem.
      Amos o olhou srio.
      - No necessito suas reprimendas,  obrigado.  Simplesmente  saiu  mal.
Sempre acontece o mesmo com  ela.  -  dirigiu-se  para  o  poro.  -  Vamos,
tiremos tia Frances de l.
      Ao aproximar-se do poro, viram que a porta estava arrancada.  Amos  e
Ethan trocaram um olhar.
      Ethan emitiu um assobio.
      - O vento deve ter  sido  terrvel  para  que  acontecesse  uma  coisa
assim! Cr que o tornado que vimos subir passou por aqui?
      Amos apertou os lbios.
      - No sei. A casa e o celeiro esto bem. Mas  deve  ter-se  aproximado
muito.
      Baixou ao poro. Frances estava dormindo, envolta com as mantas.  Suas
peas molhadas descansavam num monte a pouca distncia dela. Amos se  sentiu
culpado ao  ver  como  tinha  cuidado  Juliet  de  sua  irm,  despindo-a  e
assegurando-se de que estava bem abrigada  antes  de  ir  ela    casa  para
trocar-se e secar-se.
      - Frances. - ajoelhou-se a seu lado. - Fanny? Sou eu, Amos.
      Frances piscou  e  abriu  os  olhos,  ento  lhe  dirigiu  um  pequeno
sorriso.
      - Amos. Graas a Deus que est bem. E Ethan?
      - Estou aqui,  tia  Frances.  -  Ethan  colocou  a  cabea  no  poro,
sorrindo. -  Estamos perfeitamente bem. J  conhece  papai...,  a  senhorita
Juliet diz que  muito mesquinho para morrer, e tem razo.
      - Juliet...,  como  est?  -  perguntou  Frances,  franzindo  o  cenho
preocupada. - Tratou-me com tanto carinho. - As  lgrimas  resplandeciam  em
seus escuros olhos. - Oh, Amos, eu estava to fraca  que  no  podia  descer
sozinha. Quase no o consegui. Se no fosse pela  ajuda  de  Juliet,  jamais
ter chegado at aqui. Ela me trouxe  quase  arrastada  os  ltimos  metros;
negou-se a me deixar sozinha, mesmo quando viu que o tornado se  aproximava.
Se lhe tivesse ocorrido alguma coisa, teria sido por minha culpa.
      Ao ouvir aquelas palavras, Amos se sentiu  contrariado  e  aborrecido.
No se atreveu a olhar a seu filho: sabia qual seria sua expresso.
      - Bom, est bem, no  preciso que se preocupe - disse  bruscamente  a
Frances. - No  culpa sua que se sinta to dbil. Logo estar mais forte.
      Frances o olhou com carinho.
      - No.  muito bom ao me dizer isso, mas ambos sabemos  que  no  ser
assim. No valia a pena que Juliet arriscasse sua vida para salvar a  algum
que certamente no chegar a ver a prxima colheita.
      - No diga isso!
      -  melhor que um de ns enfrente com  verdade, no ?
      - No  a verdade. Vai ficar bem, maldita seja.
      - Oh, Amos. - As lgrimas voltaram a brotar dos olhos  de  Frances,  e
estendeu um brao para lhe dar uns tapinhas na bochecha. - Estou to  dbil.
Acredito que no sou capaz de subir a escadinha para sair daqui.
      - Claro que no. No vai subir. Eu a levarei nos braos.
      Levantou-a com ternura, mantendo-a coberta com as mantas,  e  a  levou
at a porta do poro, onde podia estar de p sem  ter  que  agachar-se.  Uma
vez ali a passou a Ethan que estava de joelhos no exterior.  A  seguir  saiu
ele e a levou nos braos como um beb at seu  quarto.  Doeu-lhe  o  corao
comprovar a leveza de seu corpo.
      Ps ela sobre a cama e a cobriu com as mantas.
      - Pedirei a Juliet que suba e a ajude a pr uma camisola seca.
      - No se preocupe. No a incomode; estou segura de que est  esgotada.
No entendo como conseguiu me levar queles ltimos metros.
      O fato tambm surpreendia a Amos.
      - H nela mais do que eu acreditava.
      Frances assentiu.
      - J sei. Eu tambm a julguei mal quando  chegou.  Mas    uma  mulher
forte e boa. - Duvidou uns instantes, olhando a seu irmo. No  era  dada  a
dizer essa classe de coisas, tal como os restantes membros da  famlia,  mas
nesse momento se sentia obrigada a diz-lo. - Sabe, seria  uma  boa  esposa,
Amos.  muito bonita, e tem um grande corao.
      As bochechas de Amos se ruborizaram e afastou o olhar.
      - Que tipo de bate-papo  esse? Eu no necessito uma esposa,  arrumei-
me muito bem sem uma todos estes anos.
      - De verdade? - A tristeza se percebia em seu tom de  voz.  -  Eu  no
estou segura de ter estado  bem  sem  um  marido.  Olhe  minha  vida  agora,
esbanjei-a. A morte proporciona uma forma distinta de ver as coisas.
      - No diga isso. Voc no  esbanjou  sua  vida,  e  eu  tampouco.  Ns
estamos indo bem na granja; e temos feito o que devamos.
      - Mas e o que queramos? Alguma vez fizemos o que ns gostvamos?
      - s vezes o que algum quer no  o melhor. -  Dirigiu-lhe  um  olhar
de desolao. - Eu sei.
      - Mas s porque se trata de algo que algum quer  no  necessariamente
significa que esteja errado. Amos, eu sei o muito  dano  que  aquela  mulher
fez, mas...
      Ele se voltou com brutalidade.
      - No tem sentido que falemos disso.
      - Sim que tem! - A repentina fora de sua voz surpreendeu a  ambos,  e
Amos se voltou para olh-la de novo. - Quero  que  seja  feliz  -  disse-lhe
ferozmente. - Quero morrer tranqila sabendo  que  ser  feliz.  Por  favor,
Amos... S me prometa que no se fechar para Juliet.
      - Frances...
      - Por favor. Prometa-me isso.
      Ele fez uma careta.
      - De acordo - disse a contra gosto.
      - De acordo..., o que?
      - Prometo que no me fecharei para ela.
      - Pensar no que eu disse? Dar-lhe- uma oportunidade?
      - Sim! Sim, pensarei nisso.
      - Bem. J me sinto melhor. - Frances sorriu.
      Amos saiu  do  quarto,  fechando  suavemente  a  porta.  Desceu  pelas
escadas  e  se  deteve  diante  do  quarto  de  Juliet.  Fez  uma   profunda
inspirao, bateu na porta e a abriu  antes  de  dar-se  tempo  a  mudar  de
opinio. No interior, Juliet se voltou  ao  ouvi-lo  entrar.  Ficou  olhando
fixamente, incapaz de falar. Durante uns  instantes,  Amos  no  pde  fazer
mais que lhe devolver o olhar, to paralisado como ela.
      Juliet tinha tirado a roupa molhada, secou-se e comeava  a  vestir-se
de novo; mas to somente ps as meias, as  calcinhas  e  a  camiseta  quando
Amos abriu a porta com to pouco tato. O rubor subiu do pescoo ao rosto  de
Amos, e abria e fechava a  boca  sem  pronunciar  palavra  alguma.  Por  fim
Juliet se reps da surpresa e agarrou a angua  que  estava  sobre  a  cama,
cobrindo-se pela frente com ela.  Aquele  movimento  pareceu  acabar  com  a
paralisia de Amos, j que saiu rapidamente do quarto e fechou a porta  atrs
de si.
      Quase correndo, andou pelo corredor  at  a  cozinha,  abriu  a  porta
traseira de um golpe e saiu ao exterior, e uma vez ali foi quando comeou  a
correr de verdade. A toda velocidade cruzou o ptio at o celeiro e  no  se
deteve at encontrar-se na clida e familiar penumbra. Deteve-se,  apoiou-se
contra uma das quadras, escorando-se com os braos, e fechou os olhos.
      Cus, esta vez sim que tinha metido os ps pelas  mos!  Tinha  ido  
habitao de Juliet com a inteno  de  desculpar-se.  Mas  ento,  como  um
imbecil, entrou sem sequer esperar  a  que  ela  o  permitisse.  Estava  to
concentrado no que queria lhe dizer que  no  tinha  pensado  nem  em  pedir
permisso. Agora  sabia  que  ela  consideraria  no  s  um  mesquinho  mal
educado, mas tambm um libertino.
      Tinha que admitir que no ltimo no andaria  muito  equivocada.  Ainda
tinha na mente o aspecto  da  garota:  os  olhos  abertos  como  pratos,  as
bochechas um pouco ruborizadas e as doces  e  suaves  curvas  de  seu  corpo
escassamente ocultas sob  a  fina  camiseta  de  algodo.  Tinha  uns  seios
erguidos e redondos, os rosados mamilos visveis sob o tecido.  Imaginava  o
quente e suave que seriam sob o roar de sua mo, e que  sedutores  ficariam
os mamilos.
      Suspirou enquanto a excitao se apoderava dele, pensando  em  Juliet.
Tinha suficiente honestidade para admitir  o  muito  que  desejava  beij-la
nesse momento, abra-la,  acariciar  seu  delicado  e  excitante  corpo.  A
simples idia de tudo isso estava provocando nele uma ereo.
      Seu pai sempre havia dito que ele era um lascivo,  e  que  aquilo  lhe
causaria problemas. Tinha demonstrado ter razo, certamente,  com  a  Helen.
Estava to cego pelo desejo juvenil que no se deu conta de quem ela era  na
realidade. Durante os ltimos anos, apesar de manter-se afastado da  maioria
das mulheres, viu-se obrigado a procurar as de m vida, incapaz de  reprimir
o desejo sexual.
      Mas Juliet Drake no entrava dentro  dessa  categoria.  O  matrimnio,
claro est, era impensvel, por  muito  que  Frances  falasse.  Fazia  muito
tempo que se deu conta de que o matrimnio no era para  pessoas  como  ele,
e, alm disso,  com  o  que  Juliet  pensava  dele,  sabia  que  nem  sequer
consideraria essa possibilidade. Entretanto, qualquer outra  coisa  que  no
fosse matrimnio tambm resultava impensvel.  Juliet  era  sua  governanta,
uma mulher que vivia sob seu mesmo teto, e no  podia  aproveitar-se  disso.
Mesmo se Juliet consentisse - coisa que lhe parecia  o  mais  improvvel,  -
seria muito pouco escrupuloso por parte dele. Ela era jovem e vulnervel.
      Tinha que reprimir o  desejo  que  ela  tinha  suscitado  nele  aquela
tarde. Devia separar de sua mente a imagem da moa com roupa  intima...,  s
isso. Manter-se-ia afastado de Juliet, como tinha feito  durante  a  estadia
dela em sua casa.
      Manteve-se ocupado at o anoitecer reparando  na  parte  derrubada  do
galinheiro. Quando entrou para jantar, fez todo  o  possvel  por  evitar  o
olhar de Juliet, e as nicas palavras que pronunciou foram pequenos  pedidos
para que passasse isto  ou  aquilo  na  mesa.  To  logo  acabou  o  jantar,
levantou-se da mesa e foi para seu quarto.
      J que em nenhum momento a olhou no  rosto,  no  viu  aquele  pequeno
sorriso desenhado nos lbios de Juliet  quando  se  deu  conta  do  que  ele
fazia.  A  ltima  coisa  que  Amos  esperava  era  que  ela  iniciasse  uma
conversao com ele; mas isso foi exatamente o que  fez  quando  ele  desceu
para dar um passeio pelo ptio antes de deitar-se. Juliet estava passando  o
pano a um dos mrmores da  cozinha,  finalizadas  as  tarefas,  quando  Amos
apareceu para sair pela porta traseira. Ela o seguiu.
      - Senhor Morgan - disse suavemente do prtico.
      Ele se sobressaltou, e se voltou. O medo se apoderou de  seu  corao,
j que de repente estava seguro de que ela ia anunciar  que  partia,  depois
do que tinha ocorrido aquela tarde.
      Tentou responder, mas teve que  clarear  a  garganta  antes  de  poder
pronunciar alguma palavra.
      - Sim?
      - No me disse o que queria esta tarde. A razo pela  qual  entrou  em
meu quarto.
      O rosto de Amos se ruborizou por completo,  e  agradeceu  a  escurido
que ocultava. Mesmo assim, afastou a vista dela.
      - Sinto muito. No deveria ter entrado daquela forma. No pensei.  Foi
um sinal de... - No tinha as palavras exatas; para descrever  o  que  tinha
feito.
      - De m educao? - sugeriu Juliet, o tom de voz divertido.
      - Sim - assentiu ele. - Pior que isso.  Mas  no  era  minha  inteno
fazer nada errado. Eu... s vezes coloco uma idia na cabea,  e  no  penso
em outra coisa. Espero que no se sinta muito irritada. -  Espero  que  no
queira partir por isso. 
      - Foi algo surpreendente - admitiu Juliet. No acrescentou que  depois
do primeiro momento de surpresa, ficou com uma agradvel e  clida  sensao
no peito, uma espcie de excitao.
      - Espero que me perdoe - continuou Amos com dificuldade,  dirigindo-se
 parede.
      - Claro. Entendo que foi um simples engano.  -  Sorriu.  -  Em  nenhum
momento pensei que viesse com ms intenes.
      - No! Claro que no!
      A rapidez e a nfase com  que  negou  suas  intenes  no  era  muito
adulador, pensou Juliet;  embora  tampouco  ela  desejasse  essa  classe  de
cuidados dele.
      - De modo que no tem que seguir me evitando  -  continuou  Juliet.  -
Esqueamos o incidente,  de  acordo?  Acredito  que  as  coisas  sero  mais
cmodas nesta casa se voc e eu pudermos nos olhar  no  olho  e  falar.  No
est de acordo?
      - Sim.  obvio. - sentia-se como um imbecil. Por que  essa  menina  se
comportava sempre com tanta compostura, enquanto que ele,  um  homem  feito,
ao menos dez anos mais velho que ela, parecia converter-se num colegial?
      - Bom. Ento, por que no me diz para que entrou em meu quarto?  Devia
querer me dizer alguma coisa.
      - Sim. - Amos fez uma careta. - A verdade  que fui desculpar-me.
      - Desculpar-se? - Juliet ficou olhando. - De verdade?
      Ela desceu os degraus do prtico. Seu rosto parecia plido    luz  da
lua, e seus olhos eram enormes e misteriosos, como sombras em  seu  delicado
rosto. Amos no conseguia afastar a vista dela.
      - Sim. - Era um esforo falar. S queria olh-la. No,  isso  era  uma
mentira,  sabia.  Tambm  desejava  beij-la.  -  Me  desculpar  por  minhas
palavras nessa tarde. No devia ter dito  que  tinha  feito  mal  em  deixar
Frances no poro sozinha. Eu...  eu  estava  preocupado.  Temi  que  tivesse
ocorrido algo, e o descontei em voc.
      - Compreendo-o. Eu  tambm  estava  preocupada,  por  voc...  e  pelo
Ethan, claro.
      - Frances me contou como a ajudou a descer ao poro, e  como  arriscou
sua vida para salvar a dela. Deveria ter agradecido e no me zangar.
      Agora foi a vez de Juliet sentir-se envergonhada.
      - No podia deix-la, isso foi tudo.
      - H gente que o teria feito,  em  especial  com  um  tornado  que  se
aproximava diretamente.
      Juliet ps-se a rir.
      - Realmente me assustei. Agarrei-a e corri tudo o que pude.
      - Voc foi muito valente.
      Juliet encolheu os ombros.
      - Trata-se disso? Eu acredito que  uma  simples  necessidade.  O  que
outra coisa se pode fazer quando se acha algum nessas  circunstncias?  No
se pode deixar morrer.
      - Seguro que isso  algo que voc no faria  -  assentiu.  -  Mas  por
isso  forte.
      Ela o olhou, surpreendida.
      - De verdade pensa isso?
      - Claro. Por que ia diz-lo se no pensasse?
      - Nunca me  vi  dessa  forma.  E  jamais  teria  adivinhado  que  voc
pensasse assim.
      - A princpio no  pensava. Nunca acreditei que  chegasse  a  agentar
isto. Possivelmente no soubesse fazer as coisas, mas  agora  vejo  que  tem
valor e tenacidade. Isso  o que importa. Resistiu  e  aprendeu  o  que  no
sabia. No se rendeu.
      O peito de Juliet se inchou de orgulho. No se perguntou por  que  era
to importante que Amos houvesse  dito  que  ela  era  valente.  Um  sorriso
iluminou seu rosto.
      - Quer dizer que no me levar para  a  cidade  para  me  abandonar  
porta de sua cunhada?
      Ele sorriu um pouco envergonhado.
       - Ainda no se  deu  conta  disso?  Faz  semanas  que  poderia  t-la
devolvido  cidade.
      - J sei. Mas no estava segura.
      - Bom, pois agora j sabe. No tenho  inteno  de  devolv-la.  Eu...
voc est fazendo muito bem. - Amos sabia  que  encontrar-se  perto  daquela
mulher seria um inferno para ele. Mas no podia lhe dizer que  partisse  por
temor a sua prpria debilidade.
      - Estupendo. - Juliet no pde evitar a alegria. Estendeu uma  mo.  -
Um aperto de mos.
      A contra gosto, agarrou-lhe a mo. Era pequena e frgil entre  a  sua,
mas tambm clida e forte. Descobriu que teria segurado  sua  mo  para  no
solt-la jamais.
      - No lamentar - prometeu-lhe Juliet, alegre.
      Mas ele j o lamentava.
Captulo 8.
      No dia seguinte, Amos examinou a colheita e descobriu que  a  tormenta
tinha causado poucos estragos, sem dvida porque  os  brotos  eram  pequenos
ainda, comeavam a aparecer por cima da  terra.  Continuando,  ele  e  Ethan
ficaram para reparar os danos  causados  na  granja.  Taparam  a  janela  no
quarto de Ethan que se quebrou ao cair um ramo  da  nogueira.  Ao  anoitecer
tinham arrumado j as tbuas da parede do celeiro.
      No dia seguinte, Amos mandou Ethan ao povoado em  busca  de  tbuas  e
telhas para completar os consertos. Depois que  Ethan  partiu,  Amos  apoiou
uma escada contra a parede da casa  e  subiu  ao  telhado  para  comear  os
trabalhos de reparao.
      Pouco tempo depois, Juliet, que trabalhava na cozinha,  surpreendeu-se
ao  ouvir o rudo de cascos de cavalo no ptio. Enquanto limpava  a  farinha
das mos com o avental cruzou o corredor at a porta principal e a abriu.
      John Sanderson, que estava atando as  rdeas  ao  poste  no  alpendre,
levantou a vista e sorriu.
      - Juliet!
      Juliet suspirou em seu interior. No tinha tempo para falar  com  John
Sanderson. Tinha ido  visit-la  duas  vezes  durante  as  ltimas  semanas,
apesar de ela tentar desanim-lo. Deu-se conta de que  teria  que  ser  mais
direta e dizer  que  no  queria  v-lo  mais.  Tinha  sido  uma  verdadeira
estupidez deixar que fosse v-la s para incomodar a Amos.
      - Vim ver como agentaram a tormenta -  disse  John,  dirigindo-se  ao
alpendre.
      - Perfeitamente. Todos estamos bem. S ligeiros danos  nos  edifcios.
- Juliet se sentiu um pouco envergonhada pela  forma  de  reagir  diante  da
visita, dada a preocupao que ele sentia por ela. Para compensar, sorriu  e
apontou as cadeiras de madeira do alpendre. - Quer se  sentar?  Gostaria  de
tomar algo?
      - No, estou bem. Saber que est bem  suficiente para mim. Eu  estava
muito preocupado.
      Juliet forou outro sorriso. As palavras  carinhosas  de  John  sempre
lhe faziam mal. Sentou-se numa das duas cadeiras,  e  John  se  acomodou  na
outra, aproximando-a dela.
      - Vi o carro de Morgan dirigindo-se ao povoado - disse, em voz baixa e
de forma confidencial. - Soube que era minha oportunidade para me  encontrar
a ss com voc.
      - De verdade? - Juliet se voltou  para  olhar  a  John,  arqueando  as
sobrancelhas. - E por que queria ver-me a ss?
      Ele sorriu, e segurou uma mo.
      - Vejo que  uma atriz. Pronunciou essa frase como uma dama.
      - No sei muito bem do que est falando. Tentou  retirar  a  mo,  mas
Sanderson a reteve entre as suas.
      - Vamos, Juliet, para que fingir? Acredito que sabe o  que  sinto  por
voc.  bastante bvio.
      Aproximou sua mo  boca e beijou a palma. O bigode  lhe  fez  ccegas
na pele.
      -  uma mulher muito bela -  continuou,  com  voz  rouca.  -  Sei  que
outros homens a desejaram com antecedncia.
       Juliet  afastou  a  mo  como  se  queimasse.   Suas   bochechas   se
avermelharam. Amos tinha razo quanto a este homem!
      - Acredito que est equivocado, John Sanderson - disse com  frieza.  -
Esse no  um tema de conversao que considero adequado.
      - Demnios - disse ele aborrecido, - no me diga que vai comear a  me
falar de sua lealdade para com Morgan.
      - O que disse?
      - Ele serviu, suponho, quando a encontrou abandonada e sem um  centavo
em Steadman. Mas agora que esteve com ele  um  tempo,  seguramente  que  no
quer ficar aqui. - Sanderson estendeu  o  brao  e  agarrou  as  duas  mos,
ficando de p e se inclinando sobre ela. - Asseguro que a  vida  ser  muito
mais agradvel comigo.
      Acariciou-lhe os braos de forma insinuante, sorrindo  nos  olhos.  As
intenes de suas palavras e seu sorriso eram inconfundveis.
      Juliet afastou os  braos  de  um  puxo  e  retrocedeu.  A  fria  se
apoderou dela, fazendo que lhe tremesse a voz.
      - Exatamente, o que quer dizer? Cr que eu... que Amos e  eu...  -  As
palavras falharam; estava muito furiosa para falar com  coerncia.  Respirou
profundamente. - Cr que sou a amante de Amos? E est me oferecendo o  mesmo
posto?
      Sanderson pareceu surpreso.
      - Juliet, o que ocorre? Vamos, j somos adultos. No precisa  mostrar-
se to afetada. Ambos sabemos o que est fazendo aqui. S ofereci  uma  cama
mais cmoda que a que compartilha com Morgan.
      Juliet esbofeteou com fora a bochecha direita de Sanderson.
      - Como se atreve! Sou o governanta do senhor  Morgan,  exclusivamente.
Alm disso, sua irm e seu filho vivem nesta casa conosco! Como pode  pensar
que ele e eu... ? Que classe de opinio tem de mim  me  cr  capaz  de  algo
assim?
      O rosto de Sanderson se endureceu; a surpresa tinha  sido  substituda
por uma terrvel ira.
      - Pequena filha de puta!
      Agarrou-a pelo pulso, apertando com tanta fora que a mo ficou  quase
insensvel.
       - Cr que pode me bater impunemente. No permito isso  a  ningum,  e
muito menos a uma fulana de rua. Acredita ser a rainha de Sab s porque  se
deita com Amos Morgan?
      Retorceu-lhe o brao com tanta fora que Juliet lanou um grito  e  os
olhos lhe encheram de lgrimas.
      - Solte-me!
      - No, maldita seja! No at que a tenha ensinado...
      Ouviu-se um retumbar por cima deles, e  a  seguir  uns  fortes  passos
sobre  o  telhado.  Tanto  Sanderson  como   Juliet   olharam   para   cima,
surpreendidos. E ento  Juliet  recordou:  Amos!  Amos  estava  no  telhado,
reparando  as  imperfeies  causadas  pela   tormenta.   Teria   ouvido   a
conversao? A humilhao se apoderou dela, fazendo com que desaparecesse  a
dor que o forte aperto de Sanderson lhe causava.
      Como respondendo a seus pensamentos, ouviu-se outro forte golpe  final
e Amos apareceu  balanando-se  sob  o  telhado  do  alpendre.  Durante  uns
segundos ficou  ali  pendurado  pelas  mos,  e  a  seguir  se  soltou,  com
surpreendente  ligeireza  e  agilidade  para  um  homem  de   seu   tamanho,
aterrissando de p no cho.
      - Solte-a. - O tom de voz de Amos no era  forte,  s  de  uma  mortal
frieza. Um calafrio percorreu o corpo de Juliet. A expresso  de  seu  rosto
era igualmente dura, e a ameaa, inconfundvel ao ver seus enormes punhos.
      - Morgan! - John o olhou atnito, e imediatamente soltou  o  brao  de
Juliet. - No... No sabia que estava aqui.
      - Isso  evidente. Agora sugiro que pea desculpas  senhorita  Drake,
e depois abandone meu alpendre e jamais volte a pr os ps aqui.
      - Me desculpar! -  A  surpresa  fez  Sanderson  abrir  os  olhos  como
pratos. - Que demnios... ? - Abriu as mos,  palmas  para  cima,  de  forma
pacificadora. - Olhe, sei que no deveria ter  entrado  em  seu  territrio.
Sinto muito. Admito que me equivoquei. Mas me entusiasmei. Voc entre  todas
as pessoas deveria saber quo sedutora . No ser a primeira  vez  que  uma
mulher tenha feito um homem comportar-se como um imbecil.
      - Como! - Juliet lanou um grito ao ouvir a  insinuao  de  Sanderson
de que, de alguma forma, ela era a culpada de  seu  comportamento  para  com
ela.
      - No precisa que algum o ajude para que se comporte como um  imbecil
- respondeu Amos secamente. - E no mandei que se desculpasse  comigo.    
senhorita Drake que dever pedir perdo; foi a ela que insultou.
      - Insultei? - disse em tom zombador, mas se voltou e  fez  uma  jocosa
reverncia para Juliet. - Quanto o sinto,  senhorita  Drake.  Como  pude  me
equivocar desta maneira?
      Sua boca se retorceu amargamente,  e  voltando-se  desceu  os  degraus
rapidamente em direo a seu cavalo. Amos esticou o brao e o  agarrou  pela
gola da camisa, colocando-o de um  puxo  diante  dele.  Olhou  a  Sanderson
fixamente.
      - Maldito seja! Meio povoado sabe o que  Sanderson:  um  adltero,  e
agora acabo de comprovar que tambm caminha como valento pela vida. Mas  s
com as mulheres, verdade? Pessoas mais fracas que voc.  Pois  bem,  eu  no
perteno a esse grupo, de modo que ser melhor que  me  escute  bem:  se  me
inteirar de que comentou  esse  incidente  com  algum,  que  falou  mal  da
senhorita Drake, irei a sua procura.  E  no  me  deterei  at  que  nenhuma
mulher possa olhar seu rosto duas vezes. Compreendeu?
      Os lbios de Sanderson ficaram fechados com  amargura,  mas  concordou
com a cabea.
      - De acordo.
      Amos soltou o homem, e Sanderson se apressou em busca de  seu  cavalo,
saindo do ptio como se o perseguissem os demnios.
      - Oh, Amos. - As lgrimas alagavam os olhos de Juliet, e cobria a boca
com a mo. Nunca em sua vida havia sentido tanta vergonha. Tinha  acusado  a
Amos  de  estar  equivocado,  de  ser  um  dissimulado;  tinha  defendido  a
Sanderson quando quem tinha razo era Amos. O homem  devia  pensar  que  ela
era uma imbecil, to encantada pela adulao de  um  rosto  bonito  que  no
tinha reparado na verdadeira personalidade de John Sanderson,  mesmo  depois
de que a advertissem.
      Tudo aquilo era terrvel, mas pior eram as coisas que John  lhe  havia
dito, suas insinuaes a respeito de  que  era  a  amante  de  Amos.  Aurica
Johnson tinha dado a entender  o  mesmo.    que  todo  o  povoado  pensava?
Odiavam-na todos? Acaso tinha acabado tambm com o  bom  nome  de  Amos  por
trabalhar em sua casa? As palavras de Sanderson faziam com que  se  sentisse
suja e envergonhada, como se na verdade  tivesse  cometido  uma  maldade.  O
fato de que Amos tivesse presenciado toda a humilhante  cena  fazia  que  as
coisas fossem piores ainda.
      O rosto de Juliet se ruborizou por completo, e se voltou  para  pr-se
a correr para a casa,  onde  se  manteve  ocupada  preparando  a  comida  de
Frances. Colocou o po com manteiga e uma sopa ligeira - o pouco  que  podia
comer Frances - numa bandeja e  acrescentou  uma  colher  e  um  guardanapo,
dobrado em forma de rosa para tentar animar um pouco  mulher.
      Entretanto, quando subiu pelas escadas    habitao  de  Frances  viu
que, por ora, no era necessrio animar Frances. Suas bochechas tinham  cor,
e seus olhos resplandeciam.
      - O que foi toda a animao que ouvi l fora? -  perguntou  assim  que
Juliet cruzou a soleira da porta.
      - Meu deus! - Juliet se deteve e a olhou. - Sinto  muito.  No  pensei
que voc tambm tivesse ouvido.
       -  Era  impossvel  no  ouvir  -  disse  Frances  com  um  pouco  de
acanhamento. - Parecia como se uma manada de  cavalos  tivesse  passado  por
cima de nosso telhado.
      Juliet se viu obrigada a rir ao ouvir aquela descrio.
      - No. S se tratava de Amos.
      - Que demnios fazia Amos brincando de correr pelo telhado?  E  o  que
eram todos esses gritos? Havia alguma outra pessoa em casa?
      Juliet assentiu.
      - Sim. John Sanderson. Sinto muito ter incomodado. Deveria ter  subido
para tranqiliz-la, mas no pensei que pudesse nos ouvir.
      - John Sanderson! Que demnios fazia ele  aqui?  Estranho  momento  de
visitar s pessoas, justo depois de um tornado.
      - Disse que queria saber se estvamos bem. Parecia preocupado.
       - Oh. Deve estar muito apaixonado por voc - disse Frances  franzindo
o cenho.
      - Acredito que veio porque viu que o carro se  dirigia  ao  povoado  e
pensou que Amos e Ethan estavam nele.  Acreditou  que  eu  estaria  sozinha,
bom, com voc.
      - E uma grande ajuda seria  eu  -  concluiu  enojada  Frances.  -  Fez
alguma proposta indecente?
      Juliet ficou boquiaberta. Sabiam todos como era Sanderson exceto ela?
      - Sim - disse em voz muito baixa.
      Frances suspirou.
      - Eu devia ter avisado voc a respeito dele.
      - Amos j o fez -  disse  Juliet  -  deprimida.  -  Mas  eu  no  quis
acreditar.
      - E por que no? - Frances a olhou de modo  estranho.  -  Amos  sempre
diz a verdade. De fato,  to honesto que em alguns  momentos  chega  a  ser
irritante.
      - Suponho que isso eu deveria saber. Ao menos devia ter comprovado  se
era verdade. Evidentemente, s o que precisava fazer era perguntar a voc.
      - De modo que esse rudo deve ter sido Amos em misso de resgate.
      Juliet assentiu, ruborizada, e afastou a vista.
      - Alegrei-me de o ver, asseguro-lhe isso.
      - Sim, menos mal que estava em casa. -  Frances  bebia  traguinhos  da
tigela  de  caldo  enquanto  falava,  e  Juliet  se  alegrou  ao  ver   que,
interessando-se pelo  tema  da  conversao,  estava  comendo  mais  que  de
costume.
      - Sim. - Pela primeira vez, a vergonha no  foi  a  nica  emoo  que
sentiu Juliet ao pensar na cena. Recordou o aspecto feroz de  Amos.  Como  a
tinha defendido.
      - Expulsou ao senhor Sanderson de casa,  e  obrigou-o  a  desculpar-se
comigo.
      - Bem feito. Sempre se pode confiar em Amos.
      - De verdade?
      - Claro que sim. - Frances a  olhou  estranhamente,  como  se  tivesse
feito uma pergunta estpida.
      Juliet se perguntou o que sentiria uma mulher  ao  saber,  sem  dvida
alguma, que tinha um homem como Amos em quem podia  confiar,  acontecesse  o
que acontecesse. Fazia muito tempo que no tinha a ningum  mais  que  a  si
mesma.  Mesmo  com  seu  pai  vivo,  o  peso  das  decises   e   todas   as
responsabilidades tinham cado sobre ela.
      - Nem sequer o agradeci - murmurou Juliet.
      - O que? - Frances a olhou com curiosidade.
      - No agradeci  a  Amos.  Depois  do  que  fez  por  mim.  Estava  to
envergonhada que  retornei  correndo  para  casa.  -  Franziu  o  sobrecenho
preocupada. - Pensar que sou uma ingrata.
      Frances negou com a cabea, sorridente.
      - No se preocupe. Acredito que Amos nem se deu conta. No espera  que
o  agradea.
      - Mas deveria t-lo feito.
      Aquele pensamento pesou em sua  cabea  ao  longo  de  toda  a  manh.
Chegou e passou a hora do almoo, mas Amos no  desceu.  Entrando  a  tarde,
Ethan chegou de volta. Passou pela cozinha para informar a Juliet dos  danos
causados pelo tornado, e foi ajudar a  seu  pai  no  telhado.  Ali  ficaram,
martelando, at que o sol se ps.
      Era mais fcil enfrentar a  Amos  em  companhia  de  Ethan,  e  Juliet
conseguiu que o jantar transcorresse sem ruborizar-se e sem  ter  que  falar
diretamente com Amos. Ele a olhou to pouco como ela  a  ele,  e  o  fez  da
mesma forma, de esguelha e s escondidas.
      Depois de lavar os pratos do jantar, Juliet foi ao abrigo em busca  de
Amos para agradecer o que tinha feito por ela naquela manh. Dava-lhe  muita
vergonha, e no tinha vontade de faz-lo, mas sabia que era seu dever.
      Cruzou a soleira da porta do abrigo e olhou a seu redor.
      - Amos?
      Dirigiu-se  parte traseira do abrigo, onde a  lamparina  iluminava  o
recinto. Nunca tinha entrado no celeiro. Apoiado contra a  parede  do  outro
extremo havia um mostrador alto com um tamborete no qual se  achava  sentado
Amos. Uma cmoda de  madeira,  de  um  lado,  estava  aberta.  Dentro  havia
ferramentas e mais outras penduradas nas  paredes.  Tambm  se  viam  vrias
prateleiras sob as ferramentas, e foram estas  que  chamaram  a  ateno  de
Juliet.
      As prateleiras estavam repletas de engenhosas  figuras  esculpidas  em
madeira. Algumas eram esttuas e outras partes  de  madeira  em  seu  estado
natural, com figuras esculpidas  sob  relevo,  dando  o  aspecto  de  que  a
criatura saa da mesma  madeira.  Havia  animais,  pessoas,  e  estranhas  e
fantsticas criaturas que pareciam duendes e fadas, gnomos e  monstros.  No
importava  o  que  fossem  porque  estavam  bem  feitas,  pareciam  reais  e
provocavam uma imediata resposta de quem as contemplava, tanto de  diverso,
como de temor ou apreo.
      Juliet ficou boquiaberta e se deteve olhando as peas. Amos, ao  ouvir
sua expresso de  surpresa,  voltou-se  e  uma  expresso  de  contrariedade
cruzou seu rosto.
      - Amos! -Juliet esqueceu a razo de sua visita ao ficar to  fascinada
pelas talhas de madeira detrs de Amos. - Foram feitas por voc?
      Ele assentiu, encolhendo os ombros.
      -  uma espcie de hobbie. Comecei a esculpir quando era um jovem.
      - Por que nunca comentou? So maravilhosas!
      Aproximou-se  para  estud-las  com  mais  cuidado,  enquanto  Amos  a
observava com uma sensao de prazer, vergonha e ansiedade.
      - Voc gosta? - perguntou parecendo inseguro.
      - So maravilhosas. - Juliet caminhava de um lado para outro,  olhando
as figuras expostas nas prateleiras. Nunca tinha imaginado  que  Amos  fosse
capaz de fazer aquelas obras  fantsticas.  Parecia  to  srio  e  prtico.
Entretanto, essas peas apontavam para uma imaginao  frtil,  alm  de  um
grande talento.
      Juliet voltou a olhar, tendo a sensao de que  o  via  pela  primeira
vez.
      -  bastante bom - disse.
      - Obrigado. - Amos no conseguia olhar de frente para ela.  -  Algumas
so bastante tolas, suponho, mas...
      - Oh, nem pensar! No so nenhuma tolice. Eu adoro.
      - Comecei copiando os personagens de um livro de contos que minha  me
tinha - explicou-lhe. - E eu gostei... as criaturas que no eram reais.
      Com dificuldade, ela afastou a vista das figuras e sorriu.
      - Eu sempre adorei os contos de fadas - respondeu-lhe.
      Durante um instante se produziu certa intimidade, como se  algum  tipo
de reconhecimento se produzisse entre os dois. A seguir Amos se  afastou,  e
o breve lao se rompeu. Naquele momento  Juliet  recordou  a  razo  de  sua
visita.
      - No era minha inteno incomodar - comeou a dizer Juliet quase  com
seriedade. - Vim agradecer pelo que fez esta manh.
      Amos encolheu os ombros.
      - No tem importncia.
      - Para mim tem  sim,  posso  assegurar.  Eu...  Foi  muito  amvel,  e
deveria ter agradecido naquele momento. Comportei-me como uma mal educada.
      Seus brancos dentes apareceram num dos escassos sorrisos.
      - A m educao  algo que conheo muito bem No lhe parece?
      Juliet teve que sorrir. Bem, Amos Morgan estava mostrando certo  senso
de humor! Era quase incrvel.
      - Tenho que comentar outra coisa - continuou, animada  por  seu  trato
fcil. - Tinha razo quando  me  falou  do  senhor  Sanderson.  Deveria  ter
ouvido voc. Sinto muito.
      Ele encolheu os ombros.
      - No h muito do que desculpar-se. Voc   quem  saiu  machucada.  Vi
que estava... muito apaixonada por ele;  no  queria  acreditar  no  que  eu
dizia. Eu no queria muito ofend-la.  Sinto.  Suponho  que  ele  era  muito
importante.
      Juliet ficou olhando. A seguir ps-se a rir.  Amos  franziu  a  testa,
surpreso.
      - Sinto muito. - Ela apertou os dedos contra  os  lbios  para  evitar
seguir rindo. - Simplesmente me pareceu divertido.
      - Divertido? - Era evidente pela expresso de  Amos  que  pensava  que
Juliet tinha se tornado louca.
      - Divertido dizer que Sanderson me  importava  muito.  John  Sanderson
no me importava nem um pouco.
      - De verdade? - Parecia incrdulo.
      - No me importava absolutamente - repetiu.
      - Ento por que no quis me acreditar? Por que insistiu  em  continuar
vendo-o
      - Oh. - Ela mordeu o lbio inferior. -  Porque  me  disse  que  no  o
fizesse -replicou em voz muito baixa.
      - O que? Por isso deixou que a visitasse? Porque eu no queria.
      - Parece uma grande tolice quando fala assim, mas..., pois  bem,  sim.
Enfureci-me quando me disse que no deveria v-lo. Na  realidade  no  tinha
nenhum interesse nele; minha esperana era de que no voltasse.  Mas  quando
disse que no, obriguei-me a seguir adiante.
      Amos negou com a cabea, mas um lento sorriso  comeou  a  desenhar-se
em seu rosto.
      - Maldita seja - disse suavemente.
      Juliet se ps a rir. Comportou-se como uma tola, mas por alguma  razo
agora se sentia mais divertida que envergonhada. Possivelmente por que  Amos
tinha reagido com humor e no com ira.
      - Poderia ficar  para  v-lo  trabalhar?  -  perguntou.  Amos  pareceu
surpreender-se, mas concordou com a cabea  e  com  o  indicador  apontou  a
cmoda de madeira.
      - Pode sentar se quiser. Baixe a tampa.
      Voltou sua ateno para a figura em que estava trabalhando,  e  Juliet
se sentou para  observar.  Suas  mos  se  moviam  lentas,  mas  com  grande
destreza por cima da madeira, sem apressar-se. O olhar dela passava de  suas
mos a seu rosto. Daquele ngulo, via s um lado de seu rosto e o espesso  e
escuro cabelo. Necessitava um bom  corte;  usava-o  muito  comprido,  e  com
impacincia o afastava continuamente do rosto. Juliet  poderia  cortar;  com
freqncia tinha cortado o de  seu  pai.  Mas  no  se  atrevia  a  sugerir.
Pareceu-lhe um ato muito pessoal. Observou a ntida  linha  do  nariz  e  as
sobrancelhas, e as espessas pestanas.
      - Conseguimos arrumar o telhado - disse ele.  -  Assim  que  faa  uma
persiana nova para o quarto de Ethan, a casa estar em perfeito estado.
      - Sabe o que eu gostaria? - disse Juliet depois de  uns  instantes  de
dvida.
      - O que? - Ele a olhou, e seus olhos ficaram  uns  minutos  presos  em
seu belo rosto.
       -  Flores  no  alpendre  dianteiro.  Possivelmente   umas   roseiras.
Margaridas ou algo bonito. Daria outro aspecto   casa.  Mais  caseiro,  no
acredita?
      Um dbil sorriso se desenhou no rosto de Amos.
      - E assim teria mais coisas para colocar naquelas suas floreiras.
      Juliet riu.
      - Sim. Alegraria tambm o interior da casa.
      - A minha me sempre gostou das flores - seguiu dizendo  pensativo.  -
Tinha roseiras no alpendre  dianteiro.  Tambm  uma  hera  que  subia  pelas
colunas. Mas ningum cuidou do  jardim  depois  de  sua  morte.  s  plantas
precisam ser regadas, que se ocupe um pouco delas. Tambm a hera morreu.
      -  uma pena. - Juliet no sabia o que dizer.  Tinha  percebido  certa
tristeza no tom de sua voz. Ele encolheu os ombros.
      - Assim  a vida, suponho.
      - No sempre.
      De novo voltou a olh-la.
      - Viveu uma existncia muito diferente da minha, ento.
      - Sim, suponho que assim . - Juliet se interrompeu; logo  prosseguiu.
- Certamente a gente pensa que  uma forma pouco segura de viver, no  muito
fina. E suponho que  certo. Mas ns fomos felizes. Meus pais. Clia. Eu.
      - Clia?
      - Oh. Clia  minha irm. Agora est casada e vive  na  Filadlfia.  
atriz, uma verdadeira atriz, quero dizer, no como eu.
      Fez-se um silncio.
      - Algumas vezes a ouo cantar.
      - De verdade? - Juliet ficou um pouco surpreendida.
      - Sim. Quando estou  sentado  no  prtico,  fumando  meu  cachimbo  de
noite, e voc est trabalhando na cozinha, s vezes canta.
      - Oh. No sabia. - Juliet sentiu que se ruborizava. No estava  segura
da razo. Tinha cantado para milhares de pessoas, e sabia que tinha uma  voz
excelente. Parecia uma estupidez sentir-se envergonhada s porque  um  homem
a escutasse. Entretanto, sentia-se elogiada e orgulhosa de uma vez.
      - Espero... Espero no ter incomodado a ningum.
      - Como podia incomodar a  algum?  -  Amos  arqueou  as  sobrancelhas,
surpreso. -  muito bela. Quero dizer, canta maravilhosamente.  Bom,  claro,
tambm  bela, mas eu no...
      Suas palavras se perderam, e voltou a olhar as mos.
      Juliet viu, atnita, que Amos se ruborizou.
      Durante uns minutos ambos ficaram em silncio.
      - Teria encantado a minha me ouvir voc - disse Amos. - Ela era muito
musical.
      - Frances me contou isso.
      - Vocs duas gostam da beleza, voc e a mame. Quero dizer, as duas  a
entendem. Tem sentido o que digo?
      - Sim. Mas todo mundo entende a beleza.
      - No. Alguns de ns no estamos... bom, parece-nos estranho. Vemos  a
beleza.  Apreciamos.  Mas  no  sabemos.  No  no  mais  profundo  de  nosso
interior, da mesma forma que conhece a terra, entende?  parte  de  mim.  Eu
me sinto feliz quando estou trabalhando no campo. Quando miro a terra  arada
e os terraos plantados, ou vejo os brotos surgirem do cho,  ou  observo  o
sol que fica detrs dos campos quando retorno para  casa...  -  deteve-se  e
sorriu com acanhamento. - Suponho que parece tudo uma loucura.
      - No. Parece-me que est falando  exatamente  da  beleza.  S  que  a
beleza neste caso est na terra, essa  a nica diferena. E  estas  figuras
que talhas, tambm  beleza.
      - Possivelmente. Me parece diferente. Mas isto no  o que  eu  queria
dizer. Queria dizer... Refiro-me aos bibels de minha me...  pode  tir-los
se quiser. Quando quiser. No me importa.
      Juliet ficou boquiaberta. Parecia mentira que Amos acabara de lhe  dar
permisso para que tirasse aqueles belos objetos. Bibels! S a Amos  Morgan
ocorreria chamar bibel a um peso de papel millifiore italiano.
      - Muito obrigada.
      Ele encolheu os ombros.
      - No h razo alguma para que estejam guardados acumulando p.  Nunca
gostei de ver s pessoas toc-los. Mas suponho que voc saber  o  que  ter
que fazer com eles.
      Juliet pensou se Amos fizera um elogio. Com ele, era difcil saber.
      - Obrigada.
      Ele assentiu e pareceu sentir-se incmodo.
      Juliet ficou de p.
      - Suponho que ser melhor que volte para a casa. -  deteve-se.  -  At
manh.
      - Boa noite - respondeu Amos sem olh-la.
      Mas quando ela comeou a afastar-se, ele se voltou e ficou observando-
a at que a escurido da noite a ocultou.
Captulo 9.
      No domingo seguinte, Henrietta  e  Samuel  lhes  fizeram  uma  visita.
Henrietta entrou agoniada, falando pelos cotovelos, e seu  marido  a  seguia
mais lentamente. Samuel saudou seu irmo e a Ethan e fez  um  educado  gesto
com a cabea para Juliet. Logo subiram  para  ver  Frances.  Poucos  minutos
depois, Amos os conduziu ao salo, que Juliet, no dia seguinte    permisso
de Amos, tinha aberto e decorado com os bibels de sua me.
      - Pobre Frances - disse Samuel agitando a cabea,  -  tem  um  aspecto
to... - de repente se interrompeu e olhou surpreso ao seu redor.
      - Bom, Bom -  comentou  Henrietta,  acomodando-se  numa  das  cadeiras
estofadas de veludo com grande ranger de saias. -  O  salo  est  precioso,
Amos. Quando  que decidiu abri-lo?
      Seu cunhado franziu o cenho.
      -  um salo, verdade? Por que no amos utiliz-lo?
      Henrietta abriu com grande sentimento seus olhos escuros.
      - Pois no saberia, querido. Mas devo dizer que a nica vez que  o  vi
aqui sentado foi para um funeral. - de  repente  se  ruborizou.  Todos  eles
pensaram em Frances, acima na  cama,  to  desgastada  pela  enfermidade.  -
Quero dizer... Oh, minha me,  eu...  -  Olhou  ao  seu  redor  desesperada,
procurando alguma forma de mudar o tema da conversa. -  Cus,  a  esto  os
candelabros!
      Ficou de p e se dirigiu para a mesa em que Juliet tinha  colocado  os
dois candelabros de cristal em forma de golfinho.
      - So to belos. - voltou-se para Juliet. - Seguramente que  convenceu
a Amos para que os tirasse. Ele gosta de esconder os objetos  mais  formosos
da casa.  um verdadeiro perverso.
      Apesar  de  gostar  de  Henrietta  e  estar  agradecida  por  ter  lhe
proporcionado o emprego, os comentrios da mulher deixaram Juliet  um  pouco
nervosa.
      - Amos foi muito agradvel na hora de tirar os objetos de arte de  sua
me - mentiu com toda tranqilidade. - Soube reconhecer a beleza  que  havia
neles.
      Amos a olhou com estranheza.
      - Amos? - perguntou  Henrietta  com  cepticismo  e  sorriu  quase  com
ironia. - Certo, certo. Como me alegra saber. Tenho que admitir,  Amos,  que
estou...  digamos, um pouco surpresa.
      Amos  olhou e encolheu os ombros.
      - Eu tambm me alegro... de poder surpreender ao menos. Em geral  sabe
tudo o que acontece na cidade antes que acontea.
      Henrietta esboou um sorriso mais amplo.
      -  certo - admitiu com ligeireza.
      Juliet se dirigiu  cozinha para preparar o  caf  e  massas  para  as
visitas. Quando retornou, Henrietta  estava  narrando  com  toda  classe  de
detalhes os danos causados pelo tornado a cada uma das casas de  Steadman  e
a maior parte das granjas nos subrbios do povoado.
      -... e o abrigo de Osear Metz o vento levou,  eu  tinha  informado?  -
estava dizendo quando Juliet entrou no salo com a bandeja.
      Amos negou  com  a  cabea,  e  por  seu  olhar  vidrado  Juliet  pde
comprovar que s escutava pela metade a sua cunhada. Suspeitou  que  estaria
dando voltas na cabea pensando na melhor forma de escapar do salo.
      - O senhor Stanfield me disse - interrompeu Ethan a sua tia - que  vai
fazer um levantamento de abrigo para os Metz no prximo sbado.
      - Um levantamento de abrigo? - repetiu Juliet. - O que  isso?
      Ethan a olhou estranhamente.
      - No ouviu falar de um levantamento de abrigo?
      - No.
      - Recorda,  uma senhorita da cidade, filho - adicionou Amos,  mas  em
seus lbios havia um ligeiro sorriso e suas palavras no tinham  a  habitual
mordacidade.
      Henrietta olhou primeiro a Amos, depois a  Juliet  e  de  novo  a  seu
cunhado. Juliet quase pde ver os rpidos clculos que sua mente fazia.
      - Um levantamento de abrigo  exatamente isso - explicou Henrietta.  -
Os vizinhos se juntam para levantar um abrigo. No se demora  nem  a  metade
do tempo quando trabalham todos juntos. No campo  tm  que  ajudar  uns  aos
outros.
      - Que bonito.
      - As mulheres levam a comida e se faz um grande almoo.
      - Muitas vezes h dana  ao  acabar  -  acrescentou  Ethan,  os  olhos
resplandecentes.
      - Oh - exclamou Juliet, sorrindo ao menino na brincadeira. - Ento  j
sei por que o interessa.
      E Ethan se ruborizou.
      - No...
            - No me engane.  Acaso no est pensando em  que  possivelmente
Ellie v, e que poderia danar com ela?
      - Ellie? - Henrietta se animou para ouvir a fofoca. - Ellie Sanderson?
Interessa-o essa garota, Ethan?
      - Vamos, tia Henrietta - gemeu Ethan.
      Henrietta ps-se a rir.
      - Acaba de responder a minha pergunta, parece-me. Pois  bem,  se  quer
danar com Ellie, ser melhor que se coloque em  seguida  na  fila.  Sei  de
muitos jovens que gostariam de danar com ela.
      - No vou danar com Ellie - protestou o menino.
      - Vamos, Ethan, e por que no? - perguntou Juliet. - Estou  segura  de
que ela estar encantada.
      Ethan encolheu os ombros.
      - No sei danar.
      - Como? - Juliet no podia acreditar no que estava ouvindo.
      - No sei danar - repetiu ele, a voz cada vez  mais  baixa.  -  Nunca
dancei.
      - Bom, pois isso no  nenhum problema. Pode  aprender  a  danar.  Eu
ensinarei.
      Ethan se endireitou na cadeira, comeando a compreender as palavras.
      - De verdade? Fala a srio?
      - Estaria encantada.
      - Nesse caso - disse Henrietta com azedume, - ter que ensinar a  Amos
tambm. Nenhum Morgan sabe danar.
      Ethan se ps-se a rir e olhou a seu pai. Este olhava a sua cunhada  de
uma forma que tivesse  assustado  a  qualquer  pessoa  menos  dominante  que
aquela mulher.
      - Sim, papai. Por que no deixamos que Juliet nos ensine?
      - No preciso aprender essas tolices - respondeu bruscamente Amos.
      - No seja to  queixoso  -  disse-lhe  Henrietta.  -  Eu  ensinei  ao
Samuel, e agora gosta, verdade, querido?
      Voltou-se esperanada para Samuel, e  este  interveio  na  conversao
pela primeira vez, assentindo com a cabea.
      - Sim. Suponho que sim - disse. - Vamos a quase  todos  os  bailes  da
zona. Claro que Henrietta no quer danar comigo. Ela se limita a  sentar-se
numa esquina a fofocar.
      - Mas voc dana pelos dois. E no me diga que no  desfruta  danando
com todas essas jovenzinhas.
      Um sorriso lento e zombador se desenhou no rosto do Samuel.
      - Pois possivelmente sim.
      - V Amos? - disse Henrietta olhando a seu cunhado. - No  me  importa
que Samuel faa o ridculo por a.
      - Eu no penso a faz-lo.
      Henrietta levantou a vista ao teto.
      - Amos,  incorrigvel.
      - Certamente. Mas nunca conseguir que dance.
      Henrietta olhou a seu ao redor de forma evasiva.
      - Eu, seguramente que no.
      Juliet decidiu que j era hora de mudar o tema da conversa, antes  que
Amos e Henrietta comeassem a discutir abertamente.
      - Bom, e que outros danos causou o tornado no povoado?
      - Tambm caiu o sinal que havia em frente aos estbulos de cavalos  de
aluguel.
      Continuou descrevendo os danos  restantes  e  inconvenientes  causados
pelo vento. Amos se esticou na poltrona, os braos  cruzados.  Agentou  uns
dez minutos antes de  ficar  bruscamente  de  p  sugerindo  que  os  homens
descessem aos estbulos para ver os animais.
       A  porta  principal  se  fechou  atrs  deles  e  Henrietta  suspirou
aliviada.
      - Bem, por fim se foram. Pensei que fossem ficar para sempre.
      Juliet a olhou sem compreender.
      - Queria que partissem?
      -  obvio. Como podem fofocar as mulheres  a  gosto  e  tranqilas  se
esto rodeadas de homens com to mau humor? Os Morgan  so  boa  gente,  mas
mortalmente aborrecidos na hora de conversar.
      Juliet no pde evitar tornar rir.
      - V. J sabe ao  que  me  refiro.  -  Juliet  assentiu,  e  Henrietta
continuou. - Deus sabe que quero ao Sam, mas   muito  calado.  Qualquer  um
diria que isso  o que eu gosto, considerando o muito que falo porque  assim
ningum me faz concorrncia. - ps-se a  rir  alegre,  seus  pequenos  olhos
marrons cintilantes. - E possivelmente seja certo, a maior parte do tempo.
      Ficou de p, tirando-os luvas.
      - Bem, o que estamos fazendo aqui? Suponho que tem  muito  trabalho  e
que iria bem uma ajudinha. Em especial com Frances to  doente.  -  Moveu  a
cabea tristemente. - No queria diz-lo diante deles, mas no acredito  que
v durar muito.
      - No sei.  forte. Tem muita  vontade.  Est  lutando  todo  o  tempo
possvel.
      - De todas as formas, h coisas contra as quais  no  se  pode  lutar.
Desde uma perspectiva egosta de t-la conosco,  eu  gostaria  que  durasse,
mas quando vejo quo magra est e o mau aspecto que tem, no posso evitar  a
idia de pensar se no seria melhor que isso  acabasse  rapidamente.  Embora
no  acredite  que  ela  se  deixe  morrer.  Os  Morgan  so  a  gente  mais
teimosamente imaginvel.
      Enquanto falava, Henrietta tirou os alfinetes do chapu e o  deixou  a
um lado. A seguir se dirigiu  cozinha, desabotoando as mangas da  blusa  de
seda e dobrando-as. Henrietta colocou um avental quando chegaram    cozinha
e atacou os pratos do almoo, que Juliet estava esfregando quando  Henrietta
e Samuel chegaram. Juliet no demorou muito em entender  por  que  Henrietta
se prestou a limpar. A mulher era um rolo compressor. Juliet  se  deu  conta
de que certamente o mais difcil para ela era estar num salo  elegante  sem
outra coisa que falar. Em uns  segundos  tinha  lavado  a  baixela  enquanto
falava sem cessar, saltando sem continuao de comentrios sobre o tempo,  e
fofocas a respeito de pessoas de Steadman, a um discurso  sobre  a  natureza
da famlia Morgan.
      - Tm seus humores - disse  com  ar  confidencial  a  Juliet  enquanto
entregava o ltimo prato para que o  secasse  e  ela  pegava  a  vassoura  e
ficava a varrer. - Todos os que conheci, exceto a me, claro,  mas  ela  no
era uma verdadeira Morgan. Digo com franqueza que no sei como  o  agentou.
A culpa foi do velho senhor Morgan. s vezes  penso  que  teria  gostado  de
agarrar a esse homem pelo pescoo e lhe dar uma  sacudida.  Como  tratava  a
seus filhos! Severo e reto  como  John  Calvino(*02),  assim  era  ele.  No
afrouxou nunca com esses meninos. Diria que Amos o odiava, e Sam tampouco  o
queria muito mais. Tinha a mo  frouxa  com  o  cinturo,  e  no  agentava
nenhuma maldade. Desgostavam-lhe as tolices e a frivolidade. Sustentava  que
a vida era dura e que todos estvamos aqui para trabalhar.  Agora  bem,  no
me importa um pouco de trabalho; no saberia o que  fazer  se  no  houvesse
algo que me mantivesse ocupada.  Mas para que serve tudo isso se  no  puder
me divertir um pouco de vez em quando? A vida no  est  feita  para  sofrer
continuamente. Mas aos Morgan  difcil rir. Eu consegui que Samuel  mudasse
o bastante. Gosta de divertir-se tanto quanto os  outros.  Mas,  claro,  ele
saiu logo de casa, foi ao povoado quando tinha s dezesseis anos  e  comeou
a trabalhar no armazm geral. Mas Amos ficou aqui trabalhando  e  agentando
ao velho at que morreu, faz uns dez ou  doze  anos.  Eu  acredito  que  ele
passou pior. Ele e Frances.
      Juliet escutou ansiosa  o  fluxo  de  palavras,  recolhendo  todos  os
retalhos de informao que Henrietta lhe oferecia a respeito de Amos  e  sua
vida. No se deteve em pensar por que  tinha  tanto  interesse  naquilo  que
Henrietta lhe contava sobre ele.
      Em outro momento, depois de ter varrido a cozinha, e quando  Henrietta
estava polindo a prata, Henrietta perguntou a Juliet:
      - Como se entendem voc e Amos?
      - Bem. Bom, para ser sincera, ao princpio foi um pouco difcil.
      Henrietta emitiu um bufado pouco delicado.
      - Eu imagino que  um eufemismo. Amos crava mais que um ourio.
      - No foi culpa dele - disse Juliet imediatamente.
      Henrietta a olhou, incrdula.
      - De verdade, ele no teve a culpa - insistiu Juliet. -  Temo  que  eu
no fui honesta quando me contratou.  Eu...  bom,  no  era  uma  perita  em
tarefas do lar.
      Henrietta ps-se a rir, e seus olhos se iluminaram divertidos.
      - No me diga!
      Juliet ficou olhando.
      - Quer dizer que sabia?
      - No tinha muito sentido o contrrio, verdade? Uma pessoa que  passou
a vida viajando pelo  pas,  ganhando  a  vida  cantando  e  se  fazendo  de
atriz... No parecia muito  provvel  que  fosse  uma  grande  cozinheira  e
governanta.
      - Por que me contratou?
      - Imaginei que aprenderia em seguida;  parecia  uma  jovenzinha  muito
esperta. E tampouco havia onde escolher; no h  muitas  mulheres  por  aqui
que queiram trabalhar nisso, e ningum que  conhecesse  Amos  desejava  esse
posto. Alm  disso,  pensei  que  voc  fosse  o  que  esta  casa  (e  Amos)
necessitava.
      - O que quer dizer?
      -  bonita e alegre. Pensei que se havia algum no mundo  que  pudesse
suavizar a Amos Morgan, essa pessoa era  voc.  Quantas  oportunidades  como
essa se apresentam na vida?
      De verdade falava a srio? Juliet no podia acreditar  no  que  estava
ouvindo. Parecia que Henrietta a tinha escolhido para algo mais pessoal  que
as simples tarefas da casa, como se tivesse desejado que Juliet tivesse  uma
relao mais ntima com Amos.
      - Fala a srio?
      -  obvio que falo a srio. Amos precisa casar-se.  Se  esperar  muito
mais tempo, ser to manaco que nada o far mudar.
      - Contrastou-me porque esperava que Amos e eu nos casssemos?
      - No exatamente. - Henrietta encolheu os ombros. - Afinal,   verdade
que necessita a algum que cuide de Frances e da  casa.  Mas  se  existir  a
possibilidade de que algo ocorra entre vocs... - Henrietta sorriu,  olhando
de esguelha para Juliet, - ento, muito melhor.
      Casar-se com Amos! Juliet jamais tinha  pensado  nessa  possibilidade.
Mas, ao ouvir as palavras de Henrietta, no podia deixar  de  pensar  nisso.
Tentou imaginar-se diante do padre com ele, as mos unidas,  jurando  passar
a vida a seu lado.  Sentada  frente  dele    mesa  todos  os  dias  de  sua
existncia.
      Compartilhando sua cama. Chegando a conhec-lo como jamais  conheceria
outra pessoa. Sentir seus lbios sobre sua boca, suas mos sobre  sua  pele.
Ser dela...
      Seu rosto e pescoo se ruborizaram com as  imagens  que  passavam  por
sua mente, e Juliet  soube  que  Henrietta  via  que  aquele  rubor  era  de
vergonha. Juliet se voltou, os nervos a flor de pele.
      - No acredito que isso seja possvel - disse em tom suave.
      Henrietta suspirou.
      - Sei que pode parecer improvvel. Mas Amos no  um  mau  homem.  Sob
toda essa brutalidade,  bom. Seria incapaz de fazer mal a ningum, e  menos
a uma mulher. Eu tinha a esperana de que estando a seu lado chegaria a  ver
como  na realidade, que inclusive acabasse por sentir algum afeto por  ele.
Cuidaria bem de voc. Vive com simplicidade, mas  um dos homens mais  ricos
da zona. Sua granja  a maior do condado.
      Juliet se voltou, erguendo-se com orgulho.
      - Nunca me casaria por essas razes!
      -  uma tola se no pensar nisso - replicou  Henrietta  pragmtica.  -
Afinal, quem vai cuidar de voc se no se cuida de  voc  mesma?  Recorda  a
situao em que estava antes de vir aqui. Entretanto...  -  Levantou  a  mo
para deter as palavras que Juliet estava a ponto  de  pronunciar.  -  Eu  s
queria que os dois tivessem uma oportunidade. Espero  que  no  se  feche  a
essa idia.
      - Tampouco faria isso. Quero dizer, j me dei conta de que Amos no  
o que parece a primeira vista. Tem uma bondade inata; no  me  jogou    rua
quando descobriu minha incompetncia na hora de cozinhar.   muito  bom  com
sua irm. E me tratou com respeito. Mas eu... bom, de verdade  acredito  que
Amos no tem interesse em casar-se. Com ningum, e menos comigo.
      -  uma tola se cr que no o interessaria. Vamos, se  olhe;  qualquer
homem o estaria. Pode ser que Amos seja brusco, mas  nunca  ouvi  dizer  que
fosse anormal no que  a  esse  tema  se  refere.  Acredite-me,  nunca  teria
deixado tirar os objetos de sua me se no sentisse algum  afeto  por  voc.
Claro que no pensa no matrimnio. Que homem o faz? Por isso temos  que  dar
um empurrozinho para ajudar a decidir-se.
      - O que est sugerindo que faa?
      - No ponha essa cara de escandalizada. No estou sugerindo  que  faa
nada imoral, asseguro-lhe isso. Mas no faria nenhum mal que o deixasse  ver
esse seu sorriso ou que faa um esforo para conversar com ele.
      Henrietta deixou a bandeja de prata que estava limpando e se  inclinou
pondo uma mo sobre o brao de Juliet.
      - Amo a Amos. Eu gostaria de v-lo feliz. Faria muito bem a ele ter  o
carinho de uma boa mulher.
      Juliet sorriu timidamente.
      - Mas como sabe que o sou? Quase no me conhece. E fui atriz.
      - Oh, isso! - Henrietta fez um gesto de desinteresse com a mo.  -  Se
fosse desse tipo, teria ido diretamente ao saloon  para  ganhar  o  dinheiro
que necessitava. Soube que tinha qualidade porque no o fez.
      Juliet piscou.
      - No sei o que dizer. Estou atnita.
      - No precisa que  diga  nada.  -  Henrietta  voltou  a  ocupar-se  da
bandeja. - S o que quero  que pense no que eu disse. Prometa que dar  uma
oportunidade a Amos.
      - Sim, darei. Mas no  imagino  a  Amos  querendo  essa  oportunidade.
Ele... bem, h minha reputao. Alegro-me de que voc  no  pense  assim  de
mim, mas h muitos outros que no so como voc. Parece que  correm  rumores
por todo o povoado a respeito de Amos e eu.
      - O que? - Henrietta colocou as mos na cintura  beligerante.  -  Quem
est falando de vocs, eu gostaria de sab-lo?
      - Aurica Johnson disse a Amos que...
      - Oh, ela! - Henrietta fez um gesto de desinteresse com a mo. -  Todo
mundo sabe que  uma solteirona amargurada que faz anos tem o olho posto  em
Amos. Nunca conseguiu nada dele, e estou segura  de  que  sente  uns  cimes
raivosos ao ver que uma garota to bonita  como  voc  est  aqui  com  ele.
Ningum mais fala de voc. No se atreveriam;  eu  os  poria  em  seu  lugar
imediatamente. E se cr que Amos se  importa  com  as  fofocas,  pense  duas
vezes. Ele faz s aquilo que gosta.
      Juliet se ps-se a rir.
      - Isso sim que  certo.
      - Claro que sim. S o que tem que fazer  se render.
      Satisfeita  de  ter  conseguido  seu  objetivo,  Henrietta   ficou   a
trabalhar, cantarolando.
      - Juliet. - Ethan levou o ltimo prato da mesa ao mrmore junto a  pia
deixando-o ali. A seguir a olhou com o srio e sedutor  olhar  de  um  jovem
que deseja algo.
      - O que ? - Juliet estava sorrindo, com apenas  o  olhar;  suspeitava
que logo tiraria dela o que quisesse.
      - Ontem disse que podia me ensinar a danar. Estava  pensando...,  por
que no comeamos?
      O pedido surpreendeu a Juliet; no recordava mais de seu oferecimento,
meio na brincadeira, do dia anterior. Olhou a seu  redor.  Frances,  a  quem
Amos tinha descido para jantar aquela noite, como tinha feito  vrias  vezes
nas ltimas semanas, estava sentada  mesa, recostada  com  aspecto  cansado
contra o respaldo da cadeira. Amos se encontrava junto a ela, e  olhou  para
Juliet e para Ethan com interesse.
      - Agora mesmo? - perguntou Juliet. - Aqui?
      - Claro. Por que no? H lugar suficiente. - Ethan assinalou  o  amplo
espao vazio entre a mesa e a despensa. - Necessito muita prtica,  de  modo
que ser melhor que me ensine o quanto antes. S faltam cinco  dias  para  o
baile.
      - De acordo. - Juliet sorriu ao jovem e comeou a desatar  o  avental.
- Tem razo, por que no? Posso acabar de lavar os pratos mais tarde.
      Um sorriso iluminou o rosto de Ethan.
      - Estupendo! O que temos que fazer?
      - Bom, primeiro tem que pedir  garota que saia para danar.
      - Como se faz?
      - Aproxime-se dela e, com uma  reverncia,  pea  muito  educadamente:
Senhorita concede-me a honra dessa dana?
      Ethan imitou a pequena reverncia de cintura que Juliet fazia.
      - Senhorita Drake, concede-me a honra dessa dana?
      -    obvio  que  sim,  senhor  Morgan  -  respondeu  Juliet  sorrindo
timidamente como uma jovem casadoira diante de um fingido admirador. -  Ser
um prazer.
      - E agora lhe ofereo o brao - contribuiu Ethan orgulhoso,  ao  tempo
que dobrava o seu. - Isso j vi fazer.
      - Assim . - Juliet segurou no seu  brao  e  ambos  se  dirigiram  ao
centro da pista de baile. - Agora vire para ela e  a  ponha  em  posio  de
danar uma valsa.
      Ensinou-lhe onde devia colocar as mos e comeou a ensinar os  passos.
Ethan manteve a  vista  fixa  nos  ps  de  Juliet  enquanto  se  movia  com
estupidez e tentava seguir o ritmo. Amos os observava, o gesto spero e  com
a expresso de que tudo aquilo lhe parecia  uma  tolice.  Depois  de  vrios
minutos, as mos de Ethan estavam midas por causa do nervosismo e  tinha  o
rosto contorcido pela frustrao. Finalmente se separou dela.
      -  intil! - exclamou. - No sei faz-lo!
      - Claro que sabe - respondeu Juliet, corajosa. - S o  que  precisa  
prtica.
      - Seria mais fcil com msica - apontou Frances em voz baixa.
      - Eu sei. Mas no posso tocar o piano e  ensinar  a  danar  ao  mesmo
tempo.
      - Sei onde est minha caixa de msica. A caixinha de msica de  mame.
-Frances se voltou para seu irmo. - Amos, faria  a  gentileza  de  peg-la?
Tenho-a em minha cmoda, na segunda gaveta.
      Amos hesitou, como se estivesse a ponto de  negar-se,  mas  no  podia
dizer a sua irm que no,  assim,  concordou  e  saiu  a  passos  largos  da
cozinha. Frances sorriu para Juliet.
      - Continuem. Suspeito que  ser  mais  fcil  aprender  sem  Amos  por
perto.
      Juliet comprovou que tinha razo. Sem a desaprovadora presena de  seu
pai, Ethan se concentrou muito melhor nos passos, e vrias  vezes  se  moveu
bem, embora com um pouco de estupidez.
      Amos retornou com uma caixa de madeira belamente  esculpida  e  a  ps
sobre a mesa da cozinha. Deu-lhe corda quase com mimo, levantou a  tampa,  e
uma delicada valsa comeou a soar. Facilitava  muito  o  baile  faz-lo  com
msica, e Ethan comeou a mover-se com mais naturalidade. Percorreram uma  e
outra vez o pequeno espao; Ethan com o  sobrecenho  terrivelmente  franzido
enquanto mantinha o ritmo da msica com a cabea.
      Quando se detiveram, Juliet olhou  a  Amos,  e  algum  duende  em  seu
interior a impulsionou a dizer:
      - Agora  a vez de Amos.
      - O que? - Amos pareceu ficar paralisado.
      Ethan se ps-se a rir.
      - Sim, papai, agora Juliet pode te ensinar a ti. Amos fez um  vigoroso
gesto de negao.
      - Absolutamente.
      - Por que no? Como pensa se divertir no  levantamento  do  abrigo  no
sbado a noite?
      - No vou divertir-me. Tenho inteno de ajudar a levantar o abrigo  e
passar o resto da noite descansando, muito obrigado. No vou  sair    pista
de baile a passar vergonha.
      - No passar vergonha - prometeu-lhe Juliet. - Cr  que  sou  to  m
professora?
      - No - rugiu, olhando-a com cara feia. - No se trata disso.
      - Ento, do que se trata?
      - No sei danar!
      - Por isso quero ensinar - respondeu Juliet com exagerada pacincia.
      Ethan ps-se a rir.
      - Pegou voc.
      Amos dirigiu um terrvel olhar a seu filho.
      Mas Ethan no se alterou.
      - Vamos, papai, se eu pude voc tambm pode.
      - Mas voc queria. A est a diferena. Eu no pedi que me ensinem...
      - Eu gostaria de v-lo danar - interrompeu-o Frances. - Vamos,  Amos,
ser divertido. Estou gostando tanto disso...
       Amos olhou para sua irm. Pela primeira vez em muitas  semanas  tinha
as bochechas com um pouco de cor.
      - Sim, se divertir muito rindo quando me vir  cair  como  um  co  de
trs patas - se queixou, mas seu tom de voz foi muito mais suave,  cheio  de
amor e resignao.
      - Por favor, Amos. - O sorriso de Frances era comovedor  desenhado  em
seu magro rosto.
      - De acordo.
      Amos se dirigiu ao lugar onde Juliet o esperava. Ela luzia  um  grande
sorriso, e seus azuis olhos cintilavam divertidos. Aos olhos de Amos  estava
mais bela do que qualquer mulher tinha direito, e  no  sabia  se  sentia-se
atemorizado ou excitado diante de sua proximidade.
      Estendeu os braos algo tensos na posio que Juliet tinha indicado  a
Ethan. Mas Juliet fez um som reprovador com a lngua.
      - Esqueceu-se de uma coisa.
      Amos pareceu estranhar-se.
      - Tem que pedir-lhe primeiro, papai - sussurrou-lhe Ethan.
      Amos lanou um tremendo suspiro para indicar  o  que  opinava  daquela
comdia, mas fez uma pequena reverncia.
      - Concede-me essa dana, senhorita Drake? - perguntou como um colegial
que recita uma frase.
      Juliet devolveu uma reverncia to pronunciada que quase baixou at  o
cho, estendendo a saia a seu redor.
      -  obvio que sim, senhor Morgan.
      Ethan riu e mostrou sua aprovao pelo espetculo. Frances sorria.
      - Agora. Ponha esta mo aqui. - Juliet lhe  agarrou  a  mo  esquerda,
palma para cima e estendendo-a a  um  lado,  o  cotovelo  dobrado.  Ps  sua
prpria mo na dele, e os dedos de Amos se fecharam automaticamente.
      - A mo direita, aqui.
      Agarrou-lhe a mo e  a  colocou  sobre  seu  quadril.  Estava  quente;
sentia-o atravs do tecido de seu vestido.  Seu  estmago  deu  um  estranho
ronco. De repente, o impulso que a tinha  incitado  a  ensinar  a  danar  a
abandonou, e Juliet ficou consciente da proximidade entre eles e da  mo  de
Amos sobre seu corpo.
      - E agora o que? - perguntou Amos.
      - Bom, tem que mover os ps. - Fez uma demonstrao  dos  passos  mais
singelos. - Eu retrocedo e voc  adianta.  V?  -  Contou  os  compassos.  -
Passo, dois, trs. Passo, dois, trs.
      Juliet levantou um pouco a saia para que ele pudesse ver  o  movimento
de seus ps, e ficaram  vista seus magros e geis tornozelos coberto  pelas
meias. Ethan voltou a dar corda a caixinha de msica, e as notas  soaram  de
novo no ambiente. Juliet se movia com graa, e Amos a seguia  o  melhor  que
podia, a vista fixa em seus ps. Num dos movimentos viu um pouco  da  perna,
o princpio da suave curva da panturrilha.
      Juliet olhou o rosto de Amos. Tinha os olhos fixos em  seus  ps,  mas
viu o repentino calor na profundidade  de  seu  olhar.  Um  olhar  reprimido
imediatamente. Entretanto no tinha forma de  dissimular  o  calor  de  suas
mos. Juliet comprovou que estar  perto  dela,  sustentando-a  para  danar,
excitava-o, e essa s idia fez que sua prpria  respirao  se  acelerasse.
Havia algo sedutor no calor de sua pele e a cintilao de seus  olhos,  e  o
rpido intento de dissimul-lo, com pouco xito por  certo,  o  fazia  ainda
mais excitante. Ele a encontrava atrativa;  desejava-a,  apesar  da  batalha
que travava contra seus sentimentos, e Juliet pensou que o desejo tinha  que
ser muito forte se era capaz de transpassar a barreira da vontade de Amos.
      Em seguida baixou o olhar para os ps, diante do temor de que algum de
seus pensamentos se refletisse em sua expresso, mas aps  de  uns  segundos
foi incapaz de no olhar outra vez,  e  o  mesmo  tremor  de  excitao  lhe
percorreu o corpo de novo. Os dedos de Amos se afundaram com mais  fora  na
cintura.  Juliet  observou  que,  de  uma  forma  inconsciente,   foram   se
aproximando um do outro. Ela comeava a ter dificuldades para controlar  sua
prpria respirao.
      Juliet se separou dele, tentando  dizer  algo  que  dissimulasse  suas
estranhas reaes.
      - Esteve me enganando.
      - O que? - Amos a olhou, confuso, como se lhe custasse  entender  suas
palavras.
      - Voc j sabia danar. Est aprendendo com muita rapidez.
      Ele negou com a cabea.
      - No  verdade. Bom, sim  que  dancei  um  pouco,  faz  muito  tempo.
Nunca... nunca fui muito bom.
      Juliet  tragou  saliva.  Sentia-se  confusa  por  ter  mostrado   seus
sentimentos.
- No seja tolo, era uma brincadeira. Dana muito bem. Antes  que  cante  um
galo ser um perito. - Seu sorriso foi  breve  e  mais  uma  careta  que  um
sorriso. Voltou-se para Ethan. - E voc, tambm.
      - Podemos praticar todas as noites? - perguntou ansioso o moo.
      - Certamente. No vejo por que no. Mas agora ser melhor que acabe de
esfregar os pratos.
      Ali se separaram. Amos segurou Frances nos braos para lev-la  a  seu
quarto; Ethan saiu ao ptio, e Juliet voltou para seu trabalho. Ao  cabo  de
um momento Amos desceu e cruzou pela cozinha para sair pela porta  traseira.
Nada disse ao passar, e Juliet, que manteve a ateno fixa na pia e as  mos
dentro da gua, no se voltou para olhar.
      Na noite seguinte, Juliet esteve muito nervosa durante todo  o  tempo,
e, enquanto recolhia os pratos depois do jantar, olhava  fixamente  a  porta
traseira, esperando que Amos sasse por ela a caminho  do  abrigo.  Mas  ele
permaneceu sentado  mesa. Juliet sentiu um n no estmago.
      Continuou ali quando  ela  e  Ethan  danaram,  observando.  A  msica
ressoava no ambiente como o tinido de  um  cristal,  clara,  doce,  formosa.
Quando ela e Ethan deixaram de danar, Juliet duvidou  e,  sem  que  pudesse
evit-lo, seu olhar se voltou para Amos.
      Ele se levantou com movimentos lentos e se aproximou dela. Juliet  no
pde interpretar nada em seus escuros olhos. Sem  dizer  uma  palavra,  Amos
lhe colocou a mo esquerda na  cintura  enquanto  agarrava  a  outra  com  a
direita. Juliet sentiu um formigamento na palma da mo. Comearam a  danar.
J se moviam com maior facilidade, mais ao ritmo da msica. A proximidade  a
aturdia, e seu tamanho  e  fora  eram  bvios.  Entretanto  Juliet  no  se
assustava; de algum jeito, parecia-lhe tranqilizador.  Amos  era  como  uma
rocha,  slida  e  forte,  e  sua  presena  resultava  mais  protetora  que
intimidadora. Seria, pensou  Juliet,  mais  fcil  apoiar-se  contra  ele  e
deixar que a sustentasse, que sua fora a envolvesse.
      Juliet se deteve e se separou de Amos.
      - Acredito que j sabe esses passos  perfeio.
      Durante uns instantes ele no disse nada.
      - Tem que haver mais passos? - perguntou ele a seguir.
      - Claro. H voltas, se quiser que o ensine.
      Ele a olhou.
      - Sim - respondeu. - Continuemos.
Captulo 10.
      - Que bonita est! - exclamou Frances  aplaudindo  encantada  enquanto
Juliet  girava  diante  dela.  As  rosadas  mas  do   rosto   de   Frances
contrastavam com a palidez de sua pele. Juliet se alegrou  de  ter  mostrado
seu aspecto a Frances  antes  de  ir  ao  levantamento  de  abrigo.  Frances
pareceu estar mais contente pela sada da jovem do que a prpria  Juliet.  -
Pegou outro vestido para o baile?
      - Sim, tal como me aconselhou.  -  Juliet  sorriu.  Frances  se  tinha
assegurado de que  Juliet  estivesse  completamente  preparada  para  o  ato
social. - Est segura de que voc no gostaria de vir? Amos a descer at  o
carro, e eu prepararia um colcho atrs. Ali poderia se sentar   sombra  ou
ficar um momento na casa dos Metz, e assim veria todo mundo.
      Frances tinha pedido a Amos que a descesse  cada  noite  dessa  semana
para ver como progrediam as aulas de dana.  Tinha  desfrutado  tanto  e  se
interessou  de  tal  maneira  pela  festa  que  Juliet   gostaria   que   os
acompanhasse.
      Frances negou com a cabea e esboou um melanclico sorriso.
      - No. No agentaria. Ser muito bonito,  mas  estou  muito  cansada.
Alm disso, eu no gostaria nenhum pouco que as pessoas me vissem assim.
      - Mas tem um aspecto estupendo esta manh - protestou Juliet, enquanto
uma pontada de dor atravessava seu corpo ao dizer aquelas palavras,  j  que
sabia que no eram certas.
      - Obrigada. Viu-me todos os dias, e sabe o mau aspecto  que  tenho  h
umas semanas. Mas outros no me viram desde que estava bem.  No  suportaria
que se compadecessem de mim.
      - Compreendo. Mas estou segura de que aos vizinhos adorariam v-la.
      - Obrigada.
      Ouviram-se pisadas no corredor e Amos  colocou  a  cabea.  Levava  um
macaco e uma camisa de xadrez, e sustentava um pequeno monto de roupa.
      Amos viu Juliet. Seu olhar se deteve uns instantes  nela,  no  vestido
de algodo azul que levava. Muito mais bonito que  as  saias  e  blusas  que
usava diariamente. Juliet se perguntou se  tambm  ele  pensava  que  estava
bonita. Teria gostado de saber o que pensava Amos. Praticara com ele para  o
baile todas as noites da semana,  igualmente  com  Ethan,  e  embora  Juliet
estivesse um pouco nervosa e excitada cada vez que danavam, no  tinha  nem
idia se o mesmo tinha ocorrido a Amos. Em alguns momentos as mos  de  Amos
tinham parecido  mais  quentes  que  o  normal,  alm  de  vislumbrar  certa
expresso em seus olhos. Entretanto, no estava segura disso.
      -  hora de partir, Juliet. Comearo logo.
      - De acordo. Eu estou preparada. Vim me despedir  de  Frances.  Deixei
l embaixo, sobre a mesa da cozinha, a comida que vamos levar.
      - Ethan est carregando o carro. - Amos andou para a cama  de  Frances
e segurou a mo de sua irm. - Est  certa  que  ficar  bem  aqui  sozinha?
Gladys Snipes diz que chegar por volta das onze ou doze, e ela  cuidar  de
voc esta tarde.
      - Estarei perfeitamente bem - respondeu Frances com certa aspereza.  -
Qualquer um diria que sou uma menina, por sua forma de  se  comportar.  Como
se eu no pudesse passar uma manh e uma noite sozinha! E no  sei  por  que
tem que estar aqui Gladys toda a tarde me olhando dormir. Juliet  me  deixou
um copo, uma jarra com gua e um almoo frio, ao lado da cama, se por  acaso
Gladys no chega ao meio dia. Estarei perfeitamente bem.
      Amos sorriu, satisfeito diante da corajosa atitude de sua irm.
      - De acordo.
      - Agora, espero que se esquea de mim e que passe  um  dia  estupendo.
Quero que dance; me prometa que o far.
      - De acordo. Danarei.
      - Bem. Ser como se  pudesse  v-lo.  -  Frances  sorriu,  a  cor  lhe
ruborizando ainda mais as bochechas, e  os  olhos  resplandecentes.  Parecia
mais animada ainda. - Sempre gostei de danar.
      Amos pareceu surpreender-se.
      - No sabia que danava.
       - S quando papai no estava. De fato, foi Henrietta que me ensinou.
      - Nisso eu no acredito.
      - Desfrutei vendo como danavam esta manh. Oxal pudesse ir   festa.
Eu adoraria danar uma vez mais.
      Doeu o corao de Juliet vendo a expresso que obscureceu o  rosto  de
Amos. De repente, este se inclinou e levantou Frances da cama.
      - Ento danar.
      - O que? Brinca?
      - No, absolutamente. Juliet, onde  est  a  caixinha  de  msica?  D
corda.
      A caixa se achava sobre a cmoda de Frances.  Juliet  se  apressou  em
cumprir o pedido.  medida que as notas musicais saam da  caixa,  suspensas
no ar como gotas de cristal, Amos comeou a danar  com  sua  irm.  Frances
tinha o cabelo recolhido numa trana que descia pelas  costas;  tinha  posto
s a camisola, os ps nus. Estava muito plida e excessivamente magra, e  se
movia com lentido, Amos sustentando-a mais  que  guiando-a.  Mas  a  Juliet
pareceu uma imagem muito formosa, e seus olhos encheram de lgrimas.
      Ao cabo de uns minutos Amos elevou a Frances  por  completo  do  cho,
sustentando o debilitado corpo enquanto danava. Acabou dando  duas  grandes
voltas. A seguir depositou com suavidade a Frances em cima da cama a  cobriu
at a cintura. Depois girou sobre seus calcanhares  e  saiu  do  quarto  sem
dizer uma palavra nem olhar a nenhuma das duas mulheres.
      - Adeus. Assim que voltarmos subirei para v-la. -  Juliet  segurou  a
mo de Frances e lhe deu um suave aperto.
       Frances  assentiu,  sorrindo,  com  aspecto  de  estar  terrivelmente
cansada, mas feliz. Juliet saiu do quarto e desceu correndo  pelas  escadas.
Descobriu Amos no saguo, o brao apoiado contra pilastra do  corrimo  e  a
cabea  descansando  sobre  seu  brao,  o  rosto  oculto.  A  tristeza  era
eloqente na postura de seu corpo.
      Sem pensar, Juliet ps sua mo sobre  a  que  Amos  tinha  apoiada  no
corrimo, tentando proporcionar  um  pouco  de  consolo.  Ouviu  um  pequeno
soluo, e quando levantou o olhar para ele,  viu  como  esfregava  os  olhos
dissimuladamente na manga ao levantar a cabea.
      - Sinto muito - sussurrou ela, a voz cheia de emoo. Ele assentiu,  e
a tristeza de seu rosto resultava dolorosa. Amos  agarrou  por  um  instante
sua mo, e a soltou.
      - Vamos.  hora de ir.
      Juliet  se  surpreendeu  com  a  nsia  que  sentia  para  chegar   ao
levantamento de abrigo, e  com  a  quase  alegria  que  experimentou  quando
desceu do carro ao chegar e viu  algumas  mulheres  que  conhecia.  Tinha-as
visto na igreja; mas,  exceo daquilo, no tinha tido  contato  com  elas,
assim, dificilmente podia qualific-las de amigas. Mas o mero feito  de  ver
outras mulheres e saber que tinha o dia inteiro  de  cio  era  maravilhoso.
Deu-se conta de quo isolada tinha estado nas  ltimas  semanas  na  granja.
At esse momento, com o trabalho que tinha e os bate-papos com Frances,  no
havia se sentido sozinha. Mas agora era consciente da pouca gente que  tinha
visto e quo agradvel seria conversar tudo o que quisesse  durante  um  dia
inteiro.
      De repente sentiu certa inquietao. As mulheres com  as  quais  tinha
falado  na  igreja  a  tinham  tratado  com  simpatia;   mas,   depois   das
experincias com Sanderson e Aurica Johnson, no pde evitar perguntar-se  o
que as pessoas pensavam dela na verdade. Possivelmente na igreja se  sentiam
obrigadas a mostrar-se educadas, mas num ato social como  aquele,  talvez  a
evitassem  e  insultassem  como  a  senhorita  Johnson  fazia.  Talvez   no
quisessem relacionar-se com ela.
      Enquanto permanecia junto  ao  carro,  decidindo  que  atitude  tomar,
Ellen Case a viu e a saudou de longe.
      - Juliet! Vm por aqui. Ensinarei onde ter que deixar a comida.
      Sorrindo, Juliet se aproximou de Ellen. Enquanto se  dirigiam  para  a
casa, todas as mulheres a saudaram,  e  ela  respondeu  alegre.  Aos  poucos
estava conversando com todas enquanto ela e Ellen colocavam as montanhas  de
comida que todo mundo tinha levado para a longa jornada.
      Quando acabaram a tarefa no era questo de ficar sem fazer  nada.  As
mulheres tiraram uns cestos com pequenos quadrados  acolchoados  que  tinham
que unir para fazer uma colcha e, sentadas em grupos, comearam  a  costur-
los enquanto os meninos jogavam. Foram conversando, as lnguas movendo-se  
mesma velocidade que as prateadas agulhas que entravam e  saam  do  tecido.
Embora Juliet nunca tivesse feito uma colcha, era uma costureira  perita,  e
no teve dificuldade alguma em seguir o ritmo das demais.
      Fizeram uma pausa para servir o almoo nas longas  mesas  ao  lado  da
casa,  e  os  homens  deixaram  de  trabalhar  para   sentar-se   e   comer.
Posteriormente, depois de lavar os pratos, as  mulheres  seguiram  com  seus
trabalhos. As  janelas  estavam  abertas  e  uma  brisa  percorria  a  casa,
balanando suavemente as cortinas. As risadas e os gritos  dos  meninos  que
jogavam l fora entravam pelas janelas abertas, igual a  contnua  martelada
dos homens levantando o novo abrigo. Mais  tarde  jantaram,  utilizando  uma
vez mais as mesas longas. O abrigo aparecia na distncia, a  parte  exterior
quase terminada. Depois deitaram aos  menores  nas  camas  da  casa  ou  nos
colches  dos  carros.  As  mulheres  solteiras  e  as  casadas  sem  filhos
utilizaram esse tempo para trocarem de roupa no interior da  casa.  Ouviram-
se muitos  risinhos  e  bate-papo  diante  dos  espelhos  enquanto  elas  se
trocavam, colocando os singelos vestidos de festa.
      Juliet tinha levado um vestido branco  com  um  pescoo  de  casas  de
boto bordadas, pequenas mangas estufadas, e uma faixa  de  cetim  lils.  A
saia tinha babados tambm bordados e cada um deles estava  decorado  com  um
lao da mesma cor que a  faixa.  No  era  absolutamente  seu  vestido  mais
elegante ou  bonito.  De  fato,  tinha  muitos  anos;  j  no  o  punha,  e
considerava que era algo infantil. Transportava-o no ba  s  porque  era  o
mais apropriado para um dos pequenos papis  que  interpretava  na  pea  de
teatro. Tinha decidido que sua simplicidade se adequava  mais  a  uma  noite
como aquela que a classe de vestido que teria levado para ir  danar  ou  ao
teatro na cidade. Ao coloc-lo e olhar com cautela s demais,  viu  que  no
se equivocou. As outras mulheres tambm  levavam  vestidos  de  algodo,  em
geral decotados como deviam ser para uma festa  e  decorados  com  laos  de
cetim, renda e babados, mas bastante singelos comparados  com  a  roupa  que
usava Juliet.
      Esperou sua vez para olhar-se num  dos  espelhos.  Enquanto  aguardava
soltou o cabelo e o escovou a fundo.  Quando  por  fim  diante  do  espelho,
sentou-se numa cadeira baixa e  rapidamente  recolheu  o  cabelo  ao  estilo
Pompadour.  Outra  mulher  se  colocou  atrs  dela,  aproveitando  a  parte
superior do espelho. Juliet terminou e se olhou uma vez mais,  contente  com
o resultado.
      Juliet saiu ao alpendre e esperou com algumas  das  mulheres,  receosa
de cruzar o ptio at o abrigo, que durante  o  dia  tinha  sido  territrio
masculino. Enquanto as mulheres se trocavam na casa, os homens tinham ido  
parte traseira do abrigo para lavar-se na cisterna sob o  moinho  e  colocar
seus trajes de festa.
       medida que o grupo de mulheres aumentava no alpendre e  chegavam  as
mulheres mais velhas e as casadas com filhos, as lamparinas  do  abrigo,  os
sons dos violinos, as profundas e suaves risadas dos homens,  tudo  isso  se
converteu irresistvel e as atraiu para l. Da  mesma  forma,  mais  e  mais
homens jovens tinham sado do abrigo e estavam  ali  de  p,  conversando  e
fumando cachimbos ou cigarros recm  atados,  apoiados  contra  a  parede  e
olhando com freqncia para a casa. Por fim, a  senhora  Metz  ps  tudo  em
movimento chamando a seus  filhos  para  que  recolhessem  a  mesa  para  os
refrescos. Vrios homens  se  ofereceram  para  ajudar,  e  os  dois  grupos
comearam a juntar-se e entrar no abrigo.
      No interior, o abrigo aparecia  nu  e  novo,  ainda  com  o  aroma  de
madeira. Os palheiros no tinham sido construdos ainda, de modo que  ficava
todo o espao vazio. O solo estava coberto de  palha  para  impedir  que  se
produzisse poeira  ao  danar.  Pequenas  lamparinas  penduravam-se  a  cada
extremo e em alguns dos pilares, mas no eram suficientes  para  dissipar  a
cavernosa  escurido.  Os  cantos  estavam  na  sombra,  e  o  teto   ficava
totalmente escuro. A luz era clida e amarelada, dando um toque dourado  aos
rostos dos espectadores.
      Juliet olhou a seu redor, procurando Amos,  embora  tentasse  que  ele
no percebesse. Quase imediatamente viu Ethan, junto a um  grupo  de  outros
meninos de sua idade,  rindo  em  voz  alta  e  fazendo  gestos,  cheios  da
habitual energia dos jovens. Viu que Ethan tambm deixava com freqncia  de
prestar ateno a seus amigos para  olhar  a  seu  redor,  e  Juliet  estava
segura de que procurava Ellie Sanderson.
      Ali estava o pai de Ellie. Juliet tinha visto John quase no momento de
entrar  no  abrigo,  mas  conseguiu  no  olh-lo  diretamente.  No  queria
encontrar-se com ele de frente e ver-se obrigada a saud-lo  ou  a  ter  que
conversar. Por fim viu Amos. Estava de p, apoiado contra a parede  junto  a
Mordecai Hamilton, um dos  paroquianos.  Amos  tinha  as  mos  metidas  nos
bolsos fazendo que seus braos deixassem a mostra a branca extenso  de  sua
camisa. Pensou de novo em quo elegante ele era.
      Os violinos estavam afinados j; Henry Armstrong se uniu a eles com  a
gaita e os trs homens comearam a tocar. Quase imediatamente vrios  casais
saram  pista e comearam a danar diante dos msicos. Mais e  mais  casais
se uniram a eles na pista. Ethan se aproximou de Juliet e  a  convidou  para
danar. Juliet pensou que possivelmente tentava animar-se  para  tirar  para
danar a Ellie e comeava por uma aposta segura.  Mas  alegrou-se  em  estar
com ele; tambm assim era mais fcil unir-se ao grupo.
      Depois de Ethan, vrios homens a  tiraram  para  danar.  Alguns  eram
jovens, como Ethan, um ou dois tinham o cabelo  branco;  ela  inclusive  no
sabia como se chamavam dois deles. Mas isso carecia de importncia. Nem  ela
nem  eles  danavam  para  cortejar.  Limitavam-se  a  desfrutar  do  baile,
encantados diante da oportunidade que  tinham  de  livrar-se  e  divertir-se
depois de um duro dia de trabalho (de semanas de trabalho!).
      Enquanto danava, Juliet no perdeu de  vista  a  Amos.  No  danava.
Conversou um pouco, foi  mesa para procurar um copo de ponche,  e  retornou
junto  parede, detendo-se pelo caminho para saudar um par de pessoas.
      Ethan por fim se atreveu a aproximar-se de Ellie,  e  os  dois  tinham
danado um par de  vezes.  Juliet  viu  o  pai  da  jovenzinha  durante  uma
daquelas valsas; tinha os braos cruzados e olhava com cara feia aos  jovens
que danavam na pista. Juliet suspirou em seu  interior.  Parecia  que  John
Sanderson ia ficar ressentido com todos os membros da  famlia  Morgan  pelo
que tinha ocorrido  entre  os  dois.  Mais  tarde,  seus  temores  se  viram
confirmados quando, ao olhar ao outro lado da sala,  viu  Sanderson  falando
com Amos. Por sorte havia tanto rudo que suas vozes no se  ouviam,  mas  o
rosto de Sanderson estava avermelhado, e Amos o olhava com frieza.  Enquanto
Juliet olhava, observou  um  repentino  brilho  de  ira  no  olhar  de  Amos
enquanto  suas  mos  se  fechavam  num  punho.  Disse  algo  a   Sanderson,
aproximando-se muito dele. Um minuto mais, suspeitou Juliet, e comeariam  a
brigar.
      Rapidamente se aproximou de onde estavam, rodeando a pista  de  baile.
No sabia com exatido o que ia fazer para  impedir  a  discusso,  mas  no
podia deixar as coisas assim. Se os dois homens chegassem a  brigar,  poriam
fim a todas as esperanas de Ethan de cortejar a Ellie.
      - Amos! - disse quando esteve o bastante perto para que a ouvisse.  Os
dois homens se voltaram, surpreendidos. Amos franziu o sobrecenho  quando  a
viu. Rapidamente, e antes que ele tivesse tempo de lhe dizer que se  metesse
em seus prprios assuntos, Juliet esboou um doce sorriso.
      - Acredito que me prometeu uma dana, verdade?
      Amos apertou os  lbios,  e  por  um  momento  Juliet  temeu  que  ele
gritasse que no era verdade. Mas ento se aproximou dela e  lhe  disse  com
voz tensa:
      - Sim. Claro.
      Agarrou-a pelo brao com enorme fora e a  conduziu  at  a  pista  de
baile.
      - Amos! - sussurrou Juliet. - Est me machucando!
      - O que? - Ele a olhou. - Oh, sinto muito. -  Soltou-lhe  o  brao.  -
No era minha inteno. Estava pensando em outra coisa.
      - Isso  evidente.
      Quando chegaram  pista comeava uma dana escocesa e se  colocaram  
fila dos casais, aplaudindo com outros.  A  dana  era  rpida,  e  os  dois
respiravam com dificuldade quando terminou. Mas tinha servido  para  mitigar
a ira de Amos, e a feroz mirada de seus olhos no estava j  neles.  Deteve-
se a beira da pista, sustentando ainda a mo de Juliet.
      - Obrigado - disse. - Acredito que  estava  a  ponto  de  cometer  uma
grave gafe social.
      Juliet sorriu. Era s uma impresso sua ou Amos comeava a brincar  um
pouco mais?
      - De nada. Acreditei intuir  que  algo  terrvel  estava  a  ponto  de
acontecer.
      Ouviram-se as notas de uma valsa. Amos  voltou  a  olhar  a  pista  de
baile.
      - Queria...? Tentamos de novo, s pelo prazer de danar?
      Juliet sorriu.
      - Eu adoraria.
      Aproximaram-se mais aos  msicos,  e  Amos  a  segurou  pela  cintura.
Comearam a dar voltas pela pista com os outros casais, mas Juliet via s  a
Amos. Levantou o olhar para ele,  e  j  no  pde  afastar  a  vista.  Amos
parecia sentir o mesmo que ela. Abraou-a com mais fora. Os  outros  casais
davam voltas a seu redor, mas  no  violaram  seu  territrio,  reduzido  de
repente ao espao ocupado por  ambos.  Juliet  tinha  a  sensao  de  estar
encantada, como se um vu mgico de fumaa os cobrisse por completo.
      Continuaram danando  e  girando,  Juliet  no  soube  durante  quanto
tempo. Parecia que durava uma eternidade, a msica impregnando  o  ambiente,
interminvel, e os  braos  de  Amos  abraando-a,  o  calor  de  seu  corpo
passando ao dele. Entretanto, quando a msica cessou, deu-lhe a sensao  de
que o baile tinha transcorrido com muita rapidez, como se  tivesse  comeado
agora. Amos a soltou com lentido. Juliet  sentiu  frio  ao  estar  afastada
dele, e com dificuldade reprimiu um ligeiro tremor. De repente  voltou  para
a realidade. Eram Amos Morgan e sua governanta, e estavam entre  uma  grande
multido de pessoas.
      Ela afastou o olhar e suas bochechas se avermelharam. No  pde  olhar
diretamente ao rosto, temerosa de que sua expresso revelasse o muito que  a
dana a tinha afetado.
      - Eu... bom, obrigada pela dana.
      - Obrigado. - A voz de Amos era baixa e trmula. Juliet  se  perguntou
se  tinha  sentido  a  mesma  estranha  sensao  de  isolamento,  a   mesma
intensidade de emoes, como se a vida transcorresse de  repente  por  outro
atalho.
       Amos  retrocedeu  um  passo.  Juliet  se  perguntou   se   todos   os
espectadores do baile estavam olhando para eles. Teria algum se dado  conta
do quo absortos tinham estado um no outro? No se atrevia a  olhar  ao  seu
redor temerosa do que poderia descobrir nos rostos de outros.
      -  hora de partir, no acha? -  disse  Amos  de  repente,  depois  de
clarear a garganta. - Estou cansado.
      Juliet assentiu.
      - Sim. Tambm eu.
      De fato, no era certo. Tinha a sensao de que a vida surgia  em  seu
interior, como  se  pudesse  conseguir  algo.  Mas  no  queria  ficar  ali.
Desejava estar a ss, sentir  as  novas  e  maravilhosas  sensaes  que  se
apoderaram dela, repassar a mescla de emoes em seu meu interior.
      - Procurarei Ethan, e partiremos. -  Amos  se  afastou,  e  Juliet  se
dirigiu em busca do senhor e a senhora Metz para despedir-se  deles,  segura
de que Amos nunca pensaria em fazer tal coisa.
      Despediu-se deles; demoraram muito mais do que  tinham  desejado.  Por
fim pde liberar-se das efusivas amostras de agradecimento da  senhora  Metz
e saiu do celeiro. Cruzou o ptio at o carro dos Morgan, onde  encontrou  a
Amos enganchando as mulas.
      - Onde est Ethan? - perguntou Juliet, olhando a seu redor.
      Amos encolheu os ombros.
      - Vamos, suba. No vem conosco. Queria ficar, e  Mo  Cunninghan  disse
que o acompanharia a casa.
      - Oh. - Juliet pensou que retornava sozinha com Amos,  sentada  a  seu
lado no carro, e a excitao se apoderou dela.
      Subiu ao carro, pondo um p na grande roda e  apoiando-se  no  pequeno
estribo. Sentou-se junto a Amos e cruzou as mos sobre o regao  com  grande
compostura. Aquilo foi muito mais difcil para Juliet do que jamais  tivesse
imaginado. Desejava olhar para Amos,  estudar  seus  traos,  sorrir  e  ser
correspondida com outro sorriso.
      O caminho de volta era longo. Amos nunca falava muito,  e  essa  noite
tampouco ocorria nada que dizer a Juliet. Era muito consciente  da  presena
fsica de Amos; a fora musculosa de seus quadris; os longos e  geis  dedos
que sustentavam as rdeas; seu pronunciado perfil,  plido    luz  da  lua.
Juliet respirava de maneira um pouco entrecortada, e tinha os nervos   flor
de pele. Todos os seus sentidos se  haviam  aguado.  Percebia  o  aroma  da
slvia que crescia nas beiradas do caminho e ouvia  o  zumbido  dos  insetos
noturnos. Sentia a brisa como uma  carcia  roar  cada  centmetro  de  seu
corpo, assim como certo temor em seu interior, um pouco atrevido,  excitante
e nervoso. Juliet cruzou com fora as mos sobre o regao e  se  atreveu  em
dar um ligeiro olhar a Amos.  O que estaria pensando?
      Chegaram   granja,  e  Amos  se  deteve  diante  do  celeiro.  Desceu
rapidamente do carro e a rodeou para chegar ao lado de Juliet antes que  ela
descesse; mas Juliet tentou, apoiando cegamente o  p  sobre  o  estribo  de
madeira, embora Amos a segurasse pela cintura, e a ajudou a descer.  Deixou-
a no cho e Juliet sorriu agradecendo. Amos a olhou, sua  vista  percorrendo
cada um de seus traos, iluminados pela luz da lua. Suas  mos  permaneceram
na cintura de Juliet, os dedos com uma ligeira presso  sobre  a  carne.  Do
mais profundo de si saiu um profundo suspiro.
      Inconscientemente, Juliet deu um curto passo para ele. Amos  percorreu
o espao que os separava, aproximando-a de si. Ela sentiu a presso  de  seu
duro corpo, os braos que a rodeavam, transmitindo calor e fora.  Amos  ps
a mo direita na nuca de  Juliet,  os  dedos  estendidos,  e  sustentou  sua
cabea com firmeza, como se ela fosse separar-se dele.
      Mas Juliet no tinha  inteno  de  mover-se.  Queria  que  ocorresse,
queria  inteirar-se.  Esperou,  os  olhos  abertos  como  pratos,  suaves  e
brilhantes, observando o rosto que se aproximava  mais  e  mais.  Posou  seu
olhar  nos  lbios  dele,  firmes  e  cheios,  algo  entreabertos   enquanto
respirava. Sentiu o dbil tremor da mo de Amos, o  suor  no  lugar  em  que
seus duros braos lhe cobriam as  costas,  a  inquebrvel  extenso  de  seu
abdmen  sobre  o  que  ficavam  pressionados  seus  seios.  O  calor   dele
bruxuleava ao seu redor: seu rosto era tudo o que seus olhos  viam.  Sentiu-
se completamente rodeada por ele, e essa sensao  avivou  nela  o  selvagem
fogo que surgia em seu interior. Sabia que queria que os braos  de  Amos  a
abraassem com mais fora, que desejava pressionar seu corpo contra  o  dele
at que no fosse possvel distinguir onde acabava o seu e comeava o dela.
      A fora de seu  desejo  a  surpreendeu.  O  calor  de  seu  corpo  era
abrasador e insistente. Juliet se imaginava esfregando seu  corpo  contra  o
de Amos, e sentir a resposta do homem.
      Ele hesitou, a boca a curta distncia da sua, e Juliet quis gritar  de
frustrao. Ento, algo  pareceu  romper-se  dentro  dele,  Amos  emitiu  um
gemido sufocado e sua boca caiu com fora sobre a de Juliet. Agarrava-lhe  o
cabelo, esticando um pouco, mas Juliet nem se deu conta  do  pequeno  brilho
de dor. Amos pressionou seus lbios contra  os  dela,  separando-os.  Juliet
ficou nas pontas dos ps, a ansiosa  boca  respondeu  aos  beijos  de  Amos.
Elevou os braos e o abraou, apertando-se com fora contra  ele.  Era  como
se tivessem acendido fogo; cada  centmetro  de  seu  corpo  ardia  como  se
estivesse em chamas. Desejava sabore-lo, toc-lo, deixar que a  consumisse.
Nunca na vida tinha experimentado  nada  to  apaixonado,  to  forte.  Amos
deslizou a lngua entre seus lbios, surpreendendo-a, mas  no  se  afastou.
Desfrutou daquela nova e excitante sensao,  e,  depois  de  uns  segundos,
utilizou sua prpria lngua para tocar a de Amos.
      Ele gemeu, e se separou dela de repente.
      - Deus santo, Juliet! - voltou-se, arrepiando os  cabelos.  Falava  em
voz baixa e com brutalidade. - Entra em casa. Por favor! Vai!
      Juliet duvidou um instante, e a seguir ps-se a correr para a casa.
Captulo 11.

      Juliet subiu  para  comprovar  o  estado  de  Frances.  Alegrou-se  de
encontr-la adormecida, j que seus sentimentos eram to confusos que  havia
custado trabalho manter no importava que tipo de conversao. Ento  desceu
para seu dormitrio e se meteu diretamente  na  cama,  mas  as  emoes  que
invadiam seu corpo impediram que conciliasse  o  sono  transcorridas  vrias
horas.
      No dia seguinte despertou com a  sensao  de  ter  descansado  pouco.
Sentia-se excitada, ansiosa, assustada; uma estranha mescla de  sentimentos.
No sabia como se comportar diante de  Amos  depois  do  ocorrido  na  noite
anterior. Por outra parte, desejava com toda sua alma v-lo.
      Dirigiu-se depressa  cozinha para preparar o caf da manh,  sentindo
no estmago uma revoada de mariposas. Quando abriu a porta do ptio, deu  um
pulo e se voltou, s para comprovar que era Ethan quem entrava.  Parecia  um
pouco cansado, mas seus lbios se abriram  num  enorme  sorriso  quando  viu
Juliet.
      - Bom dia! - exclamou feliz.
      Na segunda vez que a porta se abriu, Juliet soube que por fora  tinha
que ser Amos. Estava mais preparada nessa ocasio, e no deu  um  pulo,  mas
sim se voltou com deliberada lentido. Ele a estava observando,  mas  quando
seus olhares se cruzaram, ele afastou a vista. Saudando vagamente  todos  em
geral, Amos foi para o lavabo.
      Juliet tirou o caf da manh e o serviu, enquanto o  comportamento  de
Amos dava voltas em sua mente. Ocorreu-lhe que talvez  quisesse  esquecer  o
beijo compartilhado na noite passada. Perguntou-se se  aquilo  seria  fcil;
para ela era impossvel.
      Juliet tinha sido sempre uma criatura muito emotiva, e nesses momentos
era difcil dar prioridade  lgica e ao decoro.  Evidentemente,  para  Amos
no era to complicado. Doeu-lhe o aparente esforo de  ignor-la.  Desejava
que no tivesse acontecido nada na noite passada? Aquela idia  lhe  doeu  o
corao.
      Amos continuou evitando-a  todo  o  dia;  de  fato,  durante  os  dias
seguintes, at que ao final Juliet desistiu de interessar-se  pela  verdade.
Com severidade fez todo o possvel por reprimir suas emoes. Afinal, o  que
importava o que ela sentia por Amos  quando  era  to  bvio  que  ele  nada
sentia por ela?
      Teria ficado surpresa ao saber  que  para  Amos  no  era  nada  fcil
afastar-se dela. O desejo que sentia por Juliet ia aumentando cada  dia  que
ela passava na casa, e depois da paixo que  se  fez  realidade  entre  eles
naquele beijo, o desejo e a frustrao eram quase intolerveis. No  cessava
de dar voltas na cama de noite, incapaz de  conciliar  o  sono,  atormentado
por imagens de Juliet em sua cama, o corpo branco e  suave  sob  suas  mos.
Desejava-a com tanto desespero que a nica forma que tinha de no  agarr-la
e beij-la era mantendo-se mais afastado  possvel  dela.  Se  falava  ou  a
olhava durante um momento, o mesmo feroz desejo se apoderava  dele  at  tal
ponto que no sabia se  seria  capaz  de  controlar-se.  Mas  descobriu  que
sentia falta de falar com ela, sentia falta de v-la, sentia falta de  ouvir
sua risada e suas canes.  A  nica  soluo  era  agentar  como  pudesse,
mantendo-se afastado de Juliet todo o possvel, saboreando  os  momentos  em
que podia olh-la, estar perto, at que o desejo se fazia  to  irresistvel
que devia partir. De maneira nenhuma acabaria bem para  ele,  sabia.  Estava
preso e no havia nada que pudesse fazer para evitar.
      Transcorreram duas semanas, e nesse intervalo de tempo chegou o vero.
Poderia dizer-se que quase de  um  dia  para  outro.  Os  dias  passaram  de
temperados a quentes, embora as noites fossem frescas. Com o calor, a  sade
de Frances foi deteriorando-se mais depressa. A dor a atacava sem  descanso.
Estava to fraca que necessitava a ajuda  de  Juliet  para  qualquer  coisa,
inclusive levantar-se na cama ou comer ou usar o urinol. Junto  cama  tinha
uma campainha para chamar Juliet em caso de necessidade, mas a  Juliet  dava
medo que, em ocasies, estivesse muito fraca para chegar a ela, de modo  que
subia para v-la mais ou menos  a  cada  hora.  Apesar  de  sua  debilidade,
Frances lhe dava instrues a respeito de como preparar as  conservas  e  as
inumerveis tarefas que chegariam com a colheita,  a  fronte  enrugada  pela
preocupao, como se soubesse que ela no estaria  ali  quando  a  temporada
chegasse.
      Juliet se viu obrigada a abandonar algumas das tarefas  da  casa  para
dedicar mais tempo a Frances. Tambm se ocupava de tirar as ervas  ruins  da
horta, coisa que tinham dado  a  entender  que  era  a  responsabilidade  da
mulher da casa. Os homens se dedicavam a colher  o  milho  e  os  campos  de
trigo, e ficava pouco tempo para perder com as verduras.
      - Como se as verduras no fossem importantes - disse-lhe  Frances  com
um dbil sorriso. - Pergunto-me o que pensariam  se  no  tivessem  verduras
para comer durante todo o inverno.
      Juliet sorriu.
      - Imagino o que pensariam.
      Uma noite depois de lavar os pratos do jantar, Juliet estava na horta,
colhendo. Tinha descoberto que era mais agradvel fazer as  tarefas  pesadas
de noite, quando refrescava. A horta estava perto do galinheiro,  e  de  vez
em quando, enquanto  trabalhava,  Juliet  olhava  aos  pintinhos  saltitando
atrs de suas mes, as cabeas subindo e baixando ao  cho.  Sorriu  ao  v-
los.
      Juliet percorria a horta, batendo a enxada e extraindo  as  ervas  que
tinham aparecido (da  noite  para  o  dia,  era  o  que  parecia)  entre  os
ordenados sulcos de feijes, ervilhas, abobrinhas, e tomates.   medida  que
sumia o sol e refrescava a noite, as sombras foram aumentando.
      De repente, um terrvel chiado ps fim a sua tranqilidade do momento.
Juliet deu um salto e se voltou, o corao  pulsando  com  fora.  Havia  um
grande alvoroo entre as galinhas, e  delas  procedia  a  uma  cacofonia  de
chiados e cacarejos e um forte batido de asas. As galinhas  e  os  pintinhos
corriam espantados em todas as direes. Juliet demorou uns segundos em dar-
se conta do que ocorria.
      Dois dos pintinhos jaziam  imveis;  outras  pequenas  bolas  amarelas
corriam daqui para l  aterrorizadas  e  confusas.  A  galinha  me  saltava
amalucada no centro, atacando com o bico e rasgando  com  as  unhas.  Juliet
soube imediatamente do que se defendia  a  galinha:  uma  serpente  larga  e
marrom, a boca bem aberta e as presas afundadas no flanco do animal.
      Uma serpente cascavel! Uma serpente cascavel tinha matado a  dois  dos
pintinhos e agora travava uma terrvel  batalha  com  a  me.  Tampouco  ela
demoraria a morrer; suas afiadas unhas  no  poderiam  contra  o  veneno  da
serpente.
      A ira se apoderou de Juliet. Os preciosos pintinhos!  Eram  seus!  Ela
tinha alimentado, mimado e  acariciado  aquelas  pequenas  bolas  de  plumas
amarelas com suas mos. Todos os frangos eram seus. Dava-lhes de comer e  de
beber; recolhia os ovos. E nenhuma serpente mataria a seus frangos.
      No se deteve para pensar, agarrou o enxado  com  fora  e  correu  
cena da agresso. Quando chegou ao lugar da briga,  levantou  a  enxada  por
cima da cabea e a deixou cair com todas suas foras,  partindo  a  serpente
em dois. Ambos os extremos se retorceram. A galinha  se  desabou,  e  Juliet
golpeou uma e outra vez com a enxada, separando a viciosa cabea  triangular
do resto do corpo. A galinha estremeceu e ficou  paralisada.  As  partes  da
serpente deixaram de retorcer-se.
      A garganta de Juliet se encheu de blis. Descansou o enxado no cho e
se apoiou nele, tragando saliva para resistir ao negrume que  de  repente  a
envolvia. Pequenas estrelas apareceram diante de sua vista, e  seu  estmago
deu um salto.
      - Juliet! - Amos estava gritando, a voz forte e tensa enquanto cruzava
o ptio. - Que demnios...!  -  As  palavras  se  atravessaram  na  garganta
quando viu as partes da serpente e os frangos  mortos  diante  de  Juliet  A
grandes passos chegou at ela, e a agarrou pela cintura no  momento  em  que
estava a ponto de desabar-se.
      - Est bem? Mordeu-a? - Agarrou a Juliet nos braos e  correu  para  a
casa.
      - No - sussurrou Juliet.  A  debilidade  ia  desaparecendo,  mas  ela
comeou a tremer, morta de frio e, de  repente,  aferrou-se  ao  pescoo  de
Amos, agradecida de achar-se entre seus fortes braos.
      - Est segura? - Chegou at os degraus de atrs e se sentou, embalando-
a em seu regao, logo levantou suas saias para ver  se  tinha  alguma  marca
nas pernas.
      - Sim, de  verdade.  -  Juliet  se  apoiou  contra  seu  peito,  muito
assustada para sequer protestar pela indecente posio da saia e da angua.
      Amos deslizou a mo por  seus  braos,  olhando  atentamente  os  dois
lados.
      - Deus Santo, Juliet! Quando vi o que estava fazendo! -  Negou  com  a
cabea. - Est louca? No que estava pensando?
      - No podia deixar que matasse a meus pintinhos.
      - Ao diabo com seus pintinhos! Poderia ter matado  voc!  No  ocorreu
pensar nisso?
      - No - confessou Juliet. - No pensei. S  o  que  passou  por  minha
cabea foi que devia impedir que os matasse.  -  Os  olhos  se  encheram  de
lgrimas. - Esses pobres pintinhos! Oh, Amos! Matou a dois.  Viu-os?  Eu  os
cuidei. So meus... meus bichinhos. - As lgrimas alagaram  suas  bochechas.
- Os quero tanto.
      Amos a olhou, e sua expresso de aborrecimento se suavizou.
      - Sei que os quer. - Acariciou-lhe a bochecha. -    muito  suave.  Eu
disse isso muitas vezes. Numa granja no consideramos animais  domsticos  a
uns pintinhos.
      - Possivelmente no. Mas essa no  razo para deixar  que  os  matem.
Voc no correria para matar  serpente?
      - Claro que sim. E para isso deveria ter me chamado e deixar que eu me
ocupasse do assunto.
      - No pensei nisso. Alm disso, no havia tempo a perder. Pois  quando
tivesse chegado, teria acabado com  a  vida  de  outra  galinha  e  de  seus
pintinhos.
      - Melhor eles que  voc.  Uma  serpente  cascavel  s  pode  comer  um
determinado nmero de pintinhos.
      - Amos! Como pode ser to frio? -  Juliet  se  separou  dele,  olhando
irritada.
      Ele sorriu e encolheu os ombros.
      -  meu encanto natural. No sabia?
      Juliet fez uma careta, e ele ps-se a rir.  Sua  risada  se  converteu
numa verdadeira gargalhada.
      - Cus! Se tivesse uma foto de voc a fora! -  Apoiou  a  cabea  nas
mos e seguiu rindo  ao  pensar.  -  Uma  menina  da  cidade,  temerosa  das
galinhas quando chegou, nem sequer se atrevia a aproximar-se de uma vaca...
      - Isso no  certo! Tinha medo desse seu javali!
      - E ali estava cortando em partes a essa  serpente  cascavel  com  uma
enxada. - ps-se a rir com tanta fora  que  lhe  saltaram  as  lgrimas,  e
Juliet no pde evitar se unir a ele, os nervos  e  o  medo  convertidos  em
grandes gargalhadas. - Me  recorde  de  no  aborrec-la  nunca,  senhorita.
Realmente sabe utilizar bem a enxada!
      - Ser melhor que o recorde a  prxima  vez  que  comear  a  discutir
comigo - brincou Juliet.
      E ento, surpreendendo aos dois, Amos a abraou com fora durante  uns
instantes, e deixou cair a cabea para a de Juliet,  afundando  o  rosto  em
seu cabelo. Ela sentiu o calor de  seu  flego  na  rosto,  e  a  fora  dos
msculos que a sustentavam. Pensou no beijo depois do baile;  e,  apesar  do
susto que acabava de experimentar, sentiu de novo o mesmo desejo fsico  que
aquela noite. O calor surgiu de seu abdmen, e um estremecimento  de  prazer
lhe percorreu o corpo.
      Por fim os braos de Amos  se  relaxaram  e  a  soltou,  levantando  a
cabea. A contra gosto, Juliet ficou de p e saiu. Mas aos poucos passos  se
voltou para olhar de novo a Amos.
      Ele tambm a olhava, seus negros olhos atentos, e uma estranha,  suave
e quase ofegante expresso no rosto. Parecia  a  ponto  de  dizer  algo,  de
fazer algo, e Juliet esperou tensa, mas ele  no  se  moveu  nem  pronunciou
palavra alguma. Juliet gostaria de lanar-se outra vez sobre  seu  regao  e
abra-lo para sempre. Mas, claro, ela no podia fazer isso, e  muito  menos
sem receber um sinal dele. Em vez  disso,  deu-lhe   as  costas  e  retornou
tremendo para casa.
      Ethan entrou na cozinha batendo a porta. Juliet estava de p  cortando
batatas para o jantar, e  se  voltou  surpresa  ao  ouvir  o  estrondo.  Era
domingo, e Ethan tinha ido a  casa  dos  Sanderson  para  visitar  Ellie,  a
primeira vez depois do baile. Antes de partir estava  contente  e  excitado.
Juliet  no  esperava  que  voltasse  desse  modo.  Sua  expresso  era   de
verdadeira fria, e seu jovem e magro corpo estava tenso de ira.
      - Ethan? O que aconteceu?
      Ele a olhou. Apertou os lbios, e Juliet pensou que no ia  responder;
mas ento, como se no pudesse agentar-se, as palavras saram de  sua  boca
como uma exploso.
      - Disse-me que no voltasse! Disse-me que me proibia ver a Ellie!
      Juliet o olhou fixamente.
      - O que? Quem disse isso? O senhor Sanderson?
      - Quem se no ele? - respondeu Ethan.
      - Mas por qu? - No podia ser que Sanderson  estivesse  castigando  o
menino pelo que tinha ocorrido entre Sanderson e ela. Seria muito cruel!
      - Disse... Que no estou  altura  dela;  que  no  quer  que  ela  se
afeioe a mim. - Ethan estendeu os braos num gesto de  frustrao.  -  Est
me afastando porque sabe que agrado a ela!
      - Mas o que tem de mau nisso? -  perguntou  Juliet,  razoavelmente.  -
Sou consciente de que Ellie  jovem, mas voc tambm o  .  No    como  se
pensassem casar depressa e correndo s porque vocs se  gostam.  Tm  muitos
anos para decidir que sentimentos h entre vocs...
      - No sei. Disse-lhe que no  somos  noivos  formais  ainda,  que  no
tnhamos inteno de nos casar correndo. Mas me respondeu  ser  precisamente
o que o preocupava, que ele j sabia que minha idia no era o matrimnio.
      - Como! -  A  ira  se  apoderou  de  Juliet.  John  Sanderson  era  um
hipcrita! Deixou cair a batata e a faca que sustentava nas  mos  e  correu
para Ethan. - Como pode dizer uma coisa assim? - Agarrou-lhe  o  brao  e  o
olhou diretamente aos olhos, nos quais se transluzia uma  mescla  de  dor  e
fria. -  uma das pessoas mais simpticas  que  conheo.  Sempre  o  vi  se
comportar como um cavalheiro.
      - Disse-lhe  que  jamais  me  ocorreria  fazer  mal  a  Ellie.  Ps-me
furioso. Tive vontade de pegar ao velho  imbecil.  -  Seu  tom  de  voz  era
brusco e no derramou lgrima alguma. - Mas no o fiz. Por que pensar  tudo
isso de mim?
      Juliet fez uma careta. Ela conhecia a  razo.  Era  exatamente  o  que
faria Sanderson mesmo; estava julgando Ethan com a  medida  de  sua  prpria
conduta.
      -  um imbecil.
      - Disse-me que eu a corromperia.
      - Corromperia! Que cara de pau tem esse homem!
      - Por que disse uma coisa assim? Por que pensou que o  fato  de  estar
comigo a corromperia? Quero dizer,  eu  sei  que...  -  Naquele  momento  se
ruborizou. - Bom, eu sinto coisas por  Ellie  que  no  deveria.  Mas  nunca
faria nenhum mal a ela.
      -  obvio que no. - Juliet suspirou. Doa-lhe ver Ethan to triste. -
Sinto muito. Temo... bom, acredito que  minha  culpa.  O  senhor  Sanderson
est zangado comigo e com seu pai, e est fazendo voc pagar o pato.
      - Zangado com voc? - Ethan franziu o cenho  confuso,  -  por  que  ia
estar zangado com voc?
      Amos apareceu naquele momento na soleira do corredor.
      - Que demnios acontece aqui? Ouvi-o do salo, Ethan.
      O moo olhou a seu pai de lado.
      - Sinto muito, pai - murmurou.
      - Est bem,  algum  quer  me  contar  o  que  ocorre?  -  Amos  olhou
contrariado.
      Ethan balanou os ombros. Olhou para o cho.
      - O senhor Sanderson proibiu que v visitar Ellie - respondeu  em  voz
muito baixa.
      - Oh. - Uma estranha expresso apareceu no rosto de Amos.  Juliet,  ao
olhar, pensou que se assemelhava muito ao medo,  mas  aquilo  era  ridculo,
sabia, de modo que o descartou. - Entendo. O que... O que ele disse?
      - Nada, salvo que no quer que veja mais a sua filha. Parece  que  no
sou o bastante bom para ela.
      - Espero que no tenha acreditado nesse imbecil.
      - No sei. Mas no o entendo. Pensei que gostava de mim.
      Talvez a estatura de Ethan era de um homem, mas aquela mirada  de  dor
era a de um menino.
      - Imagino que sim o agrada.  A  quem  odeia    a  mim  -  disse  Amos
tranqilamente.
      - A ti? Cada vez o entendo menos. Primeiro Juliet  diz  que  com  quem
est zangado o senhor Sanderson   com ela, e  agora  voc  assegura  que  
contigo.
      - Talvez um pouco com os dois - concedeu Amos. - Mas mais  comigo  que
com Juliet. Eu o pus em seu lugar diante dela. Insultei-o. Isso  o que  no
pode perdoar.
      - Colocou-o em seu lugar? Por qu? Quer dizer que brigou  com  ele?  -
Ethan olhou fixamente a seu pai, aniquilado. - E o que tinha que ver  Juliet
com tudo isso? De repente, a compreenso iluminou seu rosto,  e  olhou  para
Juliet.
      - Quer dizer que...  que brigaram por voc ?
      Juliet se ruborizou.
      - No! No brigaram por mim! S  que, bom, o senhor  Sanderson  e  eu
discutimos de forma pouco amistosa faz umas semanas.
      Amos deu um bufado.
      - Isso sim que   uma  indireta.  Tinhas  marcas  nos  pulsos  no  dia
seguinte; vi-os.
      Juliet lhe dirigiu um olhar tranqilizador.
      - No  necessrio que exageremos as coisas. O senhor Sanderson me fez
umas proposies indecentes, e quando eu disse que  tinha  me  julgado  mal,
zangou-se um pouco.
      - Agarrou-a pelo brao - acrescentou Amos ampliando os detalhes,  -  e
no queria solt-la.
      - Fez mal a voc? - Ethan estava atnito. - Por que no me disse isso?
      - No me pareceu necessrio; alm disso, eu no queria criar problemas
entre voc e o pai de Ellie. Seu pai me ajudou, digamo-lo assim, a  resolver
a situao, e se acabou. No vi a necessidade  de  mencionar  isso.  Todo  o
assunto foi um pouco embaraoso, e no queria falar mais. Nunca  pensei  que
seria to mesquinho para querer vingar-se e utilizar voc para isso.
      Ethan se voltou para seu pai, com um sorriso de satisfao no rosto.
      - Expulsou-o a patadas da granja, verdade?
      - Disse-lhe que devia partir. Imagino que se sentiu  humilhado  diante
da mulher que... que desejava.  evidente que quer vingar-se de mim.
      - Esse filho da puta! - falou Ethan.
      - Sim. - Amos nem sequer reprovou a seu filho as palavras  utilizadas.
- Sinto muito, Ethan, mas no tinha outra opo.
      - Claro que no. - Os olhos de Ethan cintilavam de ira. - Mas como tem
a cara de pau de me acusar de corromper a sua filha, quando  ele  quem  vai
por a fazendo propostas indecentes s mulheres?
      Amos negou com a cabea.
      - No sei. Mas assim  John Sanderson. Sempre o foi.  J  no  gostava
dele   quando amos juntos ao colgio.
      - No  justo!
      - No, absolutamente - assentiu Amos em voz baixa. - Mas no  h  nada
que possa fazer, filho. Ellie  sua filha, e tem direito de ditar as  normas
no que se refere a seus pretendentes.
      Ethan olhou angustiado a seu pai, e logo se voltou de costas.
      - Sim. Suponho que sim. Mas eu gostaria de dizer o que penso dele.
      Juliet ficou surpresa em ver a mesma expresso de pnico no  rosto  de
Amos.
      - Eu sei. E o que conseguiria com isso?
      - Certamente nada. Mas me sentiria muito melhor.
      - Possivelmente se tranqilize com o tempo - adicionou Juliet.  Intuiu
que era importante para Amos que Ethan no voltasse a falar  com  Sanderson.
No estava segura de que razo teria, mas  a  expresso  no  rosto  de  Amos
quando Ethan falava disso deixava bem s claras que no  era  algo  que  ele
quisesse que ocorresse.
      - Com o tempo, Sanderson se esquecer de quo zangado  estava  comigo.
Ento pode ver Ellie. Mas se for para sua casa agora e brigar com  ele,  vai
dizer o imbecil que voc  e com toda segurana nunca o deixar  ir  visit-
la.
      Ethan cedeu.
      - Suponho que tem razo. - Suspirou e olhou o cho. Como se ali  fosse
encontrar uma soluo para seus problemas. - Acredito que darei  um  passeio
at o riacho. Tentarei me tranqilizar.
      Deu meia volta e saiu. Amos olhou como saa e,  continuando,  desabou-
se numa  das  cadeiras  da  cozinha,  apoiou  os  cotovelos  sobre  a  mesa,
suspirando profundamente e sustentou a cabea com as mos.
      - Que Deus amaldioe a esse homem.
      -  Sinto-me  muito  mal  pelo  que  aconteceu  -   disse   Juliet.   -
Possivelmente se eu fosse falar com o senhor Sanderson, mudaria de  opinio.
Talvez eu pudesse faz-lo entender que isso no tem nada que ver com Ethan.
      - No se incomode. No se trata s do que ocorreu  no  alpendre.  Isso
influiu em algo, j que estava disposto a deixar  que  Ethan  visitasse  sua
filha sempre e quando ele pudesse visitar a voc. Mas agora...
      - No compreendo. Que mais h? - Ao  ver  que  Amos  no  dizia  nada,
continuou. - Est relacionado com a discusso que mantiveram no baile?
      - Na realidade, no. Durante  o  baile  Sanderson  me  disse  que  no
queria que Ethan fosse a sua casa. Eu esperava que  se  tranqilizasse,  que
pensasse duas vezes, e que no dissesse nada a Ethan. Evidentemente,  minhas
esperanas eram infundadas.
      - Mas o que pode ter contra Ethan? -  insistiu  Juliet.  -    um  bom
menino. Nunca faria nada mau a Ellie.
      - Sanderson no quer que  sua  filha  se  apaixone  por  Ethan.  Nunca
permitiria que se casasse com ele, e se deu  conta  que  a  garota  pensa  a
srio. No quer que chegue at esses extremos. Portanto, probe a Ethan  que
visite a casa. - Fez uma careta. - Bom, pelo menos no explicou  a  razo  a
Ethan. Eu temia que o fizesse. - Levantou a vista para olhar a Juliet e  sua
expresso foi desoladora. - Ethan  ilegtimo. Sanderson no  quer  que  sua
filha se case com um bastardo.
      Juliet se afundou na  cadeira  frente  a  Amos,  muito  aturdida  para
falar. Amos Morgan era pai de um filho ilegtimo! Muitas vezes se  perguntou
onde estaria a me de Ethan; por que ningum falava dela, se tinha  morrido,
ou se tinha sido incapaz de viver com um homem to severo  e  tinha  fugido.
Mas jamais tinha passado por sua mente  a  possibilidade  de  que  Amos  no
estivesse casado com  ela.  No  a  surpreendeu  que  Amos  tivesse  mantido
relaes com uma mulher sem considerar o matrimnio. Juliet  tinha  crescido
num mundo muito liberal  e  no  a  surpreendia  este  aspecto  da  natureza
humana. Alm disso, tinha beijado a Amos  e  ficava  claro  que  uma  grande
paixo pulsava sob o tranqilo e severo aspecto do homem.
      Entretanto, tambm sabia que Amos era um homem bom. No imaginava  que
tivesse deixado a uma mulher grvida para depois abandon-la ao ver  que  ia
ter um filho. Recordou a ajuda que ele tinha  dado  no  caso  de  Sanderson,
como a tinha avisado de que Sanderson no  respeitava  s  mulheres.  Juliet
no podia acreditar que Amos tivesse to pouco respeito pelas mulheres.
      - Mas eu... - titubeou Juliet.
      - No me olhe dessa maneira - grunhiu Amos. - Poderia haver  imaginado
que pensaria mal de mim.
      - No, no  certo. S que... No posso acreditar  que  abandonasse  a
sua me.
      - Abandonar! Ha! - No havia alegria em  sua  voz.  Turvas  rugas  lhe
rodeavam a boca. - Essa sim que  boa. Foi ela a que... Demnios, eu  queria
me casar. Supliquei-lhe que fosse minha mulher. Limitou-se a rir. Me  casar
com um menino de granja? - Imitou o  tom  depreciativo  da  mulher.  -  No
queria saber nada de mim nem do beb. A nica razo por  que  deu  a  luz  a
Ethan foi porque tinha muito medo de desfazer-se dele.
      Juliet ficou plida.
      - Oh, Amos...
      - Eu a amava - confessou Amos, a voz spera como o papel  de  lixa.  -
Estava certo que nos casaramos. Eu... eu a adorava. Parecia-me  uma  deusa,
um anjo. Clepatra e Helena de Troya, as duas em uma.
      Uma pontada de dor transpassou o corao de Juliet ao  olhar  o  rosto
de Amos que refletia a velha ferida  de  amor.  Quanto  tinha  amado  aquela
mulher! No era surpreendente que jamais se casasse.
      Agora as palavras fluam de sua boca. Oxidadas pelo tempo  que  tinham
permanecido em segredo, eram enfreveis.
      - Durante meses foi a nica coisa em que pensava, sonhava com ela.  Eu
era jovem e inocente, um moo inexperiente. No podia me conter; o amor e  o
desejo me consumiam. E ento me disse que se cansou  de  mim.  Eu  estava...
destroado. Mais tarde se apresentou aqui, entregou-me o beb, e partiu.  Eu
fiquei com ele,  obvio. Papai fez parecer isso muito ruim.  Queria  que  eu
colocasse a Ethan num orfanato; chamava-o produto de minha luxria.  Mas  eu
era incapaz de fazer uma coisa assim; tratava-se de um ser  de  meu  prprio
sangue.
      - No, claro que no. - Espontaneamente  Juliet  estendeu  o  brao  e
colocou sua mo sobre a de Amos como consolo. - Claro  que  ficou  com  ele.
Como podia fazer outra coisa?
      Ele dirigiu um sorriso tmido.
      - Muita gente pensou que poderia ter feito  algo  diferente.  A  velha
senhora King me deu as costas a primeira vez que entrei na igreja  com  ele.
At muito tempo depois me neguei a pr os ps naquele lugar.  Um  monto  de
beatos hipcritas! Frances me apoiou,  claro. Ela continuou indo   igreja,
enfrentando a toda aquela gente, at que por  fim  me  dava  conta  de  quo
covarde era, de modo que eu tambm  voltei.  Com  o  tempo,  as  pessoas  se
esqueceram do assunto ou  aceitaram. Talvez porque depois da morte de  papai
me converti no granjeiro mais rico da zona.
      - No seja to cnico.
      Ele encolheu os ombros.
      - Henrietta tambm foi de grande ajuda, devo admiti-lo. Ela  e  Samuel
aceitaram ao Ethan sem pestanejar. E Henrietta  uma  pessoa  que  ter  que
ter em conta.
      Juliet sorriu um pouco.
      - J sei.
      - Jamais me ocorreu que  pudesse  acontecer  uma  coisa  assim.  Quero
dizer, quando os rumores cessaram. Nunca pensei que as pessoas  estranhassem
ao Ethan.
      - No sabe?
      - Claro que no! O que poderia  eu  lhe  dizer:  Olhe,  filho,    um
bastardo?
      - No, claro que no. - Juliet fez uma ligeira careta.  -  Entretanto,
no acredita que tem direito de saber?
      - Direito? Possivelmente. Mas no  necessrio  que  saiba.  No  quer
sab-lo. O que ganharia inteirando-se de que sua me no o queria, e  que  o
teria deixado abandonado num orfanato se eu no o tivesse acolhido?
      - O que disse ao Ethan a respeito de sua me?
      - Menti como um cossaco cada vez que me perguntava por ela.  Disse-lhe
que era boa, carinhosa, que o amava muito e que morreu pouco depois  de  dar
a luz. E se no me perguntava, eu mantinha a boca fechada. Frances,  tambm.
E ningum mais teve o atrevimento de lhe dizer nada. A maioria  das  pessoas
teme cruzar-se em meu caminho.
      - Com razo, suspeito.
      Olhou-a sem expresso no rosto.
      - Deixei as coisas claras s pessoas de vez em quando.
      - E o que acontecer agora? No cr que saber cedo ou tarde?  No  se
sentir mal quando souber que voc esteve mentindo todo esse tempo?
      - No, se  todo  mundo  mantiver  a  boca  fechada.  -  Amos  a  olhou
fixamente.
      - No me olhe desse  modo!  Eu  no  penso  dizer-lhe.  Mas  em  algum
momento lhe interessar outra garota, e seu pai...
      - Nem todo mundo  to imbecil como Sanderson.  H  muitas  pessoas  a
quem no importaria ter o sangue de um bastardo na famlia, sempre e  quando
esse sangue levasse consigo a maior granja do condado.
      - Possivelmente tenha razo.
      Mas Juliet no estava convencida disso. Os segredos eram  difceis  de
guardar; a nica razo por que  Amos  tinha  conseguido  que  Ethan  no  se
inteirasse da verdade  durante  tanto  tempo  era  pelo  isolamento  em  que
viviam. Mas a Ethan no satisfaria o isolamento que  Amos  gostava.  Era  um
jovem socivel; comearia a assistir a lanches campestres, levantamentos  de
abrigo e mercadinhos da igreja. Iria  cidade. Danaria com as garotas e  as
visitaria. Em algum lugar, algum o informaria da verdade.
      E o que aconteceria ento? Juliet  no  gostava  nada  de  pensar  nas
possibilidades. Ethan se revoltaria, e no s quando se  inteirasse  de  que
sua me estava  longe  de  ser  a  carinhosa  criatura  que  seu  pai  havia
descrito, mas tambm por todos os anos que seu pai continuou mentindo.
      Juliet lanou um profundo suspiro. Era intil que  tentasse  convencer
Amos de seus temores, e duvidava de que servissem de algo. Se Amos  contasse
a Ethan agora, ocorreria  o  mesmo.  Melhor  que  deixasse  as  coisas  como
estavam, pensou. Mas parecia a ela que Amos e Ethan se precipitavam para  um
grande desastre.
Captulo 12.
      Juliet despertou atordoada,  piscando  ao  tentar  orientar-se.  Ento
percebeu que  caiu  adormecida  enquanto  vigiava  Frances,  j  que  estava
sentada numa  cadeira  junto  a  sua  cama,  a  cabea  apoiada  nos  braos
cruzados. Era uma posio incmoda para dormir, e os efeitos ela sentia  nos
ombros e no pescoo. Passou a mo pela nuca e fez uma rotao  circular  com
a cabea para aliviar a tenso. A seguir ficou de  p,  espreguiando-se,  e
se aproximou da cabeceira. Frances estava adormecida,  o  rosto  to  plido
como os lenis que a cobriam. Juliet suspirou, e ficou  temerosa.  Dava-lhe
pena ver como Frances ia enfraquecendo diariamente, pouco a pouco. Fazia  j
uns dias que tinha deixado de comer por completo; seu estmago  se  rebelava
contra qualquer alimento, lquido ou  slido,  que  ingeria.  Melhor  assim,
pensou Juliet, porque Frances estava cansada  de  lutar.  Melhor  seria  que
morresse pouco a pouco antes  de  suportar  a  contnua  agonia  que  estava
padecendo. Mas saber aquilo no mitigava a dor de quem ficava aps.
      Enquanto estava ali de  p,  observando-a,  os  olhos  de  Frances  se
abriram. Dirigiu um dbil sorriso a Juliet.
      - Ol.
      - Bom dia. - Juliet teve cuidado de no lhe perguntar como  estava.  -
Quer um pouco de gua?
      Frances negou com a cabea.
      - No. Estou bem.
      - O que acha se eu ficar aqui um pouquinho? - Deveria  estar  embaixo,
preparando  o  caf  da  manh  para  os  homens,   mas   sabia   que   eles
compreenderiam. Ao ter que cuidar mais e mais de Frances, muitas vezes  eles
preparavam as refeies.
      Frances concordou e  levantou  uma  mo  para  agarrar  a  direita  de
Juliet.
      - Sempre quis ter uma irm. Ou uma  amiga  ntima.  Outra  mulher  com
quem poder falar, compartilhar meus segredos. Mas  nunca  tive.  As  granjas
esto muito afastadas umas de outras, e suponho que ns  no  somos  pessoas
muito sociveis, tampouco.  -  Apertou  a  mo  de  Juliet;  o  aperto  foi
penosamente fraco. - Mas suponho que afinal consegui meu desejo.  Dizem  que
os caminhos do Senhor so inescrutveis.
      As lgrimas chegaram aos olhos de Juliet.  No  podia  falar.  Sorriu,
engolindo sua tristeza.
      - Alegro-me de que tenha outra mulher  na  casa  quando  eu  morrer  -
prosseguiu Frances. - Seria difcil com apenas  homens,  e  sendo  Amos  meu
irmo. Ele me quer, mas no  a mesma coisa.
      - Claro que no. Eu tambm me alegro de estar aqui consigo.  -  Juliet
aproximou a cadeira e se sentou ainda agarrada  mo de Frances.
      - Estava sonhando com minha me - disse a  doente  suavemente.  -  Era
to real, juraria que a vi. Cr que esteve aqui?
      - Possivelmente. Seu esprito. Disseram-me que podem acontecer  coisas
assim.
      Frances assentiu,  fechou  os  olhos  e  voltou  a  adormecer.  Juliet
liberou sua mo e desceu com o corao pesaroso  para  preparar  o  caf  da
manh para Amos e Ethan.
      Quando os homens chegaram para tomar o caf da manh,  Amos  olhou  de
forma interrogativa para Juliet, mas nada disse. A  expresso  do  rosto  de
Juliet transluzia tudo o que precisava saber.
      Durante o resto  do  dia  Juliet  realizou  suas  tarefas  com  grande
velocidade,  fazendo  s  o  mais  imprescindvel  para  manter  a  casa  em
funcionamento. De tempos em tempos se  aproximava  nas  pontas  dos  ps  do
dormitrio de Frances. Tinha chegado o momento em que cada vez que  entrasse
no quarto, sobressaltasse-se temendo que aquela vez Frances tivesse  deixado
de respirar.
      A ltima hora da tarde, enquanto Juliet se achava sentada junto  cama
de Frances, as mos ocupadas remendando meias trs-quartos, Frances  comeou
a falar de seu pai.
      - Meu pai odiava ao Malcolm.
      - Malcolm? - perguntou Juliet estranhamente. Nunca havia ouvido  falar
de ningum chamado Malcolm. Tinham tido outro  filho?
      - Sim. O menino que eu gostava.  -  Um  doce  sorriso  melanclico  se
desenhou no rosto de Frances. - Mas papai disse que no estava  altura  dos
Morgan. No sei. Possivelmente tivesse razo.  Mas  chorei  durante  semanas
quando papai me disse que no devia v-lo mais.
      - Proibiu que o visse?
      Frances assentiu.
      - Mais adiante, Amos me disse que papai fez isso  para  no  perder  
pessoa que cuidava da casa. Amos opinava que eu devia me opor a  papai,  mas
no podia faz-lo. Alm disso, no era como se Malcolm  tivesse  pedido  que
me casasse com ele. Simplesmente nos gostvamos.
      Essas palavras pareciam estranhas em  seus  lbios;  uma  mulher  cujo
aspecto era o de uma  mulher  vinte  anos  mais  velha,  o  rosto  plido  e
enrugado pela dor. A compaixo rasgou o corao de Juliet.
      - Amos estava em Omaha ento,  de  modo  que  eu  no  tinha  quem  me
defendesse. Temia que papai me despejasse de  casa  se  o  desafiasse.  Onde
teria ido eu se o tivesse feito? - Posou seu triste olhar em  Juliet.  -  J
sabe quo difcil  para uma mulher sozinha. Se as  pessoas  se  inteirassem
de que meu prprio pai me tinha despejado... bom,  isso  teria  acabado  com
meu bom nome. Todos teriam pensado que  eu  tinha  feito  algo  errado.  Que
futuro tinha?
      - Eu sei. - Juliet  assentiu;  lgrimas  de  compaixo  alagaram  seus
olhos. - Que terrvel!
      - Chorei e chorei,  at  que  pensei  que  j  no  ficavam  lgrimas.
Imagino que assim era, porque depois disso chorei  muito  pouco.  -  Frances
suspirou. - Estou to cansada! No sei o que me levou a falar de papai.  Faz
tanto tempo tudo isso. As pessoas diriam que o corpo esquece estas coisas.
      - H algumas coisas que no se esquece nunca.
      - Acho que tem razo.
      De noite, Amos sentou-se junto a sua irm, todos eles  envolvidos  num
silncio to grande como a paisagem que os rodeava. Juliet foi descansar  um
momento no seu quarto. Entrando a noite, despertou  e,  abrigando-se  com  a
bata, subiu ao quarto de Frances.
      Amos continuava sentado na cadeira  junto    cama  de  Frances.  Esta
dormia inquieta: movia as mos e as pernas, retorcendo-se sob as  mantas,  e
murmurava algo que Juliet no conseguiu entender.
      - Amos? - Juliet roou suavemente  seu  ombro,  e  Amos  despertou  de
repente.
      - O que? - endireitou-se e olhou confuso  a  seu  redor.  -  Ah.  Sim.
Tinha esquecido onde me encontrava.
      - Como passou?
      Amos olhou o rosto de Frances na cama.
      - Muito tranqila. Deve ter comeado a gemer agora. - Suspirou. -  No
despertou em nenhum momento desde que estou aqui.
      - Substituirei voc durante um tempo. Por que no vai dormir um pouco?
      Ele concordou. A verdade era conhecida de  ambos,  terrvel,  mas  no
mencionada; a agonia de  Frances  tinha  comeado.  At  a  noite  anterior,
quando Juliet ficou adormecida junto  cama de  Frances,  tinham-na  deixado
sozinha quase toda a noite. Mas agora parecia importante que algum  ficasse
com ela em todo momento.
      Amos se levantou, cedendo a cadeira para Juliet, e se dirigiu  para  a
porta do quarto. Mas a meio caminho se deteve e retrocedeu.
      - Eu... Eu queria agradecer a voc.
      - Agradecer-me? - Juliet pareceu surpreender-se. - Por qu?
      - Por isso que est fazendo por Frances. No  tua  famlia,  mas  no
poderia t-la tratado melhor se fosse. Sei que ela  agradeceu  por  ter  uma
mulher a seu lado, para que  a ajudasse, j sabe... essas coisas ntimas.
      - Alegro-me de ser de alguma ajuda.
      - Acredito que fala a srio.
      - Certamente que sim. Por que no ia falar a srio?
      - No sei.  difcil. Muito trabalho e... pouco agradvel, eu sei. No
 nada a esteja muito acostumada.
      Juliet sorriu com tristeza.
      - No esteja to seguro. Minha vida  no  foi  um  caminho  de  rosas.
Estive junto a mais de  um  moribundo...  -  interrompeu-se,  encolhendo  os
ombros. - Meu pai morreu, e eu  estive  cuidando  dele  durante  meses.  Uma
coisa que conheo bem  a morte.
      - Entretanto, no tinha obrigao alguma.    uma  mulher  muito  boa.
Julguei-te mal ao princpio. No sei falar bem na  hora  de  expressar  meus
sentimentos, mas quero que saiba  que  sou  consciente  de  quo  equivocado
estava. E sinto muito.
      Suas palavras representaram um consolo  para  Juliet,  e  as  lgrimas
surgiram em seus olhos.
      - Obrigada. Eu... Eu tambm estava equivocada  quanto  a  voc.  Vi  o
muito que ama a sua famlia. Quer proteg-la.
      - E no posso - acrescentou com tristeza.  -  Isso    o  terrvel.  -
Apertou as mos com frustrao. - Do que sirvo se nem  sequer  posso  mant-
los a salvo?
      - No diga isso. - Juliet se aproximou e ps logo uma  mo  sobre  seu
brao.
      -  um homem muito bom. No pode se julgar pelo mero fato de no poder
 impedir a morte de Frances. Ningum  capaz de  fazer  isso.  No  pode  se
opor aos desejos de Deus.
      Durante um instante, Amos agarrou a mo de Juliet.  A  palma  da  sua,
clida e spera por causa dos calos, cobria por inteiro a mo  dela.  Ento,
retirou-a de repente e saiu a grandes passos do quarto. Juliet  suspirou  ao
v-lo partir. Seu corao o queria. Era to forte, to decidido;  devia  ser
terrvel para ele enfrentar a algo contra o que no  podia  lutar.  Desejava
ajudar de algum modo.
      Mas estava  ajudando  da  nica  maneira  que  conhecia:  cuidando  de
Frances. Juliet voltou junto  cama e sentou na cadeira de novo.
      A noite transcorreu lenta. Juliet teve que fazer grandes esforos para
manter os olhos abertos. Frances continuou murmurando e gemendo.  Comeou  a
mover as pernas.
      - Mame? - disse uma vez. - Mame, leva-me para passear?  Vm  passear
comigo.
      Um calafrio percorreu o corpo de Juliet. A voz de Frances era baixa  e
ligeira, como a de uma menina. Frances estendeu a mo. Abriu os  olhos,  mas
olhava o teto.
      - Mame? - disse de novo. - Me agarre a mo. Vamos passear.
      Juliet ps sua mo na de Frances, e os dedos dela se agarraram  a  ela
com fora. Frances sorriu. Depois daquilo ficou tranqila.
      Juliet despertou sobressaltada e viu que caiu adormecida  na  cadeira.
Sua mo seguia agarrada a de Frances. Levantou a vista para  olhar  o  rosto
na cama. Observou algo distinto na respirao de Frances; essa mudana  deve
ter sido o que a tinha despertado. Juliet ficou  de  p,  soltou  a  mo  de
Frances com suavidade, e  se  inclinou  sobre  ela.  Respirava  de  um  modo
estranho, como se tivesse soluo, detendo-se de vez em quando.
       Juliet ficou aterrorizada. Saiu apressadamente do quarto e  percorreu
o corredor at a porta de Amos. Chamou com fora.
      - Amos! Amos! - Quando ouviu um som inteligvel no quarto,  continuou:
- Acredito que ser melhor que venha.
      A seguir deu meia volta e retornou depressa ao dormitrio de Frances.
      Ela abriu os olhos quando a jovem entrou.
      - Juliet... - Sua voz era mais  forte  do  que  tinha  sido  at  esse
momento, e seu olhar era lcido. Juliet  a  olhou  fixamente,  e  comeou  a
abrigar certas esperanas. Podia  ter  se  equivocado?  Estaria  melhorando?
Possivelmente Frances comeasse a recuperar-se.
      - Sim. Estou aqui. - Correu para a cama e agarrou a mo de Frances.
      Os dedos da doente se agarraram aos seus.
      - Cuide deles. Por favor.
      - De Amos?
      Frances assentiu.
      - Sim. Me prometa que cuidar dele.
      - Claro que eu cuidarei. Enquanto ele necessitar.
      - Necessita de voc.
      Deu um forte aperto na mo de Juliet e  a  soltou.  Ento  fechou  os
olhos e voltou para  estado  de  inconscincia.  Sua  respirao  era  muito
curta, quase ofegante. O incio de esperana que Juliet  tinha  abrigado  se
dissipou.
      Amos entrou apressadamente no quarto. Era evidente que  tinha  perdido
pouco tempo e s levava um macaco. Estava descalo, e sob o macaco  vestia
uma camiseta. Fechou os lados do macaco, mas sem incomodar-se  em  subir  a
parte superior do mesmo, que pendurava pela frente e por trs.
      - O que acontece? - perguntou, franzindo o sobrecenho preocupado.
      - No estou segura - disse Juliet, retrocedendo  para  deixar  que  se
aproximasse  de  Frances.  S  que...  sua  respirao  mudou.  Falou-me  um
instante, com voz muito clara, mas agora...
      Amos olhou a sua irm ali, na cama, e de novo a  Juliet.  O  temor  se
apoderou dele. Deu um passo e agarrou uma mo de Frances.
      - Estou aqui, Fanny. Sou eu, Amos. Ouve-me?
      - Amos... - Frances sorriu, mas no abriu os olhos. -  essa a  granja
ali diante?
      - O que? Fanny, est na granja. - Colocou sua outra mo por volta  das
duas que j estavam unidas. Voltou a olhar  para  Juliet  e  disse:  -  ser
melhor que desperte tambm ao Ethan.
      Quando ia sair do quarto, entrou Ethan.
      - Estou aqui - disse com voz baixa. - Ouvi-o quando levantou, papai.
      Cruzou o quarto at a cama e ficou de p  ao  lado  de  seu  pai.  Sem
fazer rudo, Juliet saiu do dormitrio, fechando a porta a suas costas.  Era
o momento de deixar a famlia sozinha.
       Mas no podia ir dormir. Desceu  cozinha e preparou  caf.  A  todos
iria bem uma xcara ou duas  nas  prximas  horas,  pensou.  Acomodou-se  na
cadeira de balano que tinha  levado  para  a  cozinha  por  volta  de  umas
semanas. Gostava de sentar-se nela e costurar ou tricotar enquanto  esperava
que ficasse pronta a refeio. Tinha o ponto de meia ao  lado  do  balancim,
como de costume, de modo que o agarrou e comeou a tecer. As largas  agulhas
resplandeciam  luz da lamparina de querosene, e ela se  balanava  enquanto
o aroma do caf impregnava a cozinha.
      Quando o caf estava  preparado,  levou  duas  xcaras  aos  homens  e
retornou  cozinha. Tomou uma xcara tambm enquanto se  balanava,  com  os
olhos fechados. Pensou em seus pais e na noite em que morreram. A  morte  ia
roubar s pessoas amadas em plena  noite.  Pensou  em  sua  irm  Clia,  na
Filadlfia. Naquele momento desejava v-la outra vez.
      Voltou a tecer. Sua mente vagava enquanto seus  dedos  se  moviam  com
rapidez, as agulhas chocando uma contra a outra. O cu  comeava  a  clarear
quando ouviu as fortes pisadas de Amos nas escadas. Juliet colocou  a  l  e
as agulhas na bolsa. Ficou de p  justo  no  momento  em  que  Amos  entrava
tristemente na cozinha. Olhou-a.
      - Ela morreu - disse sinceramente.
      - Oh, Amos. - Juliet j tinha imaginado,  mas  isso  no  impediu  que
sentisse grande compaixo e tristeza. - Sinto muito.
      Ele assentiu spero, passou na frente dela e saiu ao ptio.  Juliet  o
seguiu at a porta e observou enquanto cruzava o ptio  at  o  celeiro.  Ia
cabisbaixo, e cada passo de seu corpo denotava a lenta tristeza.  Juliet  se
compadeceu dele.
      De repente no pde agentar que suportasse a  ss  toda  aquela  dor.
Saiu da cozinha e correu  atrs  dele.  Quando  chegou  Amos  estava  j  no
celeiro, de joelhos frente a uma grande caixa de madeira onde guardava  suas
ferramentas. Tinha-a aberto e estava tirando um martelo. Voltou-se ao  ouvi-
la entrar.
      Juliet no disse nada; no sabia o que dizer. Limitou-se a  olhar,  os
olhos cheios de compaixo.
      - Tenho que fazer um atade - disse o homem com  voz  rouca,  mas  sem
derramar lgrimas. Juliet acreditou  ver  certo  brilho  em  seus  olhos,  e
voltou a olhar a  caixa.  Ficou  olhando  um  momento.  -  Tenho  a  madeira
guardada. Nem sequer sabia que a tinha.
      As palavras engasgaram, e nada mais pde dizer. Apoiou  os  braos  em
cada extremo da caixa, e ficou ali cabisbaixo.  Juliet  no  podia  ver  seu
rosto; sabia que estava fazendo  enormes  esforos  para  no  colocar-se  a
chorar.
      - Oh, Amos... - Juliet se aproximou dele, a voz  cheia  de  compaixo.
Tinha os olhos cheios de lgrimas. Inclinou-se e colocou  a  mo  com  gesto
suave sobre suas costas dobradas.
      Aquele pequeno gesto fez com que as defesas de  Amos  viessem  abaixo.
Emitiu um tremendo soluo, voltou-se,  e  a  abraou,  agarrando-se  a  ela.
Ainda de joelhos, afundou o  rosto  no  estmago  de  Juliet  e  chorou.  Os
soluos eram fortes e dilaceradores, os sons emitidos  por  um  homem  pouco
habituado a chorar, enquanto todo seu corpo se agitava e estremecia.
      Juliet sabia muito bem que se sentia humilhado por chorar diante dela;
entretanto, devia sentir tambm um grande alvio ao arejar toda  a  dor  que
levava em seu interior.
      Juliet nada disse, limitou-se a abraar  e  acariciou  com  carinho  o
negro cabelo. Inclinou-se  e  apoiou  sua  cabea  sobre  a  dele,  enquanto
murmurava palavras  carinhosas  e  sem  sentido,  ao  mesmo  tempo  que  lhe
acariciava as costas com a outra mo. Por  fim  os  soluos  de  Amos  foram
diminuindo. Apoiou-se nos calcanhares, limpando as lgrimas e  evitou  olh-
la aos olhos.
      - Sinto muito.
      - No o sinta.  normal. No seria humano se no se afligisse.
      - Deveria ser mais forte. H muitas coisas que fazer.
      - Faremos - assegurou-lhe Juliet. - Ethan e eu as faremos.
      - Pobre Ethan. - Amos moveu a cabea com tristeza.  -  Frances  foi  a
nica me que ele conheceu.
      -  jovem e forte. Acredito que a morte dela afetou muito mais a voc.
      Amos suspirou, fechou a tampa da caixa e se sentou nela. Descansou  os
cotovelos sobre os joelhos e com a frente apoiada nas palmas da  mo,  olhou
fixamente o cho.
      - Eu a amava - disse simplesmente. - Ela cuidou de  mim  e  me  ajudou
toda a vida. No me dava conta at muito  recentemente  do  muito  que...  o
muito que eu a amava. - Levantou a cabea e a  dor  se  transluziu  em  seus
olhos escuros. - No disse. Nunca disse a ela o muito que a amava.  E  agora
 muito tarde.
      - Oh, no! - Impulsiva, Juliet se ajoelhou diante dele,  colocando  as
mos sobre as suas.  Ele  entrelaou  os  dedos.  As  mos  de  Juliet  eram
pequenas entre as dele. - Estou segura de que sabia que a amava. No    uma
pessoa muito expressiva; quase  com  toda  segurana,  ela  sabia  mais  que
ningum o que sentia por ela e que no lhe dizia.
      - Entretanto, deveria t-lo dito -  insistiu.  -  No  fui...  um  bom
irmo. Estava certo de que estaria  sempre  comigo.  Recebi  muito  dela,  e
nunca lhe dava nada.
      - Isso tampouco  certo. Deu-lhe um bom lar, uma boa  vida.  Contou-me
todas as coisas que ps na casa para lhe facilitar a vida, como a  bomba  na
pia. Significava muito para ela, eu sei.
      Ele a olhou quase com ansiedade.
      - De verdade acredita?
      - Sim. Sabia que se preocupava por  ela.  Sabia  que  no  queria  que
trabalhasse tanto como... - Juliet interrompeu ao dar-se conta de  que,  sem
querer, havia tocado outro tema doloroso.
      - Tanto como nossa me. -  Assentiu.  -    certo.  E  olhe...  morreu
igualmente jovem como ela. Esta granja no  lugar para uma mulher.
      - Isso no  sua culpa. No podia fazer nada para evitar.  No  foi  o
trabalho duro da granja que matou a sua irm; foi  a  enfermidade.  E  teria
ocorrido o mesmo se tivesse vivido toda a vida na cidade com criados  que  a
servissem.
      Um dbil sorriso iluminou o rosto de Amos.
      - No imagino a Frances assim.
      Juliet tambm sorriu.
      - Ela o teria odiado. Sabe como o amava; amava esta casa e  a  granja,
igual a voc. Aqui  onde queria  viver  e  estar.  Resulta  trgico  e  sem
sentido que morresse to jovem. Mas no foi por que voc tenha falhado.
      - Sim que falhei. Deveria ter se casado com aquele Wilson, partindo da
granja.
      - Isso tampouco foi sua culpa. Falou-me disso; foi  seu  pai  quem  se
ops a que o visse.
      - Se  tivesse  estado  eu  aqui,  no  teria  permitido  que  papai  a
ameaasse dessa maneira. Mas no estava. E ela no podia defender-se.
      - Possivelmente as coisas tivessem sido diferentes se estivesse  aqui,
ou talvez no. - Juliet lhe apertou as mos para dar nfase ao que dizia.  -
No pode mudar o passado. No estava quando aconteceu; por  isso  no  podia
saber o que ocorria aqui. No podia passar aqui a vida s para  intervir  se
algo o ocorria a sua irm. Isso teria sido absurdo.
      Amos suspirou e assentiu.
      - Suponho que tem razo. Mas me parece que... Oh no sei. Deveria  t-
la protegido melhor. Que sentido tem ser grande e forte se no puder  ajudar
s pessoas... s pessoas que ama? - Fechou os olhos. -  No  pude  ajudar  a
Frances.
      - No  Deus, Amos - disse sinceramente Juliet. - No tem a  potestade
de salvar a algum se tiver chegado sua hora de morrer.
      - Sempre tive a sensao de que estava em guerra com ele - disse  Amos
quase meditando, sem olhar a Juliet. -  Meu  pai.  E  cada  vez  que  algum
desaparece de minha vida, ele ganhou uma batalha. Ethan    a  nica  pessoa
que no perdi.
      Juliet franziu o cenho, pasmada.
      - No compreendo. Seu pai no matou Frances... Nem matou  a  sua  me.
-Inconscientemente titubeou ao pronunciar a ltima  frase.  Sabia  que  Amos
jogava a culpa em seu pai pela morte de sua me.
      - No - disse ele a contra gosto. - J sei que  no    assim.  Era  a
terra. Ele sempre dizia: No h lugar para  os  fracos  aqui.  Queria  que
todos  fssemos  mais  duros  que  minha  me,  inclusive  Frances.  Ele...,
acredito que amava a mame, mas quando ela  morreu,  estava  zangado.  Quase
como se  estivesse  enfurecido  pelo  fato  de  que  morrera.  Repreendeu-me
duramente no dia que me descobriu chorando na cama depois da morte de  minha
me.
      - Deve ter sido uma grande perda para voc. - Julie apoiou a mo sobre
seu brao. - Um filho deve chorar por sua me.
      Amos encolheu os ombros.
      - No sei. Papai opinava que era um fraco quem chorava.  Jamais  o  vi
derramar uma lgrima. - Suspirou. -  Suponho  que  no    comportamento  de
homens. Disse-me: Tem doze anos e  j to grande como um  homem,  de  modo
que se comporte como tal. Nunca estive  altura  do  que  ele  desejava  de
mim. No queria ser como ele. E, entretanto, temo ser.
      - No.  Absolutamente  no  estou  de  acordo  com  isso.  Tem  muitos
sentimentos.
      - Mas como,  bom ou mau? - Sorriu tremendo. - V? Tenho trinta e seis
anos, e ainda no estou seguro de como deve se  comportar  um  homem.  Papai
estaria enojado.
      - No se preocupe pelo que ele pensaria  ou  no  pensaria  -  ordenou
Juliet com nfase. -  exatamente o que tem que ser um homem. Uma mula  pode
ser forte e no chorar; nos homens  no  se  usa  a  mesma  medida.  Tem  um
corao cheio de amor, e isso  o que importa.  Seu  pai  deveria  sentir-se
orgulhoso por ter tido um filho como voc.
      Seu tom era feroz, e o  olhava  com  tal  intensidade  que  seu  rosto
resplandecia com o ardor de suas palavras.
      - Muitos outros homens teriam me despedido ao ver o pouco que sabia de
cozinha ou da granja ou de cuidar de uma  casa.  Afinal,  contratou-me  para
isso. E o que  mais, eu tinha mentido para conseguir o posto  de  trabalho.
Tinha todo o direito de me  despejar.  Mas  no  o  fez  e  agentou  minhas
mentiras. Possivelmente no em silncio - acrescentou  com  honestidade,  os
olhos cintilantes de diverso, e lhe devolveu o  sorriso.  -  Mas  agentou.
Inclusive me pagou.
      - Aprendeu em seguida;  inteligente. -  Afastou  o  olhar  e  engoliu
saliva. - E se equivoca se pensa que muitos homens a teriam despedido.
      - Sei; embora tampouco ignore o que precisaria fazer..., e onde.
      Um rubor subiu pelo pescoo e rosto de Amos ao dizer aquelas  palavras
to diretas.
      - No deveria dizer isso.
      - Por que no?  a verdade. Ambos sabemos. Mas voc somente  me  pediu
que cuidasse de sua casa. Nunca me entregou o pagamento na  ltima  hora  da
noite em meu quarto nem "acidentalmente" me roou pelo corredor. - Juliet  o
olhou fixamente.  -  Comportou-se  como  um  cavalheiro,  mesmo  quando  no
pensava que minha moral fosse muito alta.
      Ele se mexeu incmodo.
      - No sou ningum para julgar.
      - Muitos homens se comportaram comigo como John Sanderson. Entretanto,
voc me defendeu a todo momento.
      Recordou a noite em que a tinha beijado e o sabor de  sua  boca  e  se
ruborizou. Viu a mesma lembrana refletida nos olhos dele.  Amos  afastou  o
olhar.
      - Sou to distinto quanto outros homens - disse ele em voz baixa. - Um
homem teria que estar morto para no desej-la.  muito bela. Mas o fato  de
que  um  homem  sinta  desejo  no  significa  necessariamente  que  v  ser
correspondido. Estou certo que uma mulher formosa  no  deseja  a  todos  os
imbecis que vo atrs dela. Em seu caso  evidente, mesmo para  um  caipira,
que  uma mulher a quem s move... o amor.  -  Houve  uma  ligeira  gagueira
quando pronunciou a palavra.  -  No  tem  interesse  no  dinheiro  nem  nas
comodidades materiais.
      Ficou de p  e  se  afastou  um  passo,  todo  seu  corpo  violento  e
inseguro. Seu tom era rouco e falava to baixo que Juliet teve que fazer  um
esforo para ouvir as seguintes palavras.
      - Deus sabe que pensei em oferecer essas coisas mais de uma vez.
      Juliet piscou, atnita. Tinham trocado um beijo apaixonado, mas  salvo
aquilo, Amos tinha se  mostrado  indiferente,  e  ela  chegou  a  aceitar  o
incidente como a simples luxria masculina e  no  um  desejo  concreto  por
ela.
      Amos pigarreou.
      - Sinto muito. No deveria  estar  falando  disso  agora.  Me  perdoe.
Eu... bom, h coisas que tenho que fazer. Informar  a  Samuel  e  Henrietta.
Fazer o atade. Ser melhor que me ponha a  trabalhar.  -  Retrocedeu  outro
passo, ento quando estava meio  de  costas,  e  olhando  fixamente  o  solo
sussurrou: - obrigado.
      - De nada. O que me est agradecendo?
      - Tudo o que tem feito por Frances. Por... -Fez um gesto abstrato  com
a mo. - Por agora, por me escutar... e por me ajudar.
      - Alegro-me de estar aqui.
      Ento a olhou. Seu rosto estava srio, mas com a expresso mais  suave
que jamais tinha visto.
      - Eu tambm - disse ele com simplicidade.
      Ento se voltou e saiu dali.
Captulo 13.
      Henrietta Morgan chegou na ltima hora da tarde  e  se  encarregou  de
tudo. Juliet j tinha lavado o corpo de Frances  e  penteado  o  cabelo  num
coque, deixando-o como  usava  sempre.  Continuando,  Juliet  ps  nela  seu
melhor vestido de domingo, as mos cruzadas sobre o  peito  e  as  plpebras
fechadas sob o peso de duas moedas. Amos  tinha  mandado  Ethan  ao  povoado
para que informasse a seu tio e aos vizinhos da morte de sua  tia,  enquanto
ele estava no celeiro acabando o atade. Juliet ficou velando  o  corpo  at
que Henrietta e Daniel chegaram pouco antes do jantar. Henrietta ocupou  seu
 lugar, e Juliet desceu  cozinha para esquentar uns restos de verduras  que
poria na mesa junto com um guisado e um bolo de  ma  que  Henrietta  tinha
levado. Ningum tinha muita  vontade  de  comer  nada;  mas,  apesar  disso,
reuniram-se ao redor da mesa e fingiram jantar. De noite, Amos entrou com  o
atade e o colocou no salo. Juliet o forrou  com  o  edredom  preferido  de
Frances, acrescentando um pequeno travesseiro com uma capa  bordada  para  a
cabea. Amos baixou  o  corpo  de  sua  irm  ao  salo,  onde  permaneceria
enquanto amigos e parentes a velariam at o funeral. Obviamente, Amos  tinha
se esmerado com o atade, que estava perfeitamente polido; uma trepadeira  e
umas rosas esculpidas decoravam os lados e a tampa. Os olhos  de  Juliet  se
encheram de lgrimas ao v-lo; o amor que Amos sentia por sua  irm,  e  que
no tinha podido  expressar  em  palavras,  estava  refletido  em  todos  os
detalhes.
      Deixou a famlia Morgan sozinha no salo com  o  corpo,  sentindo  que
no devia interferir em seus sentimentos. Em vez disso, ficou  a  trabalhar,
assegurando-se  de  que  a  casa  estivesse  imaculada  e  de  que  houvesse
suficiente comida para as visitas que sabia chegariam logo.
      Uma prima e duas famlias vizinhas vieram aquela mesma noite,  levando
pratos j cozidos, como era costume. As trs mulheres das  famlias  ficaram
com Henrietta velando a morta durante  a  noite.  Juliet  fez  as  camas  do
quarto dos convidados e a de Ethan para  os  visitantes.  Ethan  se  mudaria
temporalmente para o dormitrio de seu pai. Tambm tirou  lenis  e  mantas
da cama de Frances e abriu as janelas para que o  quarto  se  arejasse,  mas
cuidou de fechar a porta do corredor para  que  Amos  no  notasse  tanto  a
ausncia de sua irm ao passar.
       manh seguinte despertou antes do amanhecer, e foi recolher os  ovos
para o enorme caf da manh que devia preparar. Quando retornou    cozinha,
Henrietta estava j diante  do  fogo,  um  avental  cobrindo  sua  gordinha
cintura,  fritando  salsichas  e  dando  ordens  s  outras  duas  mulheres.
Henrietta sorriu a Juliet quando esta entrou e, imediatamente,  atribuiu-lhe
uma tarefa. Juliet, amvel, fez o que ela  pedia.  Henrietta  era  uma  alma
mandona, mas h muito tempo Juliet estava acostumada a  tratar  com  pessoas
difceis no teatro, e Henrietta no era  vaidosa  pelo  menos,  como  tinham
sido alguns dos atores.  Alm  disso,  no  ficaria  muito  tempo  e  era  o
bastante  grata  pela  companhia  para  suportar  os  modos   de   Henrietta
encarregando-se de tudo, pelo menos durante uns dias.
      No transcurso do dia foi chegando gente, lentamente, mas  sem  cessar.
Cada uma das mulheres levava algo de comer, de modo que no  faltava  comida
para os visitantes; mas Juliet se manteve ocupada servindo e  procurando  um
lugar para guardar tudo, alm  de  lavar  os  pratos  depois  de  que  todos
tivessem comido.
      Alguns dos homens ajudaram Amos a cavar uma sepultura junto   de  sua
me no pequeno cemitrio da famlia, do outro lado da pequena  colina  atrs
da casa. A ltima hora da tarde, chegou o proco da igreja,  celebrou-se  um
funeral ntimo e o atade de Frances foi levado  sepultura.
      Juliet olhou preocupada para Amos. Seu rosto  era  a  mesma  cuidadosa
mscara que tinha mantido durante todo o dia.  Perguntou-se  o  que  estaria
sentindo. Achava-se muito ocupada observando Amos para dar-se conta  de  que
Henrietta tinha seguido a direo do olhar de Juliet com uns  agudos  olhos.
Nem tampouco se deu conta  de  que,  naquela  noite,  Henrietta  a  observou
quando levava uma bandeja de comida ao abrigo, lugar para  onde  se  retirou
Amos pouco depois do funeral, e onde tinha permanecido aps.
      Ao final da noite, a maioria dos visitantes  partiu.  S  aqueles  que
tinham chegado de longe ficaram para passar a noite e sair na primeira  hora
da manh. Samuel se foi na manh seguinte; viajou com outra das famlias  da
cidade e deixou que Henrietta o fizesse na  carruagem  do  dia  seguinte.  A
rotina diria recuperou algo parecido  normalidade. Ethan e Amos saram  ao
campo depois de cumprir com  as  tarefas  matinais,  e  Henrietta  e  Juliet
comearam a limpar a casa e a guardar os restos de comida.
      Naquela noite, depois do jantar, Henrietta anunciou com solenidade:
      - Juliet, Amos, preciso falar com os dois, em particular.
      Ethan levantou a vista interessado, e  Amos  olhou  para  sua  cunhada
desanimado. Juliet ficou pasma. Por que queria Henrietta falar com  eles  em
particular?  Henrietta  enfrentou  o  olhar  de  curiosidade  do  Ethan  com
firmeza, e ele suspirou.
      - De acordo. Sei quando minha presena incomoda. - Lanou um exagerado
suspiro e ficou de p. Levou seu prato at a pia, e saiu  ostentosamente  da
cozinha para subir a seu quarto.
      Amos franziu o sobrecenho a Henrietta.
      - Para que tudo isto?
      Juliet ficou de p e comeou a recolher os pratos sujos para  lev-los
a pia, mas Henrietta a deteve com um gesto do brao.
      - No, querida, deixa isso. Eu ajudarei a  esfregar  mais  tarde,  mas
agora necessito toda sua ateno.
      Juliet  sentiu  um  estremecimento  de  inquietao  quando  ouviu  as
solenes palavras de Henrietta. Olhou para Amos, que se  limitou  a  encolher
os ombros.
      - Vamos fala, Henrietta - disse ele em tom seco.
      - De acordo. Amos, sei que  uma pessoa  que  acredita  que    melhor
falar diretamente sem comear com rodeios. De modo que  isso    o  que  vou
fazer. No tem sentido que ande com indiretas. No sei se voc e  Juliet  j
pensaram, mas a realidade    que  os  dois  esto  agora  em  uma  situao
precria.
      - O que? - Juliet se sentiu mais confusa que antes. - No entendo.
      - Ento voc no pensou.  compreensvel, considerando o  que  ocorreu
aqui nos ltimos dois dias. Mas quando eu me for amanh pela manh,  Juliet,
voc ficar aqui s com Amos e Ethan.
      - E?
      -  algo que deveria ser bvio para  voc.    uma  solteira  jovem  e
atraente, estar vivendo sob o mesmo teto com dois homens, nenhum  dos  dois
seus parentes. Enquanto Frances vivia, no havia problemas. Com  uma  mulher
mais velha na casa, e o que  mais, parente dos homens... Mas voc,  s  com
eles... no  decente.
      - Tolices! - disse Amos com rudeza.
      - Mas tem Ethan. Quero dizer...,  um menino, e  filho  de  Amos.  No
basta a sua presena?
      Henrietta negou com  a  cabea,  suspirando  diante  da  inocncia  de
Juliet.
      - Tem dezesseis anos, querida. No  um menino; a maioria das  pessoas
o consideraria um homem. Pelo contrrio, sua presena s  piora  as  coisas.
Agora bem, se fosse seu filho, a coisa seria distinta, mas...
      - Ah. Eu... eu suponho que tenha razo. -  Juliet  sabia  que  ao  ter
passado toda a vida no  mundo  do  teatro,  tinha  menos  conhecimentos  que
Henrietta a respeito  das  normas  sociais.  E  agora  que  Henrietta  tinha
deixado claro, dava-se conta de que a situao poderia provocar falatrios.
      - Um monto de tolices! - Amos cruzou os braos e olhou  Henrietta.  -
S o que quer  causar problemas.
      Henrietta devolveu o olhar, indignada.
      - Por favor, Amos! Como pode me dizer uma  coisa  dessas.  Sabe  muito
bem que s o fao por seu bem!  -  voltou-se  para  Juliet.  -  E  pelo  seu
tambm, querida. Acho que entende.
      -  obvio - concordou Juliet. - Estou certa de que s quer  ajudar.
      - Exatamente. - Henrietta assentiu com deciso e olhou com ar triunfal
a Amos. - V? Juliet compreende. Ela  uma mulher, de  modo  que  sabe  quo
importante so estas coisas. O que vai  fazer  uma  mulher  perder  seu  bom
nome? E  o que acontecer. As pessoas falaro dos  dois,  claro,  mas  Deus
sabe, faz anos que falam. Voc  um homem, de modo que  no  ter  problema,
e, alm disso, todo mundo sabe que ... bom, diferente. Ao  final,  s  quem
sair prejudicada ser Juliet.  ela quem  perder  seu  nome.  Sabe  o  que
diro dela as pessoas,  em  especial  quando  todo  mundo  sabe  ao  que  se
dedicava antes? Ignoraro a ela no povoado. Ningum querer falar  com  ela.
Pensa como afetar isto ao Ethan. Vamos, as pessoas j...
      - J sei o que as pessoas dizem e pensam de meu filho - rugiu Amos com
uma careta. - Mas estou de acordo; Juliet sairia perdendo.  E o  que  sugere
que faamos?
      - Acredito que fica muito claro que Juliet  ter  que  abandonar  esta
casa e retornar a Steadman comigo.
      A respirao de Juliet parou.
      - No!
      Amos ficou gelado, mas nada disse.  Limitou-se  a  virar  a  cabea  e
olhar fixamente o outro extremo da cozinha.
      - Mas eu no quero voltar! - declarou Juliet. - Desejo  ficar  aqui...
-interrompeu-se, ruborizada ao dar-se conta do muito  que  estava  revelando
dos seus sentimentos, e olhou Amos duvidosa. - Quer dizer..., bom,  se  Amos
quiser. ...  um bom trabalho, e por fim aprendi a fazer as coisas.  Parece
uma tolice deix-lo agora. Alm disso, Amos e  Ethan  necessitam  de  algum
que cuide deles.
      - No se trata disso - respondeu Amos com brutalidade, evitando  olh-
la. - Trata-se de que perderia seu bom nome se ficasse vivendo aqui  comigo.
E no permitirei que as pessoas falem mal de voc.
      Juliet sorriu, agradecendo que se preocupasse com sua boa reputao.
      - Mas no entendem que  no  me  importa.  De  verdade.  Quero  dizer,
quantas vezes vou ao povoado? No  tenho  amigos  ali.  Nenhum  parente  que
possa incomodar-se pelas fofocas. Estou acostumada a que as  pessoas  pensem
mal de mim; afinal trabalhei no teatro. Sei  muito  bem  o  que  as  pessoas
supem a respeito, e nunca me incomodou.
      - Isso  porque compartilhava a vida com outras pessoas  do  mundo  do
teatro. Era um mundo mais ou menos  parte. Mas aqui vive entre pessoas  que
falariam - tentou explicar Henrietta com grande seriedade.  -  Possivelmente
seja verdade que sabe estar sozinha aqui na granja, mas  algum  dia  ir  ao
povoado.  impossvel que no ocorra  assim.  Como  se  sentir  quando  no
quiserem falar consigo e lhe dem as costas? Ou quando  a  tratarem  como  a
uma prostituta?
      - Henrietta! - Amos ficou indignado, olhando-a fixamente.
      - O que foi? - Henrietta lhe devolveu um olhar  desafiante.  -  O  que
estou dizendo no  nada em comparao  com  a  forma  pela  qual  outros  a
trataro, e voc sabe.
      Olhou a Juliet com expresso solene.
      - O que diz das pessoas que vo consigo  igreja? - perguntou. -  Como
se sentir quando no...?
      Juliet olhou Henrietta, os olhos arregalados.
      Isso no tinha levado em conta. Henrietta tinha  razo;  antes  estava
sempre entre amigos do grupo, e a opinio do resto  do  mundo  era  bastante
insignificante. Mas podia imaginar o mal estar se as mulheres com  as  quais
estava acostumada a conversar na igreja comeassem  a  trat-la  como  tinha
feito Aurica Johnson.  Ou  se  os  homens  a  olhassem  da  forma  que  John
Sanderson a tinha olhado.
       - E no se trata s  de  voc  -  continuou  Henrietta.  -  Ter  que
considerar a Amos e a Ethan.  Conhecemos  bem  a  cruz  que  Ethan  tem  que
suportar. Estou segura de que voc no quer  agravar  a  situao.  Que  pai
permitiria que visitasse sua filha, sabendo que vive com  voc  e  com  Amos
aqui, em Deus sabe que situao?
      - Henrietta! - Juliet estava atnita. -  Como  pode  dizer  uma  coisa
semelhante? Como se Ethan, Amos e eu estivssemos fazendo algo errado.
      - No se trata do que eu digo, mas sim do que diro os demais.  Eu,  
obvio, defenderia vocs, mas quem  ia  acreditar  em  mim?  Afinal,  Amos  
parente meu.
      Juliet olhou para Amos. Seu carrancudo rosto  confirmava  as  palavras
de Henrietta. Juliet ficou assustada. Amos no ia querer que ficasse.  Mesmo
ela estando disposta a enfrentar s pessoas do povoado,  no  podia  esperar
que Amos e Ethan fizessem o mesmo,  s  porque  ela  desejava  continuar  na
casa. Tinha aprendido a gostar de Amos no tempo que estava ali, mas ela  era
uma  simples  governanta  para  Amos.  No  permitiria  que  os   falatrios
afetassem a seu filho s para ter uma pessoa que  cozinhasse  e  limpasse  a
casa.
      - Eu entendo - disse Juliet, a voz dbil e o  rosto  plido.  -  Ento
suponho que ser melhor que eu  parta  amanh.  Posso  retornar  ao  povoado
contigo, Henrietta?
      - Claro. - Henrietta estendeu uma mo  e  acariciou  a  de  Juliet.  -
Farei todo o possvel para que  encontre  outro  trabalho.  Acredito  que  a
senhora Wheelock, ao leste do povoado, busca uma garota que a ajude.
      - A senhora Wheelock! - exclamou Amos, dirigindo-se a Henrietta.  -  
um demnio. Aproveitar-se- de Juliet como se fosse uma escrava.  No  quero
que v trabalhar com aquela mulher horrorosa.
      - Mas, Amos, querido, Juliet demonstrou que sabe dirigir muito bem  s
pessoas difceis - protestou Henrietta, um  sorriso  irnico  desenhado  nos
lbios.
      - Amos no  difcil  -  protestou  Juliet.  -  Me  encantou...  foram
semanas muito agradveis.
      O semblante de Amos se fechou ainda mais.
      - Eu lhe darei o dinheiro.
      Henrietta ficou boquiaberta.
      - Que dinheiro?
      Amos encolheu os ombros.
       - O que necessitar. Para que volte ao Este onde poder  cantar,  como
ela gosta, em vez de esfregar cho para os outros.
      Um grande prazer invadiu Juliet ao pensar que Amos estaria disposto  a
fazer aquilo por ela, seguido imediatamente por uma tremenda ira  ao  pensar
que estava disposto a pagar para se desfazer do problema. Nada deixava  mais
claro que o fato de que s era uma governanta para ele.  Seria  um  problema
ter que procurar a outra governanta, mas era bvio que aquilo no  machucava
seu corao, como ocorria com ela.
      - Guarde seu dinheiro! - disse, ficando em p de um  salto.  -  No  o
quero! Posso cuidar de mim mesma perfeitamente.
      -No sejas tola! -Amos se virou para olhar a Juliet  com  m  cara.  -
Por que recusar um bom dinheiro? Conseguir o que  em  um  princpio  queria
fazer.
      - No sou a  mulher  mercenria  que  pensa  -  respondeu  Juliet  com
arrogncia. - No pode me comprar ou vender.
      Amos a olhou atnito.
      - No queria dizer isso...
      - No?
      - Juliet... Amos... por favor. - Henrietta falava  no  mesmo  tom  que
teria utilizado  com  seus  filhos.  -  Sejam  amveis  e  deixem  de  dizer
idiotices! Temos coisas mais importantes em que pensar.
      - Que mais? - rugiu Amos. - J conseguiu ser bastante clara.
      - Amos, se me deixasse terminar. O que estava a ponto de dizer    que
possivelmente haja uma soluo para este problema.
      - Uma soluo? - Juliet a olhou de forma estranha.
      - Sim. Vero... Juliet, seria mais aceitvel que  continuasse  vivendo
aqui com Amos e Ethan... se voc e Amos estivessem casados.
      Juliet ficou atnita, e voltou a cair na cadeira de repente. Casados!
      - Casados! - exclamou Amos. Olhou primeiro para Henrietta, e a  seguir
para Juliet  que ficou ruborizada.
      - Henrietta - protestou suavemente Juliet, incapaz de olhar nenhum dos
dois nos olhos, - no pode estar falando a srio.
      - Claro que falo a srio. Por que ia diz-lo? A soluo perfeita  para
o problema. Poderia ficar aqui sem que houvesse  escndalo  algum!  Os  dois
sairiam ganhando pense bem.  Voc,  Juliet,  teria  segurana,  um  lar,  um
marido que cuidaria adequadamente de voc. No precisaria passar o resto  de
sua vida preocupada com o dinheiro ou com  o  trabalho  e  coisas  do  tipo.
Inclusive poderia ter filhos. -  As  bochechas  de  Juliet  se  avermelharam
ainda mais ao ouvir aquelas palavras, e no pde  evitar  olhar  a  Amos  de
lado. Seus olhos se cruzaram, e ambos  afastaram  a  vista  rapidamente,   O
estmago de Juliet comeou a dar  saltos  de  alegria,  -  E  voc,  Amos  -
continuou Henrietta, - teria algum que cuidasse de  sua  casa,  uma  esposa
bonita, uma mulher que demonstrou que    capaz  de  entender-se  com  voc.
Todos os  homens  necessitam  uma  esposa,  inclusive  voc,  e  duvido  que
encontrasse algo melhor em outro lugar. Sem dvida  melhor do que merece  -
acrescentou com certa aspereza.
      Amos olhou fixamente a sua cunhada, e a seguir    cabisbaixa  Juliet.
Voltou a dirigir sua ateno a Henrietta.
      - Ficou louca?
      Henrietta ps cara de sentir-se insultada.
      - Como pode dizer uma coisa assim? Claro que no.    a  soluo  mais
razovel para o problema.
      - Mas... no  a  forma  normal  de  escolher  um  casal  -  assinalou
Juliet. - Quero dizer, o que tem que... O que acontece com  o  amor?  -  Seu
tom de voz foi quase um sussurro quando pronunciou a ltima palavra, e  suas
bochechas estavam vermelhas como um tomate.
      Henrietta descartou as palavras de Juliet com um gesto da mo.
      - Tolices. A principal considerao  se cuidarem. Nenhum dos  dois  
um adolescente em  busca  do  amor.  So  o  bastante  velhos  para  serem
sensatos. Juliet, quer passar o resto da vida  cuidando  de  casas  alheias?
Costurando  e  cozinhando  para  os  filhos  de  outros?  Ou   possivelmente
preferiria pass-la cantando  e  viajando  por  todo  o  pas,  sem  um  lar
prprio, vivendo em hotis e tendo que agentar luxuriosas  proposies  dos
homens, no sabendo nunca se algum vai fugir com o dinheiro  deixando-a  em
algum lugar desconhecido sem um centavo? Claro, at  que  seja  muito  velha
para atrair aos homens que a despejem sem pensar-lhe duas vezes.
      O estmago de Juliet se retorceu.
      - Claro que no quero isso. Mas...
      - Mas o que?
      Como  lhe  dizer  que  no  queria  casar-se  com  Amos   por   razes
pragmticas?  Que  no  queria  que  ele  se  casasse  com  ela  por  razes
pragmticas? Limitou-se a encolher os ombros e a negar com a cabea.
      Henrietta seguiu o ataque com Amos.
      - E o que diz de voc?  isso o que est fazendo?  Esperando  o  amor,
tambm? - Pronunciou as palavras com grande quantidade de ironia.
      - No seja estpida! - espetou Amos,  ficando  de  p  e  afastando  a
cadeira. - Eu no necessito uma esposa.
      - Ah, no. Sem dvida prefere ter uma governanta  que  pouco  importe.
Prefere viver numa casa fria e sem amor, em vez de ter filhos e uma  esposa.
Voc gostar de viver sozinho depois de que Ethan se case  e  se  v  daqui.
Uma vida solitria  prefervel a estar casado com uma  bela,  carinhosa,  e
agradvel mulher.
      Henrietta suspirou fundo.
      - Bom, j vejo que falar com os dois  uma  perda  de  tempo.  Eu  no
gosto que seja assim, mas suponho que  os  dois  merecem  as  vidas  que  os
esperam. -voltou-se para Juliet, lhe dirigindo um ltimo e triste  olhar.  -
Sairemos amanh depois do caf da manh.
      Juliet assentiu.
      - De acordo.
      Ficou ali  sentada,  olhando  fixamente  a  mesa,  enquanto  Henrietta
abandonava a cozinha. De esguelha observou a Amos que se dirigia inquieto  
pia, depois ao armrio, cabisbaixo e com as mos afundadas nos  bolsos.  Ele
tambm a olhou de esguelha.
      - Sinto muito - disse ele por fim. - Quando  a  Henrietta  coloca  uma
coisa na cabea, no abandona a idia.
      - Sei.
      Amos fez uma pausa.
      -  uma idia absurda - disse logo, medindo o terreno.
      Juliet assentiu. Pensou na vida que Henrietta havia descrito, e queria
comear a chorar. Henrietta tinha toda a razo. Mas no podia  casar-se  com
Amos porque era o sensato. Era incapaz de compartilhar a cama com  um  homem
para ter um lar. Isso a converteria no que as pessoas pensavam que  eram  as
mulheres do teatro, no?
      Lanou um olhar de soslaio a Amos. Ele se achava diante da janela  que
estava sobre a pia, olhando para  fora  distrado.  Durante  uns  instantes,
Juliet estudou a alta figura de ombros largos. Tinha o  peito  e  os  braos
musculosos; as pernas, longas e magras. Suas mos eram grandes, fortes,  com
dedos longos cobertos de plo escuro. Havia algo  excitante  em  suas  mos;
pensou no aspecto que tinha quando o viu esculpir a madeira,  recordou  como
se curvavam seus dedos ao redor  de  uma  pea  e  como  se  flexionavam  os
msculos. Tocaria a ela com a mesma suavidade  com  que  tocava  a  madeira?
Acariciaria sua pele daquela forma to reverente e suave?
      Juliet fechou os olhos, sentindo de repente um  calor  e  uma  umidade
interiores. Sem dvida essa era uma forma pecaminosa de  pensar,  mas  sabia
que na realidade no se importaria em compartilhar a cama de Amos.  Gostaria
que ele a beijasse de novo como tinha feito naquele dia depois do baile.
      Oh, por favor, me pea que fique.
      Sabia que a residia o verdadeiro problema. No era que  no  quisesse
ficar ali e casar-se com Amos. Era difcil ter a idia  de  que  nunca  mais
estaria em cena, que no cantaria diante do pblico e  que  no  ouviria  os
aplausos. Sentiria falta das cidades e da vida na qual se  educou.  Mas  com
muito gosto mudaria tudo  aquilo  para  ficar  ali  com  Amos.  J  no  lhe
importava conseguir o dinheiro para voltar para o  Este.  Queria  esse  lar,
essa vida. Queria a Amos.
      Juliet sabia que tinha chegado a  hora  de  que  aceitasse  os  fatos:
amava a Amos. Tinha conseguido evitar a idia durante algum  tempo.  Era  um
homem absurdo... brusco,  direto,  silencioso,  quase  nunca  revelava  seus
sentimentos. Mas Juliet se deixou guiar  sempre  pelo  corao,  nunca  pela
cabea. No tinha escolhido o atalho da razo, mas tinha se  apaixonado  por
um homem impossvel. Partir pela manh partiria seu corao.
      Entretanto, no podia ficar. Juliet tambm sabia que devia  aceitar  o
fato de que Amos no estava interessado em casar-se com ela. No queria  que
uma mulher interferisse em sua vida. No a amava.
      Juliet ficou de p.
      - Ser melhor que v fazer a bagagem.
      Amos a olhou diretamente nos olhos pela primeira vez. Logo assentiu  e
cruzou os braos sobre o peito. Juliet saiu correndo para o  quarto,  com  a
vista cravada no cho. Amos ficou  olhando  uns  instantes.  Ento,  com  um
grande suspiro, deu meia volta e saiu da casa.
      Amos se sentou na  escurido,  na  borda  do  toco  que  ele  e  Ethan
utilizavam para cortar lenha, enquanto olhava  fixamente  a  casa  do  outro
lado do ptio. Uma pequena luz estava acesa na cozinha. Sabia que  Juliet  a
tinha deixado para ele; como fazia sempre. Levava  j  um  hora  sentado  no
toco, observando Juliet movendo-se pela cozinha at que  a  jovem  baixou  a
intensidade da lamparina, e saiu do cmodo. Amos pensou no fato  de  que  j
no faria isso nunca mais, e de repente foi difcil engolir  a  saliva.  No
estava seguro de como poderia resistir quando Henrietta   levasse  a  Juliet
pela manh.
      Afundou a cabea entre as mos,  os  dedos  no  cabelo,  apertando  os
punhos e esticando o cabelo como se a dor, de algum modo, pudesse impedir  a
angstia que sentia em seu  interior.  Pensou  nos  dias  solitrios  que  o
esperavam, em chegar  cozinha pelas noites e  no  receber  a  saudao  de
Juliet, no v-la do  outro  lado  da  mesa,  no  ouvi-la  cantar  enquanto
trabalhava. Pensou na casa sem as flores que ela colhia ou nos  adornos  que
tinha tirado. Pensou em uma casa  fria  e  triste  sem  sua  presena.  Amos
amaldioou em voz baixa.  O que ia fazer? Desejava com  toda  sua  alma  que
nunca tivesse aparecido por ali. Ele j estava acostumado com essa vida e  
solido. Mas como voltar ao passado agora que  Juliet  tinha  iluminado  sua
existncia?
      Claro que podia lhe pedir que se casasse com ele, como Henrieta  tinha
sugerido. Durante uns instantes, a idia pareceu sedutora.  Imaginou  Juliet
como esposa, a aliana em seu dedo, saindo para receb-lo quando chegava  do
campo, os braos estendidos. Sentariam juntos ao lado do  fogo  no  inverno,
cmodos e protegidos do frio exterior. Ela faria ponto ou costuraria, e  ele
leria, ou possivelmente esculpiria suas figuras. Mais tarde subiriam  juntos
a seu quarto. Haveria objetos femininos dela: cintas, um frasco de  perfume,
espelho, uma escova com o cabo de prata, um  camafeu,  possivelmente  alguma
almofada bordada decorando a cama. Ela soltaria o cabelo e  o  escovaria,  e
ele a olharia. Possivelmente agarraria a escova e ele escovaria  at  que  o
cabelo se frisasse em suas mos como algo vivo, dourado e  suave.  Ento  se
inclinaria para beij-la, e ela aproximaria os  lbios,  desejosa,  cruzando
os braos na sua nuca.
      Aspirou inconsciente, pensando na boca de Juliet sob a sua,  clida  e
incitante. At sentia seu aroma, sentia a  pele  sob  suas  carcias,  quase
saboreava seus lbios. Seria maravilhoso beij-la, pensar em sua suavidade.
      Com um gemido, Amos  levantou  a  cabea  e  olhou  o  cu,  escuro  e
longnquo, resplandecente com centenas de distantes e  brilhantes  estrelas.
Era uma estupidez deixar-se atormentar por aqueles desejos de fazer  o  amor
com Juliet. No conseguiria nada. Era impossvel.
      O que faria Juliet com um granjeiro como ele?  Ela,  jovem  e  bonita,
tinha todos os sonhos romnticos das mulheres. Queria amor;  desejava  algum
elegante jovem que cantasse suas virtudes. Queria poesia e  flores.  No  um
homem amargurado de poucas palavras e  escassa  pacincia.  No  um  caipira
doze anos mais velho que ela.
      Com um suspiro se levantou e retornou  casa. Agarrou a  lamparina  da
cozinha e a levou para seu quarto. Ia to distrado que no viu sua  cunhada
esperando como um co guardio    porta  do  dormitrio.  Henrietta  estava
sentada numa cadeira de respaldo reto e levava postas a camisola e  a  bata,
o cabelo amarrado  costas.  Tinha  os  braos  cruzados,  e  o  olhava  com
desaprovao.
      Amos reprimiu um gemido. A ltima coisa que desejava  naquele  momento
de sua vida era que a mandona de sua cunhada lhe dissesse o  que  tinha  que
fazer.
      - Vim fazer uma pergunta - disse Henrietta.
      Amos assentiu, pensando que nunca chegaria  o  dia  em  que  Henrietta
Morgan dissesse s uma coisa. Deteve-se, afundando as  mos  nos  bolsos,  e
esperou.
      - No deseja casar com a garota por sua  vida  passada?  Acredita  que
est manchada? - perguntou Henrietta sem morder a lngua.
      Amos levantou a cabea, e olhou a Henrietta atnito.
      - No! - ruborizou-se. - Henrietta! Como  pode  acreditar  numa  coisa
assim dela? Est muito claro que  uma dama, apesar de ter  ganhado  a  vida
cantando. Talvez tenha vivido no mundo do teatro, mas no  uma qualquer.
      Henrietta levantou a vista.
      - Nunca disse que fosse. Mas  possvel,  sabe,  que  uma  mulher  no
seja fcil, mas que tenha  tido...  -  fez  uma  delicada  pausa  -  bom...,
experincia.
      A expresso de Amos era de teimosia.
      - Tem tanta experincia como... como Ethan.
      Henrietta arqueou as sobrancelhas de forma expressiva.
      - Parece estar muito seguro disso.
      Amos se ruborizou ainda mais.
      - No tentei seduzi-la, se  o que est pensando. Se no for  ainda...
virgem, ser s porque  algum  a  obrigou  ou  se  aproveitou  de  seu  bom
corao. No tem um centmetro de maldade no corpo.
      - Ento por que se nega a casar com ela? -  perguntou  Henrietta,  com
exasperao.
      - Disse que ia fazer uma s pergunta - recordou-lhe Amos, e comeou  a
dirigir-se para seu quarto.
      Henrietta levantou a mo.
      -  o homem mais teimoso que jamais conheci. Samuel no  nada  a  seu
lado.
      Amos fez uma careta. Estava claro que Henrietta no o deixaria em  paz
at que ele desse toda uma explicao.
      - Henrietta, por Deus, est claro que Juliet no  ia  querer  casar-se
com um velho como eu.
      - Qualquer um diria que est a ponto de morrer. S tem trinta  e  seis
anos.
      - Muito mais velho que ela. Seria uma loucura. De qualquer  modo,  ela
no ia querer.
      - Bom, ao menos poderia perguntar-lhe  antes  de  decidi-lo,  verdade?
No sei por que pensa que no a agradaria casar-se com  voc.  Tem  uma  boa
granja, a maior da zona. Uma casa  bonita.  No    feio,  ao  menos  quando
consegue sorrir. E que futuro tem ela se no aceitar?
      - No me interessa  que  se  case  comigo  porque  eu  sou  sua  nica
alternativa - retrucou Amos. - Cr que quero  que  uma  mulher  se  meta  em
minha cama s para ter uma casa decente e um pouco de dinheiro no banco?  Ou
porque sua nica alternativa  seja  estar  sem  um  centavo  ou  aceitar  os
favores de um homem rico?
      Henrietta lhe olhou fixamente.
      - Deus Santo!  to estpido e romntico como  ela.  Foram  feitos  um
para o outro. - Negou com a cabea e se levantou. Comeou a afastar-se,  mas
se voltou e apontou com o dedo indicador. - Direi algo,  Amos  Morgan.  Est
apaixonado por essa garota. E  mais estpido do que eu pensava se  a  deixa
escapar.
Captulo 14.
      Juliet despertou na manh seguinte com uma sensao de pavor.  Demorou
uns segundos para saber a razo: aps umas horas  abandonaria  a  granja;  a
no ser que Amos, claro est, pedisse a ela que  se  casasse  com  ele.  Mas
sabia que aquilo no era muito provvel. Com tristeza  se  levantou,  lavou-
se, e colocou seu vestido mais bonito e o corpete, de cor  azul  cu  plido
com babados que faziam jogo com o bordado da  saia.  Escovou  o  cabelo  at
conseguir que resplandecesse e fez um coque ao estilo  Pompadour,  algo  que
raras vezes tinha tido tempo de fazer desde sua chegada  granja.  Em  geral
estava muito ocupada para poder  permitir-se  tais  luxos,  mas  essa  manh
estava decidida a ter o melhor aspecto possvel. Que ele se desse  conta  do
que perdia!
       Juliet  entrou  na  cozinha,  onde  encontrou  a  Henrietta   ocupada
preparando umas bolachas. O toucinho chispava na frigideira, e  o  aroma  do
caf impregnava o ambiente. Um cesto de ovos  descansava  sobre  a  mesa  ao
lado de uma terrina. Henrietta se voltou quando Juliet entrou e sorriu.
      - Que bonita est.
      - Obrigada. - O sorriso de Juliet  no  se  refletia  em  seus  olhos.
Henrietta suspirou, mas no acrescentou nada mais. Em vez  disso,  voltou-se
para a mesa de trabalho e  continuou  cortando  bolachas  com  mais  empenho
ainda, enquanto movia um pouco a cabea e murmurava umas palavras.
      Juliet colocou um avental para proteger o vestido e foi  em  busca  de
um garfo para bater os ovos. As duas  mulheres  trabalharam  com  rapidez  e
eficcia, e a maior parte do tempo no trocaram palavra alguma.
      Por fim, com o tom de  algum  que    incapaz  de  agentar-se  mais,
Henrietta se voltou para Juliet.
      - Ele quer que fique - falou de supeto, - sabe.
      Juliet a olhou, surpreendida.
      - Amos?
      - Pois claro que me refiro a Amos. De que outra pessoa quer que fale?
      O rosto de Juliet se entristeceu.
      - Quem dera  fosse  assim.  Mas  no  vejo  motivos  que  apiem  suas
palavras.
      Henrietta agitou  a  mo  com  impacincia,  fazendo  caso  omisso  da
objeo do Juliet.
      - Ele no quer admitir, mas eu  sei  que    verdade.  Simplesmente  
muito teimoso e tem muito medo de lhe pedir isso.
      Juliet esboou um dbil sorriso.
      - Amos, medo?
      - Claro que tem medo. S porque  um grandalho e no importa  a  quem
ofende no significa que no o assuste um sentimento que se  v  incapaz  de
controlar ou uma mulher que possivelmente o recuse.
      - Certa de que deve saber...  -  Juliet  se  interrompeu  de  repente,
mordendo o lbio inferior, e se ruborizou  ao  dar-se  conta  do  que  tinha
estado a ponto de revelar.
      - Que voc tem tantos desejos de  ficar  como  ele  de  que  fique?  -
Henrietta aventurou uma resposta. - No. Amos    inteligente  para  algumas
coisas, mas quando se trata dos sentimentos das pessoas, os seus  ou  os  de
outros,  um perfeito imbecil. -  interrompeu-se,  pensativa.  -  No,  isso
tampouco  certo. Acredito..., bom, acredito que o  feriram  muito  faz  uns
anos, certamente a me de Ethan, embora ningum  esteja  seguro  porque  no
quer falar disso. Em qualquer caso,   possvel  que  tema  confiar  em  uma
mulher. Assusta-o confiar em algum. O que ocorreria se  acreditasse  que  o
ama e depois descobrisse que estava errado? Para ele  seria  uma  verdadeira
catstrofe. De modo que se agarra ao que parece seguro.
      Juliet suspirou.
      - Possivelmente tenha razo. Embora, de verdade,  eu  tendo  a  pensar
que no lhe importo.
      - J vejo que Amos no  o nico que tem medo de sair maltratado.
      - No posso obrig-lo a deixar-me  permanecer  aqui.  Ofereci-me  para
permanecer aqui sem que tenha que casar-se comigo.
      - Nem fale nisso.
      - Que outra coisa resta fazer? No posso lhe dizer que quero me  casar
com ele se no me pedir, verdade? No posso pedir que se case comigo!
      - Com um homem como esse,  mais ou menos  o  que  se  tem  que  fazer
-murmurou Henrietta. A seguir encolheu os ombros. - Suponho que  tem  razo.
Mas  irritante ver duas pessoas que desejam o mesmo e nenhuma  das  duas  o
confessa  outra.
      - No acredito que Amos deseje o mesmo que eu.
      - Eu no estaria to segura.
      - Se me pedir que me case com ele, ser s porque   mais  conveniente
isso que contratar a outra governanta.
      - Isso no  certo. Estou segura de que...
      As palavras de Henrietta ficaram interrompidas ao  abrir  a  porta  de
atrs. Amos entrou e deu uma rpida olhada para onde estava  Juliet.  Depois
daquilo fez todo o possvel  para  no  olh-la  enquanto  se  lavava  e  se
sentava  mesa. Juliet preparou os ovos, evitando com  o  mesmo  empenho  os
olhos de Amos. Henrietta olhou de um ao outro, e conteve um suspiro.
      Enquanto Juliet servia os ovos, abriu-se de novo  a  porta,  e  entrou
Ethan. Dirigiu um leve sorriso a Juliet, o rosto entristecido.
      - Bom dia. - tirou o chapu e ficou de  p  um  momento,  olhando-a  e
dando voltas ao chapu entre os dedos. - Ainda tm inteno  de  retornar  a
Steadman esta manh?
      Henrietta assentiu.
      - Sim. Retornaremos ao povoado.
      - No poderia ficar um par de dias mais, tia  Henrietta?  -  perguntou
Ethan esperanado.
      Henrietta duvidou.
      - No. No tem sentido, Ethan. S conseguiremos  que  a  partida  seja
mais dolorosa.
      - Possivelmente com um pouco mais de tempo nos ocorra alguma forma  de
que Juliet possa ficar.
      -  impossvel - Amos falou pela primeira vez, o tom penetrante.
      - No entendo por que - replicou Ethan.
      Amos lhe dirigiu um olhar severo.
      - J est decidido, filho. Se esquea deste assunto  e  sente-se  para
tomar o caf da manh.
      Ethan lhe dirigiu um olhar de contrariedade, mas pendurou  seu  chapu
do cabideiro e foi lavar as mos. Juliet e Henrietta  serviram  o  resto  do
caf da manh, e se sentaram agentando um insuportvel  e  silencioso  caf
da manh. De vez em quando, Ethan olhava de esguelha a Amos ou a Juliet  com
perplexa frustrao. Tambm Henrietta os olhava  enquanto  comia,  embora  o
seu no era um olhar de perplexidade, mas sim de irritao.
      Depois do caf da manh, Henrietta e Juliet recolheram os pratos. Amos
e Ethan permaneciam sentados, mas Amos no podia deixar de seguir  a  Juliet
com a vista. Sabia que essa seria a ltima vez que a  veria  fazer  isso.  A
ltima vez que a veria em sua casa, cuidando dele. A ltima vez que  estaria
perto dela.
      Para Amos estava difcil respirar naquela manh. Sabia que ele e Ethan
deviam sair da casa e comear  a  tarefa.  Mas  no  conseguia  levantar-se.
Atrasou-se, olhando a Juliet. Seu filho o observava com ateno.
      - Ser melhor que acabe de fazer a bagagem - disse ela sem  dirigir-se
a ningum em  particular  quando  os  pratos  ficaram  livres  de  restos  e
colocados na pia.
      Ningum respondeu.  Lentamente  saiu  do  quarto.  Ao  ouvir  como  se
fechava a porta de seu quarto, Ethan ficou em p de um salto.
      - Por que no diz algo? - explorou, dirigindo-se a  seu  pai.  -  Como
fica to tranqilo deixando que se v desta forma?
      - No posso obrig-la a que fique Ethan - assinalou Amos, a voz  tona
e razovel. -  uma mulher maior de idade; pode ir-se aonde queira.
      - Pois ela no quer ir a Steadman, asseguro-lhe isso.  No  precisaria
obrig-la a que fique. S o que tem que fazer  pedir-lhe.
      - No seria uma boa idia. J ouviu ontem  noite o que disse sua tia:
acabaria com o bom nome de Juliet.
      - Pois case com ela! Por que no pediu que se casasse  com  voc?  Tia
Henrietta me explicou isso ontem  noite, e tem sentido.
      - No funcionaria.
      - Como sabe? No est disposto a tent-lo. Nem sequer quer pedir!
      - A convenincia no  motivo suficiente para um matrimnio.
      - Convenincia! - exclamou Ethan. - Tratar-se-ia  to  somente  disso?
No sente nada por ela? No sentir falta dela? Eu j sinto  falta  dela,  e
ainda est aqui. Amo-a. Foi como uma irm para mim. Como no sente algo  por
ela? -  Ao  ver  que  seu  pai  no  respondia,  e  que  continuava  olhando
teimosamente pra frente, Ethan  exclamou:  -  Qualquer  pessoa  com  o  meio
corao a amaria!
      Deu meia volta e saiu  correndo  do  quarto,  seus  grandes  botas  de
trabalho fazendo um forte rudo no  exterior.  Amos  suspirou  e  apoiou  os
cotovelos sobre a mesa, sustentando-a cabea com as mos. Henrietta o  olhou
de esguelha, mas no disse nada, limitando-se a lavar os pratos.
      Juliet entrou na cozinha poucos  minutos  depois,  carregada  com  sua
mala de viagem, a bolsa, e o chapu colocado.
      - Estou preparada, Henrietta.
      - Sim. Eu Tambm. - Henrietta se afastou da pia,  onde  tinha  deixado
os pratos limpos e brancos.  -  Enquanto  seca  isto,  porei  o  chapu.  -E
abandonou o cmodo.
      Dcil, Juliet se dirigiu para a pia e secou os pratos. Era  consciente
da presena de Amos na cozinha, embora no dissesse nada. Desejava  que  ele
ficasse em p de um salto, dirigisse-se a ela,  abraasse-a  e  rogasse  que
no partisse. Desejava tanto que Amos quisesse casar-se com ela!
      Henrietta retornou  cozinha com sua pequena bolsa de viagem na mo.
      - Amos, ter que subir com o ba de  Juliet.  E  ter  que  colocar  o
cavalo.
      Amos assentiu e percorreu o corredor at o quarto  de  Juliet.  Estava
de novo vazia, nua e sem os sinais de vida que Juliet lhe  tinha  dado.  No
havia decorao, laos, nenhum  artigo  feminino  sobre  a  cmoda.  Teve  a
sensao de que o corao oprimia seu peito; mas fez um esforo, recolheu  o
ba e o levou pelo corredor at o alpendre.
      A seguir se dirigiu ao celeiro e, a contra gosto, colocou o cavalo  de
Henrietta no carro em que tinham viajado ela e Samuel.  Seus  dedos  estavam
lentos, mas por  fim  acabou  a  tarefa.  Percorreu  na  carruagem  a  curta
distncia que o separava da casa, onde Henrietta e Juliet  esperavam.  Ethan
no estava por perto. Amos sabia como se sentia. Tambm  ele  teria  querido
escapar e esconder-se em algum lugar, para no  ver  Juliet  desaparecer  de
sua vida.
      Desceu do carro e ficou junto a ele. No tinha coragem de  olhar  para
Juliet. Mas tampouco suportava a idia de perd-la.
      - Bom, adeus, Amos - disse Henrietta algo seca,  subindo  ao  carro  e
agarrando as rdeas. - Buscarei outra governanta. Dessa vez  me  assegurarei
de que seja uma mulher mais velha.
      Amos queria lhe dizer que se esquecesse do assunto, que  no  desejava
ter governanta, mas  aquilo  seria  mais  absurdo.  Claro  que  necessitaria
algum que limpasse a casa e cozinhasse. Ele e Ethan  no  podiam  ocupar-se
da casa, alm de dedicar-se s tarefas do campo. Mas  algo  se  rebelava  em
seu interior quando pensava que outra pessoa ocuparia o lugar de  Juliet  na
casa. Seria terrvel. Cada vez que a  olhasse  se  lembraria  de  Juliet,  e
pensaria que no era certa se comparada a Juliet. Recordaria a ele o  quanto
sentia falta dela.
      Juliet rodeou a carruagem e  subiu  pelo  outro  lado.  Virou-se  para
Amos.
      - Adeus.
      Sua voz tremeu ao pronunciar a palavra, e apertou os  lbios,  incapaz
de dizer nada sem comear  a  chorar.  Amos  assentiu  brevemente,  mas  no
pronunciou uma palavra. O  olhos  de  Juliet  se  alagaram  de  lgrimas,  e
agarrou a bolsa com fora.
      Amos pegou o  ba  e  o  carregou  na  parte  traseira  da  carruagem.
Retrocedeu e olhou para Juliet. Em uns poucos segundos  teria  desaparecido,
e no sabia como ia suportar.
      Henrietta utilizou as rdeas para fustigar ao cavalo.
      - Adiante!
      Juliet afundou os dedos mais profundamente na bolsa de tecido. No  se
atrevia a olhar para trs e ver Amos. Oh, se lhes dissesse que parassem!  Se
s lhe pedisse que ficasse!
      Amos ficou olhando como o carro  se  afastava  da  casa  e  cruzava  o
ptio. Parecia que algum lhe arrancava o corao ao ver o  carro  cada  vez
mais longe. Queria que ela ficasse. Um minuto mais, e  teriam  desaparecido.
No. Nunca a teria; jamais chegaria a conhec-la; no  voltaria  a  ver  seu
sorriso.
      - Juliet! - Ps-se a correr atrs da carruagem. - Juliet!  Espera!
      O corao de Juliet deu um salto, e se voltou no assento para olhar  a
Amos. Corria atrs delas! Olhou de novo pra frente, o  corao  pulsando  no
peito como se estivesse a ponto de sair dali.
      Henrietta deteve o cavalo, um sorriso iluminou seu rosto.
      Com cuidado adotou de novo uma expresso  neutra,  e  se  voltou  para
Amos com rosto interrogante.
      - Sim? Esqueceu que algo, Amos?
      O homem se aproximou correndo para Juliet e se deteve.  Respirava  com
dificuldade por causa da carreira.
      - Espera. No v. Eu... Temos que falar sobre tudo isto.
      - Falar do que, Amos? - perguntou Henrietta com ar inocente.
      - Quer falar comigo? - disse Juliet. No sabia o que dizer,  de  fato,
no se atrevia nem a respirar.
       - Sim. Eu... - Amos a olhou. - Ns...  bom,  possivelmente  no  seja
to m idia. Refiro-me... o que dizia Henrietta.  certo que necessito  uma
esposa, e voc estaria muito melhor casada que voltando  para  o  teatro.  A
verdade... Ethan a ama muito, e nunca teve uma  verdadeira  me.  Seria  bom
para ele estar perto de  uma  mulher  boa,  uma  mulher  agradvel.  A  casa
necessita do toque de uma mulher; tem muito melhor aspecto  desde  que  voc
est aqui. J sabe, as cortinas e as flores...
      Juliet escutou seu discurso a respeito das vantagens de estar  casado.
No sabia muito bem se rir ou chorar. Parecia estar a ponto  de  lhe  propor
matrimnio, entretanto suas razes eram to mundanas, to pouco  romnticas.
Referia-se mais a um  acerto  de  mtuo  benefcio  que  a  querer  casar-se
verdadeiramente com ela.
      - Eu cuidaria bem de voc;  nunca  faltaria  nada  -  continuou  Amos,
esfregando as mos nas calas  nervoso.  -  Eu...    uma  boa  casa.  Tenho
dinheiro no banco e uma  granja  estupenda,  uma  das  melhores  da  zona...
pergunte a qualquer um.
      Fez uma pausa, e Juliet se perguntou se devia dizer alguma coisa.  Mas
o que? Ele no tinha feito pergunta alguma.
      -  uma boa granja - assentiu ela ao acaso. - Uma boa casa.
      - Oh, pelo amor de Deus - murmurou Henrietta ao  seu  lado.  -  Vamos!
Acredito que nunca chegariam a  isso  se  no  fosse  por  mim.  Amos,  est
tentando pedir a esta garota que se case com voc?
      Amos pareceu contrariado, mas o admitiu.
      - Bom, sim, suponho que sim.
      - Ento, pea-lhe.
      As bochechas de  Amos  se  ruborizaram,  mas  olhou  diretamente  para
Juliet.
      - Juliet, estaria disposta a se casar comigo?
      - Oh, Amos! - O  corao  de  Juliet  era  como  um  pssaro  tentando
escapar de seu peito. Brotaram-lhe as lgrimas, e teve que  engolir  saliva.
No podia tornar a chorar nesse momento.
      - E ento? - Henrietta se voltou para Juliet, impaciente ao  ver  suas
dvidas. - O que responde?
      - Sim. - A voz de Juliet foi um mero sussurro. Clareou a garganta e  o
tentou de novo. - Sim, ser um prazer me casar com voc.
      Amos ficou olhando, atnito.
      - De verdade?
      Juliet assentiu.
      - No fique  pasmado,  Amos,  ou  Juliet  comear  a  pensar  que  se
equivocou - aconselhou Henrietta, reprimindo um sorriso.
      - Eu... bom, est... bem. - Um sorriso comeou a iluminar  seu  rosto,
em contraste com suas pouco entusiastas palavras.
      - Mais apropriado seria dizer que  um milagre -  disse-lhe  Henrietta
com fingido azedume. - Quando se celebram as bodas?
      Juliet afastou o olhar de Amos e a dirigiu para a Henrietta.
      - No sei. No tinha pensado. - Voltou a olhar a Amos,  desejando  que
a descesse da carruagem e a beijasse nos lbios. Desejava que  a  envolvesse
em um forte abrao e dissesse o muito que se alegrava  de  que  ela  tivesse
aceitado ser sua mulher. Perguntou-se como se sentia no fundo de sua alma.
      - Ter que celebrar-se logo - decretou Henrietta. -  No  tem  sentido
esperar; a casa necessita uma mulher rapidamente. E o vero  uma  poca  de
muito trabalho. - No acrescentou que temia  que  o  casal  se  arrependesse
cancelando as bodas se esperassem. - Acredito que em duas semanas  h  tempo
suficiente para preparar tudo. Parece-lhes bem no sbado em sete dias?
      - To cedo? - Juliet piscou, mas a  seguir  concordou.  -  De  acordo.
Suponho que no h razo para esperar. Mas e quanto a Frances?  Faleceu  to
recentemente...
      - Frances seria a primeira em lhes desejar sorte, e ambos sabem.  Nada
a faria mais feliz que v-la casada com Amos. Seria a primeira a  dizer  que
seguissem adiante. - voltou-se para Amos. - Est bem no sbado?
      Ele concordou.
      - Muito bem, ento ser melhor que  se  afaste  e  nos  deixe  partir.
Ficam milhares de coisas por fazer para estarem preparados a tempo.
      Amos ficou boquiaberto.
      - O que? Quer dizer que partem? Que vai levar Juliet?
      - Claro. S porque vai casar com ela no significa que esteja bem  que
fique aqui durante quase duas semanas. Agora h mais razes ainda  para  no
provocar falatrios. No querer  que  todo  mundo  fale  de  sua  mulher  e
especule a respeito das razes que o levaram a se casar com ela. Juliet  vem
para casa comigo, e prepararemos a cerimnia.  As  bodas  se  celebraro  no
povoado.
      - Ah. Sim. Claro que sim. - Amos retrocedeu a contra  gosto.  Olhou  a
Juliet. Sua esposa!
      - Adeus, Amos - disse Juliet.
      - Adeus.
      Henrietta ps de novo a carruagem em  marcha,  e  se  afastaram.  Amos
ficou olhando at que desapareceram no horizonte.  Ento  girou  sobre  seus
calcanhares e retornou pra casa.
      Ia casar-se! De repente, Amos comeou a  sorrir.  E  depois  a  rir  a
gargalhadas. Se tivesse consigo o chapu o teria atirado  ao  ar.  Tal  como
estavam as coisas, retornou pra casa a grandes  passos,  o  rosto  iluminado
por um sorriso. Juliet ia casar-se com ele!
      Para Juliet pareceram duas semanas interminveis. E no porque tivesse
pouco que fazer; aquilo era impossvel na  casa  de  Henrietta  Morgan.  Mas
assim que se afastou da granja, comeou a sentir  falta:  recolher  os  ovos
pela manh, os bezerros com seus ossudos joelhos, afugentados  pelos  rudos
e os movimentos; a risada de Ethan, e ento se  perguntou  se  o  menino  se
lembraria de regar a horta. Era incapaz de imaginar-se  como  se  arrumariam
seu pai e ele durante duas semanas sem ningum que cuidasse deles.
      E mais que a nada nem a ningum, sentia falta de  Amos.  Desejava  sua
slida presena. O aroma de seu cachimbo pelas noites. O rugido de  sua  voz
no quarto contguo ou os escassos sorrisos quando ele dizia algo  divertido.
At juraria que s vezes sentia falta de seu silncio.
      Nunca havia um momento de tranqilidade na casa da Henrietta. A  todas
as horas subiam e desciam os hspedes  de  seus  quartos  ou  se  ouviam  as
pisadas na calada de madeira ou o bate-papo da donzela ou de  um  empregado
ou de um cliente. Em ocasies  dava  a  sensao  de  que  o  mundo  inteiro
passava pela frente da porta do  pequeno  apartamento  dos  Morgan.  Se  por
acaso fosse pouco, a mesma Henrietta enchia com sua  voz  qualquer  silncio
que se produzira, falando sem cessar enquanto  trabalhava.  Quando  no  era
assim, arrastava a Juliet daqui para l; para  conhecer  esta  pessoa,  para
provar o vestido na costureira ou para  comprar  um  vu  na  chapelaria.  A
lista de tarefas era interminvel. Para Juliet,  acostumada  como  estava  
solido da granja, tudo aquilo lhe pareceu uma incessante mescla de  pessoas
e rudo.
      Havia momentos em que Juliet suspeitava que Henrietta no a perdia  de
vista, por temor a que partisse deixando a Amos composto e sem  noiva.  Como
se ela fosse fazer uma coisa assim! Mas Juliet comeava a dar-se conta  que,
por muito que Henrietta quisesse a seu cunhado, no fundo do seu corao  no
acreditava ainda que houvesse mulher disposta a casar-se com ele.
      Amos foi visitar Juliet no sbado seguinte, e permaneceram calados  no
pequeno salo dos Morgan, olhando-se e falando pouco. Amos  parecia  sentir-
se incmodo e desconjurado com seu traje negro de festa e a  camisa  branca,
as mos unidas sobre seu regao. Juliet, que se sentia  bem  com  a  maioria
das pessoas e cmoda com Amos na granja, tanto se falava como se  permanecia
calado, sentia-se incomodada. Henrietta e Samuel permaneceram no  salo  com
eles, e sua presena no  fez  mais  que  agravar  a  situao.  Nem  sequer
Henrietta era capaz de manter uma conversao unilateral e Juliet se  sentia
muito envergonhada para ajud-la.
      Por fim, Henrietta se lembrou de um recado que devia dar sem falta.
      - E ser melhor que  voc  se  dedique    contabilidade  esta  tarde,
Samuel -disse a seu marido.
      - O que? Que contabilidade?  -  Samuel  a  olhou,  confuso.  Henrietta
arqueou as sobrancelhas e lanou um olhar de soslaio a Amos e Juliet.
      - J sabe, querido, a contabilidade do hotel.
      - Mas se j o fiz ontem. Alm disso, Amos veio a nos visitar.
      - Sei. - Henrietta fez  umas  estranhas  caretas,  assinalando  com  a
cabea a Amos, e a seguir a Juliet.  -  Mas  detectou  um  engano,  querido,
disse que queria refazer. No se lembra?
      - O que?
      - Alm disso, estou segura de que Amos e Juliet ficaro  perfeitamente
bem  sozinhos. No  verdade?
      Obedientes, concordaram. De repente, a  confusa  expresso  do  Samuel
desapareceu.
      - Oh! Oh! Entendo. Sim, claro que sim,  o  engano.  Na  contabilidade.
Sim, um verdadeiro problema. Esse engano. Sim. Ser melhor que  me  ponha  a
trabalhar imediatamente.
      Juliet apertou os lbios para reprimir um sorriso. No  se  atrevia  a
olhar a Amos por temor de comear a rir. Mas  assim  que  o  casal  saiu  da
sala, deixando a porta  discretamente  entreaberta,  olhou-o.  Os  olhos  do
homem mostravam diverso, e sua boca se movia perigosamente.  Juliet  ps-se
a rir, e Amos fez o mesmo.
      - Graas a Deus! - exclamou ele. - Pensei que nunca sairiam. No sabia
que Samuel pudesse ser to louco.
      Juliet pensou que talvez se devesse mais ao fato de que Samuel  estava
to acostumado ao celibato  e    natureza  spera  de  seu  irmo  que  no
imaginava que Amos quisesse estar a ss com sua prometida.
      -  mais fcil falar sem ter pblico presente. No sei como  um  homem
consegue suportar semanas... meses de visitas a uma garota e a sua famlia.
      -Como est a granja? -perguntou Juliet, inclinando-se e rodeando  seus
joelhos com as mos.
      - Suja - respondeu Amos sucinto. - Ethan e eu no comemos  uma  comida
decente desde que foi.
      Bom, resultava bvio que sentia falta dela, pensou Juliet, embora  por
razes no muito romnticas.
      - Mas Henrietta disse que mandaria  s  donzelas  do  hotel  para  que
limpassem a casa antes das bodas, de modo que  tudo  estivesse  em  ordem  -
continuou dizendo ele.
      - Que detalhe!
      - Fomos tirando as ervas ms da horta - assegurou-lhe  Amos.  -  Ethan
fez um espantalho com uns trapos para p-lo na macieira  e  impedir  que  os
pssaros  se  aproximem.  As  amoreiras  do  riacho  transbordam  de  amoras
amadurecidas.
      - Bem. Tentarei fazer conservas.
      Aparentemente, Amos tinha chegado ao final de seu relatrio a respeito
da granja, e a conversao se interrompeu de novo. Juliet se  perguntou  por
que agora se sentia to incmoda sentada em silencio com  ele,  se  o  tinha
feito tantas vezes na granja. Mas, claro est, na granja no  tinham  planos
para casar-se em uma semana. Ento no tinha pensado em que ao cabo  de  uns
dias compartilhariam a cama.
      Olhou-se as mos, desejando que Amos no  tivesse  nem  idia  do  que
estava pensando. Amos se moveu na cadeira.
      - Oh! Espera, trouxe-te algo. Est l fora. Aguarda um momento.
      Levantou-se e saiu da sala retornando aps uns segundos com uma  caixa
de madeira. Ao entregar-lhe Juliet a reconheceu.
      - Mas, Amos!  a caixa de msica de sua me!
      Ele assentiu.
      - Mas  sua.
      Por que me d isso?
      - De fato, pertencia a Frances, e foi ela quem  pediu  que  lhe  desse
isso. Queria que fosse sua depois  que  morresse.  Os  olhos  de  Juliet  se
encheram de lgrimas.
      - Que bonito. - Agarrou a caixa entre suas mos, roando com os  dedos
a superfcie de nogueira. -  to bela. Guardarei para sempre.
      - Abra-a.
      Saudosa, Juliet lhe  obedeceu.  Ouviu-se  a  habitual  msica,  que  a
recordou aquelas noites na cozinha quando danava com Ethan e Amos.  Conteve
as lgrimas.     Havia algo mais na  caixa.  No  fundo,  sobre  um  elegante
forro de veludo vermelho, viu uns brincos de azeviche com um  colar  fazendo
jogo. Junto a eles, um camafeu e outros brincos de prolas.
      Levantou a vista para olhar a Amos, atnita.
      - No entendo. O que  isto? Quero dizer...
      - Algumas das jias de minha me. As peas mais  bonitas.  Repartiu-as
entre ns trs. Henrietta tem o que mame deixou ao Samuel, e eu... bom,  as
minhas deveriam ser para minha esposa.
      Que estranho, pensou ela, ouvi-lo dizer minha esposa. De  repente  lhe
pareceu muito mais real.
      - So preciosas. Mas est seguro de que quer que sejam para mim? Quero
dizer, pertenciam a sua me. No prefere guard-las?
      Amos negou com a cabea.
      - No. Ela teria desejado que fossem para voc; gostaria muito.  Diria
 que eu sou um homem com sorte. - Afastou  o  olhar,  muito  interessado  de
repente no tapete de Henrietta. - J sei que sou um  homem  afortunado.  Com
sorte; embora no muito bom na hora de dizer coisas assim. Mas as sinto.
      - Obrigada. Ser um orgulho para mim us-las.
      - Tenho outra coisa para voc. No  estou  muito  seguro  de  que  vai
gostar. -Tirou uma pequena bolsa negra de um bolso do casaco e a entregou.
      Curiosa, Juliet pegou a bolsinha e a abriu.
      - Amos!
      Ficou boquiaberta, e extraiu dela um longo colar de prolas brancas.
      - So preciosas! - Estava maravilhada. Olhou-o. - Eram tambm  de  sua
me?
      Ele negou com a cabea.
      - No. Comprei-as para voc. Como presente de  bodas.  Peguei  o  trem
para Omaha faz uns dias e fui ao joalheiro. - Pareceu ficar duvidoso. -  Mas
quando disse a Henrietta o que tinha comprado disse que  as  prolas  trazem
m sorte  noiva.
      - Tolices. Estas so muito belas para trazer m  sorte  a  algum.  Me
disseram que as prolas so lgrimas para  uma  noiva.  No  me  importa.  -
Ficou olhando, os olhos resplandecentes como safiras. - No posso  acreditar
que tenha feito isto por mim, ir a Omaha e tudo.
      Amos encolheu os ombros, envergonhado.
      - Bom, supe-se que devo comprar um  presente    noiva.  Um  anel  de
compromisso me pareceu uma  tolice,  j  que  s  estaremos  prometidos  uma
semana mais. Henrietta no me deixou muito tempo, de  modo  que  pensei  que
seria melhor ir compr-lo em Omaha.  Quando  vi  o  colar  na  joalheria  me
pareceu que parecia com voc. To belo, quero dizer,  e  no  to  reluzente
como as outras jias. Era quente, sabe, como sua voz ou seu cabelo.
      Juliet abriu o fecho e lhe estendeu o colar.
      - Ajuda-me a pr isso.
      Ele assentiu. Sustentou os dois extremos do colar entre  os  dedos,  e
Juliet se aproximou, ficando de costas para ele para que  pudesse  fech-lo.
Seus dedos lutaram torpes com o fecho, mas ao fim  conseguiu  unir  os  dois
lados. Depois roou os ombros de Juliet com os dedos,  detendo  um  instante
antes de afastar-se.
      Juliet deu um passo adiante e se voltou.
      - O que lhe parecem?
      - Preciosas - respondeu ele com simplicidade.
      O sorriso de Juliet era como um raio de sol.
      - Obrigada, obrigada, obrigada. Eu adorei.
      Impulsiva, estendeu o brao e lhe agarrou uma mo entre as  suas.  Era
enorme e spera, e o roar de sua  pele  produziu  um  calafrio  em  Juliet.
Recordou uma vez mais  a  intimidade  fsica  que  logo  compartilhariam,  e
sentiu nsia e um pouco de temor.
      - Amos... tenho que dizer uma coisa.
      Amos apertou as mandbulas, e a suspeita apareceu em seu olhar.
      - O que?
      - No  um tema do que  normalmente  falaria,  mas  acredito  que  tem
direito de saber, j que vai casar comigo. Sei que dado ao  meu  passado  no
teatro e tudo isso, voc teria dvidas a respeito de mim...  bom,  de  minha
virtude no passado. Em qualquer caso, quero que saiba que nunca  estive  com
outro homem. No sou uma inocente garota de dezesseis anos, mas tampouco  me
comportei como uma qualquer. Chego ao matrimnio to pura como o  resto  das
mulheres.
      De repente sentiu  o  calor  da  mo  de  Amos,  e  Juliet  ouviu  sua
entrecortada respirao.
      - J sei. Faz muito tempo que eu disse que equivoquei-me ao julg-la.
      - Sei. Compreendeu que  no  era  uma...  uma  prostituta,  mas  no
estava segura de que no temesse que minha  moral  fosse...,  digamos,  mais
relaxada que a do resto das mulheres. Por isso  desejo  que  saiba  que  sou
virgem.
      - No tinha que me dizer. Eu estava seguro disso. Em qualquer caso, se
no o fosse, sei que no teria sido por sua maldade. Alm  disso,  quem  sou
eu para dar aulas de moral a algum?
      Juliet lhe dirigiu um sorriso.
      -  um homem bom. Isso  o que . Um homem bom.
      O dia das bodas amanheceu limpo e resplandecente, e ao chegar a tarde,
o pequeno povoado de Steadman padecia do intenso calor de finais  de  junho.
Juliet no o percebeu; estava to nervosa que tinha os ps  e  as  mos  to
frias como em pleno inverno, e s o no que podia pensar era  que  dentro  de
umas horas seria a senhora de Amos Morgan, unida a ele de forma  irrevogvel
para o resto de seus dias.
      Casaram-se  na  singela  caiada  igreja  metodista  do  povoado,  onde
Henrietta era uma autoridade. Juliet se sentiu muito melhor quando viu  Amos
esperando-a no altar. Parecia mais assustado que ela ainda,  e  Juliet  teve
que reprimir a risada.  O  bvio  nervosismo  dele  a  tranqilizou.  Quando
agarrou sua mo comprovou que a tinha fria como o gelo.  O  que  aconteceria
se um dos dois desmaiasse ali mesmo? Juliet estava segura de  que  seria  um
escndalo que perduraria nos anais de Steadman.
      Mas nenhum dos dois desmaiou. Conseguiram responder s  perguntas  com
voz clara e serena. Uma vez  finalizada  a  cerimnia  saram  da  igreja  e
Juliet se  sentiu  muito  aliviada.  O  mundo  parecia  de  novo  tranqilo,
resplandecente e cordato. Seguia um pouco nervosa, mas estava segura de  ter
feito o correto.
      Levantou a vista para Amos e descobriu que ele a estava  olhando.  Seu
rosto  tinha  recuperado  a  cor,  e  Juliet  suspeitou  que   a   expresso
esperanada de seu rosto devia ser idntica a dela. Relaxou, rindo,  e  Amos
lhe devolveu o sorriso.
      - Graas a Deus que terminou - comentou ele, lhe  segurando  com  mais
firmeza a mo, e, sorridentes, desceram pela escadinha da igreja.
Captulo 15.
      Amos olhou para Juliet de lado, sentada  junto  a  ele  na  carruagem,
quando foram pegar o atalho que conduzia da estrada    granja.  Sentindo  o
olhar, ela se voltou e lhe sorriu. Era to bela que a Amos doa  o  corao.
Devolveu-lhe o  sorriso  tremulante,  desejando  saber,  pela  milsima  vez
naquelas duas ltimas semanas, por que tinha consentido em casar-se com  ele
e o que teria que fazer ele para faz-la feliz.
      A vida na granja pareceu muito solitria sem a presena de Juliet.  Os
dias tinham transcorrido com lentido e as comidas ruins e  a  enorme  pilha
de pratos sujos na pia tinham jogado um papel minsculo  no  desejo  de  que
Juliet voltasse para a casa.
      Ele sabia que a desejava. Fazia semanas que lhe ocorria, quase desde o
dia de  sua  chegada.  Muitas  noites  se  viu  assediado  por  calorosos  e
ofegantes sonhos com ela. Tinham continuado;  estava  seguro  de  que  assim
seria. Mas o que no esperava era a saudade, no fsica e sim  a  emocional,
que tinha pesado em seu interior como uma parte de  chumbo.  De  repente  se
sentia desolado, como se o sol  se  ocultasse  para  sempre  detrs  de  uma
nuvem. Sentia falta das risadas, os sorrisos e a voz de  Juliet.  Comeou  a
descobrir que esse tipo de  tristeza  resultava  pior  ainda  que  o  desejo
sexual, que era um constante companheiro. Jamais desaparecia, e  nem  sequer
conseguia esquec-la quando ficava a esculpir. Tinha tentado fazer um  rosto
divertido de um tronco cansado de  um  lamo,  mas  tinha  sido  incapaz  de
concentrar-se, e descobriu que, em vez de um simptico duende, a  figura  ia
convertendo-se numa magra ninfa aparecendo por detrs de uma btula  com  um
sorriso provocador com os vestidos e o cabelo fluindo da madeira.  A  ninfa,
 obvio, tinha o rosto de Juliet. No estava seguro se a  pea  agradaria  a
sua esposa, de modo que a deixou no celeiro, pendurada da parede  sobre  sua
mesa de trabalho, onde podia contempl-la cada vez que levantava a vista.
      Deu-se conta de que pedir a Juliet que se casasse com ele  tinha  sido
a nica soluo possvel de sua vida. Sem ter absolutamente inteno  disso,
apaixonou-se por ela, tanto que a teimosia juvenil com a me  de  Ethan  lhe
parecia algo irrisrio em comparao com o que sentia por Juliet.
      O que ele estranhava era que ela  tivesse  aceitado  a  proposta.  Por
que, uma sofisticada garota de cidade, aceitaria viver para o resto  de  sua
vida numa granja de Nebraska? Por que, uma mulher to bela como Juliet,  que
podia escolher entre todos os homens do mundo, consentiria em  casar-se  com
um mal-humorado solteiro doze anos mais velho que ela?  Se  fosse  qualquer
outra mulher, teria dito com cinismo que sabia que um homem doze  anos  mais
velho morreria antes, lhe deixando umas boas economias  e  uma  granja.  Mas
no era o caso de Juliet.
      Era tentador possivelmente pensar que realmente  queria  casar-se  com
ele. Talvez tambm ela se apaixonou. Afinal, o beijo  que  lhe  deu  naquela
noite depois do baile foi apaixonado. Possivelmente no se  viu  obrigada  a
faz-lo porque trabalhava para ele; era possvel que sentisse  um  pouco  de
paixo.
      Mas Amos temia pensar nisso. Por aquele caminho andava  a  destruio.
No podia ser verdade, e quando descobrisse a verdadeira  razo,  sentir-se-
ia devastado.
      Ademais, raciocinava, no tinha por que saber  as  verdadeiras  razes
que a tinham levado a casar-se com ele. Que o  tivesse  feito  bastava.  Era
sua esposa. Aquele pensamento lhe produziu um calafrio de prazer.  Tambm  o
deixava gelado
      Amos deteve a carruagem frente ao alpendre principal. Levantou a vista
para a casa, e depois olhou a Juliet. Ela tambm olhava a casa,  boquiaberta
pela surpresa.
      - Oh, Amos! - Olhou-o e depois o alpendre, como se no acreditasse  no
que estava vendo. - Sabia que me agradaria retornar aqui, mas isto! Flores?
      Amos sorriu, feliz de que sua surpresa fosse to bem aceita. Passou um
orgulhoso olhar pela fila de roseiras plantadas diante  do  alpendre.  Algum
dia, cuidados com amor subiriam pelo  corrimo,  decorando  e  dando  cor  
casa.
      - Voc gosta?
      - Se eu gostei! - Seu sorriso era radiante. - Eu adorei!
      - Obrigado.
      Desceu de um salto da carruagem e correu para as roseiras, inclinando-
se para inspecionar cada um delas, Amos atou as rdeas  ao  corrimo  e  foi
tirar o ba de Juliet da carruagem. Ela subiu correndo  pelas  escadas  para
lhe abrir a porta principal. Amos, com o pesado ba sobre os ombros,  entrou
e subiu. Ao meio do caminho teve dvidas. Por  instinto  se  dirigiu  a  seu
quarto  com  a  bagagem,  mas  ao  faz-lo  algo   lhe   pareceu   estranho.
Possivelmente  estivesse  supondo  muito  levando  o  ba  a   seu   prprio
dormitrio.  Talvez  Juliet  no  quisesse  compartilhar  a  cama  com  ele;
possivelmente no esperava que ele exigisse seus direitos conjugais. Ou  era
possvel que quisesse um tempo ao  menos  para  acostumar-se  ao  matrimnio
antes de submeter-se a semelhante intimidade.
      Por outra parte, Amos no sabia a que outro lugar podia levar  o  ba.
Juliet era  sua  esposa;  seria  ridculo  pr  suas  coisas  no  quarto  de
convidados que ela tinha utilizado antes de casar-se.  Mas  Amos  no  podia
evitar pensar  nas  implicaes  que  supunha  que  o  ba  chegasse  a  seu
dormitrio, e seu corpo se esticou em resposta a aquelas implicaes.
      Voltou-se para a escada. Juliet estava  embaixo,  olhando,  esperando.
Deu meia volta e continuou subindo, sem saber o que fazer. Quando chegou  ao
dormitrio, depositou o ba ao p da cama. Olhou a seu redor  e  de  repente
se deu conta do quo nu e singelo que era o cmodo.
      Ouviram-se as pisadas de Juliet no corredor atrs dele,  e  se  voltou
quando ela cruzava a soleira. Estavam a menos de dois metros  de  distncia.
Sua beleza era assustadora, e ele no  podia  evitar  o  pensamento  de  que
estavam juntos no mesmo dormitrio. Tornou-se difcil respirar;  o  ambiente
parecia espesso, pesado. Perguntou-se o que estaria pensando Juliet  ao  ver
suas coisas naquele lugar.
      - Eu...  Bom...  Suponho  que  no    muito  bonito  -  desculpou-se,
assinalando o quarto com um vago gesto do  brao.  -  Pode  fazer  todas  as
mudanas que queira.
      - Obrigada.
      Ficaram ali de p uns instantes, olhando um ao outro.
      - Bom, ser melhor que v cuidar do cavalo - disse  Amos,  rompendo  o
silncio. - Subirei para voc a outra bolsa.
      Juliet assentiu com a cabea. Amos  saiu  do  quarto  e  desceu  quase
correndo pela escada. Conduziu  a  carruagem  ao  abrigo  e  desenganchou  o
cavalo, soltando-o na estrebaria. No lhe ocorreu nenhuma outra tarefa  para
atrasar a volta pra casa, mas temia voltar.
      Ali estava Juliet, tirando potes e pratos de um cesto. Voltou-se  para
ele e lhe dirigiu um alegre sorriso.
      - Olhe, Henrietta nos mandou uns pratos  frios.  No  parece  uma  boa
idia? Est preparado para jantar?
      Ele  assentiu,  mais  por  ter  algo  que  fazer  que  porque  tivesse
verdadeira fome. Sentaram-se  mesa; parecia estranho estarem  ali  os  dois
sozinhos. Henrietta tinha pedido a Ethan que ficasse um par  de  semanas  no
povoado para que os recm casados pudessem estar a ss um tempo. Amos  tinha
agradecido, mas agora pensou que possivelmente tivessem  estado  melhor  com
Ethan; pelo menos o menino falava com  Juliet.  Certamente  ela  estaria  se
perguntando se tinha casado com  um  caipira,  dado  o  silncio  que  tinha
mantido desde que saram do povoado.
      - Isto est bom - disse ele para romper o silncio. A verdade era que,
embora  tivesse  conseguido  comer  uns  pedaos,  no  os  tinha  saboreado
absolutamente.
      - Sim, verdade? - assentiu Juliet. Amos viu que ela tinha  comido  to
pouco como ele.
      J quase tinha escurecido  quando  abandonaram  a  idia  de   jantar.
Juliet guardou a comida, e Amos  saiu  para  dar  um  passeio  pela  granja.
Esteve mais tempo que o habitual no passeio, olhando  de  vez  em  quando  a
casa, onde a janela de seu quarto aparecia iluminada. Pensou  em  Juliet  no
dormitrio, preparando-se para deitar-se, e o corao  comeou  a  martelar.
Desejava-a com tanto ardor que no sabia se seria possvel deix-la em  paz.
Entretanto, a idia de que o odiasse era pior  que  suportar  uma  noite  ou
duas de paixo insatisfeita.
      Decidido, Amos se endireitou e retornou  casa.  Quando  se  encontrou
diante de seu dormitrio vacilou e se deteve, Juliet se achava de  p  junto
 janela, observando a escura noite. A lmpada estava baixa. Voltou-se  para
ouvir entrar a Amos e se aproximou uns passos a ele.
      Amos engoliu saliva, incapaz de pronunciar palavra. Juliet  usava  uma
camisola branca de  renda,  a  qual,  apesar  de  ser  recatada,  era  quase
transparente devido  luz do abajur que havia detrs  dela.  Distinguiu  com
claridade os seios e as pernas sob o tecido.  O  rosto,  entretanto,  ficava
nas sombras, e no pde ler em sua expresso.
      - Ol, Amos - disse Juliet  para  ajudar  quando  ele  no  pronunciou
palavra, e se limitou a ficar quieto.
      Percebia-se um ligeiro tremor na voz que  fazia  eco  nos  ouvidos  de
Amos. Ela tinha medo.
      Afastou a vista do maravilhoso espetculo de seu corpo.
      - Bom... eu... estou seguro de que se encontrar perfeitamente  cmoda
aqui. H mais mantas no ba sob a janela. Mas, claro, esta  noite  no  far
muito frio.
      Amos se amaldioou por sua estupidez. Ela  devia  pensar  que  era  um
completo idiota, falando de mantas quando durante o dia a temperatura  tinha
subido a 28 C. Pessoalmente, ele tinha tanto calor que estava suando.
      - No, acredito que no - disse Juliet de forma simptica.
      - Eu bom... bom. - Comeou a retroceder para o corredor. - Estarei  no
quarto do Ethan, se necessitar algo.
      - O quarto de Ethan? - perguntou Juliet surpresa.
      - Sim..., isto, a segunda porta, ao outro lado do corredor.
       Retrocedeu  mais  para  a  sada,  e  seguiu  um  ou   dois   passos,
continuando, deteve-se. Ele assinalou o quarto de Ethan, pensando  ao  faz-
lo que estava comportando-se como um idiota. No  o  surpreenderia  que  ela
decidisse que estava louco, e desaparecesse para ir dormir em  outro  quarto
sem dar explicaes. Mas no encontrava as palavras adequadas para  explicar
isso. Temia que falar do tema da unio conjugal,  assegurar  que  no  faria
exigncia, o faria ruborizar-se e gaguejar como um colegial. Como se  falava
de sexo com uma mulher?
      - Estou seguro de que ser  mais  fcil...  -  comeou  dizendo  e  se
interrompeu. - Quero dizer, sabe, se no... bom, ao menos durante um  tempo.
-Sua irritao consigo mesmo ia aumento por segundos, e fez  uma  careta.  -
Boa noite - finalizou de repente, e se virou para cruzar o corredor.
      Juliet ficou onde ele a tinha deixado, atnita. Isso no era o que ela
tinha imaginado que ocorreria na noite  de  suas  bodas.  Deus  sabe,  tinha
estado  nervosa,  insegura,  e  inclusive  temerosa  de  dar  um  passo  to
importante. Mas tambm a excitava, e estava ansiosa de sentir os  braos  de
Amos rodeando  seu  corpo,  saborear  seus  beijos,  descobrir  os  prazeres
ntimos ao compartilhar a  cama.  Evidentemente,  o  que  no  desejava,  ou
esperava, era que Amos dormisse num quarto e ela em outro.
      O que ocorria? Amos a achava pouco atraente?
      Com grande tristeza Juliet se dirigiu  cama e retirou  as  mantas,  a
seguir apagou a lmpada de petrleo.  Perguntou-se  se  Amos  lamentava  seu
impulsivo matrimnio. Mas se aquilo era certo, se no sentia nada  por  ela,
por que tinha plantado as roseiras? Era evidente que o tinha feito por  ela,
e Amos tinha mostrado uma alegria de colegial ao ver seu rosto de  surpresa.
As rosas  lhe  tinham  dado  esperana;  tinha  tido  a  sensao  de  subir
flutuando pelas escadas.
      Mas em poucos segundos tudo tinha mudado. Agora jazia sozinha na  cama
de Amos. O quarto parecia enorme  e  frio  sem  sua  presena.  As  lgrimas
resplandeciam em seus olhos. Juliet se  sentia  sozinha  e  abandonada.  No
sabia como o suportaria se o resto de sua  vida  de  casada  ia  transcorrer
daquela maneira.
      Uma grossa lgrima caiu  de  seu  olho  sobre  o  travesseiro.  Juliet
afundou a cabea no grande travesseiro de plumas e ps-se a chorar.
      No dia seguinte, Amos e Juliet estiveram incmodos e tensos. Juliet se
perguntava, desesperada, se todo seu matrimnio ia ser assim.  Entenderam-se
muito melhor quando ela to somente trabalhava para ele!
      Mas Juliet no era muito dada a deixar que uma situao   como  aquela
durasse muito tempo. Essa noite depois de  jantar,  interceptou  a  Amos  na
cozinha ao retornar de seu passeio  noturno.  Quando  entrou  e  a  viu  ali
sentada, o esperando, deteve-se com tanta brutalidade que a  situao  teria
resultado cmica se Juliet tivesse tido senso de humor naquele momento.
      - Ah. Ol. No esperava que estivesse acordada.
      - J sei. Por isso me encontra aqui. - Juliet ficou de p. - Eu...  eu
quero saber se esta  a vida marital que tem inteno de exercer.
      - O que? No sei a que se  refere.  -  Seu  rosto  adquiriu  um  olhar
fantasmagrico.
      - Quero dizer, vamos continuar dormindo em  quartos  separados?  -  As
bochechas do Juliet se ruborizaram, mas continuou com teimosia. -  Quer  que
tenhamos um... um verdadeiro matrimnio?
      Amos estava atnito. Olhou-a fixamente, sem dizer nada.
      Juliet continuou s pressas.
      - Sinto parecer to atrevida, mas sou uma pessoa que  no  d  voltas.
Quero saber se entendi mal sua proposta.  No  posso  passar  a  vida  sobre
brasas, esperando. No quer fazer... fazer amor comigo?
      Pronto, j havia dito. Juliet secou as suarentas palmas da mo  com  a
saia e esperou com o corao pulsando com fora no peito.
      - Juliet! Deus Santo, pois claro que quero! Essa no   a  razo  pela
qual dormi no quarto de Ethan ontem  noite. - Amos suspirou  e  passou  uma
mo pelo rosto. - Cus, mas no sei dizer com clareza. Olhe. -  Estendeu  as
mos num gesto que pedia compreenso. - Desejo-a. No h nada no  mundo  que
eu deseje mais que v-la em minha cama. - Seu  tom  de  voz  adquiriu  certa
rouquido. - Mas ontem, quando  subi  seu  ba  a  meu  quarto,  pensei  que
possivelmente estivesse dando muitas coisas  por  certo;  que  possivelmente
estivesse nervosa, inclusive assustada. Afinal, conhecemo-nos to pouco.
      Uma grande calidez percorreu o corpo de Juliet ao dar-se conta de  que
Amos se afastou dela no por falta de desejo, mas sim porque era sensvel  a
seus sentimentos.
      - Faz tempo que vivo aqui - disse com suavidade.
      - J sei. Mas as coisas eram diferentes. Quero dizer, trabalhava  para
mim. No tive tempo para cortej-la  e  todas  essas  coisas;  voc  no  me
conhece  nesse  aspecto.  Pareceu-me  que  estava  nervosa,  e  no   queria
pressionar.
      -  um homem to doce.
      Amos marcou as sobrancelhas para ouvir aquilo, mas nada disse.
      - Tinha razo: estava  um  pouco  nervosa,  inclusive  assustada.  Foi
muito amvel por sua parte tentar  me  tranqilizar.  -  Sorriu-lhe.  -  Mas
eu... eu no quero ser uma estranha para meu marido. - Ampliou o sorriso.  -
Por que no remediamos a nossa falta de noivado?
      - Podemos faz-lo? - Seu rosto se escureceu ao anunciar ela  que,  com
efeito, estava nervosa pelo ato amoroso.
      - Claro. S ter que me cortejar agora!
      - No sei como!  -  rugiu  Amos,  olhando-a  fixamente.  -  Esse    o
problema. No sei como me  comportar  com  as  mulheres  nem  o  que  dizer.
Invariavelmente fao ou digo alguma tolice ou me equivoco.
      - Estupidez. - O olhar  de  Juliet  era  divertido.  -  Ensinar-lhe-ei
isso. Vm aqui. - Estendeu os braos, fazendo  um  gesto  para  que  ele  se
aproximasse.
      - Juliet...
      - No, nada de queixa, agora. Se limite a vir aqui. Primeiro: eu  abro
a porta. - Fingiu abrir a porta e  sorriu  dando  boas-vindas  a  algum.  -
Senhor Morgan! Que alegria v-lo.
      - Senhor? Quer dizer que voltou para isso? No  estou  seguro  de  que
isto seja um progresso.
      - Vem a me visitar; tenho que cham-lo senhor, ou pensar que sou  uma
descarada.
      - Est segura de que sabe faz-lo?
      - Claro que sim. Agora, estendo a mo, dessa maneira - Estendeu a  mo
direita fazendo um gesto lnguido e elegante. - Voc me segura a mo. -  Ele
comeou a sacudi-la, e ela fez uma careta, negando  com  a  cabea.  -  No,
Amos. No se trata de uma entrevista de negcios. Beije minha mo.
      Obediente, ele aproximou a mo aos seus lbios, pressionando sua  pele
com sua boca. Um formigamento percorreu  o  brao  de  Juliet  ao  sentir  o
aveludado roce de seus lbios.
      - Muito bem -  conseguiu  dizer,  embora  fosse  difcil  respirar.  -
Agora. Vamos ao salo e nos sentamos.
      Colocou duas  cadeiras,  uma  frente    outra,  muito  juntas,  e  se
sentaram.
      - Agora tem que me olhar desejosamente, desta maneira. -  Lhe  dirigiu
um olhar de amor que o fez rir, e a seguir se zangou pela pressa de Amos.  -
Venha, no est levando a srio. Coloque  ateno.  Tem  que  me  olhar  com
adorao e me dizer o bela que sou.
      -  muito bela. - Aquelas palavras singelas e sem afetao  eram  como
se acariciassem seu corao.  Juliet  pensou  que  no  respiraria  mais,  e
durante uns instantes no pde nem pensar.
      - Oh, Amos... - Impulsiva, inclinou-se para ele e depositou  um  suave
beijo em seus lbios.
      O brao de Amos a agarrou pelo ombro  e  ficou  de  p,  aproximando-a
dele, enquanto afundava a boca nos lbios de Juliet convertendo o beijo  num
ato  apaixonado,  seu  desejo  reanimando-se  pelo  mero  roar   da   boca.
Ansiosamente, Juliet lhe rodeou o pescoo com os  braos,  e  respondeu  com
sua prpria lngua, sem surpreender-se dessa vez pela gloriosa sensao  que
invadia seu corpo, seno desejando sentir mais.
      Amos gemeu no mais profundo de sua garganta, e afundou  os  dedos  nas
costas dela. Levantou-a at que os ps de Juliet deixaram de tocar  o  cho;
suas bocas estavam  mesma altura, e ele a beijou com major fora ainda.  De
repente, Juliet, sensual, sentiu o desejo de rodear a cintura  de  Amos  com
suas pernas e pressionar seu corpo contra o dele. Desejava sentir  a  reao
do homem.
      Amos deixou de beijar Juliet nos lbios e comeou a lhe cobrir o rosto
e o pescoo de beijos ardentes, colocando o rosto na fenda  de  seu  decote.
Roou com os lbios a pele de  seus  seios,  deixando  a  Juliet  quase  sem
respirao e afundando os  dedos  frentico  em  suas  costas.  Nunca  havia
sentido algo semelhante, jamais tinha sonhado com isso.  Sua  respirao  se
parecia mais a um soluo   medida  que  Amos  entrava  mais  no  decote,  e
acariciava  e  beijava  os  seios.  Seus  mamilos   se   endureceram   quase
dolorosamente. Juliet ficou surpreendida pelas sensaes  que  invadiam  seu
corpo. Um formigamento irresistvel e selvagem. Desejava  as  mos  de  Amos
acariciando-a inteira, sentir a boca sobre sua pele,  inclusive  atravs  da
roupa. Por instinto soube que s ele poderia acalmar a frustrante dor que  a
enchia.
      De repente, Amos a soltou e retrocedeu, seus  escuros  olhos  com  uma
cintilao selvagem, enquanto sua respirao se fazia trabalhosa.  Juliet  o
olhou fixamente, surpreendida pelas  sensaes  que  percorriam  seu  corpo,
igual ao que pelo repentino afastamento da glria que lhe  proporcionava  os
lbios de Amos.
      - O  que...  por  qu?  -  gaguejou,  muito  confusa  para  falar  com
coerncia.
      - Sinto muito! - O tom de sua voz foi auto-reprovador. -  No  deveria
fazer assim. No queria forar voc.
      - No. No forou a nada.
      Ele negou com a cabea.
      - Necessita primeiro um noivado.
      - Eu falava brincando! No temos por que faz-lo assim.
      Amos viu que Juliet no o entendia. Certamente pensava que todo o  ato
amoroso era assim. No se dava conta de que seria doloroso,  e  no  pensava
em quo incmodo seria estar  nua  diante  dele.  Era  evidente  que  estava
disposta a fazer as coisas sem pensar. Assim era Juliet; sempre  se  deixava
dominar pelas emoes. Mas ele temia que essas mesmas emoes fossem  contra
ele ao chegar ao ato sexual. Possivelmente a ira  e  a  dor  se  apoderassem
dela, e sentisse uma sensao de traio ao ver que ele a despojava  de  sua
virgindade.
      O que ocorreria se fizesse mal? Aquele  pensamento  o  tinha  acossado
durante todo o dia. Ele era to grande e desajeitado;  ela,  to  pequena  e
delicada. Ela era jovem, pura e inocente. Amos  tinha  uma  responsabilidade
com ela; devia cuidar e assegurar-se de que a primeira noite se  convertesse
em algo doce e memorvel.
      - Juliet, no o entende... - comeou a dizer.
      - No, no o entendo. No  me  importa,  de  verdade  que  no.  Quero
seguir... - duvidou um instante e a seguir respirou profundamente  e  seguiu
falando, - quero fazer o amor com voc.
      Suas bochechas  se  ruborizaram  ligeiramente  ao  pronunciar  aquelas
atrevidas palavras, mas no se alterou, olhando quase com desafio.
      Amos tragou saliva.
      - Eu tambm o desejo. Oh, Juliet, me acredite, no h  nada  no  mundo
que deseje mais. Mas... - Fez uma pausa, sem saber o que dizer. Por temor  a
assust-la, no queria  sugerir  que  possivelmente  ele  fizesse  mal,  no
queria descrever com detalhe o ato para que no sentisse asco  com  palavras
to claras.
      - Mas o que? - falou Juliet, frustrada.
      - Quero que tudo funcione  perfeio - acabou com pouca convico,  e
com um olhar to triste que a irritao de Juliet desapareceu.
      Sorriu e lhe estendeu uma mo.
      - J sei que isso  o que quer.  um homem maravilhoso. Mas no se  d
conta? Eu tambm desejo que tudo v bem. S o que conseguimos atrasando-o  
criar um conflito entre ns.
      Aquilo resultava bvio, pensou Amos. E ela tinha  razo.  Que  sentido
tinha esperar se tudo o que conseguiria seria que Juliet  se  irritasse  com
ele? As  coisas  ficariam  mais  incmodas  ainda,  e  era  provvel  que  a
ofendesse ainda mais. Que situao to se desesperada!
      - De acordo - concordou  de  repente.  -  Mas  no  neste  momento.  -
Deveria ao menos tomar uma pausa, controlar de algum jeito  aquele  tremendo
desejo. Teria que atuar com lentido para no fazer mal a  Juliet,  e  neste
momento estava muito excitado para isso.  -  Necessito  um  pouco  de  tempo
para... para me tranqilizar, e voc certamente querer - fez um gesto -  se
preparar para a cama.
      Um sorriso iluminou o rosto de Juliet.
      - Sim, tem razo. - Preferiria despir-se e colocar a  camisola  sem  a
presena de Amos. Com isso evitaria  grande  desconforto  e  vergonha.  -  
muito amvel ao pensar nisso. Subirei e me trocarei.
      Juliet comeou a afastar-se mas se voltou para  chegar    soleira  da
porta e sorriu a Amos. Tinha os lbios ligeiramente  inchados  e  cheios  de
cor por causa dos beijos, e o desejo permanecia ainda em seu  olhar.  Estava
to linda que Amos sentiu como  o  desejo  surgia  de  novo  em  seu  corpo.
Precaveu-se de que ia ser malditamente difcil proceder com lentido.
      Amos permaneceu no ptio o maior tempo possvel, at muito  depois  de
estar seguro de que Juliet tinha tido  tempo  de  colocar  a  camisola.  Mas
sabia que necessitava aquele parntese muito  mais  que  ela.  Estava  sendo
difcil controlar o pulso ao pensar em Juliet despindo-se e o  esperando  no
quarto.
      Por fim entrou na casa e subiu ao dormitrio. A porta estava aberta  e
Amos se deteve ali, olhando a Juliet. Ela estava sentada sobre  a  cama,  as
pernas dobradas sob o corpo, o cabelo solto.  O  resplendor  da  lmpada  de
querosene lhe acariciava o  rosto  e  iluminava  as  loiras  mechas  de  seu
dourado  cabelo,  de  forma  que   parecia   estar   envolta   numa   plida
luminescncia. Voltou-se quando o ouviu chegar. Tinha os  olhos  na  sombra,
mas ele viu o sorriso desenhado em seus lbios.
      - Ol, Amos - disse com um ligeiro ofegar.
      O peito de Amos se encheu, e foi incapaz de  falar.  Desejava-a  tanto
naquele  momento  que  no  sabia  se  seria  capaz  de  suport-lo.  Queria
acariciar a suave e clida pele; agarrar o brilhante cabelo entre os  dedos;
agarrar-se a ela e beij-la sem cessar. A paixo de seus sentimentos  chegou
quase a assust-lo.
      Amos se aproximou dela, fazendo  grandes  esforos  por  reprimir  seu
desejo.
      - Juliet. - O nome foi um sussurro em sua boca. -  hora  de  ir  para
cama. -Aquelas palavras to habituais estavam carregadas de significado.
      Juliet assentiu com a cabea, o olhar posto  nele,  resplandecendo  de
tal forma que toda sua alma tremeu. No estava seguro de como poderia  viver
sem t-la. As pontas de seus dedos acariciaram a bochecha de  Juliet,  quase
sem toc-la, e com o olhar seguiu o movimento de seus  prprios  dedos.  Sua
pele era escura em contraste com a dela, uma pele  spera  comparada  com  a
deliciosa suavidade da dela. Juliet, olhando-o nos olhos,  certificou-se  do
desejo neles. Ela tambm o sentia no calor de sua mo  e  no  dbil  tremor.
Algo  muito  quente  surgiu  em  seu  interior,  como  tinha  ocorrido   com
antecedncia. Como ocorria cada vez que Amos a tocava.
      -  to bela - murmurou ele. - To delicada e bela. Temo fazer  mal  a
voc.
      - Me fazer mal? - repetiu ela surpreendida,  e  sorriu.  -  No.  Como
poderia me fazer mal?
      - Sem quer-lo. Sem desej-lo. Sou to grande, e  to  desajeitado.  -
No tinha tido inteno de desvelar seus temores; mas, de alguma forma,  foi
incapaz de no pronunciar as palavras. - Voc  to frgil;  temo...  -  Sua
mo se deslizou pelo queixo e o pescoo feminino,  e,  pouco  a  pouco,  com
lentido, sua mo passou pelo ombro at as costas. Seu olhar seguiu de  novo
o curso de seus dedos, fascinado diante da cremosa suavidade da pele.
      - Medo do que? - sussurrou ela. Suas carcias a  excitavam,  deixavam-
na sem respirao e faziam que seu corao pulsasse com major fora.  Sentia
um agradvel formigamento no lugar que a tocava, e pensou que ele devia  ver
a passagem da mo sobre seu corpo, j  que  a  pele  recebia  sensaes  to
distintas.
      - De ser rude. De machucar. Medo de que me tema. Ou me odeie.
      - Amos! No, como eu ia odiar? Nunca poderia faz-lo. -Esteve a  ponto
de dizer que o amava, mas se  reprimiu  bem  a  tempo.  Sabia  que  ele  no
quereria ouvir essas palavras. Possivelmente  Amos  a  desejasse,  inclusive
que fosse carinhoso com ela, mas aquilo no significava que a  amasse...  ou
que queria carregar o conhecimento de que ela o amava. Estava  acostumado  a
sua presena, e necessitava uma governanta; achava-a  o  bastante  agradvel
para ir com ela  cama. Tudo  isso  no  significava  que  seus  sentimentos
fossem iguais aos dela. Casou-se por razes sociais, por convenincia.
      - No? - Um sorriso torcido apareceu na boca de Amos. -  Acredito  que
houve outras ocasies em que pensou de forma diferente.
      Olhou pra ele preocupada, mas viu que estava brincando.
      - Oh, Amos! No est sendo justo; j sabe o mau gnio que tenho.
      - Sei. Vi-a atacar a uma serpente de cascavel, recorda?
      Juliet se ps-se a rir.
      - s vezes explodo... e tem que admitir que em ocasies no   difcil
perder a pacincia com voc.
      - Teve suas razes.
      - Mas nunca o odiei, mesmo quando estava zangada.  Sei  a  boa  pessoa
que . Agrada-me. Admiro-o.
      - Sei. - Assentiu, a expresso de seriedade de novo em seus  olhos.  -
Por isso no quero fazer nada que a machuque. Quando estou  perto  de  voc,
demnios, sinto-me como um touro grande e estpido. Voc  como... - Fez  um
gesto pouco explcito com a mo, passando-a por cima de sua cabea sem toc-
la. Suspirou e retrocedeu um passo. - No sei. Algo  to  belo  e  estranho.
No h sombra em ti; entretanto, em mim sim h. Desejo-a. - Sua  voz  tremeu
ligeiramente ao pronunciar as  palavras,  e  afastou  o  olhar.  -  Desejo-a
tanto. Mas temo ofend-la, penso que farei ou direi algo incorreto.
      Juliet lhe agarrou ambas as mos e as colocou sobre suas bochechas.
      - No acontecer nada disso. Confia em mim. -Apoiou  a  cabea  contra
suas mos durante um instante, fechando os olhos. A Juliet adorava  o  roar
da spera pele, adorava o aroma de Amos; sentia o luxurioso desejo de  tocar
sua pele com a lngua e provar assim seu corpo. - No sou  to  frgil  como
cr. No sei de onde tirou essa  idia,  depois  de  ver-me  trabalhar  aqui
todos os dias durante tanto tempo.
      - No tem  que  me  convencer  de  que    forte.  Vi-o.  E  sei  que,
sobretudo, sua fora  interior. - Agarrou um de  seus  braos  e  rodeou  o
pulso com uma de suas mos.
      Uma mo enorme, que envolvia  o fino pulso e ainda sobravam os  dedos,
a pele escura e forte em comparao com a de Juliet.
      - Mas quando a olho... e logo a mim... Seria to fcil te fazer dano.
      - Sim, seria. - Juliet o olhou com olhos claros e confiados. - Mas sei
que no far isso.  um homem muito  bom,  Amos.  Amvel  e  carinhoso,  por
muito que tente escond-lo. Possivelmente no tenha  muita  experincia  com
as mulheres.  Mas  eu  tampouco  tenho  muita  experincia  com  os  homens.
Aprenderemos juntos. - Levantou o brao onde sua mo seguia lhe  rodeando  o
pulso e colocou suavemente os lbios sobre seus peludos ndulos.
      Aquele gesto foi quase a perdio de Amos. Um tremor  to  intenso  de
desejo percorreu seu corpo que quase gemeu.
      - Juliet... - murmurou. Agarrou-a pelos  ombros,  pondo-a  nas  pontas
dos ps, antes de inclinar-se sobre ela.
       Juliet  se  voltou  para  ele,  os  olhos  arregalados,   observando,
esperando que seu rosto se aproximasse. Seus grandes olhos azuis eram  poos
sem fundo que o arrebatavam, destroando sua razo. Era incapaz  de  pensar,
s de sentir, e tudo o que via naquele momento era a cremosa beleza  de  sua
pele, a sedutora suavidade de seus lbios, o desejo que percorria seu  corpo
como uma tormenta. Beijou-a.
Captulo 16.
      Ao princpio seu beijo foi doce e suave, mas depois sua boca se tornou
faminta e feroz e afundou os  dentes  nos  sedosos  lbios  como  se  queria
arrebatar de Juliet a doura, a luz e  a  beleza  que  ele  tanto  desejava.
Afundou os dedos em seu corpo com desespero, de uma vez  que  o  pressionava
com o seu.
      Juliet rodeou o pescoo de Amos com os braos  e  se  agarrou  a  ele,
correspondendo a seus beijos com todo o ardor que sentia de repente  em  seu
interior.  Tinha  os  braos  pesados  e  nas  pernas  notava  uma  estranha
languidez, com chiado dos nervos. Colhidos com fora, perdidos  num  tumulto
de sensaes, beijavam-se uma e outra vez. Juliet tinha os seios colados  ao
peito de Amos; os mamilos duros. Mesmo atravs da roupa, percebiam  o  calor
dos corpos, as curvas, os ocos e os sulcos da carne.
      Amos posou os lbios sobre a orelha de Juliet e  seu  flego  fez  com
que se arrepiasse. A seguir agarrou  o  suave  lbulo  entre  os  dentes,  e
comeou  a  brincar  carinhosamente  com  ele:  Juliet  deu   um   pulo   ao
experimentar aquelas sensaes to novas para ela. O  calor  instalou-se  no
abdmen, e uma inesperada transpirao comeou a  umedecer  seu  corpo.  No
pde reprimir um pequeno gemido. E aquele som desatou um ligeiro  tremor  em
Amos, cujas mos se amoldaram a suave carne de quadris e costas  de  Juliet.
Inquieto, acariciou-lhe as coxas e  as  ndegas,  pressionando  as  carnudas
redondezas que tanto o seduziam. Mas no era suficiente. Colheu com  firmeza
os quadris de Juliet, as plvis ficaram unidas, enquanto com a lngua  e  os
dentes seguia brincando com sua rosada orelha.
      Juliet tinha a sensao de que comeava a  derreter-se,  e  pressionou
mais seu corpo contra o do homem, amoldando-se a sua fora. A respirao  de
Amos era como um tremor. Mudou a boca para  a  delicada  pele  da  garganta,
beijando-a uma e outra vez para depois abrir caminho at o ombro  detendo-se
no babado da camisola.
      Amos gemeu  e  considerou  a  possibilidade  de  arrancar  o  incmodo
objeto, mas se controlou o suficiente e se afastou. Estava  decidido  a  no
tom-la com brutalidade; nem  tampouco  faria  daquele  ato  maravilhoso  um
acoplamento rpido e desordenado,  como  se  fossem  dois  animais  no  cio.
Juliet merecia algo melhor, por muito que lhe custasse agentar-se.
      Comeou a despir-se, sem afastar a vista de Juliet, e a excitao  que
havia em seu olhar fez que o fogo no se apagasse no sangue de Juliet.  Amos
tinha aspecto de poder consumi-la por completo, e o corao lhe  pulsava  no
peito, forte e com rapidez, ao pensar que ela era  capaz  de  conseguir  que
este homem to tmido chegasse a tal topo de paixo.  Se  tivesse  sabido  o
que fazer para aumentar seu desejo, o  teria  feito,  mas  como  no  sabia,
ficou quieta, deixando que ele a olhasse. Se soubesse, a pouca  afetao  de
sua pose, o nulo intento de cobrir-se  com  modstia,  foi  suficiente  para
fazer que Amos ardesse em desejos de  possu-la.  Seu  olhar  se  posou  nos
arredondados seios sob a camisola, os  escuros  e  eretos  mamilos  visveis
atravs do fino tecido.
      Por fim Amos se liberou da roupa e se situou diante dela,  nu.  Juliet
percorreu involuntariamente seu corpo com a vista, absorvendo com o olhar  a
forte musculatura de abdmen  e  braos,  o  encaracolado  plo  escuro  que
cobria seu dorso, as largas e potentes pernas. Mas  foi  sua  masculinidade,
forte e ereta, o que atraiu seu olhar como um m, e a fascinou.  Nunca  com
antecedncia havia visto nu  a  um  homem,  e  muito  menos  a  um  excitado
sexualmente. Embora enorme e  masculino,  at  parecer  primitivo,  a  vista
daquela nudez no a encheu de temor,  mas  sim  de  um  intenso  desejo  que
percorreu seu corpo.
      Amos notou-lhe o relaxamento da boca, o olhar  de  desejo  que  passou
pelos olhos de Juliet, e a comprovao de que se  encontrava  excitante  fez
que sua paixo aumentasse. Aproximou-se dela, com a inteno  de  despoj-la
da camisola, mas Juliet lhe adiantou.  Agarrou  o  objeto  por  baixo,  e  a
passou pela cabea, igualando assim a nudez do homem.
      Amos se deteve, e seu olhar percorreu com intensa lentido o corpo  de
Juliet, absorvendo cada centmetro de pele branca e misteriosa.  Seus  seios
eram grandes, altos e rosados; os mamilos, duros e excitados.  Sua  cintura,
magra, seus quadris sedutoramente curvados. Era pequena, mas  de  deliciosas
propores, com umas pernas bem formadas. Seu olhar se deteve  no  tringulo
entre as coxas, de uma cor avermelhada dourada, um pouco mais escuro  que  o
cabelo.
      Amos tragou saliva com dificuldade e estendeu a  mo.  Como  um  homem
encantado, roou um seio com a mo, baixando  depois  em  suave  carcia  ao
percorrer o corpo, to somente com as pontas dos dedos numa nsia de  roar;
viajando pela esponjosa suavidade de um seio  e  a  contrastante  dureza  do
mamilo; pelo liso estmago, at que o dedo  se  deteve  justo  ao  bordo  da
ardente poro de plo.
      Juliet conteve a respirao, tremendo sob  o  prazer  que  a  mo  lhe
proporcionava. Queria mais; desejava sentir as mos de  Amos  por  todo  seu
corpo. Pensou que possivelmente esse fora um desejo libertino,  mas  no  se
importou; o selvagem desejo que sentia em seu interior  era  excessivo  para
que o reprimisse devido ao recato. Aproximou-se ligeiramente, para  que  ele
pudesse toc-la com major fora. Um tremor se apoderou de Amos,  que  fechou
os olhos, como se o prazer lhe resultasse insuportvel. Juliet estava  agora
o bastante perto para tocar a Amos, e suas  mos  viajaram  sem  acanhamento
por seus ombros e braos at chegar  ao  abdmen.  Entrelaou  os  dedos  no
encaracolado plo de  seu  peito  e  acariciou  os  pequenos  e  endurecidos
mamilos masculinos. Seguiu baixando, explorando a  dureza  dos  msculos  do
abdmen, at afundar com suavidade um dedo na profundidade do umbigo.
      Amos gemeu. No agentava mais. Com rapidez a agarrou nos braos  e  a
levou at a enorme e alta cama. Ps-se sobre ela, e se inclinou para  beijar
cada um dos mamilos.  Juliet  sorriu  fechando  as  plpebras,  removendo-se
inquieta.
      - Por favor - sussurrou.
      Aquelas palavras estimularam ainda mais a paixo de Amos, que ps  sua
boca sobre um dos mamilos e comeou  a  chup-lo.  Sua  boca  era  clida  e
mida, e cada movimento de seus lbios provocava uma pontada  de  desejo  na
mulher. Juliet se retorcia sob as carcias, e, num movimento inconsciente  e
ancestral, separou as pernas. Amos se estendeu a  seu  lado,  aproximando  a
boca ao outro seio, e, deslizando a mo pelo corpo,  aceitou  o  convite  da
mulher.
      Ela estava mida e quente,  e  Amos  a  acariciou  suavemente  com  os
dedos. Juliet arqueou o corpo quando sentiu  aquela  inesperada  carcia,  e
Amos se deteve. Mas ela se retorceu, impaciente, debaixo dele,  e  os  dedos
do homem reataram a explorao. Separou as sedosas dobras, entrando  em  sua
intimidade feminina. Encontrou a pequena protuberncia que  ali  aninhava  e
comeou a ro-la com um cuidado infinito.
      Juliet se estremeceu e gemeu, quase perdendo o controle  baixo  aquela
delicada carcia. Afundou os calcanhares na cama, arqueando as  costas,  lhe
incitando a seguir... fazendo o que no estava segura, mas sim sabia  que  o
desejava, necessitava com verdadeiro desespero. Mas Amos no se  precipitou:
sabia muito melhor que Juliet at que ponto podia faz-la  chegar,  o  muito
que ela sentiria e experimentaria. Tinha uma  ereo  to  forte  agora  que
acreditou estar  a  ponto  de  explodir,  mas  estava  decidido  a  que  ela
desfrutasse de tudo o que ele pudesse lhe oferecer.
      Por fim se colocou entre suas  pernas,  incapaz  de  esperar  mais,  e
pressionou com suavidade sobre a entrada de sua feminilidade.  Ao  encontrar
resistncia, agarrou-se ao lenol de baixo e se  introduziu  com  fora,  de
repente, com a idia de que a dor fosse breve. O pequeno  grito  que  Juliet
emitiu lhe partiu o corao, mesmo naquele momento de forte excitao, e  se
deteve. O caminho que rodeava sua masculinidade era to  estreito  e  quente
que precisou fazer um grande esforo de vontade por no chegar   culminao
sexual. Entretanto, reprimiu-se, esperando  at  que  sentiu  como  relaxava
aquela excitante estreiteza.
      Ento comeou a mover-se em seu  interior  com  movimentos  regulares,
notando como o fogo de sua paixo alcanava  limites  quase  insustentveis.
Juliet gemeu e se retorceu debaixo ele, e de  repente,  rodeou  o  corpo  de
Amos com as pernas, enquanto seus dedos se afundavam nos braos e costas  do
homem. Muito em breve, ela se movia ao mesmo ritmo que ele,  e  os  pequenos
gemidos que emitia ameaavam acabar com a resistncia de Amos.  De  repente,
notou como as unhas de Juliet lhe cravavam com fora na pele, ao  tempo  que
ela gritava surpreendida de prazer. Seu corpo se esticou  ento  embaixo  do
de Amos, e aqueles movimentos provocaram nele  a  tormenta  de  sua  prpria
liberao. Estremeceu-se, gemendo,  medida que liberava a semente  da  vida
no corpo da mulher.
      Desabaram-se juntos, envoltos num bloco de braos e pernas.  Empapados
de suor, permaneceram atnitos e silenciosos,  apanhados  ainda  por  aquele
belo momento em que se uniram, rompendo a separao. Estavam  exaustos,  sem
palavras, e desabaram juntos, em muda harmonia, antes que vencesse o sono.
      Se alguma vez houve duas pessoas felizes de verdade,  aquelas  pessoas
foram Amos e Juliet. Trabalhavam  ao  mximo  durante  todo  o  dia,  mas  o
trabalho lhes parecia leve graas a  sua  felicidade  interna.  Sozinhos  em
casa, passavam as noites conversando, rindo e fazendo amor. Desinibidos  por
completo, punham a prova tudo o que lhes  acontecia,  chegando  inclusive  a
fazer o amor no salo, sobre um edredom no  cho,  rindo  ao  comprovar  seu
estranho comportamento.
      Um dia foram procurar amoras, passeando pelo riacho  e  recolhendo  os
grossos bagos dos arbustos para as depositar nos cestos. s vezes comiam  os
bagos, e em outras ocasies, brincalhes, as passavam com os  dentes  um  ao
outro, at que tiveram os  lbios  tintos  pelo  suco  escuro.  Como  tinham
levado o lanche, estenderam uma manta sob um lamo e ali  almoaram.  Depois
dormiram, preguiosos sob o sol do meio-dia, e  quando  despertaram  fizeram
amor, com os raios do  sol  esquentando  seus  corpos  atravs  das  folhas,
enquanto ouviam o rumor da gua no riacho.
      s vezes Juliet se aproximava at o abrigo depois de lavar  os  pratos
do jantar e se  sentava  ali,  olhando  a  Amos  enquanto  este  esculpia  a
madeira. Um pouco a  contra  gosto  Amos  lhe  mostrou  a  ninfa  que  tinha
esculpido, e que Juliet imediatamente  observou  que  se  parecia  com  ela.
Rodeou a Amos com os braos, abraando e beijando.  Encantada  com  a  pea,
sentiu-se cheia de orgulho pelo fato de que a tivesse representado  como  um
ser to belo. Depois daquilo, ele  tirou  outra  parte  de  madeira  em  que
aparecia esculpida uma criatura an, com cara de  mau,  surgindo  da  terra.
Formavam um casal, disse-lhe.  Juliet  soube  que  o  duende  de  mau  gnio
representava a Amos, emparelhado com a bela e simptica ninfa. Juliet  ficou
extasiada com o talento de Amos e insistiu em levar  ambas  as  peas  e  as
colocar sobre a cmoda de seu quarto. Cada vez que as via, eram para  ela  a
afirmao de que os dois estariam sempre juntos.
      S o que faltava na vida de Juliet  era  uma  confisso  de  amor  por
parte de Amos, mas disse a si mesma que tambm aquilo chegaria com o  tempo.
Ele a desejava, e isso era suficiente no momento.  Mais  adiante  viriam  os
filhos e uma famlia e um amor forte e duradouro que s  terminaria  no  dia
de sua morte. E ela sorriu, agradecida de que sua  vida  tivesse  mudado  de
forma to estranha quando Westfield  escapou  com  os  lucros  em  Steadman,
Nebraska.
      Ethan voltou para casa depois de trs semanas. O vero  se  aproximava
de seu fim, e logo chegaria o tempo da colheita. Muitas das verduras  tinham
amadurecido durante o vero, e  Juliet  e  Amos  as  recolheram.  Ela  tinha
dedicado a maior parte do tempo desde  sua  volta  ao  trabalho  da  granja,
fazendo conservas segundo as instrues que Frances  lhe  deu  umas  semanas
antes de sua morte. Em ocasies, enquanto Juliet lutava na calorosa  cozinha
com os potes e as verduras, relia  as  folhas  de  receitas,  e,  ao  ver  a
trmula letra, recordava de Frances sentada  mesa, escrevendo  tudo  aquilo
apesar da  dor.  Nesses  momentos,  os  olhos  se  enchiam  de  lgrimas,  e
lamentava de novo a perda de sua amiga.
      A despensa e as prateleiras do poro estavam abarrotadas  de  gelias,
e pote atrs de pote com cenouras, milho e abobrinha em  conserva.  No  cho
do poro havia um enorme barril de couve em salmoura que se  converteria  em
chucrute para o inverno. As ervilhas e  os  feijes  se  secaram  e  estavam
armazenados em sacos.  As  cebolas  penduravam  em  rstias  do  teto.  Mais
adiante, Amos e Ethan recolheriam as batatas e estas  ocupariam  o  restante
do espao livre no poro,  exceo do espao reservado para  as  cabaas  e
as abobrinhas de outono.
      Juliet, contemplando seus domnios, parecia a  perfeita  dona-de-casa.
Tinha trabalhado duramente, a metade  do  tempo  temerosa  de  danificar  os
mantimentos  por  causa  de  sua  ignorncia,  mas  havia  valido  a   pena.
Desfrutava dessa  maravilhosa  vida,  que  parecia  melhorar  cada  dia  que
passava.
      Os pees contratados para a colheita chegaram e acamparam  nas  terras
dos  Morgan,  trabalhando  e  abrindo  caminho  com   uma   grande   mquina
colheitadeira pelos campos de trigo.  Juliet,  que  se  surpreendeu  de  que
houvesse uma ou duas mulheres no grupo, viu que uma delas chamava e  saudava
Amos. Ele devolveu a saudao a contra gosto. Ao  entardecer,  Juliet  olhou
pela janela da cozinha e surpreendeu a Amos falando com a  mesma  mulher  no
ptio. Ao cabo de uns minutos, ela partiu lhe dirigindo  um  sorriso  que  a
Juliet pareceu de decepo.  Era  uma  mulher  bastante  bonita,  de  costas
largas e com um tipo muito distinto ao de Juliet.  De  algum  jeito,  Juliet
intuiu que Amos e aquela mulher tinham sido amantes.  Pensou  perguntar  por
isso, mas decidiu que o melhor seria que deixasse as  coisas  como  estavam.
Afinal, isso pertencia a um passado anterior a sua chegada  granja.
      Nunca mais os viu juntos, e  Juliet  tinha  a  segurana  de  que  seu
marido estava muito ocupado com ela na cama  para  interessar-se  por  outra
mulher. Com ar de satisfao, sorriu. Por muito importante que tivesse  sido
alguma mulher para Amos no passado, ela era sua esposa, e toda  sua  ateno
estava posta nela.
      O tempo refrescou. O resto da  colheita  ficou  armazenado  no  poro,
inclusive as enormes e resplandecentes cabaas, algumas das  quais  passaram
 cozinha a falta de espao no poro. O fogo na  cozinha  era  algo  que  se
agradecia a primeira hora da manh e de noite. Juliet  precisava  colocar  a
capa quando saa para dar de  comer  s  galinhas  e  a  recolher  os  ovos.
Outubro era o ms da matana  do  porco,  disse-lhe  Amos,  e  ele  e  Ethan
mataram um deles e penduraram a carne no defumador. Ethan  comeou  a  falar
com Juliet a respeito de que queria  passar  um  inverno  em  Nebraska,  lhe
contando  tais  histrias  sobre  a  fora  das  tempestades  de  neve  e  a
ferocidade das tormentas que Juliet no soube julgar se  as  histrias  eram
certas ou s brincadeiras do moo.
      Ao despertar uma manh descobriram que uma  ligeira  nevada  cobria  o
cho, mas ao final do dia  os  raios  do  sol  a  tinham  derretido.  Depois
daquilo, o  tempo  continuou  frio,  embora  ensolarado.  Juliet,  sorrindo,
estava segura de que o inverno no seria aborrecido, apesar  de  nem  sequer
poder  sair da casa por causa da neve. Se suas  suspeitas  se  confirmassem,
teria bastante trabalho tecendo mantinhas e jrseis e costurando  roupas  de
beb. Diante do temor de  que  no  fosse  verdade,  Juliet  no  disse  nem
palavra a Amos, guardou a notcia para si. Sua vida seria perfeita,  pensou,
se Amos lhe dissesse que a amava.
      Em muitas ocasies, Juliet teria querido  lhe  dizer  o  muito  que  o
amava, mas sempre engoliu essas palavras sem as pronunciar. Justificou a  si
mesma de que no queria obrigar a que Amos lhe dissesse  o  mesmo;  mas,  no
mais profundo de seu corao, sabia que em realidade temia lhe declarar  seu
amor, para depois ter que enfrentar-se ao completo silncio de Amos.
      No obstante, sua vida era tudo o  maravilhosamente  possvel...,  at
que a visita chegou.
      Era uma fria manh do ms de novembro quando Juliet ouviu o tinido  de
um arns no ptio e se deu conta de que tinham  visita.  Olhou  pela  janela
sobre a pia, mas  no  viu  nada.  Depois  ouviu  a  voz  de  um  homem,  e,
continuando, o relincho de um cavalo. Deixou a um lado o  copo  que  acabava
de enxugar, secou as mos no avental e se dirigiu para a  entrada  principal
da casa.
      Quando tinha percorrido a metade do corredor, ouviu uma forte  chamada
 porta. Juliet se perguntou quem seria, sentindo a animao da  curiosidade
que despertava quando algum chegava at uma granja to  longnqua.  Esperou
que fosse Henrietta.
      Juliet abriu a porta, com um sorriso j nos  lbios.  Mas  uma  mulher
que jamais tinha visto estava no alpendre.
      - Oh - disse Juliet, assombrada. - Eu..., ol. No que posso servi-la?
      Olhou com curiosidade ao ptio onde divisou  uma  carruagem  cheia  de
bas. Conduzia-o um homem mais velho que acreditou reconhecer. Ele a  saudou
tirando o chapu.
      - Bom dia.
      Juliet assentiu.
      - Bom dia.
      Voltou a olhar  visita. Era uma mulher bonita, alta como uma esttua;
levava o cabelo loiro  sob  um  glorioso  chapu  decorado  com  flores.  Ia
coberta por uma larga e grossa capa  com  tiras  enlaadas  como  botes.  A
larga asa do chapu deixava o rosto na sombra, com o  qual  ocultava  a  cor
dos olhos e suavizava a tez, mas Juliet viu o suficiente para saber que  era
mais velha que ela e bastante bonita.
      A mulher devolveu o olhar, lhe dando uma rpida olhada.
      - Vim ver Amos Morgan - disse a seguir.
      De modo que no se equivocou; aquele tinha sido o primeiro  pensamento
de Juliet.
      - Essa  sua granja. Mas  temo  que  ele  est  agora  trabalhando  no
riacho. No chegar at o meio-dia.
      - Oh. - A mulher olhou a seu redor. - Entendo. Bom...
      Juliet duvidou  uns  instantes.  O  mais  educado  seria  que  tivesse
convidado  mulher a que entrasse e esperasse por Amos.  Mas  Juliet  intuiu
algo estranho nela. Havia algo extravagante nessa mulher;  seu  bom  aspecto
lhe pareceu  um  pouco  exagerado.  Juliet  suspeitou  que  a  cor  de  suas
bochechas no era de tudo natural; havia  visto  suficiente  do  mundo  para
saber que aquela mulher no era uma dama. Tampouco podia  imaginar  por  que
demnio  perguntava  por  Amos.  No  a  surpreenderia  que  seu  marido  se
incomodasse se a deixasse entrar. Por outra lado, no podia permitir  que  a
mulher esperasse no alpendre frio num dia  de  novembro  at  a  chegada  de
Amos; isso seria o cmulo da m educao.
      - Quer entrar e lhe esperar? - perguntou por fim,  pensando  que  Amos
teria que resolver esse problema. Ela no mandaria embora  mulher.
      - Sim, eu gostaria. - A visita entrou revoando as saias ao saguo.
      Juliet olhou a carruagem que estava fora.
      - Seu marido no gostaria de entrar tambm?
      A mulher ps-se a rir.
      - Meu marido! OH, cus no. Querida menina,    s  o  chofer  que  me
trouxe at aqui. Um lugar terrvel, Steadman. - voltou-se e chamou o  homem.
- Descarregue meus bas. Deixe-os aqui, no saguo.
      Juliet a olhou, boquiaberta.  Tinha  inteno  de  ficar!  Juliet  no
soube o  que  dizer,  embora  procurasse  alguma  palavra  adequada.  Queria
protestar ao  comprovar  os  atrevidos  planos  da  mulher.  Parecia-lhe  um
ultraje, e Juliet no imaginava  Amos  permitindo  algo  assim.  Mas  tambm
sabia que a hospitalidade era uma norma no Oeste, onde  as  distncias  eram
to grandes entre povoados e granjas. Com freqncia, a famlia e os  amigos
iam passar ali uns dias, inclusive semanas, e de  boa  vontade  se  oferecia
alojamento a todos aqueles  que  ficavam  presos  pelo  mau  tempo  ou  que,
simplesmente, tinham a m sorte de que lhes rompesse um eixo ou uma roda.
      O que ocorreria se a mulher fosse parente  de  Amos  ou  a  esposa  de
algum amigo ntimo? Juliet no gostaria que Amos considerasse que no  tinha
educao ou... sim, melhor admiti-lo, que era uma ciumenta,  j  que  Juliet
teve que admitir que parte das idias que passavam por  sua  mente  atiavam
seu cimes ao pensar que uma mulher to bela como essa se apresentasse  para
viver com eles embora fosse por pouco tempo.
      Assim, Juliet no fez comentrio algum a  respeito  das  intenes  da
outra mulher.
      - Posso lhe oferecer alguma coisa? - perguntou, educada. - Um pouco de
caf, possivelmente?
      - Sim. De acordo - disse, enquanto pressionava o estmago com uma  mo
enluvada. - A verdade  que estou morta de fome. Tem algo de comer?
      - Sim, claro. Que mal educada no ter pensado  antes.  Sem  dvida  se
levantou cedo e faz tempo que tomou o caf da manh.
      - No tomei o caf da manh. - estremeceu de modo  expressivo.  -  No
posso comer nada a essa hora da manh.
      A mulher desabotoou a  capa  e  a  tirou,  entregando-a  a  Juliet.  O
vestido que levava sob a capa era de um  verde  forte  com  um  tranado  da
mesma cor e franjas. Vrias  voltas  de  contas  de  azeviche  rodeavam  seu
pescoo e uns brincos do mesmo azeviche penduravam  em  suas  orelhas.  Seus
peas, obviamente caras e bonitas, eram, assim como seu  estilo  e  aspecto,
excessivas. A visita  tirou  o  chapu  e  entregou  tambm  a  Juliet.  Ela
comeava a ficar de mau humor. Aquela mulher estava tratando-a  como  a  uma
servente! Entretanto, reprimiu sua ira e pendurou os  objetos  no  varal  de
carvalho do saguo. A seguir acompanhou   visita  ao  salo  e  se  dirigiu
depressa a sala de jantar em busca de sua melhor baixela.  De  algum  jeito,
ela sentia a necessidade de  comportar-se  com  elegncia  diante  da  outra
mulher. Na cozinha cortou uma ma e uma pra  em  uma  terrina  e  ps  uma
parte de bolo que tinha preparado no  dia  anterior  num  prato.  Colocou  o
prato e a terrina sobre uma de suas melhores bandejas de prata  e  encheu  a
cafeteira, a seguir ps duas  taas,  a  jarra  do  leite  e  o  aucareiro.
Depois, tirou o avental, que  deixou  no  respaldo  da  cadeira,  agarrou  a
bandeja e retornou ao salo.
      - Aqui est - disse em tom alegre ao entrar no  cmodo,  oferecendo  
visita seu melhor sorriso. Deixou a bandeja sobre a mesinha diante  do  sof
onde a mulher estava sentada.
      Juliet se acomodou na cadeira em ngulo  reto  ao  sof  e  segurou  a
cafeteira.
      - Leite ou acar?
      - Sim. Ambas as coisas. - A mulher lhe dedicou um  olhar  especulativo
enquanto Juliet preparava o caf com leite e o entregava.
      Juliet se serviu tambm de uma xcara e adicionou leite. Deu  um  gole
ao caf enquanto olhava  outra comer  e  procurava  uma  forma  educada  de
perguntar a que tinha vindo.
      - Espero que a viagem no tenha sido dura - comeou dizendo.
      A mulher encolheu os ombros.
      - Aborrecida, claro, e com muitssimo fria. Mas suponho que foi boa.
      - Me alegro. - Juliet fez uma pausa. No lhe  ocorria  tema  algum  de
conversao, e muito menos uma pergunta inteligente a respeito da  razo  de
sua visita. Pigarreou. - Deveria ter perguntado ao chofer  se  queria  comer
ou beber algo. Ser melhor que espere na cozinha; faz muito  frio  para  que
permanea ali fora. - Juliet comeou a ficar de p.
      A  outra  mulher  fez  um  gesto  preguioso,  lhe  indicando  que  se
sentasse.
      - No se preocupe. Mandei-o de volta enquanto voc estava na  cozinha.
J no preciso dele.
      Juliet a olhou,  incrdula.  Tinha-o  mandado  de  volta?  Sem  que  a
convidassem a passar a noite? Juliet no entendia aquele atrevimento.  Teria
escrito a Amos, informando de sua visita, e no lhe havia dito nada?
      - Eu... bom... sinto muito, mas receio que no sei como se chama.
      - Helen Bangston - disse a outra mulher.
      - Como vai? Eu sou Juliet Morgan, a mulher de Amos.
      A mulher arregalou os olhos, e de repente pareceu surpreendida.
      - Oh... uh... sim, me alegro de conhec-la.
      - Casamo-nos recentemente - explicou-lhe Juliet, vendo a  surpresa  no
rosto da outra.
      - Entendo. Parabns. - Deixou o pequeno prato com o bolo sobre a  mesa
e sorveu de novo um pouco  de  caf.  Quando  voltou  a  levantar  a  vista,
conseguiu dirigir um ligeiro sorriso a Juliet. -  Surpreendeu-me.  Veja,  eu
tinha decidido que Amos no se casaria nunca. Ficou solteiro  durante  tanto
tempo.
      Juliet assentiu.
      - Acredito que surpreendeu a muitas pessoas. - Seu rosto  se  iluminou
com um sorriso. - Possivelmente inclusive a Amos mesmo.
      Helen a olhou atnita, sem devolver o sorriso. De repente,  Juliet  se
sentiu ridcula. Ruborizou-se, e afastou o olhar.
      - Como vai... o filho de Amos? - perguntou Helen.
      - Ethan? - O rosto de Juliet se alegrou. - Conhece Ethan?
      - Sim, claro. Eu sou... uma velha amiga de Amos.
      - Entendo. - Graas a Deus que a tinha convidado a  entrar  e  no  se
incomodou com a m educao da mulher. - Ethan est bem, a  maior  parte  do
tempo. Ultimamente  teve alguns problemas com as  garotas...  j  sabe  como
so os jovens. Mas  um bom menino, simptico e generoso. Claro que isso  j
saber, se conhece Ethan.
      - Claro. - Helen repetiu  as  palavras,  evidentemente  aborrecida.  -
Possivelmente... Se me mostrasse meu quarto. Acredito que eu gostaria de  me
deitar um momento. Comeo a sentir o cansao da viagem.
      -  obvio. - De novo a tranqila hiptese de  que  ia  ficar  provocou
certo ressentimento em Juliet. Helen Bangston se comportava como se o  lugar
lhe pertencesse. No tinha perguntado a Juliet se estava de acordo  com  sua
visita. Por que no lhe tinha falado Amos da chegada  da  senhora  Bangston?
Juliet no estava muito segura de com quem estava mais irritada; com  aquela
atrevida mulher de aspecto  chamativo  ou  com  seu  prprio  marido.  Tinha
inteno de dizer umas palavras a Amos quando este chegasse.  Devia  parecer
uma estpida aos olhos da mulher, to obviamente desconhecedora da visita  e
de quem se tratava.
      Juliet conduziu a Helen pelo corredor  at  o  quarto  que  ela  tinha
ocupado antes de casar-se com Amos, aliviada de que  os  lenis  estivessem
limpos e de ter tirado o p dos mveis to somente uns dias antes. Teria  se
envergonhado se um convidado visse um quarto em desordem,  inclusive  quando
no se utilizava.
      Depois de ensinar o quarto a  Helen,  Juliet  voltou  para  a  cozinha
esmerando-se na preparao do jantar. Quando a cozinha estava o  mais  limpa
possvel e a comida preparada, sentou-se  mesa esperando a chegada de  Amos
e Ethan.
      Por fim, pela janela que dava ao sul, viu Ethan  entrar  no  ptio  da
granja. Ficou em p de um salto e correu  porta.  Tal  como  esperava,  ali
estava Amos caminhando diante de Ethan. Levantou a vista, viu Juliet  e  lhe
sorriu.
      Ela sentiu a tentao  de  lhe  devolver  o  sorriso,  mas  se  negou,
teimosa, a perder de vista seu objetivo s porque  o  sorriso  de  Amos  lhe
provocava uma comicho interior. Agarrou a capa do varal junto    porta,  a
jogou sobre os ombros e correu para seu marido. Amos  diminuiu  a  marcha  e
olhou, tmido, a Juliet ao ver a expresso de seu rosto.
      - Por que no me disse? - perguntou Juliet mesmo antes de  chegar  at
ele.
      - Dizer o que? - Amos se deteve, olhando-a de frente.  Automaticamente
seus braos se estenderam para ela, mas se conteve e com as mos se  agarrou
a cintura. - O que ocorre?
      - O que ocorre? - repetiu Juliet com terrvel  ironia.  -  Esta  manh
chega uma velha amiga tua, trazendo toda a bagagem, com a evidente  inteno
de passar uma larga temporada aqui, e eu no sei de nada. E  me  pergunta  o
que acontece?
      - Espera. Acalme-se. Do que me est falando? De  que  velha  amiga  se
trata?
      - A senhora Bangston! - respondeu Juliet irritada. - Que outra  pessoa
podia ser?
       -  A  senhora  Bangston.  -  Sua  expresso  foi  de  desconcerto.  -
Possivelmente passei muito tempo ao sol esta manh, mas no tenho nem  idia
do que me est contando. Quem  a senhora Bangston?
      Agora foi a vez de Juliet lhe olhar desconcertada.
      - Quer dizer que no a conhece?
      - Conhecer quem?
      -  mulher que dorme em minha cama! - exclamou Juliet,  assinalando  a
casa com o brao.
      - O que!
      - Em minha antiga cama, quero dizer. No quarto dos convidados.
      - H uma estranha em nosso quarto dos convidados? - repetiu ele.
      - Certamente, para mim sim que  uma verdadeira estranha! Mas me disse
que o conhece. Tambm ao Ethan.
      Amos franziu o cenho.
      - E disse que se chama Babcock?
      - Bangston. Helen Bangston. - Juliet comeou a sentir-se  alarmada.  -
Se no sabe quem , o que faz aqui? De quem se trata?
      - Helen Bangston - repetiu Amos pensativo. - Helen Ba...
      De repente a cor fugiu de seu rosto.
      - Oh, Meu deus, no pode ser!
      - Amos? - Juliet lhe estendeu uma mo, mas ele retrocedeu,  movendo  a
cabea.
      - Onde est?
      -J lhe disse isso: descansando no quarto dos convidados.
      Amos deu meia volta e se dirigiu com passos rpidos,  quase  correndo,
para a casa, deixando a Juliet atnita.
Captulo 17.
      Ethan, que tinha estado observando a Amos e a Juliet, e  viu  surpreso
como seu pai punha-se a correr para a casa, olhou a Juliet, perplexo.
      - O que houve?
      - No tenho nem a menor  idia.  -  Juliet  no  sabia  muito  bem  se
zangava-se ou assusta-se. - Uma mulher veio em visita e  parece  que  tem  a
inteno de ficar conosco.
      Ethan a olhou atnito.
      - Conhece-a papai?
      - No parecia conhec-la, mas de repente ficou plido e  foi  correndo
a v-la. Alguma vez ouviu falar de uma mulher chamada Helen?
      Ethan encolheu os ombros.
      - H Helen Shaw que vive  no  povoado;  vive  com  sua  irm,  Dorothy
Gilbern, e seu marido.
      - No. Acredito que se  trata  de  algum  que  conheceu  no  passado,
algum que se mudou, possivelmente. Perguntou-me por voc.
      A expresso de Ethan foi de curiosidade.
      - A que veio?
      - No sei - respondeu Juliet enquanto ambos se dirigiam para  a  casa.
- Mas me d a sensao de que tem inteno de ficar um tempo. - E  descreveu
o  comportamento  da  mulher  pela  manh.  Ao  voltar  a  falar  disso,   e
considerando a estranha reao de Amos, o  que  tinha  feito  a  mulher  lhe
pareceu ainda mais estranho.
      Pois quando Juliet serviu o almoo, e Ethan tinha se lavado,  os  dois
sentiam uma grande curiosidade. Enquanto estavam na cozinha, ouviram  a  voz
irada de Amos e as respostas estridentes da mulher, mas Amos e a  visita  se
achavam dentro do quarto com a  porta  fechada,  e  as  palavras  resultavam
incompreensveis para os dois.
      Por fim, quando Juliet comeava  a  perguntar-se  se  devia  voltar  a
esquentar a comida ou se ela e Ethan deviam comear a almoar  sem  Amos,  a
porta do corredor se abriu de repente e Amos entrou em grandes  passos,  com
o rosto aborrecido. Depois afastou a cadeira e se deixou  cair  nela.  Helen
Bangston, muito mais lnguida, seguia-o.
      Deteve-se, e sua figura ficou emoldurada na  porta.  Juliet  suspeitou
que tinha praticado aquela pose com muita freqncia. A seguir deu um  passo
 frente e se dirigiu para  a  nica  cadeira  livre  que  havia.  Ethan  se
levantou educadamente quando a viu aproximar-se.  Juliet  observou  que  ele
estremecia de curiosidade. Embora nunca houvesse  dito  que  a  sua  prpria
curiosidade fosse menor. Desejava com toda a sua alma saber o que  se  havia
dito atrs daquela porta fechada. Fosse  o  que  fosse  a  senhora  Bangston
parecia ter ganhado.  Seu  rosto  mostrava  placidez  e  parecia  satisfeita
consigo mesma enquanto que Amos estava irritado.
      - Amos? -disse Helen com voz insinuante. - No vai nos apresentar?
      Dado que Juliet se j apresentou, devia  referir-se  a  Ethan,  pensou
Juliet. Amos olhou diretamente  senhora Bangston pela  primeira  vez  desde
que tinham entrado na cozinha; sua expresso era to feroz que fez tremer  a
Juliet. No gostaria de ser a receptora daquele olhar.
      - Ethan - disse  entre  dentes,  -  esta    Helen  Bangston.  Senhora
Bangston, este  meu filho Ethan. Ela vai ficar uns dias conosco.
      Juliet conseguiu ocultar sua surpresa.  Era  evidente  que  a  senhora
Bangston tinha ganhado a partida!  Amos  tinha  aspecto  de  desejar  que  a
mulher desaparecesse de sua vista,  e,  entretanto,  tinha  aceitado  a  que
ficasse. O que haveria dito ela para o convencer?
      - Muito prazer - disse Ethan com educao.
      - Alegro-me tanto de v-lo, Ethan. Faz anos que desejo faz-lo.
      - De verdade?
      - Sim, claro. Pensei em voc muitas vezes.
      Juliet viu que Amos fechava o punho sobre a mesa. Olhou-lhe  o  rosto;
observava  a  Helen,  e  seu  olhar  era  mortal.  Juliet  engoliu   saliva,
convencida de que seu marido se achava a ponto de explodir; entretanto...
      - Duvido de que Ethan queira saber coisas de um passado to  longnquo
-foi s o que disse Amos.
      - Claro que quero, papai - disse Ethan alegre. Tinha os  olhos  postos
na visita e no viu a expresso no rosto de seu pai. - Como   que  sabe  de
minha existncia?
      - Seu pai e eu nos conhecemos faz muito tempo. - Helen sorriu e  olhou
de esguelha a Amos de uma forma que denotava claramente que sabia o  furioso
que o estava deixando e como se alegrava com isso.
      - De verdade? Vivia voc por aqui?
      Helen lanou uma risada alegre.
      - Cus, no. Quando conheci seu pai eu vivia em Omaha.  -  interrompeu
e olhou para Juliet. - Ande, Julia, no ? Passe-me as batatas, por favor.
      - Juliet - corrigiu-a ela em voz baixa, pensando que gostaria  de  lhe
dizer que a chamasse senhora Morgan.
      - Claro. Juliet. Um nome to pouco habitual... Em silncio, Juliet lhe
passou  a bandeja com as batatas.
      - No sabia que tinha vivido em Omaha, papai - disse Ethan voltando-se
para olhar a seu pai.
      - Muito pouco tempo. Quando tinha uns  quantos  anos  mais  que  voc.
Tentava  ganhar  um  pouco  de  dinheiro  durante  o  outono  e  o   inverno
empacotando l.
      - Nossa. Isso parece interessante.  Como  que nenhuma vez  me  contou
isso?
      Amos encolheu os ombros.
      - No me pareceu importante.
      - Mas, Amos, querido - interveio Helen com voz doce, -  ali  foi  onde
conheceu a me de Ethan.
      Todos os presentes ficaram gelados,  exceo de  Helen,  claro  est,
que comeou a comer as batatas com toda placidez.  Ethan  empalideceu,  e  a
seguir se ruborizou. Juliet olhou primeiro para ele e depois para Amos.  Ele
olhava fixamente o prato que  tinha  em  frente,  negando-se  a  levantar  a
vista.
      Juliet comeou a entender alguma coisa. Isto tinha algo que ver com  a
me de  Ethan.  Por  isso  Amos  permitia  que  aquela  desagradvel  mulher
ficasse. Juliet olhou a Helen. Cada minuto que passava a odiava mais.
      - Voc... Voc conheceu minha me? - perguntou por fim Ethan  com  voz
afogada.
      Helen lhe dedicou um sorriso de cumplicidade.
      - Sim, conheci sua me. Muito bem, de fato.
      Juliet intuiu que Ethan desejava perguntar mais coisas a  respeito  de
sua me, mas depois de um rpido olhar a Amos, engoliu a curiosidade.
      Ao ver que Ethan no dizia nada mais, Helen continuou:
      - Teremos que falar dela no futuro.
      - De acordo. - Ethan no pde ocultar seu desejo de faz-lo.
      Juliet agarrou o que tinha mais  mo, que acabou  sendo  o  prato  da
manteiga, e o ps sob o nariz de Helen.
      - Gosta de um pouco de manteiga, senhora Bangston? - perguntou com voz
falsamente doce. Naquele momento, o que mais  desejava  era  lhe  colocar  o
prato inteiro na boca.
      Helen olhou surpreendida o prato  de  manteiga  sob  seu  nariz,  e  a
seguir olhou um pouco divertida a Juliet, como dando a entender que sabia  o
que pensava.
      - Pois, sim, obrigada. Cus, fez voc mesma a manteiga?
      - Sim.
      - E tudo o que h na mesa? Cus, que talento tem   -  Percebeu-se  uma
certa ironia em seu tom de voz, o que deu a entender a  Juliet  que  pensava
justamente o contrrio.
      - Obrigada - respondeu Juliet. No se importava que a mulher  lanasse
dardos envenenados contra ela; sua  principal  preocupao  naquele  momento
era desviar a conversao da me de  Ethan  para  tranqilizar  Amos.  -  Me
diga, vive ainda em Omaha?
      - No, mudei para Chicago faz algum tempo.
      - De verdade? Que interessante. Eu estive vrias vezes em  Chicago.  -
Juliet comeou a falar da cidade, mantendo um tema de conversao  seguro  e
aborrecido.
      Conseguiram  terminar  o  almoo  sem  mais  momentos   tensos.   Amos
permaneceu no mais completo silncio. Comeu com rapidez,  e  quando  acabou,
ficou em p.
      -  hora de que voltemos para trabalho, Ethan.
      - Mas, papai, ainda no terminei! - disse Ethan a modo de protesto.
      - Ento ser melhor que se apresse. H ainda muita lenha que serrar no
riacho.
      - Sim, senhor. - Ethan conhecia o suficiente de  seu  pai  para  saber
quando no valia a pena discutir com ele. De um gole bebeu o que  ficava  de
leite, agarrou duas partes de po para comer pelo caminho, e  seguiu  a  seu
pai. Ao chegar  porta, enquanto desprendia o chapu  do  cabide,  voltou-se
para a mesa e esboou um tmido sorriso.
      - Boa tarde, senhora Bangston. Ver-nos-emos esta noite. Adeus, Juliet.
      - Adeus, Ethan. - Juliet o olhou com carinho enquanto ele abandonava a
cozinha.
      Helen tambm ficou em p.
      - Temo que no tenho  muita  fome  depois  do  que  comi  esta  manh.
Possivelmente coma algo pela tarde.
      Saiu da cozinha e percorreu o corredor at seu  quarto.  Juliet  ficou
atnita. No se ofereceu para ajudar,  e  nem  sequer  a  tinha  agradecido.
Juliet pensou que jamais tinha conhecido uma mulher  to  mal  educada  como
aquela. Uma no comia em casa de outra mulher e partia depois  deixando  que
a proprietria da casa limpasse, sem nem sequer oferecer-se  para  lavar  os
pratos. E a educao mais bsica exigia um obrigado. Fazendo  uma  careta,
Juliet ficou de p e comeou a recolher a mesa.
      Helen no voltou a aparecer por toda a  tarde.  Juliet  continuou  com
suas tarefas, mas sua mente no parava de dar  voltas  enquanto  trabalhava.
Pensou em Helen e em Amos e na reao dele e  no  que  Helen  havia  dito  a
Ethan... No entendia o  que  estava  acontecendo,  mas  tinha  inteno  de
inteirar-se. Assim que estivesse a ss com Amos o  obrigaria  a  lhe  contar
toda a histria!
      Tal como saram as coisas, no teve  oportunidade  de  falar  com  seu
marido at muito tarde de noite, quando foram para a cama.  Assim  que  Amos
fechou a porta, Juliet perguntou.
      - Amos, quem  essa mulher? E por que veio?   bvio  que  a  conhece,
mas tambm resulta evidente que no  amigo dela. Por que no lhe disse  que
partisse?
      Amos moveu a cabea cansativamente.
      - Juliet, por favor no. No quero falar de tudo isto.
      - No quer falar! -  Juliet  o  olhou  incrdula  enquanto  tirava  os
grampos do cabelo. - Como no quer falar? No acredita que tenho direito  de
saber quem est  como  hspede  em  minha  prpria  casa?  Para  quem  estou
cozinhando e limpando..., e por qu?
      Amos esfregou o rosto com as mos, afastou-se  dela  e  se  sentou  na
borda da cama para desamarrar as botas.
      - J sei que  um incmodo para  voc.  Sinto  muito.  Mas  no  posso
despej-la. S peo que tenha pacincia uns dias. Partir.  Conheo-a.  Logo
ficar aborrecida. Logo querer retornar a um lugar onde haja muitas  luzes,
baile e homens.
      - Isso espero - disse Juliet com ardor.
      Ele acabou de desatar a bota, tirou e a lanou contra o  cho  com  um
gesto de frustrao e ira.
      - Maldita mulher! Depois de tantos anos, por que  tinha  que  aparecer
agora?
      Juliet o olhou com preocupao e pena.  Parecia  to  cansado  que  se
compadeceu dele. Dirigiu-se  cama, ajoelhou-se sobre o  colcho  detrs  de
seu marido e comeou a fazer uma massagem nos ombros.
      - Ahhhh... - Amos emitiu um longo suspiro de prazer, deixando  cair  a
cabea relaxadamente de um lado. - s muito boa comigo.
      Juliet se ps-se a rir.
      -  o quero que pense.
      - Sei. - Amos agarrou uma das mos de  sua  mulher,  a  aproximou  dos
lbios, e depositou um suave beijo na palma.
      Com um arrebatamento de emoo, Juliet se inclinou e apoiou a bochecha
na cabea de Amos.
      - Oh, Amos... j sei que isto  doloroso.
      - Estou preocupado pelo Ethan.
      -  sua me, no ?
      Juliet sentiu que o corpo de Amos estremecia; ento ele soltou a mo e
se voltou para olh-la.
      - Como sabia? Aquela bruxa contou a voc?
      Juliet negou com a cabea.
      - No. Adivinhei-o. Pensei nisso toda a tarde, me perguntando por  que
no a obrigava a  partir  daqui,  quando  era  bvio  que  o  incomodava.  E
imaginei que a resposta era essa porque  se  via  que  tinha  algum  direito
sobre voc.
      Juliet engoliu saliva. Sua voz tinha comeado a tremer ao finalizar  o
discurso. No queria que Amos soubesse que estava incomodada ou  preocupada.
Mas no podia evitar de sentir certa apreenso  ao  pensar  na  Helen  e  no
papel que tinha ocupado no passado. Juliet recordava muito bem  o  que  Amos
lhe tinha contado a respeito da me de  Ethan  no  dia  que  John  Sanderson
proibiu que o menino visitasse Ellie.  Amos  tinha  estado  desesperadamente
apaixonado por ela, adorava-a, como ele mesmo havia dito. Quis casar-se  com
ela, e a nica razo que o impediu foi a recusa da mulher.
      Amos  agora  estava  zangado  com  ela,  certamente.  Mas  que  outros
sentimentos se escondiam sob aquela ira? Amargura, dor...  e,  no  fundo  de
tudo, um tremendo amor por ela. Juliet no pde evitar a preocupao do  que
aconteceria  se Amos permanecesse perto daquela mulher todos os dias.  Helen
era mais velha,  evidentemente,  mas  seguia  sendo  bela.  E  Juliet  teria
apostado seu ltimo centavo a que conhecia todo tipo  de  truques  femininos
que Juliet nem sequer chegaria a imaginar.
      Juliet estava segura de que Helen havia voltado para seduzir  de  novo
a Amos. Estava envelhecendo, e possivelmente comeava a preocupar-se  com  o
que faria ao cabo de uns anos, quando j no fosse to  atrativa.  Lamentava
a deciso que tinha tomado anos atrs, ao  no  aceitar  o  oferecimento  de
Amos de casar-se com ela, e, portanto tinha retornado  a  sua  procura.  Por
isso tinha ficado to  surpresa  quando  Juliet  disse  que  era  a  senhora
Morgan.
      Que possibilidades tinha um matrimnio sem  amor  e  de  convenincias
como o seu, e  idade de Amos, em comparao com a doce lembrana da  paixo
juvenil? Juliet no se enganava. Amos sentia afeto e desejo por ela; isso  o
tinha demonstrado amplamente desde que se  casaram.  Mas  no  era  um  amor
ardente e passional.
      Juliet pensou em seu matrimnio,  na  doce  e  feliz  vida  que  tinha
conseguido, desfazendo-se em pedaos. Tinha  vontades  de  chorar.  Mas  no
deixaria que Amos percebesse.
      Ele emitiu um grunhido de asco.
      - Direito! Essa mulher no tem direito algum sobre mim. No  significa
nada para mim. Demnios, que direitos acredita que pode  ter?  Pedi-lhe  que
se casasse comigo e ela se negou.  -  Torceu  o  nariz.  -  Nem  sequer  tem
direito sobre o Ethan. Ela o abandonou. Queria ir para Chicago com  um  tipo
que tinha conhecido; desejava divertir-se, no cuidar de um beb.
      - Como pde fazer uma coisa assim? - perguntou Juliet surpresa. Apesar
de ter ouvido a histria com antecedncia,  ainda  lhe  parecia  difcil  de
acreditar. - No o entendo. Como uma mulher pode  abandonar  a  seu  prprio
filho?
      - Ela no tem corao. S pensa em si  mesma  e  sua  nica  forma  de
julgar as coisas  se por acaso a divertem ou no. Um beb no  a  divertia.
Um vendedor de Chicago com dinheiro  sim.  Disse-me  que  no  queria  estar
atada para toda a vida, e menos com meu bastardo.
      - Oh, Amos! - O corao de Juliet  transbordou  compaixo  para  ouvir
aquilo.
      Ele encolheu os ombros.
      - Pois ento j no me importava. Tinha superado o transe.  Alegrei-me
quando vi que partia. Mas, claro, ficava o menino. E eu  nem  sequer  estava
seguro de que fosse meu filho.
      - O que! - Juliet ficou gelada. - Quer dizer que talvez Ethan no seja
seu filho?
      - Possivelmente. No sei. Me pareceu um menino muito grande para ter a
idade que ela disse. No o achei parecido comigo ou com minha  famlia.  Mas
isso no importava. Tinha que acolh-lo. No podia deix-lo com  uma  mulher
como aquela, no ?
      - No,  obvio que no. Mas, oh, Amos, fazer acreditar  que  o  menino
era seu filho sendo mentira! Como pode ser to cruel?
      - No sei se Helen sabe o que  a  crueldade.  No  a  importam  essas
coisas. S pensa no que quer e em  como  consegui-lo.  Bondade  ou  maldade,
crueldade, amabilidade... nada de tudo isso tem a ver com ela.  Em  qualquer
caso, j no importa. Ethan  meu filho agora. Eu  o  eduquei.  Alimentei-o,
cuidei dele quando estava doente e ensinei tudo o que precisa saber.   mais
meu filho do que jamais foi dela. Farei algo para o proteger. E ela sabe.
      - O que quer dizer?
      - Por isso veio... Ameaou-me dizendo que  contar  a  Ethan  quem  ;
pensou, isso diz, que o menino gostaria de conhecer sua me,  inclusive  que
possivelmente  queira viver um tempo com ela.
      - No! Ethan nunca faria uma coisa assim.
      - De verdade? No podemos estar seguros disso. Se descobrisse  que  eu
menti, que eu disse que sua me estava morta quando, na  realidade  no  era
certo, possivelmente me odiasse. No sabe a habilidade que  tem  Helen  para
atar as coisas, como  capaz de fazer acreditar em algo que no    verdade.
Se dissesse que eu a tinha obrigado a me entregar o menino, e  contasse  uma
histria terrvel de si mesma, inclusive se  lhe  dissesse  que  no    meu
filho... -Moveu tristemente a cabea. - No posso  me  arriscar.  Quero  que
desaparea de minha vida. E ela sabe! Por  isso  exige  que  eu  pague  para
guardar o segredo.
      - Quer dizer que pediu dinheiro? Ameaou contar a verdade ao Ethan  se
no apagar?
      - Claro que sim. Para que acredita que veio? Odeia viver  em  qualquer
lugar que no seja uma cidade. Esteve  em  Chicago  desde  que  abandonou  a
Ethan, e no teria sado dali a no ser que necessitasse dinheiro.
      - Oh. Eu tinha pensado que, ao ir envelhecendo, possivelmente tinha se
dado conta do engano cometido, e que esperava voltar com voc.
      Amos ps-se a rir.
      -  pouco provvel. Aposto  qualquer  coisa  como  perdeu  seu  ltimo
protetor masculino e no lhe resulta  nada  fcil  encontrar  outro.  Est
ficando mais velha; agora tem a concorrncia de muitas  mulheres  jovens  em
busca de um homem rico. Acabou o dinheiro, e  estava  desesperada,  de  modo
que pensou em mim e em Ethan e pensou que poderia descansar aqui uns dias  e
conseguir dinheiro para voltar para Chicago.
      - Vai d-lo.
      - No - disse ele com teima. - No conseguir um centavo  de  mim.  Se
lhe desse dinheiro, voltaria uma e outra vez com a  mesma  ameaa  cada  vez
que estivesse necessitada. Pensei que a nica  maneira  de  nos  desfazermos
dela  deixar que passe aqui uns dias at  que  esteja  to  aborrecida  que
tenha vontade de partir. No acredito que dure muito.
      - Espero que tenha razo.
      - Tambm eu. - Amos suspirou e ficou de p, desabotoando  a  camisa  e
tirando as calas. Fez uma pausa e voltou a falar com expresso  preocupada.
- Juliet...
      - Sim?
      - Sinto que esteja aqui. Voc no deveria tratar com uma  pessoa  como
ela. Suponho que parece um insulto. Mas eu no sabia que outra  coisa  podia
fazer.
      Juliet sorriu.
      - No se preocupe. Estive com mulheres como Helen  antes...  inclusive
piores. No me ofende que devamos agent-la uns dias; entendo. S o que  me
preocupa  que faa mal, a  voc  e  a  Ethan.  -  Sorriu  zombadora.  -  Em
qualquer caso, pelo que recordo, estava acostumado a dizer que  eu  era  uma
mulher como ela.
       - De acordo. - Arqueou uma sobrancelha. -  No  vale  me  acusar  dos
enganos cometidos -  disse  com  um  tom  de  falsa  severidade.  -  Toda  a
estupidez que disse ou fiz antes de me casar contigo tm que ser esquecida.
      - De verdade? Eu gostaria de saber onde est escrito isso.
      -  o mais justo. No espera que um homem  pense  com  clareza  quando
acaba de conhecer a mulher com quem vai se casar.
      - Ah, e como soube que ia casar-se.
      Ele sorriu, aquele sorriso lento e doce que sempre derretia o  corao
de Juliet.
      - Sabia. - Enganchou  os  dedos  nos  suspensrios  das  calas  e  os
baixou, e a seguir comeou a tirar a camisa enquanto se  dirigia  com  passo
lento para Juliet, sentada na cama.
      Ela se apoiou nos  calcanhares,  o  corao  acelerando-se,  encantada
pela picardia e desejo que iluminavam,  no  geral,  o  srio  rosto  de  seu
marido. Era maravilhoso ver Amos utilizar brincadeiras, liberando-se de  sua
austera educao.
      - Evidente - respondeu ela, o provocando, os  olhos  enviando  rajadas
de desejo, e abrindo a boca em um inconsciente e sensual convite.
      - No se perguntou por que lutei tanto contra? - perguntou ele em  voz
baixa, detendo-se junto  cama. Se deitava  sobre  ela,  forte  e  poderoso,
olhando-a com excitao nos olhos.
      Juliet comeou a respirar com dificuldade ao olh-lo, imaginando  suas
carcias e seus beijos.  Sua  proximidade  era  quase  insuportvel.  Estava
difcil seguir a conversao.
      - Para desfazer-se de mim, pensei.
      Ele negou com a cabea.
      - Estava assustado. Porque sabia, no fundo de meu corao, o  que  era
capaz de me fazer.
      - Fazer a voc? - perguntou Juliet brincando,  inocente,  e  arregalou
os olhos. - Refere-se a coisas como essas?
      Apoiou a mo sobre o estmago de Amos e com a outra  lhe  acariciou  o
peito, ajoelhando-se ao faz-lo.
      -  - disse ele tremendo.
      - E isto? - Desabotoou os dois primeiros botes da camisa e pressionou
os lbios sobre o torso nu.
      - Oh, sim, em especial isto - gemeu Amos. Logo a inclinou  para  trs,
as bocas unidas. Num longo e profundo beijo caram sobre a cama, esquecendo-
se por completo de Helen Bangston.
Captulo 18.
      As esperanas que Amos tinha de que Helen Bangston se aborreceria logo
e retornaria a Chicago foram  vs.  De  fato,  estava  bastante  aborrecida.
Passava a maior parte do tempo no pequeno e  informal  salo,  olhando  pela
janela ou folheando uma revista de modas que tinha  levado.  No  colaborava
em  nenhuma  das  tarefas  da  casa.  No  passava  o  tempo  tricotando  ou
costurando, nem sequer fazia coisas para ela. Parecia no saber o que  fazer
consigo mesma, levantando-se freqentemente e passeando pela  casa  enquanto
suspirava e se queixava da falta de estilo e diverso em  Nebraska.  Mas  em
nenhum momento disse que pensava retornar a Chicago.
         medida  que  o  tempo  transcorria,  o  nervosismo  de  Juliet  ia
aumentando. Aquela mulher era um estorvo. Pior que um estorvo. Antes de  sua
chegada, com pouco trabalho na granja, Amos passava  muito  tempo  em  casa,
sentado na cozinha enquanto lia ou esculpia a madeira. Ethan se  reunia  com
eles, e o cmodo se enchia de conversao e risadas. Entretanto,  com  Helen
sempre ali, Amos aproveitava qualquer  oportunidade  para  sair.  Assim  que
terminava o caf da manh, dirigia-se ao celeiro e nele ficava durante  todo
o dia, entrando na casa s durante as refeies.
      E quando estava  em  casa,  era  bvio  que  ficava  de  mau  humor  e
irritvel, de modo que pouco se podia conversar com ele.
      S a causa da ausncia de Amos era bastante irritante de por  si,  mas
alm disso Helen era uma pessoa desagradvel. Levantava-se tarde e exigia  o
caf da manh quando chegava  cozinha, muito depois de que  Juliet  tivesse
lavado os pratos e estivesse  ocupada  j  com  as  tarefas  do  dia.  Nunca
agradecia nem se oferecia para ajud-la. Jogava suas roupas    passagem  de
Juliet, esperando que ela as lavasse, sem uma palavra de agradecimento.  Mas
o pior de tudo era que se queixava. Pela manh,  tarde  e  noite  encontrava
algo pelo que queixar-se. Tinha muito frio, de modo que acenderam a  chamin
do salo; no  queria  estar  na  cozinha  porque  as  cadeiras  eram  muito
incmodas. Odiava a tranqilidade do campo, a falta de diverso, a  ausncia
de pessoas. Lamentava no poder comprar um chapu  novo.  Desagradava-lhe  a
frieza do vento e a aridez  da  paisagem.  Ao  princpio,  Ethan  lhe  fazia
companhia, falando com ela, ansioso de ver  outras  pessoas,  e  ainda  mais
ansioso de saber algo de sua me. Mas  logo  se  refugiou  com  seu  pai  no
celeiro, incapaz de agentar as queixas.
      Parecia que s ela, pensou Juliet, no podia escapar da mulher.
      A princpio, Juliet fez todo o possvel para  ser  agradvel.  Afinal,
todos os hspedes mereciam serem  tratados  com  certa  boa  educao.  Alm
disso, Amos temia que Helen contasse a verdade a  seu  filho,  de  modo  que
parecia obrigatrio estar de bem com ela. No queria que  Helen  contasse  a
verdade a Ethan s por estar zangada com Juliet. Mas  medida  que  os  dias
transcorriam, custava-lhe mais e mais ser educada. Juliet no se  encontrava
muito bem, o que dificultava fazer trabalhos suplementares para a mulher,  e
estava mal-humorada, de modo que as constantes queixas de Helen a  irritavam
mais que nunca. Juliet se sentia sempre cansada, e enjoada  em  ocasies,  e
cada vez estava mais convencida de  estar  grvida.  Entretanto,  no  havia
dito ainda a Amos porque Helen estava em casa. Era uma tolice,  pensou,  mas
no se viu capaz de suportar que Helen participasse daquele  ntimo  momento
de prazer.
      Decidiu contar a Amos assim que Helen se fosse, pensando  em  preparar
um jantar especial  para  dar  depois  a  notcia.  Mas  Juliet  comeava  a
perguntar-se se aquilo teria lugar algum dia. Parecia que Helen se  instalou
de forma permanente em sua casa, e Juliet gostaria  de  saber  o  que  fazer
para que partisse dali.
      Uma tarde, quando Helen se queixava a respeito da falta  de  calefao
no salo, esperando que Juliet acendesse o fogo, Juliet surpreendeu a  ambas
quando rompeu a chorar e saiu correndo do  cmodo.  Foi  diretamente  a  seu
dormitrio, deitou-se sobre a cama e deu passagem s lgrimas.
      Por fim, esgotada, dormiu uma sesta. Despertou com uma  nova  sensao
de tranqilidade e com um objetivo a cumprir. A pacincia tinha  chegado  ao
seu fim. J no havia forma de agentar a essa mulher em seu lar. Juliet  se
lavou, arrumou o penteado e pensou em qual seria a melhor forma de desfazer-
se de Helen. Teve uma idia, sorriu ao espelho, perguntando-se por  que  no
tinha ocorrido antes. Com recm descoberta tranqilidade  desceu  do  quarto
dirigindo-se  cozinha.
      Por necessidade, o jantar teve que  ser  improvisado,  j  que  Juliet
tinha passado grande parte da tarde dormindo em vez de trabalhando, mas,  no
fundo, Juliet se alegrava. Estava segura de  que  Helen  tiraria  a  luz  os
acontecimentos da tarde e dessa  forma  ela  poria  em  marcha  seu  prprio
plano.
      Tal como esperava, quando estavam sentados    mesa,  Helen  passou  o
olhar pela mesa escassamente provida.
      - Nossa - disse,  -  que  jantar  to  agradvel  conseguiu  preparar,
Julie. - Helen tinha  comeado  a  utilizar  o  diminutivo  Julie,  que  com
freqncia usava Ethan, e que punha nervosa a Juliet cada vez que  a  ouvia.
- Temi que depois do ocorrido essa tarde no pudesse cozinhar nada.
      Amos levantou a vista para ouvir aquele comentrio, olhando  fixamente
a sua esposa. Franziu o sobrecenho.
      - O que ocorreu esta tarde? - perguntou ele.
      - Fiquei muito preocupada com ela - continuou Helen com um sorriso  de
falsa doura, olhando  a  Juliet.  -  Quero  dizer,  ficar  histrica  dessa
maneira... bom, foi muito surpreendente.
      - Histrica! - Amos ficou atnito. -  Juliet,  de  que  demnios  est
falando?
      Preparada, Juliet lhe dirigiu um sorriso tranqilizador.
      - Vamos, Amos,  no  se  preocupe.  No  foi  nada.  Estava  um  pouco
cansada, e comecei a chorar.
      - Do que estava cansada? - Amos olhou de forma suspeita para Helen.
      - J nem me lembro. - Juliet se dirigiu a  Helen,  sorrindo  da  mesma
forma doce que a outra tinha  feito.  -  Mas  confesso  que  devo  estar  me
ultrapassando. No estou acostumada a reagir desse modo. Quero dizer,   uma
tolice ficar assim. Afinal, no foi um grande sacrifcio para  mim  ter  que
trazer mais lenha, para voc, verdade?
      O rosto da Helen ficou petrificado. Ethan olhou a Juliet assombrado.
      - Quer dizer que ela pediu que lhe trouxesse mais lenha?
      Helen interveio rapidamente.
      - Juliet, querida, deve ter entendido mal.  -  Ficava  claro  que,  ao
menos Helen queria manter as aparncias com  Ethan.  -  Nunca  me  ocorreria
pedir uma coisa assim. Est j to ocupada, esfregando chos  e  tudo  isso.
Claro  que  se  eu  soubesse  fazer  essas  coisas,  eu   adoraria   ajudar.
Infelizmente, nunca me educaram para fazer isso.
      - No se  preocupe  -  disse  Juliet  rapidamente.  Helen  havia  dito
exatamente o que ela queria. - Ser um prazer ensinar.  Agradeo  muito  sua
oferta de me ajudar com as tarefas da casa. Estou segura de  que  as  coisas
sero muito mais fceis.
      Helen piscou, mantendo um silncio de assombro.
      - Podemos comear logo depois do jantar - continuou Juliet. - Pode  me
ajudar a recolher a mesa e lavar os pratos.
      - Quer dizer que no tem ajudado a Juliet? - Amos  voltou  a  olhar  a
Helen com expresso de ira.
      - Vamos, Amos - Helen emitiu um risinho. - Sabe o mal que  fao  essas
coisas. Sabia que seria ainda mais incmodo pedir que Juliet me ensinasse.
      - Mais incmodo que deixar para ela fazer tudo? - perguntou  Amos  com
cepticismo. Seu olhar era frio. Voltou-se para Juliet.  -  Por  que  no  me
disse isso?
      Juliet encolheu os ombros.
      - No me pareceu necessrio incomodar com esses problemas.
      Helen comeou a justificar seu comportamento.
      - Claro, eu me ofereci para ajudar a  pobre  Juliet,  mas  ela    to
genial na cozinha que era uma tolice oferecer meus humildes servios.
      Ethan comeou a rir.
      - Genial! - Morrendo de rir, olhou para Juliet. - Teria que ter  visto
a primeira comida que nos preparou!
      Juliet devolveu o sorriso, e a seguir se voltou para ela.
      - Sim, por isso estou to  segura  de  poder  ensinar  -  disse  muito
tranqila. - Temo que ningum o teria feito pior que eu.
      Helen abriu a boca, depois a fechou, parecendo-se muito  a  um  peixe,
pensou Juliet.
      - Agradeo muito a sua oferta - prosseguiu Juliet. - Estou  segura  de
que nos divertiremos muito fazendo as tarefas da casa, verdade?
      O sorriso de Helen parecia ligeiramente doentio.
      - Claro.
      Helen tentou sair da cozinha  assim  que  terminaram  de  jantar,  mas
Juliet, que esperava aquela reao, lhe adiantou e a pegou pelo brao.
      - A primeira coisa que tem que  fazer,  Helen,  querida,    limpar  a
mesa. Veja, recolha os pratos sujos e os leva para a pia.
      Como ajuda apontou a pia. Helen  olhou  a  seu  redor  e  de  repente,
inspirada, disse:
      - Ser melhor que v primeiro a meu quarto para  me  trocar  para  no
sujar o vestido.  de seda, claro, e se mancha com muita facilidade.
      - Isso no  um problema - disse Juliet, sem soltar o brao da  mulher
e sorrindo com determinao. - Tenho aqui  vrios  aventais  que  pode  pr.
Assim no sujar o vestido.
      Helen a olhou furiosa, mas foi com Juliet at o armrio, de  onde  ela
tirou um avental longo. J que Juliet no a  soltava,  a  Helen  no  restou
mais remdio que aceitar! Uma vez colocado o avental,  Juliet  ps  Helen  a
trabalhar recolhendo a mesa. Amos se recostou na cadeira tirou o cachimbo  e
acendeu, como se estivesse a ponto de desfrutar de  um  bom  espetculo.  J
que todos ficaram, Ethan fez o mesmo. Juliet sabia que a presena  de  Ethan
faria Helen ficar ali, j que no podia se permitir o luxo de ficar mal  com
ele quando sua ameaa dependia de que Ethan acreditasse.
      As mulheres trabalharam em silncio, quebrado s pelas instrues  que
Juliet dava a sua ajudante. Uma vez retirados os  pratos  e  a  mesa  limpa,
Juliet sugeriu que Helen lavasse os pratos enquanto  ela  os  secava.  Helen
ficou boquiaberta.
      - Quer dizer que meto as mos em  gua  com  sabo?  -  Fez  um  gesto
assinalando a pia, onde Juliet tinha deixado uma terrina com gua.
      - Sim. Est quentinha  -  respondeu  alegremente  Juliet,  enquanto  a
empurrava com suavidade para a pia.
      Algo se acendeu nos olhos de  Helen,  e  durante  um  instante  Juliet
pensou que ia pronunciar umas palavras  seletas,  mas  Helen  se  limitou  a
respirar fundo, logo sorriu e foi at a pia. Timidamente colocou a bucha  na
gua, tentando, sem xito, no molhar as mos, e lavou seu  primeiro  prato,
passando-o mal-humorada a Juliet para que o limpasse e secasse.
      Juliet manteve o mesmo agradvel sorriso enquanto lavavam  os  pratos.
No estava difcil, j que se divertia muitssimo com a  expresso  de  asco
de sua companheira. Demoraram o dobro de tempo  em  esfreg-los,  claro,  j
que Helen se movia com uma lentido agonizante (com esperanas de se  livrar
do trabalho, suspeitou Juliet) e teve que voltar a esfregar algumas  coisas,
mas Juliet estava decidida a que a outra acabasse a tarefa.
      Quando por fim Helen tinha acabado de lavar os pratos e tirou as  mos
da gua, conteve a respirao.
      - Oh! - exclamou. - Olhe minhas mos! Esto enrugadas e vermelhas!
      Juliet assentiu.
      - Sim. Verdade que  terrvel o que faz o trabalho da casa? Eu  tambm
recordo quo orgulhosa estava de minhas mos. Mas lavar roupa  pior  ainda.
O barro  terrvel! - Moveu a cabea e suspirou profundamente. A  seguir  se
alegrou: - mas ao menos no teremos que lavar a roupa at na quinta-feira.
      Com aquela alegre frase, Juliet pendurou o pano  de  cozinha  e  saiu,
deixando a Helen surpresa e olhando-a com cara de m.
      Na manh seguinte, quando  Juliet  desceu  para  preparar  o  caf  da
manh, chamou com fora  porta da Helen.
      - Hora de levantar-se! - disse, reprimindo um sorriso e  recordando  o
pouco que ela gostava de levantar-se  quando  chegou  pela  primeira  vez  
granja.
      Ouviu-se um letrgico murmrio  do  outro  lado  da  porta,  e  Juliet
voltou a chamar.
      - Helen! Hora de levantar-se! Temos que  preparar  o  caf  da  manh.
Primeiro iremos recolher os ovos.
      No interior do quarto se ouviu uma forte exclamao.
      - O que! - Aps uns instantes, abriu-se a porta revelando a uma  Helen
numa camisola. Sem espartilho nem  maquiagem,  parecia  mais  velha  e  mais
desarrumada. - Que horas so? - gemeu, apoiando a  cabea  contra  a  porta,
fazendo um esforo por abrir os olhos.
      - Quase seis. Agora que comea a fazer mais frio, no  nos  levantamos
to cedo.
       Helen  conseguiu  abrir  um  olho  o  tempo  suficiente  para   olhar
gelidamente a Juliet.
      - Ficou louca?
      - Acredito que no.
      - Eu no vou procurar ovos debaixo de uma galinha! - gritou  Helen.  -
Saia!
      - Oh - disse amvel Juliet, fazendo um gesto  cmico.  -  Lamento  que
no se encontre bem e no possa sair. Certamente est  tambm  muito  doente
para comer. Bom, no se preocupe; fica na cama esta manh. Trarei  um  prato
quente de ensopado  hora do almoo.
      - Maldita seja! No estou doente! - chiou Helen. -  No  quero  ir  ao
maldito galinheiro em busca de uns malditos ovos.
      - Meu deus,  que  coisas  diz  -  respondeu  Juliet,  pondo  rosto  de
inocncia e preocupao. Estendeu a mo para tocar a fronte da  Helen,  como
se quisesse comprovar se tinha febre. - Deve  estar  muito  mal  para  falar
dessa forma. To pouco digna.
      - No estou... - Helen comeou a gritar, e a seguir se  deteve.  Olhou
por cima do ombro de Juliet  ao  corredor  e  conseguiu  sorrir.  Juliet  se
voltou e quase ps-se a rir a gargalhadas. Ethan tinha chegado ao  corredor;
no podia ter sido  melhor. Helen  fingiu  no  ter  visto  Ethan.  -  Quero
dizer, possivelmente tenha razo. No me encontro  muito  bem.  Ser  melhor
que fique na cama e descanse.
      - Lamento ouv-lo - disse Ethan, intervindo  na  conversao.  -  Est
doente?
      - Temo que sim. - Helen lhe dedicou um sorriso valente, mas dbil.
      - Sim, certamente tem febre - adicionou Juliet mentindo.  -  Em  minha
opinio deve ter um problema de estmago. No poder comer nada slido.
      Afastou-se, e Ethan a acompanhou. Detrs deles, Helen fechou  com  uma
portada que reverberou por todo o corredor. Juliet ps-se a rir, e  Ethan  a
olhou compartilhando a diverso.
      - Parece-me que abaixou seu fogo - brincou Ethan.
      Juliet o olhou surpreendida.
      - Pensei que gostava dela.
      Ethan fez uma careta.
      - Eu tambm pensava, a princpio. Mas como pode agradar-me vendo  como
se comporta? Trata voc como a uma escrava. No sei  por  que  papai  deixou
que ficasse.
      - Possivelmente lhe dava pena.
      - Sempre est desculpando a papai. Mas me parece que  se  comporta  de
forma muito estranha desde a chegada dessa mulher.  As  coisas  j  no  so
iguais. Nem sequer se d conta da forma como ela a trata!
      - Estou segura de que tem  outras  coisas  no  que  pensar  -  objetou
Juliet.
      - Como o que?
      Diante de uma provocao semelhante, Juliet to somente pde  encolher
os ombros. Deus Santo, que situao to  impossvel!  Se  Amos  no  tomasse
cuidado, ia ter problemas com seu filho s por deixar que Helen  ficasse  na
casa! Juliet estava mais decidida que nunca a desfazer-se dela.
      Helen no saiu do quarto por todo o dia.  Juliet  levou  um  prato  de
caldo de frango  hora do almoo e outro para o jantar.  Quando  entregou  a
bandeja a Helen a segunda vez, acreditou que esta ia atirar-lhe a bandeja  e
o prato  cabea. Mas, fazendo um grande esforo, reprimiu-se.  Sem  dvida,
pensou Juliet, deu-se conta que se fizesse algo assim, ficaria sem comida.
      Na manh seguinte quando Juliet bateu na  porta  de  Helen,  a  mulher
gritou zangada:
      - De acordo! Um minuto!
      Helen chegou  cozinha arrastando os ps quinze  minutos  mais  tarde,
com olhar cansado, bocejando e com m cara.
      - De acordo - disse a contra gosto. - Vamos.
      Necessitou trs dias de tarefas domsticas para acabar com a Helen.  O
primeiro dia, Juliet a ensinou a esfregar  os  chos,  e  o  segundo  dia  a
submeteu  experincia de lavar roupa numa  terrina  grande  colocada  sobre
uma fogueira no ptio. No terceiro dia, fizeram po. Pouco antes  do  almoo
naquele dia, enquanto Helen, avermelhada  e  irritada,  colocava  a  mo  no
forno para tirar a ltima fornada de po, queimou seu dedo com  o  ferro  em
brasa.
      Emitiu um chiado e deixou cair a bandeja. Dourada a  fornada  caiu  do
recipiente e cruzou patinando o cho da cozinha. Juliet olhou o po  que  se
deslizava, e ps-se a rir. Helen  a  observou  fixamente,  chupando  o  dedo
queimado.
      - Sinto muito - disse Juliet e  cobriu  a  boca  para  reprimir  outra
gargalhada, embora o olhar fosse de diverso.
      - No, no sente - gritou Helen. Ps os  braos  na  cintura  e  ficou
olhando a Juliet. - No sente absolutamente. Isto  o que queria!
      - No que queimasse a mo. Vm aqui, e coloco uma pomada.
      -No importo nada! Odeia-me! - chiou Helen como uma cria.
      - Que espera de mim? Acredita que  deveria  me  importar  quando  est
fazendo todo o possvel por fazer mal a meu marido e a seu filho?
      - No quero fazer mal a Ethan. Nem a Amos tampouco.  S  quero  o  que
mereo.
      - Duvido-o - respondeu Juliet seca. - No acredito que  voc  gostaria
de nada do que merece.
      - Eu pari a seu filho! No  me  d  isso  direito  a  algo?  E  o  vou
conseguir. No penso partir daqui at que ele d meu dinheiro.
      - Voc abandonou o seu filho, e cr que Amos deveria pagar  por  isso?
No parece suficiente ter deixado jogado como  um  trapo  sujo;  agora  quer
vender sua felicidade - Juliet estava furiosa.
      - Basta! - chiou Helen. - No tem nenhum direito  a  me  julgar!  Voc
no  melhor que eu!  uma atriz vagabunda que, de  algum  jeito,  conseguiu
meter-se nessa casa! Ah, sim, Ethan me disse que foi  atriz.  Parecia  estar
muito orgulhoso de voc, o tonto. Pois bem, eu sei como so as  atrizes,  de
forma que no precisa mostrar-se to importante. Voc tambm quer uma  parte
desse bolo. E agora que est grvida de Amos, vai se utilizar do  beb  para
se beneficiar. Tentar jogar o meu filho dessa casa e ficar com tudo para  o
seu!
      Juliet ficou atnita e, instintivamente, cobriu-se a  barriga  com  as
mos para proteger a seu beb.
      - Como sabia... ?
      - Por favor, no sou nenhuma  imbecil!  Convivi  com  muitas  mulheres
bastante tolas para ficarem grvidas. - Fez uma pausa, e  a  olhou  como  se
estivesse avaliando a situao. - Ele no  sabe,  verdade?  No  disse.  Por
que, pergunto-me?
      As mos de Juliet se fecharam num punho, afundando as unhas na  palma,
e deu um passo para a Helen, os instintos de amparo a flor de pele.
      - Porque voc estava aqui, por isso,  e    capaz  de  estragar  tudo,
inclusive isso - gritou.
      - De verdade? Pergunto-me se Amos acreditaria?  Se  eu  lhe  revelasse
seu pequeno secreto...
      - No se atreva a me ameaar. Se de algum jeito  se  atrever  a  fazer
mal a Amos ou Ethan ou meu beb, farei que sua vida seja um  inferno.  Juro-
o. O que estive  fazendo  nesses  ltimos  dias  parecer  uma  diverso  em
comparao com o que a esperaria.
      Helen retrocedeu ao ver a ira da mulher mais jovem e  mais  gil,  mas
tirou o queixo de forma desafiadora.
      - Qual  a razo  doce  Juliet?  Juliet  a  perfeita.    o  beb  o
bastardo de outro homem? Ou   que  pensou  duas  vezes  (possivelmente  nem
sequer uma granja to grande valha a dor e o  sofrimento)  de  modo  que  se
desfar do menino antes que... ?
      Com um grito de ira, Juliet levantou o  brao,  esbofeteando    outra
com todas suas foras.
      - Mulher asquerosa, viciosa...!
      Helen cambaleou para trs com um grito, mas era mais alta e mais gorda
que Juliet e, e essa diferena j  tinha  chegado  a  ajudar  contra  outras
pessoas. Rapidamente recuperou o equilbrio e agarrou  a  Juliet  com  tanta
fora pelo coque que o desfez,  e  as  forquilhas  saram  voando  por  toda
parte. Juliet fez um esforo para livrar-se da mulher,  enquanto  que  atrs
delas ouviram fortes pisadas  no  alpendre  e  a  porta  abriu  de  repente,
chocando-se contra a parede.
      Juliet e Helen se voltaram, soltando-se  mutuamente.  Amos  estava  na
soleira, com expresso de total assombro, as olhando.
      - Que diabo acontece aqui? - exigiu saber. - Ouvi Juliet gritar.
       Juliet  se  ruborizou,  envergonhada  de  que  a  encontrasse   nessa
situao, e afastou a vista,  tentando  inutilmente  arrumar  o  coque.  No
podia olhar a  seu  marido  nos  olhos,  e  muito  menos  responder  a  suas
perguntas.
      Mas Helen no teve problemas para isso.
      - Essa mulher me atacou! - disse acusando e apontando a Juliet.
      - Atacou? - Amos ficou atnito. - Vamos, Helen.
      -  certo! - respondeu Helen, ultrajada. - Tinha  feito  a  ela  feito
uma pergunta, e ento se ps a chiar como uma louca e se atirou  sobre  mim,
me pegando e me dando chutes. Claro que me defendi.
      - Juliet? - Amos a olhou, a voz suave. - O que aconteceu de verdade?
      Os olhos de Juliet se encheram de lgrimas.
      - Oh, Amos! - disse  soluando.  -  Sinto-o  muito.  Sim  que  dei  um
bofeto.  certo. De repente j  no  pude  agent-la  mais.  -  Comeou  a
chorar e tampou o rosto com as mos para ocultar a vergonha que sentia.
      - Juliet, no, no chore - disse Amos com ternura e cruzou  a  cozinha
em direo a ela.
      Helen observou aquele intercmbio de palavras, contrariada.
      - Bom, suponho que no deveria me surpreender - disse com  azedume.  -
As mulheres grvidas sempre ficam histricas, ou isso disseram.
      Amos demorou uns segundos em entender as palavras. Ento se  deteve  e
olhou a Helen.
      - O que? O que h disse?
      Helen repetiu suas palavras. Juliet se voltou e a olhou com  expresso
feroz.
      - Como se atreve! - gritou. - No causou j bastante dano?
      Amos voltou a olhar par Juliet.
      - Grvida? Julie,  verdade?
      Juliet assentiu com a cabea. Agora ele se zangaria com  ela,  pensou,
por no ter-lhe dito.  Quereria  saber  por  que  Helen  sabia  e  ele  no.
Acreditaria em todas aquelas coisas  to  terrveis  que  Helen  havia  dito
dela?
      A surpresa no rosto  de  Amos  deu  passagem  a  uma  grande  ternura.
Segurou a sua mulher com o maior carinho.
      - Querida minha, por que no me disse antes? Esteve trabalhando  muito
para algum em seu estado. Oh, Meu deus, alm de  ter  que  atender  a  essa
mulher. Deveria ter me dito.
      - Queria faz-lo, mas a princpio no  estava  segura,  e  depois  ela
veio, e no podia suportar a idia de contar a novidade  enquanto  estivesse
aqui. Queria que fosse  em  particular  e  algo  muito  especial.  -  Juliet
comeou a chorar de novo, mais silenciosa agora, e apoiou a cabea contra  o
grande peito de Amos, como se o homem lhe infundisse fora.
      -  algo especial, carinho, eu sei - tranqilizou-a  Amos,  carinhoso,
lhe embalando a cabea e inclinando-se para beij-la.  -  No  importa  quem
esteja aqui. Isso  especial. No poderia haver nada mais especial.
      Abraou-a com fora durante uns segundos,  os  olhos  fechados.  Helen
fez uma careta ao ver sua reao, to diferente da que  ela  tinha  esperado
quando revelou o segredo de Juliet.
      - Pelo amor de Deus, Amos,  to imbecil agora como sempre  -  espetou
Helen. Amos levantou a cabea  e  fixou  o  olhar  nela,  com  expresso  de
rancor. Mas Helen se negou a intimidar-se apesar da bvia ira  do  homem.  -
No me olhe como um urso ferido. Eu no sou quem est levando  o  prmio;  
esta pequena aqui. Faz muito bem o papel  de  menina  inocente,  mas    uma
escria sob todo esse exterior dourado, igual s demais.
      - Juliet no se parece em nada a voc. Graas a  Deus.  -  Amos  olhou
tranqilamente a Helen por cima da cabea de sua esposa. Falava com calma  e
sem emoo. -  hora de que se v. Quero que  v.  No  permito  que  Juliet
tenha um excesso de trabalho num momento como esse, nem  tampouco  necessita
mais problemas. Acompanharei voc ao povoado na primeira hora da manh.
      Helen se ergueu.
      - Isso acredita? Ento me parece que contarei a seu filho  a  histria
de sua me, devo? A no ser, claro est, que esteja disposto a  me  conceder
aquele pequeno emprstimo de que falamos.
      - No era pequeno, e no era um emprstimo. O que  est  fazendo  est
acostumado a levar o nome de chantagem, e no estou  disposto  a  ceder.  Se
decide fazer mal ao Ethan contando que  sua me e que  no  quis  se  casar
comigo, que me abandonou para ir a Chicago com outro homem, ento,  adiante.
No posso impedir isso.
      Os olhos da Helen resplandeciam de ira.
      - Maldito seja! Est to cheio de si mesmo  e    to  farisaico,  to
preocupado por sua pequena mulherzinha. Como se pudesse  quebrar-se  como  a
porcelana! No sabe nada. Deixa que o informe de  uma  coisa:  seu  precioso
Ethan nem sequer  teu filho! Deixei-o contigo porque  foi  o  imbecil  mais
crdulo que eu conhecia. Sabia que ficaria com ele; era muito  nobre  para
no faz-lo. Mas no era seu; e durante todos estes anos no foi seu.
       Uma  respirao  entrecortada  se  ouviu  na  porta.  Todos   ficaram
petrificados. Lentamente Amos se voltou para o  lugar  de  onde  procedia  o
rudo. Ali estava Ethan, uma expresso de horror desenhada em seu rosto.
Captulo 19.
      - Deus Santo! - suspirou Amos, e seu corpo se desabou, como se tivesse
ficado sem energia.
      Ethan se precaveu da reao de Amos, que resultava  muito  mais  clara
que suas palavras.
      - Ento,  verdade? No sou seu filho? Ela  minha me? Minha me  no
morreu? Era uma puta que me abandonou.
      - Ela  sua me - disse Amos com pesar.
      - Deus Santo! - Ethan se arrepiou at o cabelo,  apertando  as  pontas
dos dedos como se pudessem conter os terrveis pensamentos que passavam  por
sua cabea. Seu rosto mostrava confuso e assombro.
      - Ethan, no  como acredita. - Amos deu  um  passo  tmido  para  seu
filho.
      - No? - Ethan lhe deteve com um terrvel olhar. - Ento,  como  ?  O
que outra coisa pode ser? Sou um bastardo! No tenho direito a utilizar  seu
nome! -Pareceu ter uma nova idia. -  Por  isso  Sanderson  no  queria  que
visitasse sua filha, verdade? Sabia que eu era um  bastardo,  e  no  queria
que uma pessoa como eu se casasse com Ellie. E nem sequer sabia o  pior;  ao
menos pensava que era teu filho  embora  no  tivesse  me.  Mas  agora  nem
sequer sei quem  meu pai. O nico parente que tenho ...  -  Olhou  para  a
Helen, e o asco que sentia se fez patente.  -  Oh,  Deus!  Virou-se  e  saiu
correndo da cozinha.
      Amos o observou com expresso de angstia. De novo se dirigiu a Helen,
e o dio ardia em seu olhar.
      - Faz as malas. Levar-te-ei a povoado esta tarde.
      Helen comeou a falar, mas Amos levantou a mo, movendo a  cabea  com
gesto severo.
      - No! Nem o tente. J disse o suficiente. Afundou os navios;  j  no
tem nada com que negociar. - Logo se dirigiu a Juliet: - Se assegure de  que
ela leva tudo. No quero nenhuma lembrana dela aqui. Se negar  a  fazer  as
malas, as faa voc. Tentarei falar com o Ethan enquanto isso.
      Juliet assentiu, e Amos saiu  do  quarto,  seguindo  a  Ethan  para  o
celeiro. Juliet se voltou para Helen, que  cruzou  os  braos  olhando  para
Juliet de forma desafiadora.
      - Bom e como queria que eu soubesse que o menino estava escutando?  Eu
no o vi chegar.
      Juliet passou na frente dela sem responder. Com um suspiro  dramtico,
Helen a seguiu. Entraram no quarto de Helen, onde ela  tirou  o  ba  de  um
canto comeando a ench-lo. Fazia com tanta lentido que Juliet  se  uniu  a
ela, esvaziando  gavetas  na  maior  velocidade.  Ao  menos,  pensou  Juliet
decidida, seria a ltima vez que teria que trabalhar para Helen Bangston.
      Quando terminaram, Juliet lhe  serviu  um  prato  de  guisado  quente:
sabia que se sentiria  culpada  se  mandava  a  algum,  inclusive  a  Helen
Bangston, de retorno ao povoado sem algo quente no estmago. Mas  no  tinha
por que ficar com ela enquanto o comia, pensou Juliet, de modo  que  colocou
a capa e foi ao celeiro.  Ali  encontrou  Amos,  acabando  de  enganchar  os
cavalos ao carro. A expresso de seu rosto era  de  seriedade,  e  quando  a
viu, no sorriu como estava acostumado a fazer.
      - O que ocorreu? - perguntou Juliet temerosa. Amos negou com a cabea.
      - Nada. No quis me escutar. Insiste continuamente em que  no    meu
filho e que no importa nada o que eu diga. Ao final  voltou  correndo  para
casa. Est furioso comigo por ter mentido durante todos esses anos.  -  Amos
fez uma careta de dor. - Mas como teria que ter atuado? Lhe  dizer  que  era
ilegtimo, que possivelmente nem  sequer  era  meu  filho?  S  o  que  quis
durante todos estes anos foi lhe poupar uma dor desnecessria. Agora olhe  o
que aconteceu.
      Juliet suspirou e ps uma mo sobre o brao de Amos.
      - No se preocupe. Ficar tranqilo.  jovem;  age  antes  de  pensar.
Mas o entender. Logo ver.
      - No sei. Nunca fui muito bom na hora de falar com ele. O que se  tem
que fazer para convencer a algum que o  quer  como  se  fosse  seu  prprio
filho? Maldita seja, possivelmente inclusive o seja, por tudo o que eu  sei;
a Helen nunca importou mentir. E se no o fosse, no me importa. E  ele  no
me cr. Me olha como se eu fosse um estranho.
      Ferida pela dor que via em seu rosto, Juliet  rodeou  a  Amos  com  os
braos e se apertou contra ele.
      - Tudo se arranjar - assegurou-lhe. - J o ver. D-lhe tempo. Sem  a
Helen aqui, as coisas iro melhorar.
      Amos lhe deu um forte aperto.
      - Obrigado. Possivelmente tenha razo. - Com um  suspiro,  soltou-a  e
retrocedeu uns passos. Clareou-se a  garganta.  -  Em  qualquer  caso,  ser
melhor que v. Tem todas as coisas preparadas?
      - Sim. Eu mesma o comprovei.
      - Estupendo. - Olhando pelas portas abertas do celeiro, Amos  observou
o cu, cada vez mais coberto e ameaador.  -  Parece  que  vai  haver  outra
tormenta. Ser melhor que nos ponhamos a caminho antes que comece.
       Juliet o acompanhou com os cavalos at diante da casa. Amos  subiu  o
ba e as bolsas de Helen ao carro e disse a ela que se acomodasse  na  parte
traseira da carruagem, o mais longe  possvel  dele.  Saudou  e  sorriu  com
certo desnimo a Juliet e se afastou da granja. Juliet os observou  at  que
chegaram ao final do atalho. Tremeu, Amos  tinha  razo;  comeava  a  fazer
frio, e se dirigiu depressa  casa.
      No tinha vontade de comer; ultimamente seu estmago no estava  muito
bem. Obrigou-se a comer uma parte de  po.  A  seguir  serviu  um  prato  de
guisado, ps sobre uma bandeja e o subiu ao quarto de Ethan.
      A porta estava fechada, de modo que Juliet ps a  bandeja  no  cho  e
chamou.
      - Ethan? Sou eu, Juliet. Trouxe um pouco de comida. Posso entrar?
      No recebeu resposta, e ao cabo de uns instantes  Juliet  encolheu  os
ombros e saiu. Ao menos ele sabia onde estava a comida se por acaso  tivesse
fome. Desceu e se manteve ocupada limpando a cozinha. Quando  terminou,  foi
a seu quarto e dormiu uma pequena sesta, algo  que  lhe  ocorria  com  maior
freqncia fazia j vrios dias. Parecia estar sempre cansada.
   Depois, ao sair de seu quarto, viu que a bandeja  estava  vazia  junto  
porta do quarto do Ethan. foi recolher a e, seguindo um impulso,  chamou  de
novo.
      - Ethan? No quer falar comigo?
      No houve resposta. Juliet voltou a chamar, a seguir  deu  a  volta  a
maaneta e empurrou. Surpreendida, viu que a porta se abria com  facilidade.
Tinha suposto que estaria fechada  com  chave  para  impedir  a  entrada  de
visitas. Olhou no interior,  mas  no  havia  sinais  de  Ethan.  Abriu  por
completo a porta e entrou. Ningum.
      Juliet emitiu um som de contrariedade. Tinha estado  falando  com  uma
porta e com nada mais. Dirigiu-se  janela e observou  a  paisagem  alm  da
casa. O cu estava coberto de nuvens cinzas, e um vento aoitava os  prados,
levantando p e terra. Ethan no  estava  por  nenhuma  parte.  Perguntou-se
onde se encontraria.
      Juliet se separou da janela e se dirigia para a porta quando se  fixou
numa gaveta aberta. Em um gesto automtico se  aproximou  para  fech-la,  e
viu que estava vazia.  Que  estranho!  Rapidamente  abriu  outra  gaveta,  e
outra. Uma estava vazia, e a outra tinha to  somente  uns  poucos  objetos,
Juliet foi para o armrio de  carvalho  e  abriu  as  portas.  Havia  vrias
coisas penduradas, mas Juliet estava segura de que faltava algo.
      O armrio estava muito vazio. Olhou para  baixo.  Soube  que  faltavam
tambm um par de sapatos ao ver  um  espao  vazio  ao  lado  das  botas  de
trabalho.
      To somente para assegurar-se, Juliet  abriu  todas  as  gavetas.  Era
verdade. No podia neg-lo: Ethan tinha partido, levando toda a  sua  roupa.
Tinha fugido! Enquanto ela dormia a sesta deve ter  pegado  alguns  objetos,
partindo de casa s escondidas.
      O medo se apoderou de seu corao. Tentou imaginar o que   Amos  diria
e como se sentiria. Machucaria sua alma, disso estava segura. Culparia a  si
mesmo por no ter contado a verdade a Ethan anos atrs.  E  Ethan?  Com  que
tipo de problemas poderia topar s e longe de casa?
      Outra preocupao a acossou. Cada vez fazia mais frio no  exterior,  e
Ethan partiu a p. Amos havia  dito  que  soprava  vento  do  norte,  o  que
significava que refrescaria ainda mais.  Se  ficasse    intemprie  toda  a
noite, podia morrer congelado. Menino insensato!
      Olhou de novo pela janela, preocupada. A paisagem era a mesma.  Tentou
calcular quanto tempo demoraria Amos em retornar do povoado,  para  que  ela
pudesse avisar que Ethan tinha desaparecido. Demoraria ao menos outra  hora,
pensou e ao ser j metade da tarde, ficaria pouca luz para  procurar  Ethan.
Ocorreu-lhe que ela deveria sair em sua busca, mas sabia que no  alcanaria
a Ethan a p, e Amos levou os dois cavalos.
      Preocupada, foi de um quarto  a  outro,  observando  o  horizonte  por
todas as janelas. Do quarto de  Frances  via  as  rvores  que  bordeavam  o
riacho e entre eles e a casa,  o  pequeno  cemitrio  da  famlia.  Enquanto
olhava, algo se moveu ao  lado  de  uma  tumba.  Demorou  uns  instantes  em
compreender. Inclinou-se, esforando-se em ver. O movimento  se  repetiu,  e
viu que era uma pessoa alta e magra que tinha estado sentada ao lado de  uma
tumba e que agora ficava de p. Ethan!
      Claro! Aquilo tinha  sentido.  Sua  inteno  era  a  de  abandonar  a
granja, por isso se deteve junto  tumba de Frances para despedir-se.  Ainda
poderia alcan-lo!
      Correu a seu dormitrio e agarrou a capa de l  com  capuz.  Cobriu  a
garganta com um cachecol de l, colocou as luvas e se abrigou  com  a  capa.
No queria pr em perigo ao beb, de modo que se cobriu bem para  ir  at  o
cemitrio.
      Desceu pelas escadas  a  todo  correr  e  saiu,  dirigindo-se  a  toda
velocidade para onde se achava Ethan.  O  vento  era  muito  mais  frio  que
antes, e as grosas nuvens cinza pareciam ameaadoras. No  meio  do  caminho,
Juliet se deu conta de que vs tinham sido suas  esperanas  de  no  passar
frio. No havia forma de evitar o vento, inclusive protegida pela capa  como
ia. Colocou bem o cachecol, cobrindo a parte inferior do rosto,  e  subiu  o
capuz tudo o que pde.
      Quando chegou ao cemitrio descobriu, com grande desolao, que  Ethan
partira. No obstante, no fazia muito tempo, porque o  tinha  visto  entrar
entre as rvores do riacho.
      - Ethan! Ethan espera! - gritou ao ir atrs dele,  mas  o  menino  no
deu amostras de t-la ouvido.  Juliet  desceu  quase  correndo  o  montculo
sobre o que estava situado o cemitrio.    medida  que  se  aproximava  das
rvores, voltou a lhe chamar.
      Uns instantes depois, Ethan  saiu  de  entre  as  rvores  e  a  olhou
atnito.
      - Juliet! O que faz aqui? O frio    muito  intenso  para  que  esteja
fora.
      Ofegando, Juliet percorreu os ltimos metros que a separavam do moo.
      - Poderia fazer a mesma pergunta.
      Ele encolheu os ombros.
      - Eu estou  acostumado;  voc,  no.  Alm  disso,  voc...,  bom,  j
sabe..., est grvida. - Juliet ficou olhando atnita. Ethan se ruborizou  e
encolheu os ombros. - Isso eu tambm ouvi. Em  qualquer  caso,  no  deveria
estar brincando de correr por aqui, sobretudo quando faz to mau tempo.
      - No podia deixar que partisse verdade?
      Ethan ficou calado e voltou a dirigir-se para as rvores.
      - Juliet, no...
      - No, o que? Que no o impea de fazer  algo  que  sempre  lamentar?
-Juliet foi atrs dele. Naquele lugar, onde as rvores  impediam  a  entrada
do vento, o terreno estava mais protegido e fazia menos frio. -  Ethan,  no
pode partir agora. Romperia o corao de Amos.
      Ele negou com a cabea.
      - No  verdade. Tem a voc, e ao beb que esto esperando.  Ser  seu
filho, mas de verdade. No acontecer nada a Amos.
      - Voc tambm o . E  o  fato  de  que  v  ter  outro  menino  no  o
consolar absolutamente de perdido voc. Ethan, ele o ama e no  deseja  que
v.
      - No posso ficar  - insistiu Ethan, com teima. - No  perteno  aqui.
No sou seu filho. Sou filho dela. Deus! -  Sua  voz  deixava  transluzir  o
asco. - Agora  entendo  por  que  o  senhor  Sanderson  no  queria  que  eu
visitasse sua filha. E se for como ela? Quem sabe como  era  meu  verdadeiro
pai afinal?
      Um floco de neve aterrissou sobre o rosto de  Juliet  e  se  derreteu.
Ela levantou a vista surpreendida. Delicados  flocos  de  neve  comeavam  a
cair. Olhou o campo aberto. Ali a neve caa com major  fora  ao  no  estar
resguardada pelas rvores. O vento soprava em rajadas.  Juliet  tremeu.  No
podia estar muito tempo discutindo com Ethan.  Tinham  que  voltar  para  um
lugar seco e quente. Notava j as mos e os ps gelados.
      Juliet se voltou e enfrentou a Ethan.
      - Deixa de se compadecer!  H  milhares  de  rfos  que  teriam  dado
qualquer coisa para ter o pai que voc teve, e por haver se educado num  lar
bom e limpo com um pai que os amasse, embora s fosse um. Alm  disso,  quem
diz que no  o filho de Amos? S tem a palavra da Helen,  e  eu  diria  que
ela mente cada vez que abre a boca. A cor de sua pele    diferente,  certo,
mas h fortes semelhanas no nariz e na  mandbula.  E  olhe  quo  alto  .
Quando lhes vi os dois pela  primeira  vez,  pensei  que  parecia  com  ele.
Duvido que Samuel ou  Henrietta  ou  qualquer  outra  pessoa  por  aqui  no
acredite que seja seu filho.  S  seu  pai  e  voc  esto  muito  perto  do
problema e no podem v-lo de forma  realista.  Volta  para  casa,  olha  no
espelho e depois me diga que no  seu filho. O rosto de Ethan se  escureceu
de dvida.
      - De verdade pensa isso?
      - Sim. E mesmo no compartilhando nenhuma gota  de  seu  sangue,  Amos
segue sendo seu pai. Ele o educou, cuidou e amou.  Acredito  que  tem  muito
mais mrito que o tenha educado como a seu filho quando  no  estava  seguro
de que fosse que se tivesse estado seguro disso.  Quanto mais  carinho  pode
demonstrar um homem?
      - Sim, comportou-se muito bem - assentiu Ethan com voz  abafada.  -  
bom. Mas eu no sou assim. E se for como ela? Ouvi dizer das pessoas  que  o
mau sangue se herda. E se for mau?  E se acabo  sendo  uma  vergonha  para
papai e para voc?
      - Por que ia tornar-se mau de repente? Eu sempre  o  vi  se  comportar
como uma boa  pessoa,  o  tipo  de  filho  do  que  qualquer  homem  estaria
orgulhoso. Por que ia mudar?
      - No sei. S que... J no sei quem sou! -  explodiu.  Os  flocos  de
neve tinham comeado a lhe cobrir  o  cabelo  e  os  ombros,  lhe  dando  um
estranho aspecto de personagem de conto de fadas. Impaciente, os afastou  do
rosto. - Toda a vida soube quem era e onde pertencia. Era o  filho  de  Amos
Morgan, um granjeiro. Vivia naquela casa; ia  igreja. Eu..., agora    como
se todo meu mundo se derrubasse. No sou filho de  Amos  Morgan.  Minha  me
no morreu quando nasci como eu tinha acreditado  sempre.  Toda  minha  vida
foi uma grande mentira, e ele fez parte  dessa  mentira.  No  sei  se  devo
acreditar no que me diz, se tiver  que  confiar  em  seu  carinho.  Pode  me
considerar seu filho de verdade? Pode me querer de verdade quando sabe  como
 minha me? E quem sou eu, se tudo o que acreditei at agora  mentira?
      - Toda sua vida no  uma mentira -  respondeu  Juliet  com  fora.  -
Possivelmente Amos no dissesse a verdade  sobre  um  par  de  coisas.  Eram
coisas importantes, estou de acordo. Mas o que queria que fizesse?  Dizer  a
um menino? Ou fosse melhor dizer tudo quando tinha doze anos?  Ou  quatorze?
Ou dezesseis? Quando seria o momento adequado? S o  que  ele  desejava  era
proteg-lo, no fazer mal. J conhece Amos;  um homem honesto. Ele odeia  a
falsidade, e estou segura de que no gostava nada de mentir. Mas  no  sabia
que outra coisa fazer. No pode perdoar? No fundo de seu corao deve  saber
que no mentia por outra coisa. Ama-o;  seu filho. Quebrar o corao  dele
se partir dessa maneira.
      Ethan duvidou uns instantes e afastou o olhar.
      - Por favor? - animou-o Juliet, estendendo a mo.
      Por fim, Ethan assentiu  e  aceitou  a  mo  da  mulher.  Comearam  a
caminhar saindo debaixo  das  rvores.  A  respirao  de  Juliet  parou  ao
abandonar o amparo das rvores quando se viram aoitados pelo  forte  vento.
Ao  acharem-se  protegidos  pelas  rvores  e  perdidos  na  intensidade  da
conversao, no se tinham dado conta da piora do tempo. Nos poucos  minutos
que tinham ficado conversando, a  fora  do  vento  tinha  aumentado,  e  os
flocos de neve, maiores agora, caam sem cessar, revoando a favor do  vento.
Ethan caminhava mais depressa que ela, devorando o caminho com  suas  largas
pernas, de modo que Juliet teve  quase  que  trotar  para  manter-se  a  sua
altura. E tinha que seguir a seu ritmo, j que iam agarrados pela mo.
      Juliet teria gostado de pedir que diminusse a marcha. Tinha frio, mas
a casa no estava to longe, e caminhar faria que o  sangue  circulasse  por
seu corpo. Entretanto, logo custava tanto respirar que no pde dizer nada.
      - A est o cemitrio -  disse  Ethan,  e  Juliet  percebeu  um  certo
alvio em sua voz.
      Ela, que tinha  ido  cabisbaixa,  olhando  o  cho,  para  proteger-se
contra o frio vento e a neve sobre o rosto, levantou  ento  a  cabea  para
olhar o cemitrio. Durante uns instantes  s  viu  flocos  de  neve.  Depois
divisou a grade de ferro que rodeava o pequeno grupo de tumbas.
      O vento a aoitava quase lhe rasgando a capa, e teve  que  agarrar-lhe
por dentro para impedir que voasse. Sim que lhe caiu o capuz. Soltou a  capa
para colocar o capuz de novo, e a capa se  abriu,  lhe  deixando  exposta  a
metade do  corpo.  Juliet  voltou  a  agarrar  a  capa,  para  cobrir-se,  e
imediatamente perdeu outra  vez  o  capuz.  Enquanto  seguia  a  Ethan,  que
passava serpenteando pelas tumbas at o outro lado do  cemitrio,  cobriu  a
cabea com o cachecol antes de atar-lhe ao pescoo. Assim tinha livre a  mo
esquerda para sustentar a capa.
      Ethan fez que passasse pela grade do cemitrio mais prxima  casa.  O
menino se deteve e olhou a seu redor. Juliet seguiu seu olhar. Era  como  se
o vento e a neve tivessem aumentado sua potncia. De repente, Juliet se  deu
conta de que no via nada atravs da brancura,  nem  sequer  a  silhueta  da
casa ao longe. Agora sabia a  razo  das  pressas  de  Ethan.  Ele  conhecia
melhor as tormentas de Nebraska,  e  certamente  sabia  que  a  visibilidade
seria quase nula dentro de pouco.
      - Maldita seja! - murmurou ele, observando o  horizonte.  -  No  vejo
nada.
      - Mas sabemos onde est a casa do  cemitrio  -  recordou-lhe  Juliet,
levantando a voz para que a ouvisse na tormenta. - Por que no  vamos  nessa
direo?
      - Estas tormentas distorcem o sentido da  orientao  -  disse  Ethan,
lhe falando ao ouvido para  que  ela  pudesse  ouvir.  -  Acabaramos  dando
voltas e voltas, sem que nos dssemos conta. No se v sinal algum.
      Nisso tinha razo. Tudo estava to branco!  O  temor  se  apoderou  de
Juliet. Como chegariam at a casa?  Suas  mos  estavam  insensveis  e  lhe
ardia o rosto. Antes que transcorresse muito  tempo  teria  que  fazer  algo
para no ficar congelada. Olhou de esguelha para Ethan.
      Ele tambm a observou a ela, e fez uma profunda inspirao.
      - Por a - disse, assinalando. -  Ser  melhor  que  o  tentemos.  No
podemos ficar aqui toda a noite.
      Juliet assentiu. No lhe ocorria nenhuma outra  alternativa.  Ethan  a
colheu com firmeza pelo brao, e caminharam junto  cerca do  cemitrio  at
chegar ao poste. Ethan se colocou de costas para o  poste  olhando  o  lugar
onde estaria a casa se pudesse v-la. Continuando,  segurou  com  firmeza  a
Juliet pelo brao, comeou a dirigir-se com passo decidido naquela  direo.
Juliet caminhou junto a ele, rezando  para  no  se  equivocar  de  caminho.
Pareceu-lhe caminhar durante horas. O grosso da capa de neve  era  cada  vez
mais alto sob seus ps. Juliet tinha tanto frio que lhe  batiam  os  dentes,
mas aps um momento deixou de sentir o  frio.  S  estava  cansada  e  tinha
vontades de dormir. Ter-lhe-ia gostado de poder descansar.
      Puxou o brao de Ethan, mas este seguiu  arrastando-a  sem  lhe  fazer
caso.
      - No! - disse a seu ouvido. - No podemos nos deter.  Seria  a  morte
certa. Temos que seguir adiante.
      Parecia a Juliet que, apesar do forte vento, deveriam encontrar-se  j
 altura da casa, e pelo semblante preocupado de  Ethan,  soube  que  estava
certa.  Por  alguma  razo  no  a  tinham  visto.  Se  aquilo  era   certo,
encontravam-se perdidos. Juliet pensou no beb que  levava  em  seu  seio  e
reprimiu um soluo. No podia permitir que o beb morresse!
      Com renovada  determinao  abriu  passo  entre  a  neve.  De  repente
avistou algo diante. Deu uma cotovelada em Ethan  e  assinalou  com  a  mo.
Entreabrindo  as  plpebras  para  proteger  os  olhos  da  neve   cegadora,
dirigiram-se para l.  medida  que  se  aproximavam,  viram  que  era  algo
escuro e alto, e por fim, a forma resultou  ser  uma  rvore.  Chegaram  at
ali, e Juliet se apoiou aliviada contra seu tronco, abraando-se a  ele  com
fora.
      -  a nogueira! - gritou Ethan. - Que h no lado sul da casa.
      Pelo menos no estavam longe de casa, pensou Juliet, fazendo  proviso
de todas suas foras para seguir. Tentou no imaginar  o  que  o  que  teria
acontecido  se no visse a rvore, no muito grande, alm disso. Ao dar  com
ela e no com a casa resultava bvio que estavam na  direo  errada  e  que
no tinham encontrado a granja.
      - Mas como... - ofegou  Juliet,  -  como  sabemos  que  direo  tomar
agora? -Podiam aproximar-se da casa, mas tambm afastar-se dela.
      Ethan fez uma careta e apoiou a frente  contra  o  tronco  da  rvore,
derrotado. A seguir levantou a vista e sorriu. Ficou de  ccoras  e  estudou
cuidadosamente o tronco da  rvore,  rodeando-o  at  que  encontrou  o  que
procurava.
      - Olhe!  -  Assinalou  uma  velha  ferida  perto  da  base  que  tinha
cicatrizado fazia anos.
      Ficou de p, orientando-se pela cicatriz, e assinalou a sua esquerda.
      - Por a!
      Juliet  teria  gostado  de  compartilhar  sua  confiana.  Estava  to
cansada que s o que queria era sentar-se junto  rvore e fechar  os  olhos
por uns minutos. Deve ter fechado, j que, de  repente,  foi  consciente  de
que Ethan a despertava.
      - Temos que ir! - gritou, seu rosto junto ao dela. Os  olhos  do  moo
tambm mostravam cansao. Juliet pensou que muito em breve nenhum  daria  um
passo mais. Como estavam to cansados? No levavam andando  muito  tempo,  a
pesar do trabalho que supunha lutar contra o forte vento.
      Ficaram de novo em marcha, dando tropees at a casa.  Juliet  tentou
pensar s no beb. Tinha que salvar-se pelo beb. E por Amos.  Oh,  Deus,  e
se tambm ele estava apanhado na tormenta?
      O repentino temor lhe deu  foras  para  dar  uns  passos  mais.  Suas
pernas estavam cada vez mais dbeis, e  no  sentia  os  ps.  Era  como  se
flutuasse, como se movimentando sem caminhar. Escapou-lhe o riso  ao  pensar
nisso, e se perguntou o que lhe ocorria.
      De repente, Ethan se levantou  a  seu  lado,  detendo-se.  Ficou  ali,
escutando, o corpo em tenso. Juliet o imitou, tentando escutar a sua vez.
      - A! Ouviu?
      Juliet assentiu. Pareceu-lhe ouvir uma voz entre a fria do vento, mas
no estava segura. Talvez se tratasse de uma mudana  do  gemido  do  vento.
Mas Ethan fez uma trompetilha com as mos e gritou:
      - Socorro!
      Esperaram e no chegou som algum,  e  Ethan  gritou  de  novo.  Depois
daquilo se ouviu outro rudo como  o  anterior,  mas  mais  forte.  Ethan  e
Juliet se olharam, abrigando mais esperanas. Os dois gritaram e esperaram.
      Essa vez, o som foi o bastante forte para distinguir a palavra:
      - Juliet!
      - Papai! - gritou Ethan com todas suas foras. - Papai, estamos aqui.
      - Ethan! - A voz era mais  clara,  embora  um  pouco  amortecida  pela
neve. - Juliet! Onde esto?
      Continuaram comunicando-se a gritos, e cada  vez  a  voz  de  Amos  se
aproximava mais. Por fim, uma estranha  luz  amarelada  apareceu  no  longe
deles, e, sem deixar de chamar Amos, Ethan e Juliet se dirigiram para ela.
       A  estranha  imagem  resultou  ser  um  farol,  e  a  seguir  puderam
distinguir o brao que o sustentava e o rosto do homem.
      - Amos! - exclamou Juliet, e correu  para  ele,  lanando-se  em  seus
braos.
      - Oh, Juliet! Juliet! -  Abraou-a  com  fora  e  apoiou  sua  cabea
contra a dela. - Graas a Deus!
      Agarrou-a com tanta fora que quase no  a  deixava  respirar,  mas  a
Juliet no importou. No teria importado ficar assim, para sempre.  Por  fim
Amos se moveu: levantou a cabea e  olhou  por  cima  do  ombro.  Juliet  se
afastou um pouco para olhar primeiro a ele e depois a Ethan, que  seguia  de
p a poucos metros deles.  Mantendo  um  brao  ao  redor  de  Juliet,  Amos
estendeu a mo livre para Ethan. Ele duvidou uns instantes, e  se  aproximou
de Amos. Este abraou com fora o seu filho,  que  lhe  devolveu  o  abrao.
Durante uns instantes os trs se uniram, envoltos  num  vu  de  silncio  e
amor.
      Juliet se acomodou melhor na cama, os travesseiros  de  plumas  sob  a
cabea. Uma bolsa de gua  lhe  esquentava  o  p  sob  as  mantas,  e  pela
primeira vez naquela noite no tinha frio. Olhou a Amos, ao  outro  lado  do
quarto, que atiava o fogo de p junto  chamin.
      Fazia algum tempo que tinham retornado  casa, depois de guiar-se  com
a corda que Amos atou  cintura e ao poste do alpendre. Amos levou mantas  a
ela e a Ethan, e se sentaram na clida cozinha, separado-se do  fogo  direto
do fogo, enquanto as mos e os ps foram  desentorpecendo  pouco  a  pouco.
Amos tinha esfregado as mos e os ps de Juliet, envolvendo-lhe  depois  com
toalhas  quentes.  Em  pouco  tempo,  seus   dedos   tinham   recuperado   a
sensibilidade.
      Amos tinha servido guisado  quente,  que  os  trs  comeram  com  fome
enquanto ele lhes contava como  tinha  retornado  a  casa  ao  princpio  da
tormenta, tendo que  percorrer  os  ltimos  metros  a  p  com  os  cavalos
seguindo os sulcos do atalho. Quando entrou na casa e descobriu  a  ausncia
de sua esposa e seu filho, procurou por  toda  a  granja,  e  nos  edifcios
dependentes, desesperando-se  medida que  o  tempo  transcorria  e  no  os
achava. Por fim atou uma corda  cintura, atando a outra ponta ao  poste  do
alpendre, para no perder-se na tormenta, e tinha sado  a  chamar  uma  vez
que andava  em  crculos  cada  vez  mais  amplos.  Estava  a  ponto  de  se
desesperar quando por fim os encontrou.
      Depois daquilo, Ethan e Juliet narraram suas aventuras, e Amos  e  seu
filho se desculparam mutuamente.  No  ficava  cicatrizada  por  completo  a
ferida causada pelas palavras de Helen; mas tinham dado um grande  passo,  e
Juliet tinha inteno de que voltassem  a  falar,  longa  e  estendidamente,
sobre o tema.
      Mas ento, as mos e os ps de Juliet  tinham  recuperado  a  habitual
sensibilidade e tinham deixado de  tiritar.  Amos  a  levou  nos  braos  ao
quarto, silenciado seus protestos com um olhar. Na realidade,  no  importou
a Juliet ser levada nos braos e apoiar a cabea contra seu ombro, sentindo-
se cmoda e protegida. To somente uma hora antes tinha  temido  no  o  ver
nunca mais.
      Amos se virou para ela e sorriu quando viu que o olhava. Dirigiu-se  
cama e se sentou junto a ela.
      - Nunca mais volte a fazer uma coisa assim - disse, tentando  utilizar
um tom de severidade, mas o alvio e a preocupao eram  muito  bvias  para
manter sua postura.
      - No o farei - respondeu Juliet com total convico. - No tinha  nem
idia do que ia acontecer! Como pode ficar to mal uma tormenta?
      - As tormentas so assim. Por isso resultam perigosas.  -  De  repente
se interrompeu, agarrou-lhe a mo e a olhou muito srio aos olhos. -  Estava
morto de medo quando cheguei em casa e no a encontrei. Pensei que  a  tinha
perdido para sempre. Eu... Eu  nunca  disse  isso;  suponho  que  sou  muito
covarde. Mas esta tarde, tinha tanto medo que lamentei  no  ter  dito  isso
nunca. Prometi que se  a  encontrasse  o  faria.  -  Respirou  fundo  com  a
expresso de  algum  que  se  enfrenta  a  um  peloto  de  fuzilamento.  -
Juliet... Amo voc. Amo-a mais que a nada e a ningum nesse  mundo.   Quando
pensei que podia estar morta, eu tampouco queria seguir vivendo. O mundo  me
teria vindo abaixo. No sou ningum sem voc, nunca o fui; s que no  sabia
o que perdia. Por favor, prometa que no me deixar nunca.
      - Oh, Amos! - As lgrimas fizeram que as palavras  se  engasgassem  na
garganta de Juliet, e se abraou a ele. - No o deixarei.  No  poderia!  Eu
tambm o amo. Amo-o com verdadeira loucura.
      - Isso  verdade? - Em seu tom de voz houve  certa  estranheza,  e  se
afastou para olh-la aos olhos. - Me ama?
      - Claro que  sim!  -  respondeu,  enquanto  limpava  as  lgrimas  que
alagavam suas bochechas. - Por que acredita que me casei com voc?
      - No  sei.  Pensei...  Bom,  que  era  por  essas  coisas  que  disse
Henrietta. J sabe, segurana e tudo isso.
      Juliet negou com a cabea, sorridente.
      - No, tolo, era porque o amava e queria me casar consigo.  Desejava-o
tanto que estava disposta a aceitar suas condies. Voc  foi  quem  no  me
queria, simplesmente necessitava uma governanta.
      - Ao demnio com a governanta! Eu no  me  casei  por  isso.  Casei-me
porque a amava.
      O corao de Juliet se encheu de alegria, mas tinha  que  fazer  outra
pergunta.
      - E... Est contente... Com o beb?
      -  obvio que sim. - Falou com lentido. -  Nada  no  mundo  me  faria
mais feliz que ter um filho com voc.
      - Sinto no ter dito isso antes. Estava to aborrecida  pela  presena
da Helen, que no queria contar isso com ela aqui.
      - Compreendo-o. No estou zangado porque no me tenha dito.
      Juliet se afastou uns centmetros e olhou aos olhos.
      - Oh, Amos! Sou to feliz que poderia voar de alegria.
      Ele sorriu.
      - Preferiria que ficasse aqui. Eu gosto onde est..., e bem  mais  que
isso.
      Juliet ps-se a rir, e Amos se inclinou para posar sobre  seus  lbios
um longo beijo. Juliet suspirou de  prazer  e  rodeou  seu  pescoo  com  os
braos, lhe devolvendo o beijo. Por fim tinha voltado para casa.
                                   EPLOGO
      Ethan subiu as escadas de quatro em quatro e entrou na cozinha.
      - Surrey est esperando - anunciou.
      Juliet levantou a vista.
       - Ento ser melhor irmos. No queremos chegar tarde  ao  batismo  de
sua irm.
      Olhou a Amos, sentado  mesa da cozinha, e sorriu. O homem  sustentava
nos braos a sua filha, agora de um  ms,  e  estava  inclinado  sobre  ela,
olhando  pequena enquanto ela gorjeava  e  piscava.  Seus  pequenos  punhos
fechados se agitavam loucamente no ar, e Amos riu.
      - Est disposta a se enfrentar ao mundo,  verdade? - disse.  -  Menina
belicosa. Igual a sua mame. - Levantou a vista e sorriu para Juliet.
      - Igual a sua mame? - repetiu irnica Juliet.  -  Eu  no  estou  to
segura de quem herdou essa belicosidade.
      - De quem ia ser, se no de voc? - perguntou Amos com  tom  inocente.
- Sabe que seu pai  o homem mais pacfico do mundo.
      - O homem mais  mentiroso  -  respondeu  Juliet  rindo,  enquanto  lhe
plantava um beijo na fronte. - Venha, papai,  vamos.
      - Eu a levarei - ofereceu-se Ethan, dando um passo para frente com  os
braos estendidos.
      Amos envolveu ao beb numa manta e a ps nos braos de seu filho.
      - Tome cuidado com os degraus.
      Ethan levantou os olhos comicamente para Juliet.
      - Sim, papai, tomarei cuidado. - Saiu do quarto  olhando  ao  beb.  -
Bom, est preparada para o batismo, Frances Amelia Morgan? Sim? Com  certeza
que  a melhor de todas, verdade?
      A porta se fechou atrs dele, amortecendo suas palavras. Juliet  negou
com a cabea, rindo, enquanto segurava a bolsa com fraldas de troca.
      - Entre ns - disse fingindo reprovao - no  sei  qual  dos  dois  a
mima mais.
      - Os dois por igual - respondeu Amos alegre,  luzindo  o  sorriso  que
com antecedncia mostrava em to estranhas ocasies  e  que  agora  aparecia
muito freqentemente em seu rosto. - Espera.
       Estendeu uma mo para agarrar o brao de Juliet,  e  ela  levantou  a
vista com curiosidade.
      - Quero dar uma coisa.
      - Me dar uma coisa?
      - Sim.  um presente de batismo.
      - Supe-se que os presentes de batismo so para o  beb  -  protestou,
sorrindo.
      - Pois este  para  a  me.  Encomendei-o  quando  Fanny  nasceu,  mas
demorou todo este  tempo  em  chegar;  tive  que  encomend-lo  em  Chicago.
-Colocou a mo direita  em  um  bolso  da  jaqueta  e  tirou  uma  caixinha,
cuidadosamente envolta em papel branco e com uma cinta rosa.
       -  Chicago!  V,  v...  -   comentou   Juliet   brincando   enquanto
desembrulhava o pacotinho. Levantou a tampa e lanou um profundo suspiro.
      - Amos!  lindo!
      Dentro da caixa, sobre um fundo de algodo, jazia uma  delicada  caixa
azul de jaspe, decorada com figuras  gregas  em  relevo.  Juliet  a  segurou
cuidadosamente e a estudou.
      - Nem a metade de bela que voc - disse Amos srio.
      - Oh, carinho! - Os olhos de Juliet  se  encheram  de  lgrimas  e  se
voltou para ele, lhe abraando com fora.
      - Pareceu-me que necessitava algo prprio para acrescentar    coleo
de mame.
      - A nossa coleo - corrigiu-o Juliet enquanto  o  beijava.  -    to
carinhoso. To bom. Mas no deveria t-lo feito. Isso  muito caro.
      - No  nem a metade do que voc merece. Sou o homem  mais  afortunado
do mundo ao ter a voc e a Ethan,  e  agora  a  Frances.  Nunca  pensei  que
chegaria a dizer uma coisa assim. Mas voc mudou minha vida. Mudou-me.
      - No. - Juliet se afastou  para  olh-lo  diretamente  ao  rosto,  os
olhos resplandecentes de amor. - Eu no o mudei. Em seu interior sempre  foi
assim, como agora. Em voc sempre houve amor, bondade.  S  que  lhe  tinham
feito mal e tinha medo de seus sentimentos.
      - Agora j no. Consigo, no.
      - Bom. Porque, acontea o que acontecer sempre te amarei.
      - J sei - sussurrou  e  se  inclinou  para  beij-la.  Por  fim  Amos
levantou a cabea e observou o radiante rosto de sua mulher.
      - Vamos. Ser melhor que nos ponhamos a  caminho.  Nossa  famlia  nos
espera.
      Juliet agarrou a sua mo e saram.
                                     Fim
Notas:
(*01) - Daguerretipo. [Do fr. daguerretype.] S. m.
1. Aparelho primitivo de fotografia, inventado por Daguerre, pintor e
fsico Frances (1787 ? 1851).
2. Imagem reproduzida por esse aparelho.
3. Pintura ou reproduo exata. [Cf. daguerretipo do v. daguerreotipar.].
(Novo Aurlio)
(*02) -  Juan  Calvino  (fundador  do  calvinismo),  distinguiu-se  por  seu
carter frio e fantico.
